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O Manicómio em 5 respostas.

por Maria Joana Almeida, em 18.04.19

foto manicómio.JPG

 

“- Foi a Rosa que me curou.

– Pelo amor?

– Sim, pelo amor”
 

(in Documentário “Pára-me de repente o pensamento” de Jorge Pelicano)

 

 

“Passeava” pelas redes sociais quando me deparei com um artigo do jornal Público que falava de um “Manicómio”. Prendeu-me, naturalmente, de imediato a atenção. O video que acompanhava este projeto ainda mais.

Sou particularmente sensível a este tema. A minha vida profissional passa e está ligada à saúde mental e aos desafios constantes que propõe. Não é um mundo para falsos moralismos, muito menos para certezas e ainda menos para caridade. É um mundo de constante reflexão, de olhar olhos nos olhos e, de por vezes, bater com a mão na mesa, mas intenso demais para nos permitir fechar os olhos ou virar as costas.

Este projeto é obrigatório conhecer. Parabéns aos seus criadores.

 

 

1 – Quando li sobre este projeto o primeiro pensamento que tive foi “É o melhor nome de sempre”. É uma metáfora direta, um nome provocador, destemido e desamarrado da expressão “andar com paninhos quentes” para não ferir suscetibilidades. Que manicómio é este?

 

É isso tudo, é provocador, destemido, irónico, desafiador e é um sitio de liberdade.

Onde se contam historias verdadeiras de vida, desafiando a arte, procurando a honestidade e autenticidade. 

 

 

2- Quem são as pessoas que “habitam” este Manicómio? Quem eram e quem são?

 

São pessoas, depois artistas e no fim com experiência de doença mental.

Alguém que produz arte pela necessidade. Sem conotação social ou económica.

A arte é honesta e autentica ( repito estas palavras, porque são a nossa razão de ser )

É a Claudia e a Anabela, O Pedro e Carlos, o Sandro e o Filipe, o José e a Joana, 

Braulio e o Ze, a Barbara e a Cataria, o Fernando e Joao.

Esta é a equipa Manicómio, somos todos, sem rótulos

 

 

3 – Há uma frase que me ficou na memória, quando ouvi parte da tua entrevista para o jornal Público, provavelmente pela marca que ficou do início do meu percurso profissional, que é “São 4 anos de dignidade não são 4 anos de folhas A4”. Consideras que ainda vivemos, nesta área, de muitos projectos e caixinhas mentais com limites bem definidos, como numa folha A4?

 

Completamente, não só na saúde mental ou arte, em praticamente todos os projectos de invocação social ou instituições publicas.

O investimento da pessoa, enquanto pessoa, é pouco ou nenhum. 

A Pessoa é o mais importante na nossa premissa e visão, no investimento social e artístico, na dignidade, e na igualdade ( ponto fulcral ).

Não usamos a pratica da caridade ou ajuda. Acreditamos num ponto de igualdade social, pessoal e laboral.

Quando uma marca nos procura para uma “ajuda” nos desafiamos sempre, repito sempre, em intervir nos seus produtos ou suportes que utilizam. De uma forma artística, trabalhos os seus suportes e se a nossa criatividade for coerente para a marca, então ai avançamos com um produto que ambos ganhemos. Só assim faz sentido. 

As folhas A4 são muita das vezes, bafientas, rígidas e controladoras. 

As instituições tem que perceber, que as pessoas que frequentam os seus serviços, não os pertencem. São pessoas livres, que escolhem frequentar aquele serviço. 

Por vezes, confunde-se a relação técnicos - doente.

 

 

4 – Quais as motivações que te levaram a lançar este projeto. Que sensibilidades existiram e quais os principais desafios que identificas?

 

Já devia ter sido a bem mais tempo, mas todos os projectos que trabalhamos,  ( Contentores, Billboard projecto, Pavilhão 31, Pavilhão 28, Manicómio e muitos mais ) a nossa equipa somos apenas duas pessoas. Eu e o Jose Azevedo.

Manicómio era uma grande necessidade nossa. Queríamos criar um espaço, onde se trabalhasse arte com a maior dignidade, honestidade e autenticidade ( la veem estas palavras ). Começamos a trabalhar, e rapidamente tínhamos as condições para abrir este projecto. Inicialmente num espaço apenas nosso, que seria um erro grande.

Pensamos que se estivemos isolados, poderia cair no erro de ser mais um Julio de matos ou miguel bombarda. O isolamento não seria correcto, então, falei com o Fernando Mendes, amigo de longa data, pessoas extremamente sensível e criativa.

Falamos e cá estamos. Inseridos no Now - Beato ( não lhe vou chamar cowork ) é bem mais do que isso. É uma família, um espaço em constante mutação, criatividade e respeito. Tem sido brilhante a ligação.

 

 

5 – A saúde mental continua, infelizmente, a ocupar um espaço menor na saúde. Os estereótipos e preconceitos ainda estão algo presos “numa folha A4”. O que falta, no teu ponto de vista, construir no nosso percurso educativo para que possamos finalmente trabalhar lado a lado, sem paternalismos ou condescendências com estas pessoas?

 

Falta muito coisa, como referi em cima, falta olhar para o doente como pessoa.

Equilibrar as relações paciente-medico, investir em conceitos de igualdade, promover empregabilidade. 

O paternalismos haverá sempre, assim como o estigma.

Criar bases as nossas crianças nas escolas, para uma melhor aprendizagem numa doença. ( estamos a trabalhar nisso )

Linhas de apoio para projectos que possam inovar nestas áreas, onde a experimentação não possa ser penalizada.

E, claro, tratar estas pessoas, como pessoas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:54


1 comentário

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De Maria Araújo a 24.04.2019 às 10:16

Carece, e muito, tratar as pessoas como pessoas.

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