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O equilíbrio da felicidade

por Maria Joana Almeida, em 09.09.19

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Já escrevi para o jornal Observador a convite. Não leio todos os seus cronistas, nem sempre me identifico, mas leio sempre os artigos de Ruth Manus. No seu último texto escreveu isto: “As crianças não têm que ser boas no que fazem. Elas têm que gostar do que fazem. Têm que ser felizes dentro das possibilidades. Filhos não são instrumentos de competição, nem de realização pessoal. Filhos são indivíduos em busca de felicidade. E era para isso que os pais deveriam servir, para facilitar esse caminho. Não para exigir as melhores notas na escola, boas avaliações nos cursos de língua estrangeira, roupas limpinhas no final de um domingo e brincadeiras serenas e silenciosas. Porque isso, definitivamente, não é coisa de criança. Pelo menos não de criança feliz.”

 

Elementar não é? Às vezes, muitas vezes não.

 

Não há nada profundamente mais tocante e irresistível do que ver a Maria Luísa sorrir ou ouvi-la rir. Às vezes não porque arrumou os livros no cesto, ou porque não se sujou a comer a sopa. A maior parte das vezes porque pôs sopa no cabelo ou porque foi apanhada a atirar brinquedos para a banheira. Os meus sorrisos, nestes casos, são proporcionais ao nível de cansaço. Se a mente estiver limpa, estes são momentos que proporcionam sorrisos iguais aos momentos em que usa adequadamente a colher e quando arruma os brinquedos corretamente.

 

O tempo e o trabalho nivelam o nosso humor e são muitas as vezes (vezes demais) que ficamos incapazes de filtrar os excessos e discernir de uma forma equilibrada perante as mais variadas situações. E muitas vezes, demasiadas vezes, nesta ligação incontrolável aos nossos filhos, queremos negar que são (serão) seres independentes de nós e exigimos, ingenuamente, que caminhem num percurso desenvolvido e arquitetado por nós, aquele que consideramos o certo, ou porque o somos ou porque não o chegamos a ser. Às vezes confundimos e chamamos também a isto de amor.

 

Nesta teia complicada em tentar encontrar papéis definidos e apaziguamento nesta relação podemos cair facilmente em fundamentalismos. Por medo, por desconhecimento, por egoísmo, por amor. E nestes encontros e desencontros perdemo-nos no que é realmente a felicidade e ouvimos frases como: “Se o meu filho ficar mais um ano no pré-escolar, perde um ano na faculdade”. Ou, em antítese, “Eu não me interessa se o meu filho aprende a ler ou a escrever, interessa-me que ele seja feliz” E se numa frase me questiono como podemos definir um futuro tão certo e sem espaço para erros ou imprevistos, noutra questiono como se pode ser feliz sem os maiores instrumentos de liberdade?

 

Ser feliz não é competição nem desleixe. Não são regras rígidas e absolutamente inflexíveis, nem um laissez faire. Não é destruir sonhos nem colocar na beira de um abismo por um sonho absolutamente improvável. É qualquer coisa no meio, próprio de cada criança e contexto.

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publicado às 21:20


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