urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgatePedimos gomas como resgateA minha visão sobre Educação. As várias visões sobre Educação e todas as suas (e nossas) variáveis.
LiveJournal / SAPO BlogsMaria Joana Almeida2020-03-16T22:26:26Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:287942020-03-16T22:18:00Nunca o mundo precisou tanto de uma Aldeia2020-03-16T22:26:26Z2020-03-16T22:26:26Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 678px; padding: 10px 10px;" title="portugues.png" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ga117c4ad/21728386_YTtu1.png" alt="portugues.png" width="678" height="381" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A frase: <strong>“É preciso uma aldeia para criar uma criança.”</strong> foi perdendo força e sentido pelas mudanças, inevitáveis, ao longo dos anos. As aldeias são agora cidades que têm outros ritmos e prioridades impostas que dificultam um sentido de comunidade que permita um maior olhar e cuidar do próximo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A atualidade reveste-se de um panorama muito desolador. Imagino que a primeira curiosidade (legítima) quando acordamos de manhã é saber o número de infetados com Covid 19, em Portugal e no Mundo. Não é uma curiosidade mórbida, apenas um ato que nos permite algum controlo, com um pé dentro e outro fora da realidade, fora deste isolamento profilático ou quarentena.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O que era tão distante tornou-se numa realidade ao lado de casa. Aquilo que poderia parecer, à partida, ficar confinado a um espaço, galopou fronteiras, invisivelmente, deixando um rasto de caos pessoal, social e económico.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Neste momento de total reorganização de mentalidades <strong>há quem não ceda ao pânico, ao medo, mas também quem não ceda ao bom senso.</strong> A verdade é que não conhecemos isto. Não reconhecemos este espaço em que vivemos, uma espécie de ensaio sobre a cegueira, aqui, à porta de nossa casa. No entanto, no meio de tantos erros que podemos apontar aos dirigentes governamentais, o momento é absolutamente apartidário, e é também um momento de construção, mais do que crítica gratuita, um momento de humanidade, de comunidade e introspeção que nos passa habitualmente ao lado, a reboque do passo apressado diário. <strong>E é quando tudo pára que deve ser só isto que resta.</strong></span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É por isso que para cada pessoa que leva amplamente mais do que a sua despensa pode armazenar, que existem 10 que levam as compras essenciais e em conta aos seus vizinhos que se encontram limitados e nos grupos de risco. Por cada pessoa que vai a um bar no Cais do Sodré, existem 10 que utilizam os seus alojamentos locais para que profissionais de saúde possam fazer o seu corajoso trabalho (não há melhores palmas do que estas). Por cada pessoa que assobia para o lado existem 10 médicos de outras áreas que se disponibilizam, aos seus amigos e conhecidos, publicamente para tirarem dúvidas de modo a não entupir a linha saúde 24 e por cada pessoa que critica cegamente todas as medidas tomadas publicamente existem inúmeras que reinventam ideias, iniciativas num total processo de construção para melhor lidarmos com este isolamento. E por cada notícia falsa, existem cadeias criadas para repor a verdade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não temos por hábito falhar nestes desafios da reinvenção e adaptação. É algo que também nos carateriza. É também tempo de <strong>pegar na frase: “É o país que temos” e resgata-la para este momento dando-lhe a volta ao sentido a que habitualmente é apregoada</strong>. Portugal não é perfeito, mas tenho a certeza que sabe ser a aldeia comunitária sempre que necessita.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:285502020-02-14T20:29:00Nem só de Parasitas se fazem os Óscares.2020-02-14T20:37:06Z2020-02-14T20:40:00Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 1060px; padding: 10px 10px;" title="oscares.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G2f1857b5/21691442_49uPB.jpeg" alt="oscares.jpg" width="1060" height="594" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tinha quinze anos quando vi “A vida é bela”. Ainda me lembro da resistência que tive em aceder ir ver o filme: <em>“Um filme italiano?? Porquê?” </em>Não me interessavam, nesta altura, minimamente, filmes onde não se falasse inglês.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando o filme acabou, sem qualquer exagero de drama, fiquei retida na cadeira em silêncio, com um sentimento de preenchimento que ainda não havia sentido com outros filmes. Lembro-me de pensar e dizer “Dêem o Óscar a este homem. Quem é este homem?” Até então estava longe de saber o que era o neorrealismo italiano, que linguagem era aquela tão real, emotiva, crua, pulsante. <strong>Foi o ponto de viragem do que entedia ser o cinema</strong>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Vibro muito com os Óscares. Como diz uma amiga minha entre o sério e o jocoso “Eu levo os Óscares muito a sério”. Não pretendo perder tempo a pensar que tudo já está pré-adjudicado e os podres da Indústria. Todos os setores o terão.<strong> Interessa-me os substitutos de vida que podem ser os filmes, a arte de fazer refletir e de nos atirarem para o colo ideias e imagens que nos obrigam a lidar com os nossos conceitos de vida. As histórias que nos fazem eco.</strong> Adoraria ser uma espécie de Mário Augusto ou mesmo de ganhar a vida a ver filmes e escrever sobre eles. Aliás, se eu tivesse uma <em>bucket list</em> a primeira linha seria “Ir assistir a uma gala dos Óscares e à festa de bastidores.” Duas margaritas e estou num filme de Almodôvar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Um dia fui a um workshop intitulado “A história do cinema em 7 realizadores”. O formador contou o episódio da primeira projeção feita pelos irmãos Lumière a 28 de Dezembro de 1895 na primeira sala de cinema, o Eden, em Paris e do impacto que tiveram as primeiras imagens em movimento. <strong>Lembro-me de me ter comovido ao imaginar o entusiasmo deste princípio, deste nascimento.</strong> Lembro-me também de me sentir tão pequenina por desconhecer, até aquela data, inúmeros factos históricos cinematográficos. Eu, que me achava uma enorme conhecedora desta arte, fiquei estupefacta com o quão pouco sabia. Cheguei a casa como uma criança a atropelar-me para contar tudo o que tinha aprendido. Desde o neorrealismo italiano, passando pelo expressionismo alemão, a nouvelle vague, tudo conceitos que conhecia de nome mas não sabia extamente o que era nem o seu enquadramento cronológico e eco histórico.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Todo este enquadramento serve para chegar ao discurso do Joaquin Phoenix nesta última gala dos Óscares.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Já pouco me surpreendem <strong>discursos politizados por parecerem, categoricamente, enviesados por modas pontuais o que os tornam incrivelmente bacocos e até ultrajantes.</strong> Ricky Gervais foi o único a surpreender-me nos últimos tempos porque soube desconstruir, de uma forma hardcore, sim, todos os pontos dos discursos sensaborões habituais. Joaquin Phoenix foi outra surpresa. Houve, no seu discurso, honestidade, o nú e o cru. <strong>Existiram as habituais críticas políticas e alusões aos temas (demasiado importantes para serem toldados por sensos comuns) que vendem sempre: racismo, homofobia, direitos dos animais, mas houve algo especial, um mea culpa essencial. Um momento de reflexão pessoal que foi disruptivo com as lengalengas comuns em que a culpa reside sempre nos outros e nunca em nós próprios.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os bodes expiatórios são sempre os outros e nunca nós. <strong>Como se em todos os milímetros das nossas vidas fosse possível agir puramente e imaculadamente sem nos boicotarmos por um segundo.</strong> Em todos residem telhados de vidro que ou são perpetuados por discursos que afastam essas sombras como purgas, ou por uma assunção de mea culpa e honestisdade de saber que se erra, que se faz parte, ainda que durante pouco tempo, de um mesmo grupo que se critica de longe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Este é o único tipo de discurso evangelizador em que acredito, aquele onde reside o erro mas que se apoia nele para se reestruturar, porque é humano.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:282822020-01-30T22:14:00A minha cultura não é melhor nem pior que a tua.2020-01-30T22:19:43Z2020-01-30T22:48:08Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 940px; padding: 10px 10px;" title="cerebro.png" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G2b181676/21679417_6pK8R.png" alt="cerebro.png" width="940" height="960" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Nasci numa pequena casa no Lumiar. No nosso andar, onde vivia com os meus pais, viviam mais duas famílias. De um lado a Cristina e do outro a Tila. A Tila assinava como “Tilinha” os quadros que pintava, com cenários bucólicos através de técnicas que consigo hoje identificar como impressionistas. Um nome que coincidia com a sua personalidade generosa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"> Era hábito, à noite, depois do jantar, a minha mãe juntar-se a elas à porta para um momento de conversa. E eu, ora ia para casa de uma ou para casa de outra. Gostava da casa da Tila porque tinha um cheiro muito caraterístico. O Sr. Virgílio, o seu marido fumava cachimbo e toda a casa tinha este cheiro semi doce e a tintas. Ele encontrava-se sempre na mesma poltrona da sala a fumar cachimbo, e eu sentava-me, com respeito e admiração numa outra poltrona. Enquanto apreciava os quadros ia ouvindo o que tinha para me dizer. Há uma frase que ainda hoje retenho e que os meus 7 ou 8 anos não me deixavam compreender. <strong>“Joana, há uma coisa muito importante que tens de aprender. Podem tirar-nos tudo mas nunca nos podem tirar a nossa cultura”</strong>. Ouvia com toda a solenidade que a minha tenra idade me permitia, acenando como se compreendesse o seu conteúdo e retendo esta informação como se um dia sentisse que faria sentido. Era bom homem e muito inteligente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Com a maturidade claro que fez sentido. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Mais tarde, já com 18 anos, a morar agora em Odivelas e perdendo o contacto com estas famílias, fui tirar a carta de condução. O meu instrutor encaixava-se na designação, tradicional do “retornado”. Homem rezingão, de rosto rude e demasiado assertivo. Tinha um medo terrível de errar quando conduzia o que me levava, naturalmente, a cometer algumas asneiras. Todo o tempo da aula só se ouvia a Rádio África enquanto proferia opiniões negativas sobre a cultura africana ou sobre o seu entendimento toldado por uma guerra que não pediu para estar. Aquilo irritava-me. Uma vez, por ter gritado comigo, saí do carro e bati com a porta com toda a força que consegui, só para não lhe gritar de volta como me apetecia e entrei na escola de rompante a queixar-me. Perguntaram-me se queria mudar de instrutor. Eu disse que não. Que trataria eu do assunto Nunca gostei de dar parte fraca. Melhorou bastante porque me tornei mais assertiva. No final passei e dei-lhe um abraço e, por momentos, simpatizei com ele.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Estas duas histórias não estão sequer alinhadas e são pontas soltas na minha linha cronológica mas existe uma ligação interessante com a atualidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>A nossa cultura não é de mais ninguém, não obedece a mais nenhuma regra que não a nossa.</strong> Partimos dela e a ela vamos parar quando tecemos opiniões, quando agimos. Moldou-se e molda-se desde o primeiro dia em que nascemos, num contexto onde nascemos, com quem convivemos e como crescemos. É por vezes escondida em determinados contextos e noutros expandida, mas é aquilo que garante a nossa genuinidade. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Pode ser também alterada com jogos de cintura sociais para nos posicionarmos, para nos defendermos, ou para atacarmos. As máscaras que muitas vezes necessitamos de usar assim nos obrigam.</span><br /><strong><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">São as diferentes culturas, a forma como crescemos, que ditam a nossa verdade, isentas de culpa ou de certo e errado e que estão acima de constituições, instituições, são livres, mesmo quando há consequências.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Um bom exemplo é o 25 de Abril de 1974. Há vários lados da barricada. Os de cá, os de lá, os de dentro, os de fora. Este dia é entendido consoante a história pessoal de cada um, ou do que lhes fizeram crer. Conheço quem defenda os dois lados da barricada com argumentos sólidos, com as suas verdades inquestionáveis. O documentário Torre Bela é um óptimo exemplo disto. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinha de ter, de repente um pensamento avant-garde. <strong>Quem tem razão? Qual a verdade pessoal que é mentira?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Cheguemos à atualidade, aos meus 37 anos, onde cada verdade pessoal é agora mais facilmente visível e escrutinada, onde a incapacidade de nos colocarmos em várias peles toldam o pensamento e contaminam o nosso o filtro crítico. Onde verdades tão complexas são diminuídas em argumentos tão poucochinhos e equipáveis a um tempo inquisitório que nos levam para a deliciosa sátira dos Monty Python “You are a witch” sem os contornos ou as culturas pessoais. <strong>Racismo, xenofobia, misoginia, fascismo, são guarda-chuvas por vezes demasiado fáceis, utilizados em tantos momentos como uma cultura de vitimização que pretendem por vezes apenas esconder situações de incompetência, amadorismo.</strong> Cito Irene Pimental, que no meio destes tempos controversos escreveu, o que para mim ,é o texto mais iluminado e refrescante: "<em>Não tenho dúvidas de que há racismo em Portugal e que é necessária e vital mesmo a luta anti-racista, como em qualquer parte do mundo onde ele existe. Penso que é bom haver na Assembleia da República deputados portugueses de todas as etnias, da mesma forma que elas existem em Portugal. </em></span><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Há, porém, uma deriva (minoritária aqui, ao contrário da que existe por exemplo nos EUA ou no Brasil) racialista e identitária que tem feito muito mal na nossa sociedade, à luta anti-racista necessária e ao combate contra a extrema-direita. É uma deriva divisionista (…) que não tem conta as classes, nem os géneros e que explica tudo com o racismo/antiracismo, generalizando e falseando o que se passa. É uma deriva que insulta todos os que não pensam como eles e não vivam como eles em bolhas, através das quais vêem a realidade desfocada, de «racistas». É o pior que poderia ter acontecido ao combate anti-racista e por isso deve ser denunciado, pois está a causar estragos."</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>A nossa cultura é aquilo que ninguém nos pode tirar, mas o assumirmos a complexidade de ambos os lados e possuirmos honestidade intelectual torna-nos mais verdadeiros e completos. Às vezes abraçar menos causas, que não são mais que refúgios morais ditados por contextos, modas, deveríamos abraçar mais pessoas e assim ter mais mundo do que o quintal a que estamos habituados.</strong> </span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:280902020-01-30T02:13:00É necessário um Polígrafo em cada esquina no que toca à Educação2020-01-30T02:18:00Z2020-01-30T02:19:13Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gea184ddc/21637106_73l44.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida.jpg" width="820" height="573" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Opinião Público 20-01-2020</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"Após a apoteose de textos corridos e comentários <a href="https://www.publico.pt/2019/11/03/sociedade/noticia/chumbos-ate-9-ano-nao-vao-acabar-decreto-1892215" rel="noopener">sobre os “não chumbos” no ensino básico</a>, eis que surge um novo “cai o Carmo e a Trindade” no seio dos fóruns educacionais livres de filtros mas repletos, como habitualmente, de caixinhas mentais que operam no senso comum, numa raiva contida, numa cor partidária, ou num arrasto de jogos constantes do telefone estragado que vão contaminado até as mentes supostamente mais esclarecidas. O ruído de tom feroz consegue ser, por vezes, bastante persuasivo.</span></p>
