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Isto não é para meninos

por Maria Joana Almeida, em 20.12.18

davizinho12.jpg

 

Experimentei várias vezes fazer surf. De vez em quando ainda tento. Não me recordo de experimentar (não é que conte com um vasto conhecimento de todos os desportos) algo tão exigente como este desporto. Conseguir nadar para passar a rebentação, acertar no momento de nadar quando se vê a onda e colocar-me em pé na prancha. Para mim é claramente um acontecimento francamente distante.

 

Li no intervalo de dois dias duas notícias sobre duas crianças que atingiram um patamar de topo com este desporto, a Marta Paço e o Davizinho. A Marta é invisual e o David Teixeira (Davizinho) tem síndrome da banda amniótica, uma má formação nos braços e nas pernas. A Marta ganhou a medalha de bronze no surf adaptado e o Davizinho é vice-campeão mundial nesta modalidade.

 

Há muito a dizer sobre estes acontecimentos fantásticos e ao mesmo tempo nada a dizer.

 

Quem costuma ler os textos que escrevo neste blogue conhece a minha aversão à condescendência, especialmente nos casos de deficiência. É a condescendência que nos faz estar no chão e nos impede de levantar. É a diferença entre estar deitado na prancha ou conseguir erguer-se mesmo num meio adverso. E é uma valente bofetada de luva branca (não encontro expressão melhor) olhar para estes incríveis atletas. Atletas que tiveram a sorte de ter vivências e referências que lhes permitiram perceber que o seu potencial não se define ou não se esgota em ter um corpo (em teoria) 100% funcional.

 

Há um momento no vídeo onde a mãe de Davizinho diz: “Uma vez uma mãe disse-me: Eu nunca deixaria o meu filho ir para o mar fazer surf porque eu amo-o muito. E eu respondi: É por amar muito o meu filho que eu o deixo fazer surf.” e podia fechar este texto com esta frase. Este é um bom exemplo de mãe que eu gostaria de ser: Apesar do medo, corajosa. Porque o amor e amar é um ato corajoso.

 

Vou fechar este texto com uma frase de Marta Paço: “O mar é justo. No mar sinto-me igual aos outros.”

 

Seremos uma sociedade mais completa quando a escola, a empregabilidade, a casa, for mais justa. Quem se esforça, quem luta com mais ou menos comprometimento tem de ser reconhecido. Isto é justiça.

 

Vídeo David Teixeira: https://www.facebook.com/ZLocalHeroes/videos/the-radical-surfer/2158658961115110/

Marta Paço: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-dez-2018/interior/marta-paco-cega-e-campea-de-surf-no-mar-sinto-que-sou-igual-aos-outros--

 

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publicado às 11:39


2 comentários

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De WhiteBubble a 21.12.2018 às 17:07

Sempre tive curiosidade de experimentar surf mas nunca o fiz, talvez por falta de coragem. Esses meninos têm coragem a dobrar. Não só por enfrentarem o mar mas também por enfrentarem os obstáculos que têm devido às suas condições físicas/visuais.
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De umacartaforadobaralho a 22.12.2018 às 23:45

Texto muito bonito! Gostei muito

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