urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate Pedimos gomas como resgate A minha visão sobre Educação. As várias visões sobre Educação e todas as suas (e nossas) variáveis. LiveJournal / SAPO Blogs Maria Joana Almeida 2020-09-26T19:54:49Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:33969 2020-09-26T18:49:00 My take 2 2020-09-26T17:53:23Z 2020-09-26T19:54:49Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 768px; padding: 10px 10px;" title="my take 2.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G48181a52/21912051_ShtUz.jpeg" alt="my take 2.jpg" width="768" height="960" /></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>Maria Madalena.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Nasceste no ano das palavras más. 29 de Fevereiro trouxe na sua génese, já atípica, um ano que mostrou ser o pior que poderia haver. Para mim. E para muitos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Foste, és, uma espécie de oásis no meio de um deserto. És aqueles segundos no miradouro depois de um dia difícil. És um pequeno milagre, no que quer que isso queira dizer. Talvez este 29 diga (e dirá) muito sobre ti.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Cresceste num turbilhão de indefinições, de saídas proibidas, de muitas frustrações, de isolamentos, de medos. Mais da casa do que do mundo. Cresces numa espécie de mundo todo ele questionado e questionável. Mal havíamos saído (pouco) do buraco, caímos logo num outro mais profundo e, este sim, sem chão. Que perceção terás? Que imagem tens de uma avó que a vida decidiu trair?</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Tens os cabelos loiros e olhos claros que contrastam com a escuridão de alguns dias. És simultaneamente luz e uma bússola para o amor. Terás nascido para podermos melhor resistir a esta vida. Missão que desconheces.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não conheceste os medos e incertezas de uma primeira vez. De uma primeira filha. Houve menos “ses”. És um refúgio de um ano que quero esquecer e riscar. Um ano de onde apenas quero retirar este 29 do segundo mês e guarda-lo num espaço seguro. Não foste planeada, mas não haveria um mundo sem ti.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">És mais certeza do que dúvidas. É mais fácil contigo mesmo quando é mais difícil. Tudo é relativizado e assente em ti e na tua irmã e nessa evolução, mesmo quando é sempre verão nas manhãs cá de casa porque é como se corressemos a maratona até sairmos. Mesmo quando ao final do dia o tempo parece escapar das mãos porque é sempre curto. Sempre. Mas depois há os beijos, as palavras importantes de amor e construção. As histórias escolhidas à noite de uma biblioteca já grande e recheada. E são estas últimas horas as que fazem o <em>reset</em> para um novo dia alimentado com certezas, com seguranças e a maratona que sabe a vida.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Obrigada Madalena. Amar tanto uma segunda vez e ao mesmo tempo é como nos deitarmos na areia num dia quente, balançar numa rede durante horas, descansar os olhos no miradouro mais bonito. É explodir de amor por dentro quando sorris.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Obrigada.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:33342 2020-09-22T21:50:00 Palavras feitas para voar 2020-09-22T21:34:41Z 2020-09-22T21:37:11Z <p> </p> <p> </p> <p> </p> <p> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Há palavras feitas para voar.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1817185a/21909748_sBdwA.jpeg" alt="Há palavras feitas para voar.jpg" width="960" height="720" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quando após duas sessões, e num momento de reflexão de um texto, uma formanda do Curso de Técnica de Ação Educativa escreve:</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>"<em>A palavra inclusão é utilizada vezes sem conta e, na maior parte das vezes, utilizada para focar o problema e não para fazer alguma coisa que promova essa mesma inclusão. Podemos dizer que há falta de recursos humanos para resolver a situação. As pessoas têm mais o hábito de colocar rótulos perdendo a noção das verdadeiras capacidades de uma criança que tenha alguma limitação. Daquilo que realmente conseguem fazer. É exatamente como diz o texto: Seremos uma sociedade mais justa quando a escola, a empregabilidade, a casa for mais justa. Quem se esforça , quem luta com mais ou menos comprometimento, tem de ser reconhecido. Isto é justiça"</em></strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Encontramos esperança e percebemos o bom caminho.</span></p> <p> </p> <p><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há efetivamente palavras feitas para voar.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:33017 2020-09-15T10:13:00 "A vida é assim" (Escola, vírus e afins) 2020-09-15T09:31:09Z 2020-09-15T09:31:09Z <p style="text-align: justify;"> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 1019px; padding: 10px 10px;" title="sergio godinho.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gab187529/21903239_c8Z9g.jpeg" alt="sergio godinho.jpg" width="1019" height="960" /></p> <p style="text-align: right;"><span style="font-size: 8pt;">"O pequeno livro dos medos" de Sérgio Godinho</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No decorrer de uma reunião de um conselho de turma discutiam-se as normas para o início deste novo ano letivo. Foram quase 60 minutos a discutir por que lado entravam os alunos, quem higienizava as salas, como se higienizava, se ficavam de pé, se ficavam sentados, a que distância, com que distância, tudo milimetricamente escrito e falado. Perante as dúvidas que se iam acumulando, se resultaria de uma forma ou da outra, e do risco de falhar, quando diretamente questionada uma das mentoras da turma, calmamente, respondeu: - <strong>“A vida é assim”</strong>. Não foi um “A vida é assim” equiparado a um “É o país que temos”, “Sabes como é em Portugal” ou “Estavas à espera do quê’’. <strong>Não. Foi um ”A vida é assim” entre o calmo, um ligeiro rasgo de sentido de humor e o sério. Foi acima de tudo uma frase feita que surgiu, naquele contexto, como um calmante, uma espécie de serenidade, um oásis no meio de um deserto, um lugar-comum rico de sentido.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">É exatamente esta a expressão correta. <em>“A vida é assim”</em>. A vida empurra-nos contra a parede, tira-nos o tapete do chão, obriga-nos a que, inesperadamente tenhamos de pensar e agir milimetricamente enquanto 2020 continua a fazer o seu papel de nos manter em banho-maria sem prazo validade.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Este “A vida é assim” foi pronunciado hoje com sabedoria. Foi pronunciado por alguém que calmamente e friamente está à tona e consegue situar-se entre os antípodas. <strong>É que há ainda um longo caminho a percorrer no degradé de cinzento existente entre os arautos da desgraça e os <em>laissez faire</em>.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No arranque deste ano letivo, ainda a escola não abriu, e muitos arautos da desgraça esperam com fervor as suas assunções a materializarem-se num aumento de número de casos. Nestes casos parece haver um certo entusiasmo em encontrar evidências em como todo o plano de contingência é incompetente esquecendo-se de que <strong>nenhum de nós está do outro lado da barricada. Que “os portugueses” na gíria de inúmeros discursos políticos não são uma entidade onde não pertencemos.</strong> Existe também quem, genuinamente, esteja preocupado receando o pior e, também, milimetricamente encaixe a sua vida num quadrado de desinfectante, luvas, máscara e viseira minimizando o espaço possível para qualquer erro. Há quem vista o fato do imortal achando que o vírus a si não lhe assiste como se este contornasse os ”campeões”. E por fim aqueles que assumem e regem-se pelos cinzentos desta vida (desta vida que é assim) e que respeitam o que vivemos, que conhecem os cuidados básicos<strong> fazendo uso de uma cidadania plena sem objetores de consciência.</strong> Aqueles que sabem que nada pode ser controlado a régua e esquadro e que nas consequências os bodes expiatórios não são só outros. <strong>No espetro de cinzentos há quem não fuja das responsabilidades e não se coloque no alto do muro a criticar quem faz e não faz, enquanto de soslaio atira uma máscara para o chão.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tenho uma objecção de consciência muito pessoal nos espaços onde impera o histerismo COVID, não porque não respeite o seu impacto. Respeito. Mas porque este novo vírus não nos deve fazer esquecer outras doenças que matam, que matam mais, de forma mais devastadora. O pânico,o medo, em parte legítimo, pelo seu desconhecimento, não poderá toldar tudo o resto. Houve tempos desperdiçados que poderiam ter sido valiosos. E este é também um facto não menos importante.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não voltar à escola presencial no início deste ano letivo seria assumir que nada é pior do que este vírus, que tudo poderá ser substituído online e que todos serão uns incompetentes na operacionalização das medidas. Não voltar porque não há vacina é querer viver uma vida com livro de instruções como se vivêssemos num gigante laboratório com variáveis intocáveis.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Na era das objecções de consciência e da loucura fundamentalista instalada, sentimo-nos reféns de notícias inflamadas, opiniões irracionais e estados de alma “legitimamente” alterados.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os casos irão certamente aumentar, não só propriamente pelo início do ano letivo, mas pela aproximação de condições climatéricas que acentuarão sintomas. Nessa altura os arautos da desgraça dissimulados continuarão a dobrar risos. Risos disfarçados de preocupações com dedo em riste para de imediato lançar culpas (mesmo que desdenhe dos cuidados básicos) a outros bodes expiatórios (os habituais). <strong>Serão perigosos porque levarão consigo alguma multidão. Esperemos, acima de tudo, que o desespero não nos atire para doenças, aí sim incuráveis, e certidões de óbito de valores e direitos adquiridos. Pouca gente se rirá depois. E teremos saudades dos inofensivos tempos da Covid.</strong></span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:32278 2020-09-05T23:56:00 40 anos de Fátima e Zeca 2020-09-05T23:00:15Z 2020-09-05T23:02:52Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Apresentação1.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ga51720b5/21896778_KzYbM.jpeg" alt="Apresentação1.jpg" width="960" height="720" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Ela tinha cabelo escuro, comprido e um brilhozinho nos olhos, daqueles de Sérgio Godinho. Eram verdes e honestos. Arrebatadores. Era bonita. Muito mesmo. Ainda é.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Ele tinha olhos azuis, meigos, pueris. Era magro, correto, tímido, cativante. Ainda é.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Ela viveu o 25 e Abril de 1974 nas ruas de Lisboa. Encantada, perspicaz, bonita, jovem, mas de raízes. Ainda hoje faço perguntas sobre esse dia. Ele estava no Norte, no interior, não o viveu, não o percebeu de imediato. Quase ninguém o percebeu ali.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sempre se conheceram, desde sempre. A minha mãe e o meu pai. Ele sempre fora apaixonado por ela. Como não ser..</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Reencontraram-se em Lisboa, namoraram, casaram, nasci.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A Fátima e o Zeca, os meus pais, são de uma geração de trabalho, de não estarem parados, de não se queixarem. Lembro-me da minha mãe dizer, entre o jocoso e o sério: “Parece que há agora uma coisa que se chama depressão pós-parto. Eu lá tive tempo de ter uma depressão? Fui logo trabalhar” A minha mãe di-lo com a convicção de quem iria de imediato socorrer alguém que dela padecesse e de si precisasse.