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<div id="google_ads_iframe_/4458504/Vert/Sociedade_2__container__" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Rapidamente, os espaços destinados à destilação de opiniões, inúmeras vezes sem fundamento, foram invadidos de cartas abertas de pais, professores, funcionários e entusiastas da educação que utilizaram, em tom de incredulidade, as seguintes palavras; “Um cárcere”, “Uma prisão”, “Inconcebível” e o habitual “Vergonha” <a href="https://www.publico.pt/2019/12/12/politica/noticia/vergonha-ventura-queixase-marcelo-quer-desculpas-ferro-rodrigues-1897135" rel="noopener">a quem o “simpático” André Ventura nos tem acostumado</a>. Não deixa de ser curiosa a existência de uma percentagem elevadíssima de crianças que ficam na escola até esta hora, ou mais tarde, por incompatibilidade de horários laborais dos seus Encarregados de Educação. São estes que assumem, inúmeras vezes, a incapacidade da escola de conseguir dar resposta aos seus educandos. Não conheço os números certos, mas ao longo do meu percurso presenciei, sem qualquer erro de cálculo, a metade dos alunos a terem de esperar para depois das 17h alguém que os viesse buscar.</span></div>
</div>
</aside>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Recordo-me de uma amiga que verbalizava, há pouco tempo, que a sua filha de um ano teria agora de começar a ficar na escola das 9h às 19h e, perante o olhar horrorizado de quem ouvia, disse: <em>Que posso fazer? Não tenho ajudas, peço o desemprego? </em>Um ano…</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Idealmente deveria ser este o ponto de partida. Longe estamos dos tempos em que a aldeia educava a criança. Alguém estaria com ela ou a iria buscar. A atualidade é bem diferente. Há avós que não conseguem estar disponíveis, não há avós, não há dinheiro para empregadas e não há dinheiro para pagar rendas e empréstimos se não trabalharmos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sempre fui apologista de que a escola não poderia ser um contentor de armazenar crianças e que o seu papel deveria (deve) ser bem definido. Continuo exatamente na mesma linha de pensamento, mas com uma condicionante, a escola é produtora de sociedade e um espaço de excelência que sim, também educa. Criar diferentes espaços e horários na escola com papéis bem definidos pode ajudar no processo de desenvolvimento dos alunos. Lembremo-nos do que trouxe o Desporto Escolar à escola, a capacidade de, independentemente do sítio ou dos meios com que a criança nasceu, ter a oportunidade de realizar várias experiências que em casa dificilmente poderia realizar. Aliás, é este o propósito da instituição Escola. Quando há rigor e organização, a escola é o sítio privilegiado para a conquista de inúmeras competências tendo a família como aliada. E este rigor e organização implica, também, definir bem os limites da escola na intervenção.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Analisemos o seguinte cenário: crianças que chegam a casa às 19h, que vão ainda fazer os trabalhos de casa, projetos, onde os pais exaustos do trabalho não são inundados de uma leveza saudável para a realização sã destas atividades (trabalhos de casa não têm de implicar apenas fichas de trabalho, mas coisas simples como a leitura de uma notícia, livro, debate com os pais). Rapidamente ambos são contaminados pelo cansaço, pelas palavras e atitudes pouco pensadas criando um pequeno caos que a hora de dormir não permite recuperar ou “fechar o círculo” para que o fim do dia seja saudável.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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<div id="google_ads_iframe_/4458504/Vert/Sociedade_3__container__"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não poderá a escola, através de uma organização pensada, tendo em conta o seu projeto escolar, minimizar estas situações? Não é isso que tantos Encarregados de Educação almejam?</span></div>
</div>
</aside>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É verdade que a escola se tem tornado um bode expiatório cada vez mais frequente e cada vez mais fácil de atacar (a todos os níveis). Nada ajuda. Descredibilização do ensino, dos professores, muitos autodidactas de internet, de modelos, de crenças, de definições (de sofá) que se tornaram a nova bíblia. Todos, de repente, sabem falar de educação e das suas especificidades.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Por isso, calma, pessoas. É um projeto-piloto. É um projeto com fundamentação, com objetivos, com uma forma de operacionalização, com avaliação de impacto e com conclusões. Não é um texto do Wikipedia ou um site desconfiável.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Avaliemos primeiro. Critiquemos depois, com fundamento, de preferência."</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:277352019-12-05T14:57:00A retenção escolar e o telefone estragado.2019-12-05T15:01:05Z2019-12-05T15:01:05Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gea184ddc/21637106_73l44.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida.jpg" width="820" height="573" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">"As palavras chumbo e retenção entraram na esfera léxica da imprensa portuguesa e têm-se equiparado ao jogo do telefone estragado, um famoso jogo que guardo da minha infância. Desenrola-se da seguinte forma: uma palavra ou expressão é dita ao ouvido por alguém, a fonte, e é passada rapidamente ao ouvido dos seguintes elementos do jogo. O último elemento do jogo terá de proferir exatamente o que ouviu. O resultado final costuma ser hilariante pois nunca corresponde à verdade da origem tendo sido a mensagem completamente deturpada e alterada no final. Este jogo divertido continua a ser usado como uma metáfora certeira para várias situações diárias de forma pueril.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Assim estamos nós.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">À boa maneira portuguesa, perdão, global, espalhou-se como um vírus nas “redes” a notícia de que não havia chumbos até ao 9ºano evocando as mais inúmeras notícias e piadas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Como muito cética que sou a todas as notícias imediatas, abstive-me de qualquer consideração ou comentário (embora existissem piadas francamente boas) sem antes perceber o quão “estragado” estava este “telefone”. Tentei ir à mensagem inicial.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Após algumas leituras atentas não consegui perceber a indignação por dois motivos essenciais: A medida excecional do chumbo já existe desde a década de 90 e a sua evolução tem seguido um “<em>modus operandi</em>” europeu que se tem debruçado sobre o trabalho a desenvolver para evitar a retenção ao invés de usar este mecanismo como única medida educativa perante o fracasso. E pelo que pude apurar, num esclarecimento do Secretário de Estado da Educação João Costa: “<em>Muito se tem falado sobre a proposta de elaboração de um plano de não retenção para o Ensino Básico. Alguns tentam reduzir esta intenção a um nível de conversa de café, dizendo que agora se quer que todos os alunos passem de ano, independentemente do que sabem. Ora, nem isto está no Programa do Governo, nem seria séria uma proposta desta natureza. O que se pretende, conforme explicitado, é desenvolver um conjunto de ações que contribuam para melhorar as aprendizagens dos alunos, de forma a que a retenção não seja necessária, uma vez que todos aprenderam.”</em> <strong>O que de alguma forma me reconfortou pois temi, por aquilo que li, que existiria uma espécie de lei a proibir expressamente as retenções até ao 9ºano.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Entrando agora um pouco nos clichés habituais associados a esta área, mas que, vamos assumir, fazem parte da vida (são eles também do senso comum). O chumbo por si só não é, nem nunca poderá ser uma opção (esta será a parte onde entram os recursos mencionados no comunicado do Secretário de Estado). A falácia dos recursos não tem a ver com o facto de não serem necessários, são, mas porque é utópico e ingénuo assumir que vai chegar o dia em que os recursos serão suficientes (qual D. Sebastião num dia de nevoeiro). Isto é um facto, por vários motivos: <strong>A falta de recursos continua a estar maioritariamente ligada mais às nossas conceções do que propriamente aos aspetos humanos ou materiais. Reitero aqui: de nada adianta existirem mais 10 ou 20 funcionários e salas cheias de equipamentos se continuarmos a trabalhar e pensar dentro de um quadrado interpretativo da escola parado no tempo.</strong> Segundo facto: Há muito casos onde, por muitos recursos que existam, há situações que são efetivamente excecionais, o que não quer dizer que se desista ou simplesmente se retenha um aluno, mas porque, em muitos casos aquele ainda não é o momento certo para as mudanças exigidas. Por fim há também questões de memória muscular que boicotam permanentemente todo o processo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Há pouco tempo numa reunião, alguns professores queixavam-se da impossibilidade de um aluno com dislexia severa conseguir corresponder ao currículo. Uma vez que não conseguia ler ou escrever de forma adequada para um 10ºano como conseguiriam avaliar? <strong>(Às vezes o século XXI fica à porta de muitas salas de aula.)</strong> Relembrei que há muitos alunos disléxicos na Universidade cuja única adaptação que tiveram de fazer foi a adoção de um computador em substituição do papel e caneta. Falei também da importância do aluno sentir pequenos sucessos para possibilitar uma base mais estável emocionalmente que lhe permitisse, e que permitisse a todos os envolvidos, baixar os níveis de ansiedade. A utilização de um computador nas salas de aula e de instrumentos de apoio (os possíveis tendo em conta a disciplina) são opções absolutamente válidas e enquadradas na lei, mas a nossa memória muscular obriga a um entendimento e uma expressão dentro do nosso quadrado mental confortável. <strong>Muitas vezes, diversas vezes, sob a capa da exigência, está um facilitismo conservador.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Pegando neste exemplo, a mudança do papel e caneta como forma quase exclusiva e aprendizagem para o computador ainda exige alguns recursos mentais pouco instituídos. Ninguém pede uma substituição absoluta, mas uma ferramenta de apoio óbvia. Esta é a mesma exigência que se pede a um aluno com dislexia severa que escreva e leia com uma velocidade igual à de outro aluno.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ao longo do meu percurso nas escolas deparei-me com poucas retenções que acabaram por se revelar a melhor medida para o aluno. Sim existem, são as retenções excecionais. Foram boas decisões porque existiu uma articulação fundamental com a escola e pais e um plano delineado ao pormenor que conseguiu motivar o aluno e todos os envolvidos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"> Os pais são uma outra variável que tem de ser tida em conta neste processo de retenção/não retenção. H<strong>á pais que não podem pagar explicações ou sequer ajudar nos trabalhos de casa e onde estes trabalhos se podem transformar numa autêntica fonte de ansiedade para todos.</strong> Vale a pena? Em muitos casos não enviar trabalhos para casa e dar a volta à situação na escola é uma medida exigente e não facilitista.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Abordemos rapidamente outras variáveis do outro lado da barricada. E quem não quer ser ajudado, apesar de todos os recursos conceptuais, humanos ou materiais? E os pais que interpretam uma lei considerando que mesmo quem não trabalha e se agarra somente a um diagnóstico tem de ter 3 ou 10? Não há retenção ou não retenção que possa salvar barreiras interpretativas que não se colocam em causa. <strong>Há que cair para depois lamber as feridas.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A escola é um espaço de desafios complexos e tem naturalmente limites. E claro que estes têm também de ser tidos em consideração."</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:276262019-11-11T15:55:00Há mundos de m…..2019-11-11T16:00:19Z2019-11-12T10:16:49Z<p> </p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Apresentação preto.