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A minha visão sobre Educação. As várias visões sobre Educação e todas as suas (e nossas) variáveis.

Recordo-me dos testes psicotécnicos que fiz no 9ºano e recordo-me, mais claramente, do comentário da psicóloga no final, que entre a ironia e a seriedade disse: “A Joana quer ser a defensora dos pobres e oprimidos”. Sorri. Sabia que era qualquer coisa assim, talvez não exatamente.
Os caminhos que inicialmente quiseram seguir enfermagem, redefiniram-se para a área da educação, mais propriamente da educação especial. Quase não passei pela casa partida e o meu trabalho, foi desde o início, com crianças e jovens mais desafiantes.
Cresci à imagem do meu caminho e com quem me cruzei, que me definiu e continua a definir. Cada um tem o seu, e as críticas que rapidamemte lançamos às Joacines e Bourbons desta vida, têm em consideração sempre um percurso muito individual negando e “intolerando” gaiolas e redomas diferentes. O 25 de Abril também tem várias perspetivas dependendo de quem e como o viveu, e de quem o ouviu.
Há muitos mundos. Há mundos que estão do outro lado da barricada que, independentemente da nossa posição, situam-se numa espécie de mundo paralelo. Mas bem reais.
Ao longo do meu percurso o meu quadrado mental, assente em princípios sociais e legais, foi sofrendo alterações. Aquele mundo que no início ainda se situava única e exclusivamente numa espécie de gaiola dourada com níveis de conforto, amor e morais inquestionáveis foi ampliado. Vieram as histórias, as vividas e partilhadas, e o confronto com as morais confortáveis.
- O rapaz de 11 anos que conheci que tinha ficado abandonado em casa aos 4 anos à sua sorte. Aquilo a quem Nuno Lobo Antunes apelidou, no seu relatório, um rapaz com uma “hiperatividade extraordinária”. Não cedia a nada. Só ultra medicado.
- As casas que visitei que jurei a pés juntos não querer voltar.
- As visitas a que assisti de um pai que havia abusado sexualmente de um filho.
- O rapaz que foi para a escola depois do seu pai atacar a mãe com ácido e que nesse dia espancou um colega seu.
- Os bebés e crianças que foram batidos e espancados e que, mais tarde, enquanto jovens, a sociedade não sabia o que fazer com eles.
- O pequeno jovem que era maltratado e vivia em condições miseráveis, mas ainda assim queria ir para casa da sua mãe.
- As mães e os pais que sofreram de violência doméstica.
- O adulto que está a agora a aprender a ler e a escrever mas que, em criança foi obrigado a mendigar e a ficar fora de casa se não levasse dinheiro suficiente.
- A adulta que a meio da aula pára para chorar desalmadamente porque ontem esteve a arrumar as roupas da filha que morreu.
- O pai e filha que morrem abraçados quando ambos deviam estar a sorrir e a brincar.
Continuo?
Que códigos morais existem nestas vidas? Que humanidade conhecem ou sentiram?
Como podemos exigir uma estrutura psíquica de aço a alguém que, em última instância, pode não ter nada a perder?
São morais apenas assentes em códigos de sobrevivência primitivos. Muito longe, e ainda bem, dos nossos mundos. Aquele mundo em que às vezes, a nossa maior preocupação é saber que série ver na netflix à noite.
Reflitam.