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A minha mãe e o meu pai sempre se moveram como um só. Sempre tiveram ambos um brilhozinho nos olhos entre eles, para mim e para o mundo. São de princípios, de valores, corretos, de família, de amigos. Nada a ninguém faltará enquanto estiverem por perto.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Os meus pais fazem hoje 40 anos de casados. Terão todos os ingredientes de um casamento de 40 anos. Os bons, os menos bons. Sempre amassaram a massa necessária para resultar. Nunca foi opção à primeira contrariedade desistirem, não por serem de uma determinada de época, mas por serem a Fátima e o Zeca. Sempre lado a lado no caminho. Sempre o “nós” em detrimento do “eu”. Com as suas cedências e exigências. Correu bem. Correu muito bem. Os frutos estão à vista.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Foram (são) 40 anos preenchidos com os outros e para os outros. Com o amor sempre visível. Não me lembro de um fim-de-semana sem família ou amigos em casa. Sem um almoço ou um jantar, sem praia no Verão, sem histórias contadas na cadeira de verga na sala, sem chocolates Jubileu, sem risos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A casa dos meus pais. A de cá e a de Viseu, sempre foram (e são) como um abraço quente, reconfortante. São uma “casa”. Daquelas em que calçamos sempre pantufas mesmo quando entramos de salto alto. E aquela de onde nunca queremos sair e desejamos sempre voltar.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">São amados, muito amados e são também inspiradores. São como se conta na igreja, no dia em que se casam. Até ao fim. Mas eles serão, para sempre, depois de qualquer fim.</span></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:31816 2020-08-31T21:43:00 Esta casa é uma oficina de corações. 2020-08-31T20:46:04Z 2020-08-31T20:46:04Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 720px; padding: 10px 10px;" title="terraço barreiros.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gd618efef/21893007_KyYRC.jpeg" alt="terraço barreiros.jpg" width="720" height="540" /></p> <div class="kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"> <div dir="auto" style="text-align: justify;"> </div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há um livro para cri</span><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">anças que se chama "Oficina de Corações" e que conta a história de Matias que remendava corações na sua oficina.</span></div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"> </div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há casas que são muitos corações e que, simultaneamente, remendam corações. Corações vazios que passam a cheios, corações partidos que se reconstroem, corações remediados, mas acima de tudo feitas de corações de fibra boa, que habitam gente boa.</span></div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"> </div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há casas que são como um abraço, que nos aquecem mal entramos, que preenchem corações. Esta casa é assim.</span></div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A casa que engorda, que serena, que não se zanga, que dá e que recebe, uma casa impossível de estar vazia ou demasiado cheia.</span></div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A casa dos que foram, dos que estão, dos que virão. A casa de corações cheios, feita de pedaços de histórias, memórias de uma família. Uma família de gente de fibra boa. Gente que constrói.</span></div> <div dir="auto" style="text-align: justify;"> </div> </div> <div class="o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q"> <div dir="auto" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É a casa. É minha também. Desde que nasci.</span></div> </div> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:31473 2020-08-14T00:12:00 “Os estudos indicam que…” 2020-08-13T23:15:34Z 2020-08-14T08:17:23Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 640px; padding: 10px 10px;" title="miguelito.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G85175c88/21880088_CDz8t.jpeg" alt="miguelito.jpg" width="640" height="705" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não há assunto que não tenha sido submetido a um estudo, quer real ou imaginário, quer pessoal ou coletivo. Os estudos estão em todo o lado e absolutamente endeusados.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A expressão <em>“Os estudos indicam que”</em> fazem, recorrentemente, parte do léxico dos ambientes informativos e podem ter tanto de científico como de entediante e bacoco. A sua utilização massiva permite, também, enviesar ideias e fundamentar todos os argumentos. Para cada argumento haverá, com toda a certeza, um estudo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Fica bem e mais completo, em qualquer discurso, dizer: <em>“Os estudos indicam que”</em> independentemente da fonte, do autor, do ano de publicação, do contexto. Tudo deuses menores perante a magnitude de deter verbalmente “ um estudo”. Um estudo é uma carta na manga, um passe vip para a obtenção de credulidade e de continência, Dependendo de quem o usa fica no mesmo patamar das <em>miss</em> que querem paz no mundo e das pessoas que apregoam <em>“Porque eu sou uma pessoa que...”</em>. É frequentemente esquecido que é preciso estudar o estudo para o envergar.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>“Os estudos indicam que”</em> é uma frase perigosa porque tanto é usada pelos preguiçosos e impostores como pelos que estudam. Pelos que se informam de facto. E por detrás de muita assertividade e segurança residem perigosos chacais que se alimentam da ignorância alheia.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Seria importante começar a diferenciar os estudos da vida e os estudos científicos. Não que os estudos da vida não possam ser corretos, mas serão sempre pessoais e intransmissíveis.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os estudos sérios indicarão, com certeza, que há estudos imaginários que corrompem as opiniões, que corrompem a sociedade.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:31224 2020-07-31T03:00:00 Para os meus tios. (Para os irmãos) 2020-07-31T02:05:34Z 2020-07-31T02:07:09Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 774px; padding: 10px 10px;" title="casa.jpeg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G82175d27/21870424_5veM0.jpeg" alt="casa.jpeg" width="774" height="581" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não tive irmãos, mas tenho duas filhas. Tenho muitos tios e primos e são a minha irmandade.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Vivo o amor de irmãos pela observação da minha mãe com os meus tios e é avassalador, é muito bonito, é muito reconfortante.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A minha mãe é a mais velha, é a Matriarca, e está muito doente. No dia da notícia que nos fez partir em cacos senti esse amor de irmãos, da dor instalada e vivida como se todos estivessem ligados por um único fio, um único cordão. Vi-os a ir ao chão, a dor a rasgar o peito. Vi o amor, um amor especial, daquele veio do mesmo sítio e marcado pelas histórias antigas e partilhadas. Não há cumplicidade igual. São seis e funcionam como se fossem um. A dor de um é a dor de todos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Talvez isto não seja sempre assim e não serão todos assim, mas estes irmãos, os meus tios, pertencem aquela fibra de gente boa, gente muito boa que é emotiva, que constrói, que faz acontecer e que sabe amar profundamente.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Depois dos cacos espalhados em compartimentos de dor que não conhecíamos, recusaram (recusámos) a ir de novo ao chão. Instalamos a dor e seguimos, num processo de construção, numa caminhada onde a força visceral e o sentido de humor são o antídoto mais valioso, mais curativo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Há alguma distância geográfica que nos separa, mas que não tem dimensão suficiente para os irmãos. Um por um, dois a dois todos estão presentes, todos mostram o amor, todos se encontram nesta ligação umbilical.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Algumas doenças ganham sempre. Algumas são infelizmente de desfecho solitário, outras são rodeadas de afeto e outras são preenchidas por constantes fintas aos desfechos, por constantes provas de amor, por constantes presenças, por lutas, por constante construção. E a mãe será sempre uma privilegiada pelos irmãos que tem, pela família que cresceu à sua volta, a de sangue a que se tornou, também, família. Por sentir um amor de cinco irmãos extraordinários que, em nenhum momento, baixam quaisquer braços.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Enquanto filha, enquanto sobrinha, enquanto prima, sei a sorte que a minha mãe tem e que eu tenho por sentir esse amor.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">São a casa, esta casa</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:30831 2020-07-13T23:22:00 Lista para enfrentar o mundo 2020-07-13T22:26:11Z 2020-07-13T22:33:32Z <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 1080px; padding: 10px 10px;" title="lista.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G8d185688/21858966_3aDKW.jpeg" alt="lista.jpg" width="1080" height="937" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">As listas para enfrentar o mundo não se vendem e não têm idade. Há ursos de peluche, e tudo o que representam, até ao final da nossa vida.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">As listas para enfrentar o mundo podem variar consoante a dor. Há dores avaliadas de zero a dez. Há dores que rebentam a escala dos 10. E nessas dores, as listas, às vezes, ficam temporariamente vazias.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Depois da dor instalada há pontos que começam a surgir. Mesmo que saibamos que ainda há mais dor para além da escala. Que há mais dor para além do insuportável. Na lista, depois dos cacos mal amanhados, mal colados, começam a surgir pequenas construções. Dessas construções nascem novas realidades. Uma espécie de mundo paralelo, de pequenos planetas emocionais. A dor está lá. É grande e constante, como se fosse um abraço frio de que nunca nos livramos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando escolhemos agarrar nos cacos da vida queremos colá-los e colocá-los o mais próximo do que foram, numa espécie de novo palco. Escolhemos pegar na cadeira de rodas, rir, trocar as voltas à vida, fintar a morte, mesmo sentindo a antítese interna.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">As listas para enfrentar o mundo não são mais do que fintas à vida. Não são mais do que breves substitutos até equilibramos as novas formas dos cacos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">As listas para enfrentar o mundo são feitas de resiliência, de medo, de desnorte, de dor, de força, de pernas bambas, de amor, de saudade. São feitas de lugares de afeto, de doces, de vislumbres, de visões. São um sítio, uma pessoa, várias pessoas. São uma série, o trabalho, os filhos. São uma crença, uma ideia, um telefonema, um mergulho no mar, uma piada, uma gargalhada conjunta, um palavrão, um grito. São os ursos de peluche e os donuts desta vida.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">São a nossa salvação.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:30637 2020-07-09T23:00:00 Inclusão "by the book" 2020-07-09T22:02:42Z 2020-07-09T22:02:42Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida_imagem_destaque.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G9017e984/21856447_NsaSV.