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G4e184110/21610973_3vUUE.jpeg" alt="Apresentação preto.jpg" width="960" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Recordo-me dos testes psicotécnicos que fiz no 9ºano e recordo-me, mais claramente, do comentário da psicóloga no final, que entre a ironia e a seriedade disse: <em>“A Joana quer ser a defensora dos pobres e oprimidos”</em>. Sorri. Sabia que era qualquer coisa assim, talvez não exatamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os caminhos que inicialmente quiseram seguir enfermagem, redefiniram-se para a área da educação, mais propriamente da educação especial. Quase não passei pela casa partida e o meu trabalho, foi desde o início, com crianças e jovens mais desafiantes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Cresci à imagem do meu caminho e com quem me cruzei, que me definiu e continua a definir. Cada um tem o seu, e as críticas que rapidamemte lançamos às Joacines e Bourbons desta vida, têm em consideração sempre um percurso muito individual negando e <em>“intolerando”</em> gaiolas e redomas diferentes. <strong>O 25 de Abril também tem várias perspetivas dependendo de quem e como o viveu, e de quem o ouviu.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Há muitos mundos. Há mundos que estão do outro lado da barricada que, independentemente da nossa posição, situam-se numa espécie de mundo paralelo. Mas bem reais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ao longo do meu percurso o meu quadrado mental, assente em princípios sociais e legais, foi sofrendo alterações. <strong>Aquele mundo que no início ainda se situava única e exclusivamente numa espécie de gaiola dourada com níveis de conforto, amor e morais inquestionáveis foi ampliado. Vieram as histórias, as vividas e partilhadas, e o confronto com as morais confortáveis.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O rapaz de 11 anos que conheci que tinha ficado abandonado em casa aos 4 anos à sua sorte. Aquilo a quem Nuno Lobo Antunes apelidou, no seu relatório, um rapaz com uma “hiperatividade extraordinária”. Não cedia a nada. Só ultra medicado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As casas que visitei que jurei a pés juntos não querer voltar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As visitas a que assisti de um pai que havia abusado sexualmente de um filho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O rapaz que foi para a escola depois do seu pai atacar a mãe com ácido e que nesse dia espancou um colega seu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- Os bebés e crianças que foram batidos e espancados e que, mais tarde, enquanto jovens, a sociedade não sabia o que fazer com eles.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O pequeno jovem que era maltratado e vivia em condições miseráveis, mas ainda assim queria ir para casa da sua mãe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As mães e os pais que sofreram de violência doméstica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O adulto que está a agora a aprender a ler e a escrever mas que, em criança foi obrigado a mendigar e a ficar fora de casa se não levasse dinheiro suficiente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- A adulta que a meio da aula pára para chorar desalmadamente porque ontem esteve a arrumar as roupas da filha que morreu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O pai e filha que morrem abraçados quando ambos deviam estar a sorrir e a brincar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Continuo?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Que códigos morais existem nestas vidas? Que humanidade conhecem ou sentiram?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Como podemos exigir uma estrutura psíquica de aço a alguém que, em última instância, pode não ter nada a perder?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">São morais apenas assentes em códigos de sobrevivência primitivos. Muito longe, e ainda bem, dos nossos mundos. Aquele mundo em que às vezes, a nossa maior preocupação é saber que série ver na netflix à noite.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Reflitam.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:271412019-11-04T11:05:00As enxadas da Educação.2019-11-04T11:18:17Z2019-11-04T11:18:17Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="joana pub.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G78174a4b/21601489_hwJzN.jpeg" alt="joana pub.jpeg" width="820" height="573" /></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Transcrevo o meu último artigo no Público.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083</a></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"(A propósito do recente documentário exibido na RTP 2, “Outra Escola”)</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O documentário Torre Bela, realizado em 1977 pelo alemão Thomas Harlan, que retrata a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril, tem uma cena deliciosa. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinham de ter, de repente um pensamento avant-garde.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Numa analogia que reconheço não ser demasiada ou imediatamente óbvia faz-me lembrar os professores do secundário. Durante anos os ditos meninos “da” educação especial não chegavam ao secundário. Com a escolaridade obrigatória até ao 12ºano, a realidade é atualmente bem diferente. De repente, alguém lhes quer fazer ver (normalmente os professores de educação especial) que aqueles meninos têm todo o direito de ali estar. Que há uma espécie de cooperativa onde estes alunos deixaram de ser da educação especial e passaram a ser de todos. E aquela enxada, a enxada dos conteúdos e objetivo final de fazer um aluno brilhar num exame final deixou de ser o objetivo único. Têm agora de fazer adaptações, preencher mais papel e lidar com alunos que “não sabem estar no secundário”.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Mas será este o desígnio de ser professor? Preparar apenas para avaliações finais?</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">“Obrigar” (este obrigar leia-se, (re)sensibilizar) professores a serem professores não é, atualmente, um contrassenso. É uma necessidade. Há muito que nas escolas o ato de ser professor tem sido relegado para outra dimensão. Não é mito, é realidade. A perda de auxiliares de educação e de pessoal administrativo aumentou as responsabilidades dentro das escolas, colocando as competências dos professores espartilhadas em inúmeras atividades que extravasam claramente as suas funções.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Esta repartição de funções veio colocar como ponto fulcral e quase único no trabalho de aula do professor, o cumprimento de um currículo como fim de percurso anual e objetivo máximo. Este caminho é inúmeras vezes contaminado por alunos que dificultam este processo e que ajudam a criar guetos mentais. Alunos de primeira e alunos de segunda. Estes alunos de segunda recebem um guarda-chuva marcado com um rótulo que lhes sirva e são encaminhados para qualquer apoio “porque deixa de ser problema meu” afinal se não responde ao currículo, (o objetivo máximo) não serve para o meu propósito de professor. Não quero ser mal interpretada. Não falo em passagens administrativas, facilitismo ou insistir em ajudar quem não quer ser ajudado (às vezes a maior aprendizagem é cair para se reerguer de novo). Falo em encarar todos os alunos como “todos os meus alunos” com areias na engrenagem ou não. Com o objetivo máximo de levar ao bom porto de cada um. Não é um percurso solitário, não o deve ser, repercutir uma sociedade assim não faz sentido.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quando ouvimos numa reunião “Mas o que eu quero saber é se ele faz exame a nível de escola ou exame a nível nacional para saber como trabalhar com ele” ou “Mas este menino então é para fazer avaliação adaptada, é isso?” percebemos duas coisas: A nova função do professor, comandada única e exclusivamente pelos resultados, e o pouco tempo a desperdiçar para ouvir falar e trabalhar com alunos de segunda esperando que alguém lhes diga o que fazer.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não estou a censurar, estou a revelar uma realidade, uma forma de agir e de pensar perpetuada por anos. A verdade é que há fundamento para esta realidade instituída, mas por estar instituída não quer dizer que seja justa, honesta ou aquilo que um professor deve representar. E é muito fácil entrarmos num funcionamento em modo robot, o trabalho acumulado torna nebuloso o discernimento.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Como podemos modificar então uma realidade tão instituída e tão pouco refletida? A legislação atual, o Dec.Lei 54/2018 de 6 de julho deu um impulso (escrava também das diferentes interpretações realizadas porque há aspetos impossíveis de serem decretados). A nossa posição e afirmação é também uma delas. Recordo-me de uma escola onde trabalhei recentemente, onde numa reunião, o diretor disse sem qualquer pudor “Eu estou a marimbar-me para os exames. Eu quero que todos os alunos sejam ajudados dentro das suas possibilidades”. Foi o escândalo na sala.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Vamos lá clarificar um cliché recorrente mas necessário de ser aplicado mentalmente: Todos os caminhos são legítimos quando feitos com rigor, e rigor significa definir objetivos consoante os pontos fortes e menos fortes do aluno, as suas expectativas e os caminhos possíveis. Não é nivelar por baixo ou fazer o “teste do coitadinho”, é dar as ferramentas de apoio que lhe permita a caixa correta para conseguir ver para lá do muro sempre assente no compromisso mútuo, não há sucesso sem trabalho e ninguém ajuda quem não quer ser ajudado.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A Universidade é legítima, os cursos profissionais são legítimos, todos os percursos são legítimos desde que haja rigor. E adaptar o currículo e a avaliação quando é necessário não é facilitismo, é justiça."</span></em></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:269792019-10-31T15:51:00“Acalmemo-nos” todos um bocadinho.2019-10-31T16:07:51Z2019-11-05T15:36:22Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 403px; padding: 10px 10px;" title="Mafaldinha.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G261736b8/21598585_FdFeP.jpeg" alt="Mafaldinha.jpg" width="403" height="442" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Tinha ido jantar com uma amiga ao café Austríaco no Chiado e, como habitual nas nossas conversas, falámos sobre relações, o panorama político atual com a eleição de novos deputados, as políticas sociais (no nosso caso por defeito de profissão) que estão em vigor e qual o impacto na nossa sociedade. Falámos dos perigos dos extremismos, dos últimos gritos da vida política, dos rótulos, dos <em>statements</em>, de políticas. Indignámo-nos com algumas situações e rimos com outras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Recordo-me que em alguns momentos da nossa conversa, sempre que nos queríamos soltar de preocupações com as palavras e amarras, olhávamos primeiro em redor para ver quem estava ao nosso lado (numa quarta feira à noite havia pouca gente) e esgueirávamo-nos ligeiramente para falar baixinho como se uma determinada espécie de PIDE estivesse à espreita. Tinha de dar mil voltas à cabeça para fintar os nomes e as expressões que podia utilizar, porque não posso chamar pelo nome, mesmo que chamando pelo nome na minha cabeça não soe a desrespeito ou intolerância. Palavras que são hoje rapidamente e facilmente passíveis de serem julgadas em praça pública. Rótulos que são imediatamente associados a xenofobia, intolerância, radicalismo, conservadorismo, machismo, feminismo, extreminsmo, fundamentalismo e todos os "ismos" que se tornaram os bodes expiatórios (sempre os outros, nunca eu) deste tempo. Nunca se colecionou tantos rótulos e gavetas como a atualidade que vivemos. Assemelha-se por vezes a uma caça às bruxas como no tempo da Inquisição, usando por vezes, raciocínios pobres <em>non sense</em> equiparáveis aos usados no icónico filme dos Monty Python “The quest for the holy grail”. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sinto igualmente o cuidado de escolher a quem mando piadas, que é apenas isso mesmo, uma piada, por poder colocar algo em causa e ser julgada com uma moral que parece pretender ser superior. Mesmo que nos conheçam, mesmo que o nosso percurso tenha sido marcado por tudo menos os "ismos" - os rótulos que nos querem colocar (bem pelo contrário). De repente parece que o peso da atualidade e de normas que se mostram apertadas, escrutinadas e redundantes colocam em causa pessoas e percursos. Parece ter-se instalado uma determinada moda de estar e pensar que não permite uma autorreflexão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">São os arautos da moral, os ditadores dos bons costumes, deste e de outros séculos. Os mártires de ideologias que nunca se colocam em causa e mais grave, que não possuem um <em>background</em> que lhes permita fundamentar e refletir o seu pensamento. E assim se afastam do cerne das questões basilares com fogos de artíficios, palavras gastas e vazias de pensamento.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Na procura incessante de um "eu" no mundo, parece ser inevitável sufocarmo-nos num coletivo repleto de areias movediças. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Remodele-se este tempo por favor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:266402019-10-22T17:31:00Viram o Joker? Está lá tudo.2019-10-22T16:37:32Z2019-10-22T16:37:32Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="joker usar.jpeg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G31184d5d/21590021_mUURf.jpeg" alt="joker usar.jpeg" width="960" height="540" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Escrevo este texto sem saber, até ao momento, os factos exatos (provavelmente nunca saberemos) do que se passou numa sala de aula de TIC no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, mas caí no erro (não sei se um erro) de ler os inúmeros comentários de outros professores, colegas meus de carreira, que quase o intitulavam de um herói utilizando expressões coniventes com a violência verbalizada nas manchetes dos jornais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>Nota geral:</strong> Sendo verdade a violência verbal e física retratada nos <em>media</em> por parte do professor é absolutamente inadmissível que tal tenha acontecido. É absolutamente inadmissível punir em praça pública sem conhecimento de todo o contexto, assim como é absolutamente inadmissível a agressão por parte de alunos para com professores, bem como constantes oposições à autoridade de um professor dentro de uma sala de aula. Isto não é uma opinião, isto é um facto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Assistimos e vamos tendo conhecimento, quase quotidianamente, de agressões verbais e, inclusivamente físicas, à classe docente por parte dos alunos e embora condenemos de imediato estes atos, parece existir uma certa condescendência latente que se refletem nas expressões: “mais do mesmo”; “são os alunos que temos”, “é o país que temos”. No dia em que um professor, por não sabemos ainda bem o quê, se humanizou, não conseguindo controlar os seus impulsos perante algo que terá à partida sido interpretado como um questionar da autoridade foi o escândalo social. <strong>Vejamos, é um escândalo sim, os professores são os adultos e são a referência, devem ser a referência, mas é igualmente escandaloso e retrato de uma sociedade doente, existir a violência inversa. Não pode, não deve, haver condescendência unilateral.