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O João Bandarra.

por Maria Joana Almeida, em 24.06.19

Bandarra.jpg

O João Bandarra foi quem me veio substituir no colégio onde iniciei o meu percurso profissional.

 

Percebi rapidamente que a passagem iria correr bem quando o vi entrar, de capacete na mão, com toda a genuinidade que o carateriza, sem querer, pela varanda do Colégio a perguntar se era ali o sítio certo. Percebi ainda mais claramente quando, em sala de aula comigo, acabou em dois tempos, através de uma argumentação simples e direta, com as provocações de alguns alunos.

 

Eu e o Mário brincamos muitas vezes com o João a dizer que se algo acontece na Mongólia, não pode haver a mais pequena dúvida que começou, sem ele saber como, em algo que tenha feito aqui. Há uma inacreditável conjugação do Cosmos para que o João esteja envolvido nas mais hilariantes cenas de comédia do quotidiano.

 

O Joáo faz rir pessoas que jurei a pés juntos serem as pessoas mais antipáticas de sempre. Consegue nivelar todos pela média, quer seja o Doutor do gabinete, quer seja a empregada do Bairro Social. É fácil rendermo-nos à sua espontaneidade, falta de filtro (nem sempre corre bem mas ele gosta de viver no fio da navalha) e à sua capacidade de ser prestável e o ombro solidário e imediato quando é preciso.

 

O João pode ser muito desconcertante, antagónico, irritante a adorável, seco a cómico, agregador a acutilante, sarcástico a terno. Mas há uma genuinidade com um misto de ingenuidade que o torna único.

 

O João faz o que quer dos miúdos mais problemáticos, não há miúdo que não o adore e na relação que consegue estabelecer, há poucos como ele.

 

O João escreveu um texto há pouco tempo e quase a medo disse que ficaria muito honrado se eu o colocasse no meu blog.

 

É um texto muito bom. Parabéns João.

 

 

 

 

“O que se perdeu.

Era um jovem com bom aspecto, de trato fácil desde que não contrariado. Na sua vida já várias tropelias o tinham moldado, nascido num bairro social e cedo retirado à família lutava com os argumentos que tinha para sobreviver.

 

Encaminhado para “o ensino especial” porque já não havia repostas , e foi assim que o encontrei.

 

Mostrava um charme inigualável quando tinha algum interesse, já pelo contrário mostrava desdém pelo que não o motivava.

 

Muitas foram as estratégias, noites perdidas deixadas à ânsia de não conseguir ajudar, apoiar ou encaminhar. Até ter surgido o projeto de vida…que tamanho nome pomposo para desistir.

 

O encarregado de educação insistiu e por muito que me insurgisse nada podia fazer, o discurso não mudava, “temos de profissionalizar este jovem para que aos 18 anos ele possa ser inserido na vida activa.", vezes demais foi dito que o jovem não detinha ainda as capacidades necessárias para cumprir com o projeto de vida que lhe propunham…mas de nada serviu.

 

Lá foi ele…lá foi…lá foi o que se perdeu…deixando para trás um amargo trago…o trago do que se perdeu e nada consegui fazer...

 

Entre boatos e notícias de vizinhos fui ouvindo notícias que não conseguia determinar a veracidade…e sempre aquele trago amargo…

E naquela segunda-feira pelo canto do olho vi-o…era ele…tinha voltado…só para visitar e dar notícias…ansioso por saber e sem nada temer perguntei se tudo o que tinha ouvido era verdade…e…sim era…o projeto de vida nem dois meses se manteve, o retorno ao ambiente de criação levou a um ano de reinserção mas três anos mais tarde ele voltou…veio agradecer…as estratégias, as noites perdidas e até os ralhetes…e não mais me vou esquecer das palavras dele…”Não nos esquecemos de quem nos trata bem

 

Afinal…afinal…afinal não se perdeu…. Que grande sorriso me deu e vontade ainda maior de perder noites e suor a motivar e semear os jovens de amanhã…afinal não se perdeu…”

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publicado às 14:57


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