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida_imagem_destaque.jpg" width="820" height="573" /></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"Há uma cena particularmente interessante no filme Good Will Hunting (O Bom Rebelde) de 1998, quando Robin Williams, enquanto psicólogo, interpela Matt Damon relativamente aos seus vastos conhecimentos aprendidos exclusivamente através dos livros, dizendo qualquer coisa como isto: “Se eu te perguntar por Michelangelo conseguirás dizer-me tudo sobre a sua obra, aspirações, posicionamento político, mas aposto que não me consegues falar do cheiro da capela sistina, nunca lá estiveste e nunca olhaste para aquele teto de cortar a respiração.”</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">As vivências e a sensibilidade não são ensinadas ou aprendidas “by the book”, é por isso que a utilização, apenas, do universo digital não é suficiente nem substituível do toque, da relação, da emoção presencial.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Esta é uma metáfora interessante para a frase: A Inclusão não se decreta.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É verdade que existe um Manual para a Inclusão que funciona num sistema dúbio. Aquilo que foi construído com o pressuposto de disponibilizar sugestões e orientações, é inúmeras vezes confundido com uma bíblia e utilizado de forma mais fervorosa do que o mais devoto crente. É muitas vezes seguido à risca relembrando por vezes os célebres jogos de encaixe na primeira infância e dos erros constantes até desenvolvermos a destreza manual e motora para dominar essa arte. Cada medida é encaixada num relatório servindo o texto escrito para “curar” o aluno, como se de um molde se tratasse. E por estar escrito, parece estar, por si só, a acontecer.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Após a leitura do Manual ficamos aptos a conhecer metodologias, medidas universais medidas seletivas, medidas adicionais. Somos capazes, num instante, de realizar uma pequena lista do que vou fazer com determinado aluno e de passar o ano a colocar vistos e cruzinhas num papel que tanto pode ser da Maria como do Manuel, porque ambos têm exatamente as mesmas medidas. Esquecem-se, os mais fervorosos do “livro”, que ambos não têm as mesmas vivências, o mesmo background, nem o mesmo objetivo. E ainda que exista um diagnóstico igual que lhes permite a seleção para tais medidas, a Maria não é o Manuel, nem o Manuel é Maria e nem um diagnóstico um fim.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Às vezes o aluno não precisa de ter mais tempo para acabar o teste, ou de fazer o teste em sala à parte, mas se calhar precisa de um sinal de pertença e de afeto do professor que se pode traduzir numa simples conversa sobre as angústias, os medos, os sonhos. Talvez precise de esquecer aquele teste e elaborar um trabalho, ou pelo contrário (porque isto é também sinal de afeto), de colocar os pontos nos “is”, ser assertivo, às vezes deixar cair e chamar à responsabilidade com a mensagem subentendida de que eu interesso-me por ti e conheço o teu valor, independentemente de qualquer diagnóstico escrito. Ainda que estas conversas não venham expressamente explícitas no Manual, elas devem residir no nosso âmago e ser parte do nosso profissionalismo. Cada professor terá o seu manual de inclusão interno que se traduz em gestos, ações e palavras e, arrisco dizer, que aqueles que menos usam a palavra inclusão ou o Manual, em prol de olhar mais para os seus alunos, estão, seguramente, mais comprometidos com a sua profissão.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Agir “by the book”perante a Educação ou perante qualquer aspeto da vida é assumir que existe um livro de instruções no nosso caminho e que tudo se resume a uma simples dicotomia de cores: preto e branco. A razão não está nos acérrimos defensores de algo a que chamam Inclusão (que os cega da verdade e da razão esgotando o tema numa lógica simples de obrigação, esquecendo as particularidades de cada um) nem nos acérrimos defensores da separação de determinados alunos pelas suas caraterísticas e apologistas dos rakings. Ambas posições são prenúncios de ditaduras. As leituras enviesadas e unilaterais que vêm de modas, de assimilação de informações pouco claras e de experiências muito pessoais toldam a empatia e a opinião. Estas atitudes prejudicam recorrentemente um trabalho que não pode ser olhado de uma forma geral, mas sim, através de um respeito muito individual e particular que permita a qualquer aluno um caminho que lhe faça sentido.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">As capelas sistinas desta vida só ganham sentido e existem na sua plenitude quando são vividas e quando têm a capacidade de nos emocionar porque permitem a capacidade de sentir e não apenas de carimbar um qualquer passaporte. As vidas dos alunos não podem ser regidas por listas de medidas em relatórios. Merecem que cada palavra escrita sobre si tenha em conta, mais do que o que está expresso num Manual, uma história, um objetivo, um caminho individual, que deve ser, por todos, ampliado."</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">in Público 03-07-2020</span></em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:30106 2020-06-16T17:16:00 5 perguntas, 5 respostas com André Góis 2020-06-16T17:34:27Z 2020-06-16T19:15:24Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 1280px; padding: 10px 10px;" title="andregois_hires.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G0717cadf/21837696_nWMc5.jpeg" alt="andregois_hires.jpg" width="1280" height="898" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O André faz parte do meu círculo de amigos. É pai, político, web developer, músico e um pensador. É parte integrante daqueles que sabem identificar os problemas da nossa sociedade de forma sensata, fundamentada, argumentativa e sem soberba. Dos que não se deixa levar pela rama e deseja ir à raiz do problema. E, principalmente, dos que “sai do sofá” e quer fazer parte da solução tendo um papel ativo e responsável nos vários palcos da sua vida.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Obrigada André por esta entrevista.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <ol style="text-align: justify;"> <li><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> André, és Web Developer, poderia fazer uma pesquisa para perceber mais exatamente aquilo que fazes mas é sempre mais seguro e eficaz perguntar-te diretamente. O que é um Web developer?</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">“Web developer” é o nome que se dá a um tipo específico de programador que se especializa em desenvolver software para a <em>World Wide Web</em>, que por sua vez é tudo aquilo que pode ser acedido na internet através de um endereço. Principalmente <em>sites</em>, mas não só.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">As pessoas estão mais habituadas à expressão <em>Web designer</em>, que é quem trabalha o desenho gráfico e organização de um site, o <em>Web developer</em>, de uma forma muito simplificada é quem desenvolve as funcionalidades e torna o <em>site</em> interactivo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No início da internet um <em>site</em> era pouco mais que uma coleção de documentos ligados entre si. Tinham texto, imagens, alguns detalhes interactivos e depois links para outros documentos, e por aí em diante. Nos últimos anos aquilo a que se chama um <em>site</em> transformou-se numa coisa progressivamente mais sofisticada, tanto que a fronteira entre o software que corremos dentro browser ou fora dele se desvaneceu. É cada vez mais a normal usar o browser como o principal meio para interagir com os nossos dispositivos. Recebemos e enviamos emails, usamos processadores de texto, folhas de cálculo, editamos imagens, vemos filmes, ouvimos música, fazemos compras, comunicamos uns com os outros, etc, tudo em <em>sites</em>. O trabalho de um <em>Web developer</em> é desenvolver estas ferramentas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> </strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <ol style="text-align: justify;" start="2"> <li><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> A tua ferramenta de trabalho é o computador, o que te permite uma maior mobilidade não havendo uma obrigatoriedade de posto fixo. Encontras alguma desvantagem nesta possibilidade?</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Essa é uma pergunta que tem uma resposta chata, que é “depende”. </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Na minha profissão, trabalhar remotamente é perfeitamente possível e é uma coisa que já fazia com alguma regularidade antes do confinamento. Ao contrário de muitas pessoas não foi uma coisa que tivesse que aprender a fazer ou que exigisse adaptação. Para trabalhar só preciso de um computador e de ligação à internet. Isso permite tanto estar num escritório, como em casa, numa biblioteca, num café, etc.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Isso traz alguma autonomia e liberdade para organizar o meu dia. É particularmente útil com crianças pequenas. Há ocasiões e fases de projectos em que ainda é útil (e saudável) estar com os meus colegas, mas muitas vezes as pessoas deslocam-se diariamente de casa para o trabalho e do trabalho para casa, com custos muito elevados (de tempo, financeiros, emocionais e até ambientais) sem que isso traga propriamente alguma vantagem. No fundo é um bocado olhar para o trabalho como uma coisa que se faz e não como um sítio para onde se vai. Quando desligamos esses dois sentidos da palavra “trabalho” conseguimos por exemplo, e tenho períodos em que isso acontece comigo, viver e trabalhar em regiões ou países diferentes.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No entanto isto não quer dizer que seja sempre possível ou desejável trabalhar remotamente. Obviamente a natureza de muitas profissões não é de todo compatível com teletrabalho, mas mesmo quando é não é líquido que seja sempre uma coisa positiva.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O maior perigo é mesmo a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo para todas as outras áreas da vida se esvanecer. Isto pode partir da própria pessoa, seja por necessidade ou dificuldade em separar as coisas, mas também pode nascer de pressão externa. Uma relação laboral desequilibrada é uma relação laboral desequilibrada, seja dentro do mesmo edifício ou não, e trabalhar de casa pode criar a expectativa por parte do empregador de existir uma disponibilidade total e constante. </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os smartphones, chats, emails, etc, já criam um ambiente em que estamos sempre ligados, adicionando a isso o estarmos sempre potencialmente “no escritório” pode-nos fazer regredir e não avançar na nossa relação com o trabalho. Há países onde o “direito a desligar” já é levado muito a sério e acho que, tendo em conta que parece haver um movimento de várias empresas para uma maior aceitação do teletrabalho (provocado muito por esta experiência forçada do confinamento) é preciso garantir que esse movimento é positivo e nos leva enquanto comunidade para um sítio melhor.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <ol style="text-align: justify;" start="3"> <li><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> Para além da tua profissão, e de outros papéis que desempenhas, és pai. Existe um debate, que não é recente, no que diz respeito à utilização de determinadas tecnologias na escola, nomeadamente a utilização do telemóvel. Os argumentos vão desde à proibição total pelo lado menos positivo que a utilização deste dispositivo pode ter, até à possibilidade do uso do telemóvel como parte integrante de uma aula. Na tua opinião este é um debate que te faz eco na sociedade tecnológica em que vivemos?