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Algo vai muito mal “no reino de Portugal” quando o apelo à violência vem de todos os lados. Alunos contra professores, professores contra alunos, professores contra o resto da sociedade, pais contra professores e professores contra pais. <strong>É apenas contra a violência que se deve estar contra. Venha de onde vier.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O que se torna mais preocupante num “reino” como este é o terreno fértil para a entrada de fundamentalismos igualmente inadmissíveis por fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. <strong>Quando o Chega chegou ao Parlamento é porque já se infiltrou em todas as áreas. Não, no tempo do Salazar não era bom, mas este tempo também não o está a ser.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tudo começa a ser preocupante e a pergunta que devemos fazer é como chegámos até aqui? Qual a metáfora do arquiduque Franz Ferdinand que fará despoletar o gatilho para que se acabe de vez com uma cultura de despenalização e desculpabilização de atos que não podem, em nenhum momento, numa sociedade atual ser livre de consequências?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Lembram-se do filme Joker? Vejam e revejam. Está tudo lá.</span></strong></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:264352019-09-30T23:05:00Tu2019-09-30T22:06:11Z2019-09-30T22:06:11Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 572px; padding: 10px 10px;" title="tu.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G81172e76/21570494_TtS0p.png" alt="tu.png" width="572" height="720" /></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando me abraças é como se fechassem todas as caixas de Pandora. </span><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando sorris para mim é como se derretesse internamente e tomasse todas as doses de oxitocina do mundo. Quando não te vejo por dois segundos no exterior é como se caísse em queda livre para debaixo do chão. Quando te volto a ver é como se me deitasse na areia quente depois de um banho de mar. Quando fazes beicinho é como se te quisesse engolir num abraço. Quando estou mais de um dia sem te ver é como se o meu corpo fosse a definição viva da palavra inquietação como a música de José Mário Branco.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando ralho contigo de manhã por estar atrasada e logo após te deixar na escola sinto remorsos. É como se ficassem em falta todos os beijos que te quero sempre dar. Quando te imponho limites e não te deixo fazer tudo o que queres não sinto remorsos porque sei que não vou estar sempre perto de ti e mais convictamente sei que um dia não estarei mesmo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando desarrumas tudo por um ainda pouco auto controlo motor ou só porque tem piada, meço a minha reação pelo meu cansaço. Ou ralho ou junto-me a ti no chão criando um pequeno caos. Quando chamas ininterruptamente "Mamã" por 30 segundos, que para mim são longos minutos, é como se acabasse um treino de ginásio. Quando não chamas, sinto falta do meu outro nome.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando apregoo, também convictamente, que ser mãe não é claramente a única coisa que me define e que o meu trabalho e carreira é o que fazem o equilíbrio saudável digo-o enquanto penso em ti. Este equilíbrio é o que me faz feliz, o que te faz feliz, mas em caso de dúvida, corro para ti. Sempre.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando não era mãe era como se vivesse numa bolha muito racional com pouco espaço para dissertações emotivas, agora que sou assumo esta “irracionalidade” e gosto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">(Este blog faz quatro anos. É um blog sobre Educação, não sobre maternidade, mas como forma de comemorar nada melhor do que um texto sobre um dos maiores momentos educativos de uma vida: Ser mãe da Maria Luísa).</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:261962019-09-26T10:25:00A extenuante palavra Inclusão.2019-09-26T09:49:00Z2019-09-26T09:49:00Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida (1).jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G3d17183c/21566879_BJ08W.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida (1).jpg" width="820" height="573" /></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Transcrevo o meu último artigo no Público.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/09/23/sociedade/opiniao/extenuante-palavra-inclusao-1887596" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/09/23/sociedade/opiniao/extenuante-palavra-inclusao-1887596</a></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"Assisti recentemente a um vídeo curioso. Alguém filmava um baile nas ruas de Maastricht. Ouvia-se André Rieu e dançava-se valsa. No meio havia um par que também dançava, ela em cadeira de rodas, ele em pé. Esta seria uma daquelas imagens bonitas que se colocam facilmente em qualquer abertura de um colóquio ou congresso sobre Inclusão. As cadeiras de roda são maioritariamente o símbolo de uma sociedade inclusiva, da inclusão, da boa vontade, daquela máxima “Fomos buscar uma senhora de cadeira de rodas porque estamos muito atentos, somos muito modernos, somos muito inclusivos”.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O mais interessante ao assistir a este vídeo, não foi a senhora a dançar de cadeira de rodas, foi o olhar de quem filmou, foi o “olhar” de quem ali estava. Não houve um único momento onde fosse sentido que aquela situação fosse diferente de todos os outros pares que dançavam. E porque deveria ser?</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Porque falamos em Inclusão? Por que é que a Inclusão é quase como uma matéria dada à parte num determinando gabinete a uma determinada hora decretada por pontos e exemplificada num Manual? Por que é que quando uma escola tem muitos alunos de cadeira de rodas físicas ou intelectuais se aplaude chamando como exemplo de uma escola inclusiva? Realizam-se passeios, encontros, verbalizam-se palavras de apoio, palmadas nas costas, um leve brilhozinho nos olhos e um certo altruísmo do que está a ser feito, numa certa superioridade ingénua. Numa breve analogia é como se olhássemos aquele vídeo com setas de néon e câmara sempre assente na senhora de cadeira de rodas. Presa numa determinada jaula transparente.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">António Nóvoa escreveu isto em 2005: “As coisas da educação discutem-se, quase sempre, a partir das mesmas dicotomias, das mesmas oposições, dos mesmos argumentos. Anos e anos a fio, banalidades. Palavras gastas. Irritantemente óbvias, mas sempre repetidas como se fossem novidade. Uns anunciam o paraíso, outros o caos – a educação das novas gerações é sempre pior que a nossa. Será?! (…) A certeza de conhecer e possuir “a solução” é o caminho mais curto para a ignorância. E não se pode acabar com isto?”</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Uma dessas palavras “Irritantemente óbvias” é exatamente esta palavra: Inclusão. Partindo desta posição pressupõe-se que existe uma entidade nesta sociedade que “tem o poder” de incluir alguém que está à margem da sociedade. Se a sociedade são “todos” então voltamos a pressupor que há um “nós” e “os outros”. Uma sociedade de primeira e uma de segunda.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O Secretário de Estado da Educação, João Costa, costuma referir, em alguns encontros, uma imagem bastante reveladora desta mentalidade: Em duas turmas diferentes havia dois meninos em cadeira de rodas, um em cada turma. Numa simulação de prevenção no caso de um sismo que assistiu numa das turmas um dos colegas agarrava no menino de cadeira de rodas e colocava-o debaixo de uma mesa e ali ficava juntamente com ele. Na outra sala o aluno de cadeira de rodas ficava num espaço distante dos outros a observar os seus colegas enquanto faziam a simulação. O Secretário de Estado da Educação perguntou porque estava ele ali, que assim ele podia morrer, ao qual um aluno respondeu. “Não, mas ele não conta”. “Ele não conta… (Há espaços onde não há óbvios, nem por decreto).</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Os argumentos do modus operandi de cada escola relativamente “aos outros” multiplicam-se entre: “A inclusão é impossível”; “Há falta de recursos nas escolas”. Estas são as expressões eternamente repetidas. Havia falta de recursos há 10 anos, há falta de recursos hoje, e haverá, certamente, falta de recursos daqui a 10 anos. Arrisco dizer que a falta de recursos são maioritariamente humanos e menos materiais. Não adianta ter armazenado em armários fechados inúmeros materiais se não formos capazes de tratar todos com dignidade aceitando a diversidade dentro de nós e não porque um decreto a impõe. As barreiras são efetivamente muito mais ideológicas do que físicas. Este conceito (Inclusão) é frequentemente enviesado e hermeticamente fechado em politicamente corretos. Esbarra em leituras muito próprias e que deturpam o seu sentido, porque parafraseando Rodolfo Castro, um extraordinário contador de histórias, “Quando lemos uma história a moral não está na história, a moral está em nós. </span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">“(…) quando conseguirmos perceber a diversidade humana não mais haverá lugar à Inclusão, à exclusão, à discriminação. A Escola será um lugar de todos e para todos.” (Rui Proença Garcia)"</span></em></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:259152019-09-20T21:40:00Os amigos aturam-nos muito.2019-09-20T21:03:25Z2019-11-12T10:24:36Z<p class="sapomedia images"><img class="" style="width: 600px; padding: 10px 10px;" title="20708427_10155731895942369_4321831496236468089_n.j" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gec174641/21561778_rUNGg.jpeg" alt="20708427_10155731895942369_4321831496236468089_n.j" width="600" height="600" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não tinha sido um dia fácil. Daqueles inundados de inseguranças. Como quase todas as sextas, naquela idade, íamos sair ao nosso bar de eleição no Bairro Alto. Sentia-me triste. Liguei a um dos amigos que mais me “aturava” nesta altura e que se encontrava no outro lado do bairro. Ele, preocupado vem ter comigo, e digo-lhe as seguintes palavras: “Ó Mike, eu sou gira?” Não há palavras para a reação dele e para as gargalhadas que demos a seguir. “Mas venho eu do outro lado do bairro para tu me fazeres uma pergunta destas?” Escusado será dizer que quando estamos juntos, ainda hoje, entre amigos é inevitável falarmos deste episódio, o qual, eu ainda nego sempre dizendo que ele está exagerar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Exagera sempre um pouco, mas não deixou de ser verdade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Há inseguranças determinadas em cada idade, há inseguranças intemporais e há inseguranças pontuais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Já escrevi uma vez sobre os meus amigos. Para mim são os melhores do mundo. É impagável ter amigos </span><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">que nos aturam com carinho em situações que podem ser facilmente apelidadas de ridículas (sim, mereci alguns insultos – queridos – por parte do Mike depois dessa noite). Não fossem os amigos, ou as relações que estabelecemos e se calhar ainda duvidava hoje se era gira ou não (o que quer que isso queira dizer). São o nosso espelho, o nosso ombro e o nosso <em>wake up call</em> para nos chamarem à razão ou para simplesmente nos ouvirem nas nossas inseguranças pontuais ou intemporais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Devo muito aos meus amigos. Quer dizer não devo, eles sabem o quanto eu gosto deles e o quanto sempre estive, e estou presente, também, para ouvir se eram giros(as) ou não.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E sim, a incredulidade dele foi também perante a pergunta descabida e descontextualizada, porque para ele era óbvio que sim. E às vezes bastam perguntas descabidas e respostas positivas para seguir noite dentro a rir.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:256082019-09-09T21:20:00O equilíbrio da felicidade2019-09-09T20:26:56Z2019-09-09T20:26:56Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 808px; padding: 10px 10px;" title="ML.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G6618005d/21551387_0ZBMo.jpeg" alt="ML.jpg" width="808" height="960" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Já escrevi para o jornal Observador a convite. Não leio todos os seus cronistas, nem sempre me identifico, mas leio sempre os artigos de Ruth Manus. No seu último texto escreveu isto: <strong><em>“As crianças não têm que ser boas no que fazem. Elas têm que gostar do que fazem. Têm que ser felizes dentro das possibilidades. Filhos não são instrumentos de competição, nem de realização pessoal. Filhos são indivíduos em busca de felicidade. E era para isso que os pais deveriam servir, para facilitar esse caminho. Não para exigir as melhores notas na escola, boas avaliações nos cursos de língua estrangeira, roupas limpinhas no final de um domingo e brincadeiras serenas e silenciosas. Porque isso, definitivamente, não é coisa de criança. Pelo menos não de criança feliz.”</em></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Elementar não é? Às vezes, muitas vezes não.