</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Bem, primeiro é preciso desmontar a ideia de “novas tecnologias”. Muito daquilo a que nos referimos já não é propriamente novo. Muitas destas tecnologias já têm décadas. Alguém que tenha 20 anos agora já não conheceu o mundo sem o digital. E mais que isso, acho que o estado eterno de “novidade” contribui para se continuar a olhar para estas coisas como externas ao “mundo real”, quando no fundo são uma parte muito relevante da nossa realidade e têm que ser vistas como tal. Aqui a escola, como algo que nos dá as ferramentas para ler e interpretar o mundo, tem um papel fundamental na unificação destas “realidades”.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Por exemplo, há 10 anos ainda era raro estar ligado à internet na rua, agora assume-se que, por omissão, estamos todos sempre “online” e isto será cada vez mais verdade. Os dispositivos fazem parte da nossa vida, ter um contato progressivo com eles e aprender a usá-los é essencial. E aprender a usá-los não é só aquilo a que se chama normalmente “literacia digital”.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Existe esse primeiro nível básico que a tem a ver com conhecer as ferramentas e saber usá-las numa perspectiva operativa (usar um processador de texto, folha de cálculos, o e-mail, etc), mas existe um outro nível cada vez mais importante que é saber gerir a nossa vida digital. A nossa interação com os outros, mas também com as instituições, seja o estado, um banco, a comunicação social, etc, é feita cada vez mais online (se não for já exclusivamente online) e muitos de nós temos um entendimento muito limitado sobre como flui a informação na internet ou sobre como a podemos aproveitar da melhor forma, ou por outro lado como nos podemos salvaguardar das várias ameaças que existem.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Da mesma forma que ensinamos os nossos filhos a andar na rua, a não falar com estranhos, a olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada, também há muito a aprender sobre a nossa presença digital. Saber proteger a nossa privacidade e os nossos dados, saber verificar as fontes de notícias que recebemos antes de as reproduzir nas redes, saber lidar com cyberbullying, saber perceber que a internet é uma nova forma de espaço público e que muito daquilo que fazemos online é potencialmente visível (e registado) por terceiros, etc.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E atenção que não estou a falar de um conhecimento técnico profundo. Por exemplo, não sou partidário de uma corrente que acha que temos que ensinar programação a todas as crianças, não faz sentido. Usando uma metáfora, não temos todos que ser mecânicos para sabermos usar um automóvel de uma forma eficaz, segura e responsável. Nesse sentido parece-me quase absurdo pensar em banir os dispositivos das escolas.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Sei que muitas das preocupações dos pais e professores têm a ver com os dispositivos serem fontes de distração e portais para fora do espaço da escola. Acho que aqui depende muito da idade dos alunos, é obviamente preciso adaptar. No entanto é preciso deixar claro que usar dispositivos nas aulas não quer dizer necessariamente que tenham que ser, ou até que devam ser, os dispositivos pessoais dos miúdos. Aliás, é preciso não esquecer que o acesso a estas “novas tecnologias” é ainda muito desigual. Cerca de um quarto das famílias não têm acesso à internet, portanto quando falamos em usar dispositivos na escola temos que ter em atenção que é preciso garantir que não fica ninguém para trás e que estaremos a diminuir o fosso e não a aumentá-lo.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Por fim, e ainda relacionado com a desigualdade, acho que o digital na escola tem um potencial ainda timidamente explorado para a partilha de conteúdos e materiais de apoio às aulas, ou até de aulas propriamente ditas (como tem acontecido com a telescola, por exemplo). As escolas não são todas iguais, não estão em regiões iguais, não têm bibliotecas iguais e não têm os mesmos recursos disponíveis. Uma das principais vantagens do digital é que assim que um recurso é criado é possível reproduzi-lo infinitamente com custos muito baixos. Fazendo talvez um pouco o paralelo com o tema do teletrabalho, que uma das vantagens que tem é não fazer depender o acesso ao trabalho do sítio em que vivemos, acho que também o digital pode ter um efeito paralelo nas escolas.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <ol style="text-align: justify;" start="4"> <li><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> As circunstâncias atuais inesperadas colocaram–nos, maioritariamente em <em>time in</em>, colocando a própria escola em teletrabalho. O mundo continuou de forma não presencial o que nos pode levar a repensar toda uma dinâmica e percepção de “trabalho”. Quais os principais desafios nesta eventual mudança de paradigma laboral?</strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">É importante não esquecer que o teletrabalho continua a ser trabalho. O sítio onde se trabalha é só um dos aspectos. O trabalho continua a ter problemas muito antigos e a tecnologia aqui pode trazer algumas oportunidades, mas também pode trazer (e já traz) problemas e desafios. Continuamos a trabalhar horas a mais, o nível dos salários em Portugal continua muito baixo, ainda não invertemos o sentido da precarização do trabalho, aliás aqui a tecnologia também tem tido um papel negativo ao criar aquilo a que se chama “gig economy”, que é um nome novo para um desses problemas antigos que referi. Estes continuam a ser os pontos onde é necessário falar de “mudança de paradigma laboral”. Se não existe previsibilidade na relação com o trabalho, ou se não temos rendimentos suficientes para assegurar o essencial nossa vida, o local onde se trabalha passa para um plano secundário. </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Relativamente ao teletrabalho em particular já falei em cima do problema do “direito a desligar”, acho que esse é um dos desafios, e é algo com que já temos que lidar há algum tempo, mas há mais desafios.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Outro desafio está relacionado com os custos do espaço e do equipamento necessário para trabalhar. Um trabalhador por conta de outrem quando se desloca para o escritório da empresa não é esperado que leve o próprio computador, ou que leve a cadeira onde se vai sentar. Em teletrabalho as coisas podem não ser tão claras. Há o perigo do esvanecimento da fronteira entre o trabalhador por conta de outrem e o profissional liberal, o que cria um desequilíbrio de responsabilidade e de encargos entre o trabalhador e o empregador.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Depois, e partindo do princípio que existe uma relação de trabalho saudável e justa, existem desafios mais operativos com o teletrabalho. Trabalhar sozinho e estar ao mesmo tempo integrado numa equipa exige organização e processos adaptados a essa realidade. Diria mesmo que o mais difícil não é o trabalho remoto, é a colaboração remota que é um desafio. É preciso comunicar com as outras pessoas de uma forma eficiente, é preciso planear e é preciso ter uma forma simples de acompanhar o progresso da equipa. Acho que não é por acaso que a minha área [a programação] está tão bem adaptada a esta realidade. Por um lado ajuda muito ter destreza na utilização das ferramentas digitais. Por outro lado a natureza sistemática do trabalho do programador faz com que seja possível dividir os projectos em partes muito pequenas, o que por sua vez permite planear cada semana e cada dia com alguma precisão. Isso também torna mais fácil dividir o trabalho pelas equipas e permite a autonomia de cada um durante grandes períodos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Para terminar acho que é importante dizer que a escolha entre usar ou não o teletrabalho não tem que ser uma escolha binária. Existem várias configurações possíveis, como estar fora alguns dias da semana, meio dia, ou alternar por temporadas. Isso pode permitir usufruir de algumas vantagens do trabalho remoto mitigando as desvantagens.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não acho que o teletrabalho possa configurar propriamente um novo paradigma. Tenho visto reacções que vão da euforia à exasperação, e como acontece normalmente a realidade estará algures no meio. É mais uma ferramenta que é bom que esteja à disposição de quem quer ou precisa, mas sempre sem esquecer que o trabalho tem outros desafios. E é especialmente importante não substituir um dogma por outro dogma.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <ol style="text-align: justify;" start="5"> <li><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong> Na tua perspetiva, olhando para as várias dimensões que ocupas, e para o debate em torno das novas tecnologias, como é que encaras a Educação no nosso País? O que precisa a nossa Escola para responder aos desafios atuais e para onde caminhamos? </strong></span></li> </ol> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tentando resumir numa frase, acho que a escola de que precisamos é precisamente uma que abrace a ideia de que não sabemos para onde caminhamos.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A minha passagem pela escola, e não vejo ainda diferenças substanciais na escola das minhas filhas, foi baseada em duas ideias principais. Uma é uma ideia de previsibilidade do futuro, de que existe uma sequência linear de etapas para superar, e que se forem superadas sem grandes percalços o futuro está garantido. A outra é uma ideia de uniformização, que resulta de uma mentalidade industrial, que é obcecada em transformar tudo em indicadores aferíveis, comparáveis e reproduzíveis, mas que deixa pouco espaço para a diversidade de interesses, diversidade de competências e diversidade de percursos. </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Em relação à ideia de previsibilidade parece-me claro que se há coisa com que podemos contar é com a imprevisibilidade do futuro. Não é possível saber que competências técnicas serão importantes daqui a 20 anos. Cada vez mais profissões são automatizadas ou mudam radicalmente de natureza à medida que o tempo passa, e tudo indica que isso continuará a acontecer mais e mais depressa. Nesse sentido parece-me anacrónico insistir num modelo de ensino baseado em ciclos de memorização/avaliação que vão sucessivamente afunilando com vista a uma especialização qualquer que não sabemos sequer se vai existir. Na minha opinião é preciso desenvolver competências mais transversais, dar ferramentas para ler a realidade, para a interpretar, e para a alterar. É preciso estimular a curiosidade, promover a criatividade e isso consegue-se não estigmatizando o erro. Na minha experiência a única forma de inovar é já ter experimentado e errado vezes suficientes até se encontrar qualquer coisa nova. A única forma de não errar é repetir só o que já se conhece.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Sobre a ideia de uniformização, a forma como o sistema está desenhado assemelha-se uma escada, como vários degraus e patamares, em que no topo está o curso superior. É uma forma redutora e perigosa de olhar para o potencial de cada um de nós e um sistema que cria a ideia dos que “ficam pelo caminho”, como se não tivessem capacidade para continuar a subir, ou simplesmente caíssem da escada. Ora aquilo de que precisamos é exactamente do contrário, de diversidade e de interseção de caminhos. as comunidades mais diversas são por norma as mais saudáveis e as mais resilientes.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Sem uma alteração profunda de modelo arriscamo-nos a desaproveitar o nosso potencial individual e colectivo, e dados os desafios colectivos que temos pela frente acho que esse é um risco que não podemos correr. É urgente fomentar duas coisas que parecem contraditórias, mas não são. A autonomia e a capacidade de colaborar. Colaborar não só no sentido de “co-laborar” que aponta para um “trabalhar/laborar” em conjunto, mas também no sentido  tomar decisões em conjunto, de saber ouvir, debater, construir e sustentar argumentos, encontrar soluções, sejam elas consensos ou compromissos. Uma coisa que em retrospectiva me choca na minha passagem pela escola, e de que me apercebi muito tarde, foi que em nenhuma outra altura da minha vida passei tanto tempo numa sala com pelos menos outras 20 pessoas da minha idade, e no entanto a comunicação era bidirecional entre o professor e cada um dos alunos individualmente em vez de ser uma comunicação em rede. Por absurdo é quase como se ter vários alunos na mesma sala fosse apenas a consequência de uma qualquer optimização de recursos e não um recurso (valiosíssimo) em si. </span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Todos nós, tanto individualmente, como em Portugal, como enquanto humanidade, temos muitos desafios e ameaças pela frente que vamos ter que saber encarar e, com alguma sorte, transformar em oportunidades. Mas para isso temos que conseguir usar melhor o potencial de cada um de nós e de todos. Para isso não basta fazer um debate que se fique pelo encontro entre “novas tecnologias” e o sistema de ensino que temos agora, é preciso mesmo ir à raiz do problema e perguntar o que queremos da escola.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:29949 2020-05-11T21:01:00 Creches a régua e esquadro 2020-05-11T20:05:43Z 2020-05-11T20:05:43Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 1280px; padding: 10px 10px;" title="creches.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ge2186642/21805169_RcfNY.jpeg" alt="creches.jpg" width="1280" height="889" /></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Acredito (sei) que a DGS tem a melhor das intenções. Acredito, inclusivamente, que saiba que os modelos matemáticos importantes para criar relações neste vírus não conseguem ser aplicados em vários modelos sob a pena de cortar relações. <strong>Acredito que algumas medidas foram pensadas dentro de um quadrado analítico de prevenção, mas há sítios onde os quadrados não se regem pelo número exato de lados e forma, mas são antes uma casa, uma poça, um castelo. Dos 0 aos 3 anos os quadrados não têm limites.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O vínculo emocional, os abraços a partilha são ponto assente (devem ser), mesmo que figurativos, no sistema de ensino. Nos primeiros anos de vida são o pilar onde assenta toda a educação. A DGS sabe disto, tem de saber e está a fazer o seu papel. Um papel que tem de ser adaptado a uma realidade excecional. Todos sabemos os pontos praticamente irreais do plano de retorno às creches e também sabemos que na impossibilidade de se concretizarem colocam educadores e crianças num limbo de fragilidade e de desafio incomparável.<strong> A todos colocou.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O plano traçado, que será reavaliado quinzenalmente, é conhecido e entendido como forma de reabrir a economia. Há mais mortes (também figurativas) para além das causadas pela Covid 19. Tendo sido opção reabrir creches e jardins de infância e sabendo que terá de ser num regime verdadeiramente excecional não poderemos trabalhar num critério de opostos. Não poderá existir o mesmo contacto (tão necessário) assim como não poderão ser implementadas determinadas medidas que impliquem distâncias irreais e não partilha de objetos. Todos fizemos concessões nas nossas relações neste período e dentro deste campo, os pólos devem ser ouvidos num processo de construção. <strong>Perceber o que pode ser exequível dentro do tempo em que vivemos minimizando todos os riscos, quer seja a reabertura em moldes muito específicos com consequências que poderão ser inevitáveis ou o seu adiamento.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não pode haver bodes expiatórios e um atirar de pedras indiscriminadamente. É dever de todos o comprometimento de procura de soluções, sem soberba e sem diletantismo, assumindo que durante um período de tempo as vidas, com ou sem confinamento, estão ainda suspensas, com poucas partilhas e, em muitos casos, a bem mais de dois metros.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:29534 2020-05-04T16:03:00 5 perguntas 5 respostas com o Alexandre Henriques (fundador do blog ComRegras) 2020-05-04T15:04:06Z 2020-05-04T21:13:13Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Apresentação1.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G6917d34b/21797634_jGOUR.jpeg" alt="Apresentação1.jpg" width="960" height="720" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tinha criado o meu <em>blog</em> há relativamente pouco tempo quando recebi um mail do Alexandre Henriques. O Alexandre tinha lido o <em>blog</em> e entrou em contacto comigo para me convidar para colaborar com o ComRegras que estava também ainda num início.  Senti-me muito feliz com o convite, especialmente porque percebi rapidamente que ambos partilhávamos (e partilhamos) visões idênticas na área da Educação.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O Alexandre é professor e o fundador do ComRegras, um espaço que é, atualmente, uma referência na área da educação. O Alexandre assume convictamente as suas ideias, é assertivo, livre, empático e possui a humildade de saber ouvir pontos de vista diferentes e respeitá-los independentemente da sua posição.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Vale muito a pena ler o Alexandre.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Obrigada!</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>1 – Alexandre criaste o <em>Blog</em> ComRegras há sensivelmente 5 anos. Um <em>blog</em> que é hoje uma referência no mundo educacional contando com vários colaboradores de diferentes valências dentro da área da educação. Qual foi a tua principal motivação quando pensaste este espaço?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>O ComRegras foi criado com o intuito de abordar assuntos relacionados com a (in)disciplina, daí o seu nome. Na altura coordenava um gabinete disciplinar e o projecto que estava a ser implementado apresentava resultados muito positivos. O ComRegras foi visto como um veiculo de transmissão desse mesmo projecto. Aliás, toda a estrutura desse gabinete continua acessível no blogue, pois acredito que a temática da (in)disciplina continua a ser prioritária no ensino.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>2 – Este processo de crescimento e de visibilidade foi algo que previas poder acontecer? E sendo neste momento uma referência quais as responsabilidades que sentes (blog) ter para com a comunidade?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Nem pensar Joana. Lembro-me de no início ficar surpreendido por ver 5 mil, 10 mil, 15 mil, visualizações mensais, achava muito e naturalmente que é significativo, mas quando temos mais de 1 milhão e 600 mil visualizações num único mês como ocorreu no mês de abril, a nossa </em>perspetiva<em> muda.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Sobre a responsabilidade, não é a primeira vez que me perguntam isso e a sensação é sempre a mesma. Quando escrevo ou publico algo, estou sozinho em frente ao teclado e não penso muito em quem lê ou quantas pessoas vão ler. Claro que certos assuntos são mais polémicos ou quando denuncio algo sensível tenho o cuidado de verificar antes, mas no essencial, continuo a ser eu e a minha forma de ver as coisas, apenas e só. </em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Hoje vejo o ComRegras como um amplificador de voz da comunidade educativa, não do Alexandre Henriques. Aliás, não é por acaso que está escrito no final do blogue “publicamos a sua opinião” e temos vários colaboradores que sempre que podem partilham a sua visão.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>3 – Os professores têm estado inúmeras vezes nos centros dos tsunami, com uma opinião pública nem sempre positiva. Lembrando-me de uma conhecida frase proferida por John Kennedy que diz: “Não pergunte o que pode o seu país fazer por si, mas sim o que pode fazer pelo seu país”, gostaria de colocar uma pergunta ao contrário: O que sentes que ainda falta aos professores fazerem, ou o que podem ainda fazer pelo país?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Considero os professores faróis sociais, são responsáveis pelo futuro do país. Esta responsabilidade tem de estar sempre presente nas suas cabeças. Evidentemente que a imagem do professor está demasiado associada às lutas sindicais, o que é uma pena, pois como podemos verificar no ensino à distância, os professores portugueses têm muita qualidade.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Os professores são guardiões de valores, são imperadores do saber. Milhares de pessoas com este perfil são um pilar social muito importante. Pelos seus alunos, pelo seu país, os professores precisam de continuar o processo de transmissão e orientação do saber e não há nada mais importante que moldar o tecido social.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Este é um processo contínuo e julgo que neste momento estamos num processo de integração da tecnologia no processo de ensino. Vejo as salas de aula do futuro obrigatoriamente diferentes, algo que já começou mas que no futuro será acelerado, até pelas contingências atuais.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>4 – Eu sei que é uma pergunta algo cliché (mas sempre pertinente) quais são para ti, atualmente, as principais caraterísticas de um bom professor, aquelas que podem fazer a diferença, independentemente, do sítio onde te encontras?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Conhecimento e empatia. Só podes ensinar se dominares como ninguém aquilo que estás a transmitir, mesmo que o professor seja visto cada vez mais como um orientador, se não dominares os conteúdos, o aluno irá perder-se. A empatia é ainda mais importante, ninguém aprende de quem não se gosta. Se o professor não for um ser empático, o aluno vai desligar, cumpre a sua função como se picasse o ponto numa fábrica, mas vai sair da aula e esquecer-se rapidamente do que foi lecionado.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>A empatia abre uma autoestrada para o respeito, para a disciplina, para o conhecimento e consequente sucesso. O professor é também um gestor de emoções, algo que infelizmente não é trabalhado na sua formação como deveria.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>5 – Nesta última questão, quero incluir duas perguntas. Faz-te sentido criar, à semelhança de outras profissões, uma Ordem de Professores? E se sim, qual o trabalho a ser feito por esta Ordem tendo em conta os atuais desequilíbrios na carreira docente?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><em>Sim, não sei se o caminho será uma Ordem ou algo diferente, mas os professores precisam claramente de algo que os afaste da guerrilha constante dos sindicatos, mesmo que estes até tenham razão em muito do que dizem. Há quem pense que não gosto dos sindicatos, não é verdade, precisam de um </em><em>refresh, disso não tenho dúvidas, mas são essenciais para manter um certo equilíbrio. Mas existem certas áreas que não entram, ou não deveriam entrar no campo sindical, como a formação docente, a criação e cumprimento de um código deontológico, uma participação mais ativa nas políticas educativas, uma estrutura que represente os professores ao mais alto nível.<br />Hoje temos associações de professores, associações de diretores, uma quantidade absurda de sindicatos, um Conselho Nacional de Educação claramente politizado, um Conselho de Escolas onde só se sentam directores, etc. Mas no meu mundo perfeito, gostaria de ver um órgão de professores, mas mesmo professores, dos que ainda dão aulas, representando assim toda a classe docente.