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não há nada profundamente mais tocante e irresistível do que ver a Maria Luísa sorrir ou ouvi-la rir. Às vezes não porque arrumou os livros no cesto, ou porque não se sujou a comer a sopa. A maior parte das vezes porque pôs sopa no cabelo ou porque foi apanhada a atirar brinquedos para a banheira. Os meus sorrisos, nestes casos, são proporcionais ao nível de cansaço. Se a mente estiver limpa, estes são momentos que proporcionam sorrisos iguais aos momentos em que usa adequadamente a colher e quando arruma os brinquedos corretamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O tempo e o trabalho nivelam o nosso humor e são muitas as vezes (vezes demais) que ficamos incapazes de filtrar os excessos e discernir de uma forma equilibrada perante as mais variadas situações. E muitas vezes, demasiadas vezes, nesta ligação incontrolável aos nossos filhos, <strong>queremos negar que são (serão) seres independentes de nós e exigimos, ingenuamente, que caminhem num percurso desenvolvido e arquitetado por nós, aquele que consideramos o certo, ou porque o somos ou porque não o chegamos a ser. Às vezes confundimos e chamamos também a isto de amor.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Nesta teia complicada em tentar encontrar papéis definidos e apaziguamento nesta relação podemos cair facilmente em fundamentalismos. Por medo, por desconhecimento, por egoísmo, por amor. <strong>E nestes encontros e desencontros perdemo-nos no que é realmente a felicidade e ouvimos frases como: “Se o meu filho ficar mais um ano no pré-escolar, perde um ano na faculdade”. Ou, em antítese, “Eu não me interessa se o meu filho aprende a ler ou a escrever, interessa-me que ele seja feliz” E se numa frase me questiono como podemos definir um futuro tão certo e sem espaço para erros ou imprevistos, noutra questiono como se pode ser feliz sem os maiores instrumentos de liberdade?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ser feliz não é competição nem desleixe. Não são regras rígidas e absolutamente inflexíveis, nem um laissez faire. Não é destruir sonhos nem colocar na beira de um abismo por um sonho absolutamente improvável. É qualquer coisa no meio, próprio de cada criança e contexto.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:254992019-06-24T14:57:00O João Bandarra.2019-06-24T14:02:00Z2019-06-24T14:02:00Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 576px; padding: 10px 10px;" title="Bandarra.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5517da3c/21489459_hZsFu.jpeg" alt="Bandarra.jpg" width="576" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O João Bandarra foi quem me veio substituir no colégio onde iniciei o meu percurso profissional.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Percebi rapidamente que a passagem iria correr bem quando o vi entrar, de capacete na mão, com toda a genuinidade que o carateriza, sem querer, pela varanda do Colégio a perguntar se era ali o sítio certo. Percebi ainda mais claramente quando, em sala de aula comigo, acabou em dois tempos, através de uma argumentação simples e direta, com as provocações de alguns alunos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Eu e o Mário brincamos muitas vezes com o João a dizer que se algo acontece na Mongólia, não pode haver a mais pequena dúvida que começou, sem ele saber como, em algo que tenha feito aqui. Há uma inacreditável conjugação do Cosmos para que o João esteja envolvido nas mais hilariantes cenas de comédia do quotidiano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O Joáo faz rir pessoas que jurei a pés juntos serem as pessoas mais antipáticas de sempre. Consegue nivelar todos pela média, quer seja o Doutor do gabinete, quer seja a empregada do Bairro Social. É fácil rendermo-nos à sua espontaneidade, falta de filtro (nem sempre corre bem mas ele gosta de viver no fio da navalha) e à sua capacidade de ser prestável e o ombro solidário e imediato quando é preciso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O João pode ser muito desconcertante, antagónico, irritante a adorável, seco a cómico, agregador a acutilante, sarcástico a terno. Mas há uma genuinidade com um misto de ingenuidade que o torna único.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O João faz o que quer dos miúdos mais problemáticos, não há miúdo que não o adore e na relação que consegue estabelecer, há poucos como ele.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O João escreveu um texto há pouco tempo e quase a medo disse que ficaria muito honrado se eu o colocasse no meu blog.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">É um texto muito bom. Parabéns João.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">“O que se perdeu.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Era um jovem com bom aspecto, de trato fácil desde que não contrariado. Na sua vida já várias tropelias o tinham moldado, nascido num bairro social e cedo retirado à família lutava com os argumentos que tinha para sobreviver.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Encaminhado para “o ensino especial” porque já não havia repostas , e foi assim que o encontrei.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Mostrava um charme inigualável quando tinha algum interesse, já pelo contrário mostrava desdém pelo que não o motivava.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Muitas foram as estratégias, noites perdidas deixadas à ânsia de não conseguir ajudar, apoiar ou encaminhar. Até ter surgido o projeto de vida…que tamanho nome pomposo para desistir.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O encarregado de educação insistiu e por muito que me insurgisse nada podia fazer, o discurso não mudava, “temos de profissionalizar este jovem para que aos 18 anos ele possa ser inserido na vida activa.", vezes demais foi dito que o jovem não detinha ainda as capacidades necessárias para cumprir com o projeto de vida que lhe propunham…mas de nada serviu.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Lá foi ele…lá foi…lá foi o que se perdeu…deixando para trás um amargo trago…o trago do que se perdeu e nada consegui fazer...</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Entre boatos e notícias de vizinhos fui ouvindo notícias que não conseguia determinar a veracidade…e sempre aquele trago amargo…</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E naquela segunda-feira pelo canto do olho vi-o…era ele…tinha voltado…só para visitar e dar notícias…ansioso por saber e sem nada temer perguntei se tudo o que tinha ouvido era verdade…e…sim era…o projeto de vida nem dois meses se manteve, o retorno ao ambiente de criação levou a um ano de reinserção mas três anos mais tarde ele voltou…veio agradecer…as estratégias, as noites perdidas e até os ralhetes…e não mais me vou esquecer das palavras dele…”Não nos esquecemos de quem nos trata bem</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Afinal…afinal…afinal não se perdeu…. Que grande sorriso me deu e vontade ainda maior de perder noites e suor a motivar e semear os jovens de amanhã…afinal não se perdeu…”</span></em></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:252172019-06-04T20:34:00Sobre o ciclo "30 portugueses, um país" com Luís Osório2019-06-04T19:34:59Z2019-06-04T19:34:59Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="LO2.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gc317d699/21467219_KoatZ.jpeg" alt="LO2.jpg" width="960" height="960" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O Luís Osório é um dos escritores que mais gosto de ler e de ouvir. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Foi moderador de um Ciclo intitulado "30 portugueses, um país" um momento de conversa com várias personalidades do nosso país que contou com presença de nomes como António Barreto, Bruno Nogueira, Ana Moura, Mário Centeno, Teodora Cardoso, Assunção Cristas e António Costa, entre outros.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>Obrigada Luís por me concederes de novo o privilégio de uma nova entrevista.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>1 – Terminaste recentemente um ciclo intitulado “30 portugueses, um país” do qual foste moderador. Qual foi o seu principal objetivo?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- O espaço das grandes entrevistas, de uma maneira ou de outra, deixou de fazer sentido. A força da atualidade, do que é notícia ou é capaz de influenciar, tornou-se predominante e ultrapassou as boas conversas, as conversas sem propósito. Gosto de conversar por conversar, de conhecer, viajar para dentro da outra pessoa, ter curiosidade, conhecer sem a ditadura do que interessa às agendas mediáticas. Diria que o principal objetivo foi esse. Desafiar as agendas com uma outra agenda onde pudéssemos estar por estar e aprender. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>2 – Na maior parte dos casos já conhecias pessoalmente os convidados? Como foi o processo de preparação e quais respostas que te marcaram ou que mais te surpreenderam?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- Não fiz as contas, mas diria que sim. Na maior parte dos casos já conhecia os convidados. O processo de preparação foi muito livre, limitei-me a ler sobre cada umas das vidas e a conversar com cada um deles. Não me marcou nenhuma resposta em concreto, já sou velho o suficiente para não me encantar com uma árvore por mais frondosa que pareça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>3 – Trinta portugueses que detém um espaço dentro do nosso país e trouxeram, no geral, uma ou várias visões e posições inovadoras e, dos quais, naturalmente, não é possível escolher um como “o” mais influente, mas a pergunta é esta: De que influências e de que visões precisa o nosso país?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- O mundo precisa de uma visão que seja construída a partir de uma ideia de futuro. Precisa de resgatar um espaço de intervenção e pensamento das elites – não subordinado à soberania do consumidor e aos desejos do povo. Precisa de encontrar um novo sentido para a democracia e para a representatividade dos que são eleitos. Precisa de uma comunicação social que não dependa exclusivamente do dinheiro dos que compram jornais ou veem os canais de informação. Precisa de não ter medo, de erradicar novos fascismos. Precisa de um modelo que proteja o trabalho num tempo de automação em que milhões de postos de trabalho serão extintos. Perguntas-me pelo país, respondo-te com o mundo. Porque dependeremos sempre em primeiro lugar do que acontecerá lá fora. E eu tenho tendência para acreditar, citando Bertrand Russell, uma espécie de desejo de federalismo. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>4 – Como jornalista, como escritor, muito ativo nas redes sociais, especialmente no facebook (no fundo como Português), qual sentes ser, digamos, a tua missão neste espaço que ocupas? Qual a tua influência real ou desejada?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>-</strong> A influência do Facebook é mais expressiva noutros países, como provam os escândalos dos últimos anos. Não tenho nenhuma missão, não sinto que a tenha. Estou no FB com o mesmo espírito com que escrevo livros ou tudo o resto, fazer o melhor possível e construir um caminho. Que no final das contas será reconhecido (ou não) pelos outros. Não tenho influência nenhuma. Apenas pessoas que gostam do que escrevo. Mas isso vale pouco no sentido que dás à palavra influência. Se para mim isso fosse um desejo estaria noutros lugares, teria aceitado um convite para dirigir um jornal ou um lugar numa lista de deputados. Recusei uma e outra coisa. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>5 – Que perguntas faltam fazer e que portugueses faltam entrevistar?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>-</strong> As perguntas que ainda não foram feitas o tempo encarregar-se-á de as mostrar. Há sempre perguntas a nascer na medida em que novas respostas surgem. Cada nova resposta a uma pergunta desencadeia 10 novas questões que não existiam. E claro permanecem as de sempre, as irresolúveis, a começar pela “onde vamos quando nos vamos?”</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:250432019-05-27T14:12:00Um breve rescaldo sobre as Europeias 20192019-05-27T13:17:28Z2019-05-27T13:17:28Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 840px; padding: 10px 10px;" title="greta.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G5b189554/21463694_tRHkG.jpeg" alt="greta.jpg" width="840" height="484" /></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- A abstenção não é resposta, não deve continuar a ser resposta e para isso é necessário perceber, de vez, que <strong>apanhar couves no ribatejo e ir a mercados pontualmente já não oferece crédito.</strong> (Abstenção: - Estão a pedi-las)</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- O impacto do (e)feito Greta Thunberg no mundo (já agora incluída, imediatamente no "rótulo NEE" em qualquer escola e com sorte encostada para o canto de um estereótipo "ainda" coletivo) que motivou o crescimento de um partid<span class="text_exposed_show">o ecológico. </span><strong><span class="text_exposed_show">(Ecologic is the new black - aprendam amadores)</span></strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- <strong>Novos partidos</strong> a encontrarem espaço onde quem cá anda há mais tempo (com menos ou mais couve ou mercado) ainda não conseguiu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- Ir a votos com 35 graus no nosso país <strong>é um risco tremendo.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">- Tirar <strong>fotos dos bole</strong></span><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>tins</strong> de voto e colocar no facebook é a nova "trend".</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:246042019-05-17T23:32:00É uma Medida Universal e umas quantas Adicionais se faz favor.2019-05-17T23:02:24Z2019-05-20T17:10:42Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Grumpy ppt.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bac181800/21455046_60Nr9.jpeg" alt="Grumpy ppt.jpg" width="960" height="720" /></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Ouvi, recentemente, uma frase em pleno Conselho de Turma, daquelas que nos fazem soar toda uma orquestra, mas em mau (quando tudo desafina); daquelas que nos fazem juntar todo um vernáculo em ebulição; daquelas nos fazem esquecer a teoria da mente; daquelas que me fariam encher toda uma página de comparações deste género.