<br />Vejo muitos representantes mas vejo também muitos interesses cooperativos, talvez por isso nas salas de professores exista um afastamento e direi até repúdio por muitas dessas estruturas.<br />E não Joana, não sou candidato a nada, o que quero mesmo é dar aulas e continuar a divertir-me com o <u>ComRegras</u>.</em></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:29425 2020-04-19T03:00:00 É um texto curto em jeito de desabafo. 2020-04-19T02:00:37Z 2020-04-19T02:00:37Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 768px; padding: 10px 10px;" title="filhos.png" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G3917aedc/21774105_Zrn33.png" alt="filhos.png" width="768" height="960" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não vou dizer nada de novo nem descobri a pólvora em relação à intensidade de viver quarentenas com filhos 24 horas, sete dias da semana. Não por estar com eles, naturalmente, mas por não haver opções saudáveis de normalidade.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>O amor dos e pelos filhos é um dicionário inexistente e infinito.</strong> Em modo de confinamento quase absoluto, e repentino, torna-se num desafio digno de malabaristas, mas amadores. As bolas caem ao chão e não saem coelhos da cartola. Queres amar, manter as atividades absolutamente criativas, ver as peças de teatro online, contar histórias de papel, qualquer forma de operar que te permita a normalidade, mas há dias, em que a porquinha Peppa e o coelho Simão são o auge que o teu intelecto pode conceber e oferecer. <strong>Culpemos a COVID.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A paciência sofre altos e baixos em apenas minutos. Gritamos e abraçamos como se de bipolaridade padecêssemos. E está tudo bem, é mesmo assim.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Acho que se no fim de tudo isto falecesse de COVID-19 seria um absoluto desperdício. Estar no meio do caos e manter a calma e sangue frio ou explodir, diariamente, levam-nos para lugares onde há super poderes. Vestir o papel de supermulher e não usufruir dos frutos depois desta pandemia seria em vão.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">No fim do dia, quando os choros e as exigências acabam, no primeiro minuto (talvez uma hora) de silêncio, a bom cliché, sabemos que faríamos tudo outra vez, as quarentenas que fossem precisas.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">E a propósito, uma salva de palmas à janela e em todas as divisões da casa se faz favor, a todos em teletrabalho com filhos em casa.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:29033 2020-03-29T18:14:00 Uma lufada de normalidade 2020-03-29T17:38:36Z 2020-03-29T17:41:34Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 958px; padding: 10px 10px;" title="covid.png" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G5d177633/21745970_zRkFn.png" alt="covid.png" width="958" height="960" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Ontem tive de pegar no carro. Senti-me, por momentos, Joana outra vez. Rádio sintonizada na SBSR, aquele som que me acompanha nas viagens para o trabalho diárias. <strong>Senti laivos de liberdade</strong>. Só tinha de ir até à Alameda, mas senti como se tivesse feito uma viagem para outro país. <strong>Tive um acesso de normalidade que me preencheu o resto do dia.</strong> Entre o medo e otimismo, prefiro, seguramente, o segundo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A normalidade é, por estes dias, escassa. É feita, em momentos fugazes ou em alternativas que foram recriadas e inventadas para este momento. E se há competência que nos carateriza enquanto povo, é esta imediata capacidade de recriação quase instantânea e de rápido equilíbrio interno.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Por agora, nesta quarentena ou isolamento profilático, muitos trabalhos puderam ficar em teletrabalho, as compras ficam online,<strong> há festivais dentro de casa porque a <em>time out</em> é agora <em>time in.</em></strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Neste processo atípico, as aulas também continuam. Professores e alunos, através de ferramentas, inúmeras vezes realçadas como indispensáveis numa escola que se quer do Sec XXI, mantêm o seu trabalho. As vozes dissonantes e mais inflamáveis fizeram-se rapidamente ouvir. Entre críticas às plataformas utilizadas como sendo pouco práticas a Encarregados de Educação que se queixam de não conseguir acompanhar todas as tarefas exigidas em casa.</span></p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">E aqui, mesmo no centro do tsunami, há questões que serão sempre mais imunes a vírus. Apontar as nossas ansiedades e frustrações a uma entidade ou a outro elemento.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Manter uma rotina escolar, ou qualquer outra rotina, dentro do possível, é poder atribuir alguma normalidade aos nossos dias. É manter alguma sanidade mental, essencialmente se percebermos exactamente isto. É uma questão, acima de tudo, de sair do medo e manter-me à tona. Não acredito, que no meio deste processo se queira, ou se possa exigir mais.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Atiramos pedras mentais e verbais a professores, hoje dizemos, por passarmos 24 horas com os nossos filhos em casa, o quão importantes são. Criticamos médicos e enfermeiros mas batemos palmas há uns dias atrás à janela. <strong>Reinventamo-nos segundo os tempos.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não é o tempo de atirar pedras, não é o tempo de exigir mais dos professores, ou exigir mais dos pais, exigir mais do vizinho, exigir mais do governo ou até mesmo de nós. Somos nada perante uma força invisível. E a única força motriz no meio do nada são as nossas relações, aquelas que constroem. </span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quando isto acabar é olhar para trás e manter a fotografia mental para encarar o futuro. <strong>Até lá resta-nos estes laivos de normalidade que são os nossos ventiladores sem número contado. Resta-nos partilhar os nossos silêncios naquela Praça de São Pedro com Francisco.</strong></span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:28794 2020-03-16T22:18:00 Nunca o mundo precisou tanto de uma Aldeia 2020-03-16T22:26:26Z 2020-03-16T22:26:26Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 678px; padding: 10px 10px;" title="portugues.png" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ga117c4ad/21728386_YTtu1.png" alt="portugues.png" width="678" height="381" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A frase: <strong>“É preciso uma aldeia para criar uma criança.”</strong> foi perdendo força e sentido pelas mudanças, inevitáveis, ao longo dos anos. As aldeias são agora cidades que têm outros ritmos e prioridades impostas que dificultam um sentido de comunidade que permita um maior olhar e cuidar do próximo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A atualidade reveste-se de um panorama muito desolador. Imagino que a primeira curiosidade (legítima) quando acordamos de manhã é saber o número de infetados com Covid 19, em Portugal e no Mundo. Não é uma curiosidade mórbida, apenas um ato que nos permite algum controlo, com um pé dentro e outro fora da realidade, fora deste isolamento profilático ou quarentena.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O que era tão distante tornou-se numa realidade ao lado de casa. Aquilo que poderia parecer, à partida, ficar confinado a um espaço, galopou fronteiras, invisivelmente, deixando um rasto de caos pessoal, social e económico.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Neste momento de total reorganização de mentalidades <strong>há quem não ceda ao pânico, ao medo, mas também quem não ceda ao bom senso.</strong> A verdade é que não conhecemos isto. Não reconhecemos este espaço em que vivemos, uma espécie de ensaio sobre a cegueira, aqui, à porta de nossa casa. No entanto, no meio de tantos erros que podemos apontar aos dirigentes governamentais, o momento é absolutamente apartidário, e é também um momento de construção, mais do que crítica gratuita, um momento de humanidade, de comunidade e introspeção que nos passa habitualmente ao lado, a reboque do passo apressado diário. <strong>E é quando tudo pára que deve ser só isto que resta.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É por isso que para cada pessoa que leva amplamente mais do que a sua despensa pode armazenar, que existem 10 que levam as compras essenciais e em conta aos seus vizinhos que se encontram limitados e nos grupos de risco. Por cada pessoa que vai a um bar no Cais do Sodré, existem 10 que utilizam os seus alojamentos locais para que profissionais de saúde possam fazer o seu corajoso trabalho (não há melhores palmas do que estas). Por cada pessoa que assobia para o lado existem 10 médicos de outras áreas que se disponibilizam, aos seus amigos e conhecidos, publicamente para tirarem dúvidas de modo a não entupir a linha saúde 24 e por cada pessoa que critica cegamente todas as medidas tomadas publicamente existem inúmeras que reinventam ideias, iniciativas num total processo de construção para melhor lidarmos com este isolamento. E por cada notícia falsa, existem cadeias criadas para repor a verdade.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não temos por hábito falhar nestes desafios da reinvenção e adaptação. É algo que também nos carateriza. É também tempo de <strong>pegar na frase: “É o país que temos” e resgata-la para este momento dando-lhe a volta ao sentido a que habitualmente é apregoada</strong>. Portugal não é perfeito, mas tenho a certeza que sabe ser a aldeia comunitária sempre que necessita.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:28550 2020-02-14T20:29:00 Nem só de Parasitas se fazem os Óscares. 2020-02-14T20:37:06Z 2020-02-14T20:40:00Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 1060px; padding: 10px 10px;" title="oscares.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G2f1857b5/21691442_49uPB.jpeg" alt="oscares.jpg" width="1060" height="594" /></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tinha quinze anos quando vi “A vida é bela”. Ainda me lembro da resistência que tive em aceder ir ver o filme: <em>“Um filme italiano?? Porquê?” </em>Não me interessavam, nesta altura, minimamente, filmes onde não se falasse inglês.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando o filme acabou, sem qualquer exagero de drama, fiquei retida na cadeira em silêncio, com um sentimento de preenchimento que ainda não havia sentido com outros filmes. Lembro-me de pensar e dizer “Dêem o Óscar a este homem. Quem é este homem?” Até então estava longe de saber o que era o neorrealismo italiano, que linguagem era aquela tão real, emotiva, crua, pulsante. <strong>Foi o ponto de viragem do que entedia ser o cinema</strong>.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Vibro muito com os Óscares. Como diz uma amiga minha entre o sério e o jocoso “Eu levo os Óscares muito a sério”. Não pretendo perder tempo a pensar que tudo já está pré-adjudicado e os podres da Indústria. Todos os setores o terão.<strong> Interessa-me os substitutos de vida que podem ser os filmes, a arte de fazer refletir e de nos atirarem para o colo ideias e imagens que nos obrigam a lidar com os nossos conceitos de vida. As histórias que nos fazem eco.</strong> Adoraria ser uma espécie de Mário Augusto ou mesmo de ganhar a vida a ver filmes e escrever sobre eles. Aliás, se eu tivesse uma <em>bucket list</em> a primeira linha seria “Ir assistir a uma gala dos Óscares e à festa de bastidores.” Duas margaritas e estou num filme de Almodôvar.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Um dia fui a um workshop intitulado “A história do cinema em 7 realizadores”. O formador contou o episódio da primeira projeção feita pelos irmãos Lumière a 28 de Dezembro de 1895 na primeira sala de cinema, o Eden, em Paris e do impacto que tiveram as primeiras imagens em movimento. <strong>Lembro-me de me ter comovido ao imaginar o entusiasmo deste princípio, deste nascimento.</strong> Lembro-me também de me sentir tão pequenina por desconhecer, até aquela data, inúmeros factos históricos cinematográficos. Eu, que me achava uma enorme conhecedora desta arte, fiquei estupefacta com o quão pouco sabia. Cheguei a casa como uma criança a atropelar-me para contar tudo o que tinha aprendido. Desde o neorrealismo italiano, passando pelo expressionismo alemão, a nouvelle vague, tudo conceitos que conhecia de nome mas não sabia extamente o que era nem o seu enquadramento cronológico e eco histórico.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Todo este enquadramento serve para chegar ao discurso do Joaquin Phoenix nesta última gala dos Óscares.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Já pouco me surpreendem <strong>discursos politizados por parecerem, categoricamente, enviesados por modas pontuais o que os tornam incrivelmente bacocos e até ultrajantes.</strong> Ricky Gervais foi o único a surpreender-me nos últimos tempos porque soube desconstruir, de uma forma hardcore, sim, todos os pontos dos discursos sensaborões habituais. Joaquin Phoenix foi outra surpresa. Houve, no seu discurso, honestidade, o nú e o cru. <strong>Existiram as habituais críticas políticas e alusões aos temas (demasiado importantes para serem toldados por sensos comuns) que vendem sempre: racismo, homofobia, direitos dos animais, mas houve algo especial, um mea culpa essencial. Um momento de reflexão pessoal que foi disruptivo com as lengalengas comuns em que a culpa reside sempre nos outros e nunca em nós próprios.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os bodes expiatórios são sempre os outros e nunca nós. <strong>Como se em todos os milímetros das nossas vidas fosse possível agir puramente e imaculadamente sem nos boicotarmos por um segundo.</strong> Em todos residem telhados de vidro que ou são perpetuados por discursos que afastam essas sombras como purgas, ou por uma assunção de mea culpa e honestisdade de saber que se erra, que se faz parte, ainda que durante pouco tempo, de um mesmo grupo que se critica de longe.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Este é o único tipo de discurso evangelizador em que acredito, aquele onde reside o erro mas que se apoia nele para se reestruturar, porque é humano.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:28282 2020-01-30T22:14:00 A minha cultura não é melhor nem pior que a tua. 2020-01-30T22:19:43Z 2020-01-30T22:48:08Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 940px; padding: 10px 10px;" title="cerebro.png" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G2b181676/21679417_6pK8R.png" alt="cerebro.png" width="940" height="960" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Nasci numa pequena casa no Lumiar. No nosso andar, onde vivia com os meus pais, viviam mais duas famílias. De um lado a Cristina e do outro a Tila. A Tila assinava como “Tilinha” os quadros que pintava, com cenários bucólicos através de técnicas que consigo hoje identificar como impressionistas. Um nome que coincidia com a sua personalidade generosa.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"> Era hábito, à noite, depois do jantar, a minha mãe juntar-se a elas à porta para um momento de conversa. E eu, ora ia para casa de uma ou para casa de outra. Gostava da casa da Tila porque tinha um cheiro muito caraterístico. O Sr. Virgílio, o seu marido fumava cachimbo e toda a casa tinha este cheiro semi doce e a tintas. Ele encontrava-se sempre na mesma poltrona da sala a fumar cachimbo, e eu sentava-me, com respeito e admiração numa outra poltrona. Enquanto apreciava os quadros ia ouvindo o que tinha para me dizer. Há uma frase que ainda hoje retenho e que os meus 7 ou 8 anos não me deixavam compreender. <strong>“Joana, há uma coisa muito importante que tens de aprender. Podem tirar-nos tudo mas nunca nos podem tirar a nossa cultura”</strong>. Ouvia com toda a solenidade que a minha tenra idade me permitia, acenando como se compreendesse o seu conteúdo e retendo esta informação como se um dia sentisse que faria sentido. Era bom homem e muito inteligente.</span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Com a maturidade claro que fez sentido. </span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Mais tarde, já com 18 anos, a morar agora em Odivelas e perdendo o contacto com estas famílias, fui tirar a carta de condução. O meu instrutor encaixava-se na designação, tradicional do “retornado”. Homem rezingão, de rosto rude e demasiado assertivo. Tinha um medo terrível de errar quando conduzia o que me levava, naturalmente, a cometer algumas asneiras. Todo o tempo da aula só se ouvia a Rádio África enquanto proferia opiniões negativas sobre a cultura africana ou sobre o seu entendimento toldado por uma guerra que não pediu para estar. Aquilo irritava-me. Uma vez, por ter gritado comigo, saí do carro e bati com a porta com toda a força que consegui, só para não lhe gritar de volta como me apetecia e entrei na escola de rompante a queixar-me. Perguntaram-me se queria mudar de instrutor. Eu disse que não. Que trataria eu do assunto Nunca gostei de dar parte fraca. Melhorou bastante porque me tornei mais assertiva. No final passei e dei-lhe um abraço e, por momentos, simpatizei com ele.</span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Estas duas histórias não estão sequer alinhadas e são pontas soltas na minha linha cronológica mas existe uma ligação interessante com a atualidade.</span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>A nossa cultura não é de mais ninguém, não obedece a mais nenhuma regra que não a nossa.</strong> Partimos dela e a ela vamos parar quando tecemos opiniões, quando agimos. Moldou-se e molda-se desde o primeiro dia em que nascemos, num contexto onde nascemos, com quem convivemos e como crescemos. É por vezes escondida em determinados contextos e noutros expandida, mas é aquilo que garante a nossa genuinidade. </span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Pode ser também alterada com jogos de cintura sociais para nos posicionarmos, para nos defendermos, ou para atacarmos. As máscaras que muitas vezes necessitamos de usar assim nos obrigam.</span><br /><strong><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">São as diferentes culturas, a forma como crescemos, que ditam a nossa verdade, isentas de culpa ou de certo e errado e que estão acima de constituições, instituições, são livres, mesmo quando há consequências.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Um bom exemplo é o 25 de Abril de 1974. Há vários lados da barricada. Os de cá, os de lá, os de dentro, os de fora. Este dia é entendido consoante a história pessoal de cada um, ou do que lhes fizeram crer. Conheço quem defenda os dois lados da barricada com argumentos sólidos, com as suas verdades inquestionáveis. O documentário Torre Bela é um óptimo exemplo disto. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinha de ter, de repente um pensamento avant-garde. <strong>Quem tem razão? Qual a verdade pessoal que é mentira?</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Cheguemos à atualidade, aos meus 37 anos, onde cada verdade pessoal é agora mais facilmente visível e escrutinada, onde a incapacidade de nos colocarmos em várias peles toldam o pensamento e contaminam o nosso o filtro crítico. Onde verdades tão complexas são diminuídas em argumentos tão poucochinhos e equipáveis a um tempo inquisitório que nos levam para a deliciosa sátira dos Monty Python “You are a witch” sem os contornos ou as culturas pessoais. <strong>Racismo, xenofobia, misoginia, fascismo, são guarda-chuvas por vezes demasiado fáceis, utilizados em tantos momentos como uma cultura de vitimização que pretendem por vezes apenas esconder situações de incompetência, amadorismo.</strong> Cito Irene Pimental, que no meio destes tempos controversos escreveu, o que para mim ,é o texto mais iluminado e refrescante: "<em>Não tenho dúvidas de que há racismo em Portugal e que é necessária e vital mesmo a luta anti-racista, como em qualquer parte do mundo onde ele existe. Penso que é bom haver na Assembleia da República deputados portugueses de todas as etnias, da mesma forma que elas existem em Portugal. </em></span><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;">Há, porém, uma deriva (minoritária aqui, ao contrário da que existe por exemplo nos EUA ou no Brasil) racialista e identitária que tem feito muito mal na nossa sociedade, à luta anti-racista necessária e ao combate contra a extrema-direita. É uma deriva divisionista (…) que não tem conta as classes, nem os géneros e que explica tudo com o racismo/antiracismo, generalizando e falseando o que se passa. É uma deriva que insulta todos os que não pensam como eles e não vivam como eles em bolhas, através das quais vêem a realidade desfocada, de «racistas». É o pior que poderia ter acontecido ao combate anti-racista e por isso deve ser denunciado, pois está a causar estragos."</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><br /><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 12pt;"><strong>A nossa cultura é aquilo que ninguém nos pode tirar, mas o assumirmos a complexidade de ambos os lados e possuirmos honestidade intelectual torna-nos mais verdadeiros e completos. Às vezes abraçar menos causas, que não são mais que refúgios morais ditados por contextos, modas, deveríamos abraçar mais pessoas e assim ter mais mundo do que o quintal a que estamos habituados.</strong> </span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:28090 2020-01-30T02:13:00 É necessário um Polígrafo em cada esquina no que toca à Educação 2020-01-30T02:18:00Z 2020-01-30T02:19:13Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gea184ddc/21637106_73l44.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida.jpg" width="820" height="573" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Opinião Público 20-01-2020</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"Após a apoteose de textos corridos e comentários <a href="https://www.publico.pt/2019/11/03/sociedade/noticia/chumbos-ate-9-ano-nao-vao-acabar-decreto-1892215" rel="noopener">sobre os “não chumbos” no ensino básico</a>, eis que surge um novo “cai o Carmo e a Trindade” no seio dos fóruns educacionais livres de filtros mas repletos, como habitualmente, de caixinhas mentais que operam no senso comum, numa raiva contida, numa cor partidária, ou num arrasto de jogos constantes do telefone estragado que vão contaminado até as mentes supostamente mais esclarecidas. O ruído de tom feroz consegue ser, por vezes, bastante persuasivo.</span></p> <div class="supplemental-slot supplemental-slot--margin supplemental-slot--margin-thinner show-for-large" style="text-align: justify;"> </div> <aside class="ad-slot ad-slot--margin show-for-large"> <div id="pubVert3" class="pubVert pubWidget show-for-desktop pubtxt ✔"> <div id="google_ads_iframe_/4458504/Vert/Sociedade_2__container__" style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Rapidamente, os espaços destinados à destilação de opiniões, inúmeras vezes sem fundamento, foram invadidos de cartas abertas de pais, professores, funcionários e entusiastas da educação que utilizaram, em tom de incredulidade, as seguintes palavras; “Um cárcere”, “Uma prisão”, “Inconcebível” e o habitual “Vergonha” <a href="https://www.publico.pt/2019/12/12/politica/noticia/vergonha-ventura-queixase-marcelo-quer-desculpas-ferro-rodrigues-1897135" rel="noopener">a quem o “simpático” André Ventura nos tem acostumado</a>. Não deixa de ser curiosa a existência de uma percentagem elevadíssima de crianças que ficam na escola até esta hora, ou mais tarde, por incompatibilidade de horários laborais dos seus Encarregados de Educação. São estes que assumem, inúmeras vezes, a incapacidade da escola de conseguir dar resposta aos seus educandos. Não conheço os números certos, mas ao longo do meu percurso presenciei, sem qualquer erro de cálculo, a metade dos alunos a terem de esperar para depois das 17h alguém que os viesse buscar.