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Falava eu sobre a importância (já eu própria me canso de tantas vezes repetir o óbvio) de estabelecer uma relação com os alunos e em especial com aquele aluno específico, para no final ouvir. <strong><em>“Mas era o que mais me faltava agora ter de estabelecer uma relação com os alunos”</em>.</strong> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Se estivéssemos num <em>sketch</em> humorístico esta teria sido uma tirada de mestre. Chamaria “os novos rebeldes da Inclusão”, aqueles que já não suportando a palavra e o conceito inclusão se revoltam “agredindo” os arautos da defesa dos meninos, da defesa de todos juntos na mesma sala. Esses chatos pá!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Olhei por momentos à minha volta certificando-me de que todos teríamos ouvido o mesmo, não tivesse eu imaginado. Não. Todos ouvimos o mesmo. Mantive o tom calmo, embora tivesse algumas palavras e expressões que teimavam em saltar. Indaguei que, naturalmente, cada um é livre de fazer o que entender e que o meu papel é dar a conhecer o aluno, formas de interação que podem resultar e ajudar e que em última instância são os nossos limites e o nosso perfil que determinam o sucesso dos alunos, mesmo que muitos estratégias passem, por vezes, de dar um murro na mesa, de deixar cair, de sermos pontualmente indiferentes, mas demonstrando sempre investimento.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>Confesso que eu própria estou cansada da palavra inclusão. De tão óbvio que é, que deve ser, desgastamos e esgotamos a palavra às vezes com demasiado colo e com demasiado paternalismo enviesando o seu sentido.</strong> E de cada vez que não resulta da maneira que a entendemos, que soa em nós, revoltamo-nos contra o governo; contra a legislação; contra os professores que a apregoam; contra os alunos; contra os pais, mas no fundo apenas contra nós próprios. O colocarmo-nos em causa, a nossa honestidade intelectual ainda é uma ferida demasiado dolorosa para deixar exposta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quero saber pouco de Inclusão, daquela Inclusão decretada, quero saber mais de empatia, de relação, de boa gente, de gente que mede sensibilidades, que se coloca no papel do outro, bem resolvidas. Gente que sem decretos, sem esgotar palavras de forma regular, refletem, aprendem, constroem e constroem-se mutuamente, que não interpretam uma observação como um ataque pessoal, que não se perdem em conversas sobre pessoas, mas que se perdem em conversas sobre ideias (aquele frase que fica sempre bonita mas que é tão verdade).</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Depois da tempestade, do choque da frase, depois de refletir e de relativizar só podemos, sem qualquer tipo de condescendência, perceber que, em todos os meios e também no meio educativo há gente doente. Há boa gente, muito boa gente, mas com medo, fragilizada, vulnerável, sozinhas, com desafios diários gigantes que lhes exigem ser super-mulheres e super-homens. E quando tudo é demais e com reflexos de exigência e obrigatoriedade, a nossa essência é contaminada e a "Inclusão" um peso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há medidas universais que ainda precisam de muitas medidas adicionais para serem um estado.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:245182019-04-23T08:48:00Aquela casa que é "A casa"2019-04-23T07:48:32Z2019-04-23T07:48:32Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 720px; padding: 10px 10px;" title="barreiros.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G0017d5fd/21428485_c0QcC.jpeg" alt="barreiros.jpg" width="720" height="720" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Já não tenho avós. O avô Augusto foi o avô com o qual vivi, ainda alguns anos, como sendo o único. Faleceu em 2015. O avô "poeta" de olhar doce. Nunca vou esquecer o dia antes de falecer. Ouvi a sua voz ao telefone na véspera de apanhar o autocarro para o ver. Indescritível o que senti quando o ouvi e a mágoa por não ter conseguido vê-lo a tempo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A minha avó Celisa era a matriarca. Os braços que abraçavam toda a aldeia onde vivia. Esta aldeia. Um pilar incontornável para todos. Justa, decidida, forte, mulher de não pedir licença para o trabalho. Uma Padeira de Aljubarrota, uma Joana d'Arc. A aldeia era a minha avó. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A avó Emília e avô Manel (Vupa), avós paternos, faleceram quando eu era mais pequenina. Moravam ao lado de Barreiros, em Vila Nova, numa casa que para mim era no meio da floresta. Na altura queria muito brincar e sei que não passei o tempo que devia com ambos, nem lhes consegui dar o valor que mereciam. Hoje olho para trás e sei, consigo sentir aquele amor incondicional. Era a única neta menina da parte do pai.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"> A minha mãe diz que a avó Emília e o avô Manel eram muito apaixonados um pelo outro e eu acho que sentia isso. Ele era alfaiate e um homem muito bonito. Na foto que tenho dele, quando era novo, gosto de acreditar que tenho semelhanças com ele. Envaidece-me.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A avó Emília era despachada e muito doce. Recordo-me dela a rir, com olhos azuis muito bonitos, figura alta e magra. Defendia-me sempre, sempre. Era a menina. E o meu avô, se a bondade tivesse um rosto, era o avô "Vupa".</span></p>
<p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Os meus pais ficaram com a casa dos meus avós maternos, mesmo no centro da aldeia em Barreiros. Está remodelada mas ainda cheira aos avós.</span><br /><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Esta aldeia, toda Viseu, é também a minha casa. As memórias de infância vêm dali, das casas dos avós, separadas por um quilómetro que fazia ora a pé, ora de bicicleta (mal porque tinha uma subida chata) ora de carro. Os primos que faziam de irmãos, o contacto com os animais, a matança do porco, as galinhas, os coelhos, aquelas coisas PAN – distantes, mas contextualizadas. Tive essa sorte. A menina da cidade que ia à aldeia nas férias e que me ajudou a um maior equilíbrio.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Subi às árvores, caí muitas vezes de bicicleta (irritava-me não saber andar tão bem como os meus primos) fugi dos porcos e levava a burra com o meu avô de Vila Nova a Barreiros e vice versa. Era mais medricas, era. Mas as férias de verão ajudavam a “enrijecer” especialmente a autoestima. O amor da família é daqueles que nos constrói muito. A casa dos meus avós, em Barreiros, por ser mais central, tornava-se, para mim, o centro do mundo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A minha avó obrigava-nos, da maneira mais impossível de negar, a ir à missa ao domingo de manhã. Situação à qual acedíamos para (às vezes) a meio fugir e ir ver o Dragon Ball. Eu sabia que Deus perdoava (embora às vezes tivesse dúvidas e por isso reforçava as orações à noite que repetia sem perceber muito bem o que dizia). A minha avó só cozinhava as coisas que os netos gostavam e não deixava os pais ralharem connosco embora nos chamasse também a atenção, daquela forma que os avós chamam. Era apaziguadoura, doce com os netos, assertiva e mulher de pontos nos “is”. Destemida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O Miguel Esteves Cardoso escreveu numa crónica: <em>“<strong>Os nortenhos são honestos, sinceros, directos, bem humorados e generosos. Não se importam de ser desconcertantes. Dizem o que lhes vai na alma e incitam-nos a fazer como eles, a sermos livres.(...) No Norte são as pessoas do Norte que nos endireitam. Quando comecei uma longa descrição do vinho que eu queria o empregado exasperou-se: "já está a complicar muito, porra! Fique-se com esta garrafa e não me fale mais de vinho".</strong></em> Sem qualquer soberba, ou presunção percebi-o perfeitamente. É o que sinto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Tenho um orgulho enorme quando digo que a minha família é toda de Viseu. Tenho um orgulho enorme na minha família. Herdou (herdámos) valores que prezo. É uma família da verdade, dignidade e do correto. É também aquela que me consegue pôr a rir como mais ninguém.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Lisboa tornou-se a minha cidade. Gosto de ir ao Amélia, ao Choupana. Aos festivais de cinema francês, italiano e o diabo a sete. Gosto de músca indie, alternativa, gosto jazz e sinto-me bem nestes ambientes. Acabaram por ser uma casa, mas não há nada comparado ao sentimento de pertença na casa cheia dos meus avós com muita comida, abraços, histórias, e as descomplicações, o direto e o honesto. O focar no que é realmente importante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Vou poucas vezes à minha outra casa, menos do que gostava, mas é lá que também me endireito e é lá que também foi construído "aquele" pilar que me faz sentir bem no resto.</span></p>
<p> </p>
<p><span style="font-size: 8pt;">PS: Foto tirada este domingo perto de casa dos meus avós agora nossa.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:242522019-04-18T21:54:00O Manicómio em 5 respostas.2019-04-18T21:02:00Z2019-04-18T21:03:37Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 768px; padding: 10px 10px;" title="foto manicómio.JPG" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G9c180350/21424808_bA7h3.jpeg" alt="foto manicómio.JPG" width="768" height="960" /></p>
<p> </p>
<p><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><em>“- Foi a Rosa que me curou.</em></span></p>
<p><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><em>– Pelo amor?</em></span></p>
<div><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><em>– Sim, pelo amor”</em></span></div>
<div> </div>
<p><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><em>(in</em> Documentário “Pára-me de repente o pensamento” de Jorge Pelicano)</span></p>
<p> </p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">“Passeava” pelas redes sociais quando me deparei com um artigo do jornal Público que falava de um “Manicómio”. Prendeu-me, naturalmente, de imediato a atenção. O video que acompanhava este projeto ainda mais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sou particularmente sensível a este tema. A minha vida profissional passa e está ligada à saúde mental e aos desafios constantes que propõe. <strong>Não é um mundo para falsos moralismos, muito menos para certezas e ainda menos para caridade.</strong> É um mundo de constante reflexão, de olhar olhos nos olhos e, de por vezes, bater com a mão na mesa, mas intenso demais para nos permitir fechar os olhos ou virar as costas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Este projeto é obrigatório conhecer. Parabéns aos seus criadores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">1 – Quando li sobre este projeto o primeiro pensamento que tive foi “É o melhor nome de sempre”. É uma metáfora direta, um nome provocador, destemido e desamarrado da expressão “andar com paninhos quentes” para não ferir suscetibilidades. Que manicómio é este?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É isso tudo, é provocador, destemido, irónico, desafiador e é um sitio de liberdade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Onde se contam historias verdadeiras de vida, desafiando a arte, procurando a honestidade e autenticidade. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">2- Quem são as pessoas que “habitam” este Manicómio? Quem eram e quem são?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">São pessoas, depois artistas e no fim com experiência de doença mental.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Alguém que produz arte pela necessidade. Sem conotação social ou económica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A arte é honesta e autentica ( repito estas palavras, porque são a nossa razão de ser )</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É a Claudia e a Anabela, O Pedro e Carlos, o Sandro e o Filipe, o José e a Joana, </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Braulio e o Ze, a Barbara e a Cataria, o Fernando e Joao.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Esta é a equipa Manicómio, somos todos, sem rótulos</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">3 – Há uma frase que me ficou na memória, quando ouvi parte da tua entrevista para o jornal Público, provavelmente pela marca que ficou do início do meu percurso profissional, que é “São 4 anos de dignidade não são 4 anos de folhas A4”. Consideras que ainda vivemos, nesta área, de muitos projectos e caixinhas mentais com limites bem definidos, como numa folha A4?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Completamente, não só na saúde mental ou arte, em praticamente todos os projectos de invocação social ou instituições publicas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O investimento da pessoa, enquanto pessoa, é pouco ou nenhum. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A Pessoa é o mais importante na nossa premissa e visão, no investimento social e artístico, na dignidade, e na igualdade ( ponto fulcral ).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não usamos a pratica da caridade ou ajuda. Acreditamos num ponto de igualdade social, pessoal e laboral.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quando uma marca nos procura para uma “ajuda” nos desafiamos sempre, repito sempre, em intervir nos seus produtos ou suportes que utilizam. De uma forma artística, trabalhos os seus suportes e se a nossa criatividade for coerente para a marca, então ai avançamos com um produto que ambos ganhemos. Só assim faz sentido. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">As folhas A4 são muita das vezes, bafientas, rígidas e controladoras. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">As instituições tem que perceber, que as pessoas que frequentam os seus serviços, não os pertencem. São pessoas livres, que escolhem frequentar aquele serviço. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Por vezes, confunde-se a relação técnicos - doente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">4 – Quais as motivações que te levaram a lançar este projeto. Que sensibilidades existiram e quais os principais desafios que identificas?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Já devia ter sido a bem mais tempo, mas todos os projectos que trabalhamos, ( Contentores, Billboard projecto, Pavilhão 31, Pavilhão 28, Manicómio e muitos mais ) a nossa equipa somos apenas duas pessoas. Eu e o Jose Azevedo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Manicómio era uma grande necessidade nossa. Queríamos criar um espaço, onde se trabalhasse arte com a maior dignidade, honestidade e autenticidade ( la veem estas palavras ). Começamos a trabalhar, e rapidamente tínhamos as condições para abrir este projecto. Inicialmente num espaço apenas nosso, que seria um erro grande.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Pensamos que se estivemos isolados, poderia cair no erro de ser mais um Julio de matos ou miguel bombarda. O isolamento não seria correcto, então, falei com o Fernando Mendes, amigo de longa data, pessoas extremamente sensível e criativa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Falamos e cá estamos. Inseridos no Now - Beato ( não lhe vou chamar cowork ) é bem mais do que isso. É uma família, um espaço em constante mutação, criatividade e respeito. Tem sido brilhante a ligação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">5 – A saúde mental continua, infelizmente, a ocupar um espaço menor na saúde. Os estereótipos e preconceitos ainda estão algo presos “numa folha A4”. O que falta, no teu ponto de vista, construir no nosso percurso educativo para que possamos finalmente trabalhar lado a lado, sem paternalismos ou condescendências com estas pessoas?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Falta muito coisa, como referi em cima, falta olhar para o doente como pessoa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Equilibrar as relações paciente-medico, investir em conceitos de igualdade, promover empregabilidade. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O paternalismos haverá sempre, assim como o estigma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Criar bases as nossas crianças nas escolas, para uma melhor aprendizagem numa doença. ( estamos a trabalhar nisso )</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Linhas de apoio para projectos que possam inovar nestas áreas, onde a experimentação não possa ser penalizada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">E, claro, tratar estas pessoas, como pessoas.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:238432019-04-15T17:33:005 perguntas 5 respostas com o escritor José Riço Direitinho2019-04-15T16:59:20Z2019-04-15T16:59:20Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 708px; padding: 10px 10px;" title="jose riço.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gde18f330/21420567_lQVaC.jpeg" alt="jose riço.jpg" width="708" height="710" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Conheci o José recentemente, através de amigos em comum. É inteligente, empático, bem resolvido e um bom escritor. É da ala dos mal comportados com um discurso bem humorado, acutilante e provocador, algo displicente em relação a si própio e por tudo isto um homem muito interessante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É ler a entrevista.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">(Obrigada Zé)</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>1 – Olá José. Estava aqui a tentar pensar qual seria a melhor pergunta para começar esta entrevista, mas honestamente, aquilo que me ocorre perguntar é: Zé, conta-me a tua história.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">R: A história não é curta, mas vou tentar abreviar. Comecei a escrever ficção ainda na escola secundária. Na altura havia um suplemento literário no Diário de Notícias, o “DN Jovem”, e foi para lá que comecei a mandar histórias, que entretanto eram publicadas. Fi-lo durante anos, até à idade limite do suplemento, os 26 anos. Tempos depois publiquei o primeiro livro, os contos “A Casa do Fim”. Entretanto, tinha feito a licenciatura em Agronomia. Comecei a trabalhar como engenheiro agrónomo, e esse contacto com o campo fez-me continuar a escrever histórias rurais. Seguiu-se o romance “Breviário das Más Inclinações”. E depois vieram outros livros. Pelo meio fui escrevendo em jornais e revistas, desde a Visão, Grande Reportagem, O Independente. Actualmente, faço crítica literária no jornal Público. Depois de vários anos sem publicar, mas não sem escrever, em 2018 foi editado “O Escuro Que Te Ilumina”, um romance erótico suportado pela história de um amor incondicional e que acho ser um “amor feliz”, e que foi muito bem aceite pelos leitores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>2 – Quem te segue nas redes sociais percebe que a imagem tem um peso determinante. Brincas, inclusivamente dizendo, de forma sarcástica, que o “interior e ter saúde é o que interessa”. Esta importância é também um legado da tua história. Como olhas para o conceito beleza?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">R: Isso tem muito a ver, como dizes, com a história da minha vida, e com a importância que damos à imagem. Para as mulheres é ponto assente que a imagem que passam é de grande importância. Mas penso que durante muito tempo os homens não quiseram aceitar, ou sequer pensar, que a imagem deles é também de grande importância para as mulheres, embora muitas delas ainda não o consigam assumir e se refugiem naquela justificação tonta da “beleza interior”. No entanto, passam a vida a actuar e a referirem-se entre elas aos “gajos giros” a propósito de tudo, e a primazia das suas escolhas em termos sociais, sublinho o “sociais”, recai sempre nesses, quer seja para ir beber um copo, um café, para uma noitada, para uma ida à praia, para aparecer socialmente em jantares. Os outros são de segunda linha, ou de segunda escolha (risos), para quando os primeiros mostram não ser assim tão bons como os imaginavam. Note-se que não me refiro aqui a relações amorosas, aí as coisas são diferentes, há outros factores que pesam. Este é um movimento quase inconsciente – os homens fazem obviamente o mesmo mas não têm a pressão social para não o assumirem. Se eu puder sair com uma mulher bonita não saio com uma feia, ponto final. No caso das mulheres, assumir sem mais nem menos o desejo físico – como os homens o fazem – não é ainda uma coisa muito comum, têm a necessidade de o justificar ou disfarçar com outros factores: amizade, inteligência, bondade. Mas todos sabemos que não é isso, que essas são apenas justificações criadas para um certo disfarce. Eu demorei um bocado a perceber isto porque ia acreditando no que me diziam sobre a primazia da “bondade do coração”, enquanto ao mesmo tempo elas se enrolavam com outros gajos mais giros (risos), dando-me justificações sem sentido para não “beberem um copo” comigo. O meu último romance é, assim, também uma espécie de catarse desses anos, uma espécie de tentativa de apaziguamento com a vida e com a minha anterior “ingenuidade” em acreditar no que me diziam. Depois tive que mudar a aparência, e as minhas novas ideias sobre isto confirmaram-se (risos). Era mesmo e apenas um problema de imagem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>3 – O teu recente livro “O escuro que te ilumina” é um dos candidatos ao Prémio Livro do Ano Bertrand 2018. É um livro que trouxe algum “desconforto” e que não foi consensual. O que te deu mais prazer na escrita deste livro? As críticas tiveram algum eco em ti?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">R: Estou habituado à crítica, também a faço no jornal. Lido muito bem com ela, sempre lidei. Acho que o importante quando se publica livros é nunca tirar os pés do chão com os elogios nem nunca cair com as críticas. As opiniões são o que são, e por isso sempre relativas. Muitas vezes têm muito mais a ver com quem as faz do que com o objecto em si. Eu sabia que este livro não iria ser consensual, pelo tema e pela escrita. É um livro “mal-comportado” dentro do panorama da literatura portuguesa actual, que aborda coisas mais escuras, quase secretas, coisas que guardamos nas nossas fantasias, cenas que não se expõem. Mas esse foi um dos motores da minha escrita, iluminá-las um pouco. Não acho, longe disso, que seja um livro pornográfico, para mim é uma bonita história de amor. O desconforto que tenha provocado, sobretudo em alguns homens, e pensando agora nisso, acabo por o entender. O livro põe em causa uma certa ideia de masculinidade. As mulheres gostaram muito mais do livro porque têm muito mais poder de imaginação e de fantasia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>4 – Os “escuros”, os nossos “escuros, são no teu entender o balanço inevitável para o nosso dia-a-dia rotineiro e aquilo que tornam a pessoa mais interessante, mais completa? </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">R: Os nossos “escuros” são os lugares de onde vem a nossa vida. Eles moldam-nos, condicionam ou provocam as nossas acções, a maneira como olhamos para a vida. Esse escuro, muitas vezes sobre a forma de inconsciente, por vezes parece muito mais inteligente do que nós porque nos vai dirigindo, dando sinais da direcção que devemos tomar. Torna-se um problema quando não o conseguimos ler, quando nem sabemos que ele existe. A tarefa da psicanálise, por exemplo, é tornar esse escuro consciente para que possa ser pensado, lido, arrumado. De uma certa maneira, mas obviamente em menor grau, a escrita faz o mesmo. Escrever ficção é também enfiar os dedos nessa matéria escura e trazer alguma coisa para a luz, para que ilumine mais um pouco.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>5 – A literatura faz parte do processo educativo de todos nós. Sendo este um blog em que o tema central é a Educação é inevitável colocar esta questão, uma vez que também foste professor. Como vês a Educação do nosso país? Onde estamos e para onde caminhamos aos teus olhos?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Fui professor durante muito pouco tempo, de matemática e de ciências naturais, acho que era assim que se chamava. Depois também dei aulas, mas a um outro nível, coisas mais científicas, mas a adultos. Ando um pouco afastado dos temas da educação, mas tenho notado em como a escrita, o modo de escrever, se tem deteriorado. Não me refiro apenas a como se escrever mas ao léxico usado. Em pouco mais de vinte anos parece-me que o nosso vocabulário comum diminuiu bastante. Isso nota-se não apenas na vida do dia-a-dia mas também na literatura que se escreve hoje, nos autores mais novos. A escola deveria ter também um importante papel nisso, e só há uma maneira de fazer isso: incentivar muito a leitura, e não apenas de livros mais recentes, mas sobretudo dos clássicos da nossa língua. Acho que esse retorno é imprescindível.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p> </p>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:237542019-04-07T23:31:00A escola educa e/ou ensina?2019-04-07T22:39:03Z2019-04-07T22:39:51Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 1080px; padding: 10px 10px;" title="bicla.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G0118dc84/21412305_twsVU.jpeg" alt="bicla.jpg" width="1080" height="954" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A propósito de um texto de uma amiga minha (que partilho aqui no final deste texto) t</span><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">ive uma discussão/reflexão sobre a dicotomia entre a escola que educa e a escola que ensina. Se há algum tempo atrás considerava que existia uma linha clara de separação entre ambas atualmente acho muito pouco provável ou se não impossível colocar ambas em caixas absolutamente separadas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há atividades que são da escola e não da família? Há. Há atividades que são da família e não da escola? Também. <strong>Mas também há um espaço onde inevitavelmente ambas se tocam e não há nenhum problema com isso.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Um dos projetos mais interessantes implementados nas escolas é o Desporto Escolar. Este projeto permite a todos os alunos a possibilidade de poder experimentar vários tipos de desporto. Modalidades que, em muitas situações, milhares de alunos não poderiam experimentar. Não seria bom serem experiências em família? Sim. Mas se por um lado permitem vivências que poderiam não ter espaço no seio familiar permite, por outro lado, criar o gosto por determinada modalidade e continuar através da família.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Aprender a andar de bicicleta faz parte das memórias infantis de muitas crianças. Eu aprendi a andar de bicicleta com o meu pai. O meu tio tinha-me oferecido uma BMX encarnada e cansava o pai rua abaixo, rua acima. Não foi fácil, ainda tive de usar quatro rodas por algum tempo, até que duas finalmente bastaram. Recordo-me destes momentos e recordo-os em família. <strong>Mas eu tive a sorte de me terem oferecido uma bicicleta, dos meus pais o poderem fazer e de saberem a importância de promover esta aprendizagem e de outras sem ser preciso o empurrão da escola.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Na escola lêem-se histórias e isto não retira os momentos de ler histórias em família, complementa, e em muitos casos promove esta atividade. Recordo-me bem da reciclagem, a escola foi o principal meio de educar para uma utilização mais responsável e trouxe para casa de muitas famílias esta consciencialização.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>A escola é responsável, por inerência, de educar para uma sociedade mais responsável devendo ser cada vez mais um espaço de reflexão e pensamento crítico (tenho dificuldade em pensar a escola num espaço que apenas transmite conhecimentos).</strong> Não pretende, nem deve pretender sobrepor-se a momentos que devem ser de família mas sim a potenciar e a complementar aprendizagens que também são em família.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Numa sociedade que apregoa mais sustentabilidade, uma forma de vida cada vez mais saudável e onde em cada vez mais locais se fomenta a utilização de bicicletas como meio de transporte diário, inclui-la no currículo não nos deverá chocar ou fazer achar que rouba aprendizagens que devem ser no seio familiar. <strong>Por essa ordem de ideias quantas atividades e experiências teria a escola de se negar a fazer diariamente por poderem ser consideradas atividades de família.</strong> E quem traça o limite? Não existe porque há, naturalmente, um espaço comum. Aquele espaço que coloca escola e família de mãos dadas pois são ambas, no seu equilíbrio e complementaridade que educam uma criança.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">(<a href="https://www.publico.pt/2019/03/31/sociedade/opiniao/criancas-bicicletas-escola-liberdade-1867458" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/03/31/sociedade/opiniao/criancas-bicicletas-escola-liberdade-1867458)</a></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:233662019-03-13T23:31:00Mulheres do meu país no cinema, na SIC e na TVI2019-03-13T23:39:35Z2019-03-14T16:59:59Z<p> </p>
<p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="paisfb.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gbe1820b0/21383450_UmTg7.jpeg" alt="paisfb.jpg" width="944" height="492" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A minha professora de EVT – Educação Visual e Tecnológica (na altura em que ainda era só uma disciplina) de 5º e 6ºano dizia-nos com frequência a seguinte frase <em>“A nossa liberdade termina quando a dos outros começa”</em>. A frase intrigava-me sempre. Lembro-me que não conseguia perceber bem o que queria dizer e lembro-me que a devo ter usado, nessa altura, em algumas ocasiões porque soava bem e porque fazia-me parecer mais entendida acerca de tudo em geral.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Demorou algum tempo (não sei precisar) até que ela fizesse sentido. Foi preciso algumas vivências e conversas para que percebesse o seu verdadeiro significado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Recordei-me desta frase a propósito de uma das maiores antíteses que vivi nos útlimos tempos: assistir ao documentário <em>Mulheres do meu pais</em> de Raquel Freire e no domingo ter tropeçado num verdadeiro lixo televisivo, daqueles que de tão boquiaberto que nos encontramos, mal temos forças para carregar noutro botão do comando esquecendo-nos, por momentos, que temos um incontável número de canais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O documentário <em>Mulheres do meu país</em> faz um retrato contado na primeira pessoa sobre várias mulheres que lutaram contra o preconceito e contra uma definição de mulher que tem vindo a ser desconstruída (e bem) ao longo dos anos. Como tive oportunidade de já ter escrito assistir a este documentário é um dever cívico e partilha-lo um ato de cidadania. Está muitíssimo bem feito. Recompõe-nos e atira-nos com uma total dignidade e com um conceito de amor-próprio que se sente na pele. Senti tudo isto talvez por ser mulher pensei, mas não, não é filme só sobre mulheres para mulheres, é um filme sobre liberdade. Uma prisão que termina quando a nossa liberdade começa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">E depois temos a SIC e temos a TVI e temos todo a antítese do que é a liberdade pela qual tanto se luta e se apregoa. Ao mesmo tempo que queremos educar para uma sociedade mais equitativa através da desconstrução de crenças e hábitos ainda enraizados na nossa sociedade em relação à mulher, surgem, em horário nobre, programas que perpetuam o que tanto se tenta repudiar. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Assiste quem quer, é um facto, mas mexeu com a minha liberdade. E só posso desejar e esperar que a única e unânime reação que possa ter é essa mesma, a constatação que mexe, contorce e aperta liberdades.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:230962019-03-05T13:50:00A mulher é para estar onde mesmo?2019-03-05T13:53:11Z2019-03-05T13:53:11Z<p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="Assembleia.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gc2185c2e/21373865_399YZ.jpeg" alt="Assembleia.jpg" width="960" height="835" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><em>"A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar de poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte."</em> Disse Joana Bento Rodrigues num artigo para o Observador.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sem qualquer exagero li o texto na íntegra três vezes na esperança de encontrar o momento em que Joana Bento Rodrigues ia, no meu entender, começar a falar a sério.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Começar por dizer “o que mais me chocou” num texto que a todo o momento só nos deve chocar é estar a ser simpática. Mas no meio de um manancial digno do livro dos anos 50 “A perfeita dona de casa”, chocou-me verdadeiramente o discurso repleto de assunções absolutas num relato quase semelhante ao National Geographic. A autora descreve a mulher como um exemplar único, unilateral, de costumes e rotinas bem definidas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O texto avança com um contínuo de incredulidade (da minha parte) para finalizar com uma opinião relativamente à lei da paridade que implica, por exemplo, a utilização de quotas para facilitar a existência de uma maior representatividade dos “dois géneros” em cargos políticos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Aqui chegamos a um ponto onde conseguimos encontrar algum consenso, não que ache que a Lei da Paridade seja disparatada, mas pela excelente descrição do escritor Nelson Nunos (Público) <em>“(…) tenho as minhas reservas em relação à Lei da Paridade, apenas por achar que pode ser pouco meritória. Mero exemplo: se uma equipa tiver dez mulheres talentosíssimas e dez homens que ficam a dever fortunas à inteligência, temos de despedir cinco mulheres apenas para que os sexos fiquem igualmente representados? Estaremos a abdicar de talento em prol de representividade.”</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Mais preocupante do que este discurso de Joana Bento Rodrigues é o momento em que surge. Não bastava estar com 50 anos de atraso como também evoca a exclusividade de uma única definição de mulher numa atualidade marcada por inúmeras denúncias de violência doméstica na maior parte dos casos contra as mulheres. Não Joana. Não há problema nenhum em a mulher estar em casa, ser só mãe, viver dependente do marido se essa for sua escolha, consciente, assim como não há problema nenhum em a mulher não querer ser mãe, querer ter uma carreira e ser uma mulher independente. Neste nosso reino, quando a decisão é consciente, há espaço para tudo.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Concluo este texto com a contra resposta, também no Observador </span><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">de Ruth Manus. Este sim. Este vale a pena ser partilhado. <em>“Acho realmente inacreditável que haja mulheres que estudam, que trabalham, que votam, que se filiam a partidos, que escrevem em jornais, que podem se divorciar quando quiserem e que, ainda assim, se digam “anti-feministas”. Quem conquistou todos esses direitos para vocês? O Mickey Mouse? Minha querida, se você tem uma carreira consolidada e espaço para se manifestar, você está usufruindo de conquistas feministas. Caso contrário você ainda estaria fritando croquetes em casa.”</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">PS: A foto escolhida não tem qualquer aspiração a nada, nem qualquer tipo de presunção. Nada. É apenas uma óptima imagem do título deste texto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:226042019-02-22T16:10:00Eu também quero dizer o que acho de Conan Osíris2019-02-22T16:13:51Z2019-02-22T16:18:57Z<p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="conan.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gff17c76d/21362341_Zhoog.jpeg" alt="conan.jpg" width="1024" height="682" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>Assim como a Escola é um espaço para todas as crianças, o universo musical, tem de ter espaço para Conan Osíris. Este blog tem.</strong></span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Simpatizei de imediato com o nome da música “Eu adoro bolos”, por razões óbvias para quem me conhece. Já não posso dizer que simpatizei com o estilo. Aliás não era uma questão de simpatizar ou não. Simplesmente não percebia o que estava a acontecer.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Assisti, em modo piloto automático, ao apuramento dos primeiros finalistas para o Festival da canção. Estive verdadeiramente entediada nas primeiras cinco canções, até que apareceu Conan Osiris. Olhei para a televisão com o sobrolho meio carregado a rodar ligeiramente a cabeça (aqueles esgares semelhantes quando numa galeria de arte vemos algo tão abstrato achando que se calhar não estamos a olhar na rotação correta). Fiquei meio sem saber o que dizer, mas a verdade é que quis ouvir mais vezes, por vários motivos: para perceber a letra (qual cubo de Rubik, qual música de Rui Reininho) e para ver o espectáculo cénico. Depois li várias entrevistas. O rapaz deixou-me de facto curiosa.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Conan Osíris é como uma ilusão de óptica, nunca sabemos bem o que estamos a ver e quando o queremos rotular já o rótulo é outro. E eu acho isto fantástico.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Disse, numa das suas entrevistas, que não percebia o conceito “guilty pleasures” verbalizando: <strong><em>“Se eu gosto porque é que tem de ser guilty? Porque não o assumo?”</em>.</strong> Eu bato palmas de pé perante esta afirmação e quase (quase) me apetece dizer publicamente todos os meus “guilty pleasures” (só que não).</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Devo dizer que o rapaz foi uma lufada de ar fresco no meio daquelas músicas tão bem comportadas e iguais. E a letra parece ser mais complexa do que à partida pode fazer crer não fazendo assim do rapaz um<em> bluff</em>. </span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Seinfeld também era um programa sobre nada e sobre tudo do nosso dia-a-dia e foi a melhor série de comédia de sempre. </span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Como dizia a uma amiga minha <strong>“Ele parece aquelas desconstruções da comida típica portuguesa num restaurante gourmet”.</strong> Um misto de António Variações, passando por Paulo Bragança com kizomba e batida electrónica à mistura falando sobre coisas corriqueiras que são momentaneamente elevadas a arte abstrata. Tudo “guilty”, tudo legítimo.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ainda estou meio confusa, mas não ponho na borda do prato.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:223942019-02-12T15:16:001 ano.2019-02-12T15:33:15Z2019-02-12T15:36:00Z<p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="maria luisa 1.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gf9171c1c/21350494_O043R.jpeg" alt="maria luisa 1.jpg" width="614" height="768" /></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Aconteceste e foi muito bom. Uma notícia muito feliz.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A mãe assustou-se um pouco. O pai muito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A mãe não disse nada durante três dias. Estava a pensar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Estava a pensar naquilo que parecia um milagre e que vinha como um tremor de terra, daqueles que abanam o nosso corpo, especialmente a nossa cabeça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O pai foi fazer surf no dia em que soube. O mar sempre foi para ele um amigo. Num determinado sítio mais distante da terra, sempre ajudou a encaixar peças mais devagarinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A mãe ficou na areia a olhar o mar. O sol também ajuda a encaixar peças.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A barriga foi crescendo assim como o coração que ora aumentava ora encolhia. Estava confuso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O pai também. O coração dele andava acelerado e a cabeça também.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A mãe estava bonita diziam. Cabelo forte, pele brilhante, barriga bonita e sorriso gigante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O pai continuava confuso. A mãe estava diferente.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Mexeste pela primeira vez. Era Setembro. A mãe estava sozinha num mês em que o coração estava pequenino. Mas esse dia foi o dia de Setembro em que o coração ficou grande, muito grande. O pai tinha de saber. A mãe gostava de dizer ao pai quando o coração estava muito grande porque ficávamos felizes.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os meses foram passando. Era quase Fevereiro. E tu, estranha criatura (estranha porque não nos conhecíamos ainda) arrancavas muitos sorrisos e algumas noites sem dormir (a barriga já era muito grande).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ainda na barriga sentiste tudo isto e sentiste muitas peripécias. Sentiste o coração ora grande ora pequeno da mãe. Muitas vozes. Muitos silêncios também…</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No final de janeiro começaste a dar sinal.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Dia 11 de Fevereiro a mãe ligou ao pai. O pai era do surf mas também do BTT. O pai arrancou a grande velocidade. Caiu e tudo (está filmado na GoPro) e fomos ao hospital.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ainda não era. “Vai ser no dia de Carnaval” dizia a enfermeira.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E foi.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Houve duas Joanas que te ajudaram a nascer e uma médica, a Graça, com antenas de joaninha (porque era Carnaval) que te tirou.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E tu pequena-estranha-criatura-muito-bonita-desde-o-momento-zero, vinhas de olhos bem abertos com a inevitável expressão esbugalhada “O que é isto?”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Eras uma pequena estranha criatura bonita (estranha porque nos íamos agora finalmente conhecer), muito bonita de cabelo farto e olhos grandes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E começou a aí outra história. O samba de Maria Luísa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O coração que passava de grande a pequeno (mas sempre grande) muitas vezes ao dia, durante vários dias, encontrou uma nova forma.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"> És a Maria Luísa a cabeluda, que já tem um ano. Que faz beicinho quando dizemos “não”, que diz “gato” com uma uma total convicção nas duas sílabas, que não aguenta ver o outros comer e ela não, que mais houvesse e comeria. A que não passa sem a fralda no rosto para dormir, que já dorme a noite toda (graças a Deus!) a que abana o corpo e a cabeça ao som da galinha põe o ovo, a que durante meses foi igual ao velhote do filme UP quando começava a chorar, a que faz as delicias dos avós e a que fez a mãe gostar de cor de rosa e escrever textos como este.</span></p>