</span></div> </div> </aside> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Recordo-me de uma amiga que verbalizava, há pouco tempo, que a sua filha de um ano teria agora de começar a ficar na escola das 9h às 19h e, perante o olhar horrorizado de quem ouvia, disse: <em>Que posso fazer? Não tenho ajudas, peço o desemprego? </em>Um ano…</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Idealmente deveria ser este o ponto de partida. Longe estamos dos tempos em que a aldeia educava a criança. Alguém estaria com ela ou a iria buscar. A atualidade é bem diferente. Há avós que não conseguem estar disponíveis, não há avós, não há dinheiro para empregadas e não há dinheiro para pagar rendas e empréstimos se não trabalharmos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sempre fui apologista de que a escola não poderia ser um contentor de armazenar crianças e que o seu papel deveria (deve) ser bem definido. Continuo exatamente na mesma linha de pensamento, mas com uma condicionante, a escola é produtora de sociedade e um espaço de excelência que sim, também educa. Criar diferentes espaços e horários na escola com papéis bem definidos pode ajudar no processo de desenvolvimento dos alunos. Lembremo-nos do que trouxe o Desporto Escolar à escola, a capacidade de, independentemente do sítio ou dos meios com que a criança nasceu, ter a oportunidade de realizar várias experiências que em casa dificilmente poderia realizar. Aliás, é este o propósito da instituição Escola. Quando há rigor e organização, a escola é o sítio privilegiado para a conquista de inúmeras competências tendo a família como aliada. E este rigor e organização implica, também, definir bem os limites da escola na intervenção.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Analisemos o seguinte cenário: crianças que chegam a casa às 19h, que vão ainda fazer os trabalhos de casa, projetos, onde os pais exaustos do trabalho não são inundados de uma leveza saudável para a realização sã destas atividades (trabalhos de casa não têm de implicar apenas fichas de trabalho, mas coisas simples como a leitura de uma notícia, livro, debate com os pais). Rapidamente ambos são contaminados pelo cansaço, pelas palavras e atitudes pouco pensadas criando um pequeno caos que a hora de dormir não permite recuperar ou “fechar o círculo” para que o fim do dia seja saudável.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <aside class="ad-slot ad-slot--margin show-for-large"> <div id="pubVert4" class="pubVert show-for-desktop pubtxt ✔"> <div id="google_ads_iframe_/4458504/Vert/Sociedade_3__container__"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Não poderá a escola, através de uma organização pensada, tendo em conta o seu projeto escolar, minimizar estas situações? Não é isso que tantos Encarregados de Educação almejam?</span></div> </div> </aside> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">É verdade que a escola se tem tornado um bode expiatório cada vez mais frequente e cada vez mais fácil de atacar (a todos os níveis). Nada ajuda. Descredibilização do ensino, dos professores, muitos autodidactas de internet, de modelos, de crenças, de definições (de sofá) que se tornaram a nova bíblia. Todos, de repente, sabem falar de educação e das suas especificidades.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Por isso, calma, pessoas. É um projeto-piloto. É um projeto com fundamentação, com objetivos, com uma forma de operacionalização, com avaliação de impacto e com conclusões. Não é um texto do Wikipedia ou um site desconfiável.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Avaliemos primeiro. Critiquemos depois, com fundamento, de preferência."</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:27735 2019-12-05T14:57:00 A retenção escolar e o telefone estragado. 2019-12-05T15:01:05Z 2019-12-05T15:01:05Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gea184ddc/21637106_73l44.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida.jpg" width="820" height="573" /></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">"As palavras chumbo e retenção entraram na esfera léxica da imprensa portuguesa e têm-se equiparado ao jogo do telefone estragado, um famoso jogo que guardo da minha infância. Desenrola-se da seguinte forma: uma palavra ou expressão é dita ao ouvido por alguém, a fonte, e é passada rapidamente ao ouvido dos seguintes elementos do jogo. O último elemento do jogo terá de proferir exatamente o que ouviu. O resultado final costuma ser hilariante pois nunca corresponde à verdade da origem tendo sido a mensagem completamente deturpada e alterada no final. Este jogo divertido continua a ser usado como uma metáfora certeira para várias situações diárias de forma pueril.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Assim estamos nós.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">À boa maneira portuguesa, perdão, global, espalhou-se como um vírus nas “redes” a notícia de que não havia chumbos até ao 9ºano evocando as mais inúmeras notícias e piadas.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Como muito cética que sou a todas as notícias imediatas, abstive-me de qualquer consideração ou comentário (embora existissem piadas francamente boas) sem antes perceber o quão “estragado” estava este “telefone”. Tentei ir à mensagem inicial.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Após algumas leituras atentas não consegui perceber a indignação por dois motivos essenciais: A medida excecional do chumbo já existe desde a década de 90 e a sua evolução tem seguido um “<em>modus operandi</em>” europeu que se tem debruçado sobre o trabalho a desenvolver para evitar a retenção ao invés de usar este mecanismo como única medida educativa perante o fracasso. E pelo que pude apurar, num esclarecimento do Secretário de Estado da Educação João Costa: “<em>Muito se tem falado sobre a proposta de elaboração de um plano de não retenção para o Ensino Básico. Alguns tentam reduzir esta intenção a um nível de conversa de café, dizendo que agora se quer que todos os alunos passem de ano, independentemente do que sabem. Ora, nem isto está no Programa do Governo, nem seria séria uma proposta desta natureza. O que se pretende, conforme explicitado, é desenvolver um conjunto de ações que contribuam para melhorar as aprendizagens dos alunos, de forma a que a retenção não seja necessária, uma vez que todos aprenderam.”</em> <strong>O que de alguma forma me reconfortou pois temi, por aquilo que li, que existiria uma espécie de lei a proibir expressamente as retenções até ao 9ºano.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Entrando agora um pouco nos clichés habituais associados a esta área, mas que, vamos assumir, fazem parte da vida (são eles também do senso comum). O chumbo por si só não é, nem nunca poderá ser uma opção (esta será a parte onde entram os recursos mencionados no comunicado do Secretário de Estado). A falácia dos recursos não tem a ver com o facto de não serem necessários, são, mas porque é utópico e ingénuo assumir que vai chegar o dia em que os recursos serão suficientes (qual D. Sebastião num dia de nevoeiro). Isto é um facto, por vários motivos: <strong>A falta de recursos continua a estar maioritariamente ligada mais às nossas conceções do que propriamente aos aspetos humanos ou materiais. Reitero aqui: de nada adianta existirem mais 10 ou 20 funcionários e salas cheias de equipamentos se continuarmos a trabalhar e pensar dentro de um quadrado interpretativo da escola parado no tempo.</strong> Segundo facto: Há muito casos onde, por muitos recursos que existam, há situações que são efetivamente excecionais, o que não quer dizer que se desista ou simplesmente se retenha um aluno, mas porque, em muitos casos aquele ainda não é o momento certo para as mudanças exigidas. Por fim há também questões de memória muscular que boicotam permanentemente todo o processo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Há pouco tempo numa reunião, alguns professores queixavam-se da impossibilidade de um aluno com dislexia severa conseguir corresponder ao currículo. Uma vez que não conseguia ler ou escrever de forma adequada para um 10ºano como conseguiriam avaliar? <strong>(Às vezes o século XXI fica à porta de muitas salas de aula.)</strong> Relembrei que há muitos alunos disléxicos na Universidade cuja única adaptação que tiveram de fazer foi a adoção de um computador em substituição do papel e caneta. Falei também da importância do aluno sentir pequenos sucessos para possibilitar uma base mais estável emocionalmente que lhe permitisse, e que permitisse a todos os envolvidos, baixar os níveis de ansiedade. A utilização de um computador nas salas de aula e de instrumentos de apoio (os possíveis tendo em conta a disciplina) são opções absolutamente válidas e enquadradas na lei, mas a nossa memória muscular obriga a um entendimento e uma expressão dentro do nosso quadrado mental confortável. <strong>Muitas vezes, diversas vezes, sob a capa da exigência, está um facilitismo conservador.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Pegando neste exemplo, a mudança do papel e caneta como forma quase exclusiva e aprendizagem para o computador ainda exige alguns recursos mentais pouco instituídos. Ninguém pede uma substituição absoluta, mas uma ferramenta de apoio óbvia. Esta é a mesma exigência que se pede a um aluno com dislexia severa que escreva e leia com uma velocidade igual à de outro aluno.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ao longo do meu percurso nas escolas deparei-me com poucas retenções que acabaram por se revelar a melhor medida para o aluno. Sim existem, são as retenções excecionais. Foram boas decisões porque existiu uma articulação fundamental com a escola e pais e um plano delineado ao pormenor que conseguiu motivar o aluno e todos os envolvidos.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"> Os pais são uma outra variável que tem de ser tida em conta neste processo de retenção/não retenção. H<strong>á pais que não podem pagar explicações ou sequer ajudar nos trabalhos de casa e onde estes trabalhos se podem transformar numa autêntica fonte de ansiedade para todos.</strong> Vale a pena? Em muitos casos não enviar trabalhos para casa e dar a volta à situação na escola é uma medida exigente e não facilitista.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Abordemos rapidamente outras variáveis do outro lado da barricada. E quem não quer ser ajudado, apesar de todos os recursos conceptuais, humanos ou materiais? E os pais que interpretam uma lei considerando que mesmo quem não trabalha e se agarra somente a um diagnóstico tem de ter 3 ou 10? Não há retenção ou não retenção que possa salvar barreiras interpretativas que não se colocam em causa. <strong>Há que cair para depois lamber as feridas.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">A escola é um espaço de desafios complexos e tem naturalmente limites. E claro que estes têm também de ser tidos em consideração."</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:27626 2019-11-11T15:55:00 Há mundos de m….. 2019-11-11T16:00:19Z 2019-11-12T10:16:49Z <p> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="Apresentação preto.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G4e184110/21610973_3vUUE.jpeg" alt="Apresentação preto.jpg" width="960" height="720" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Recordo-me dos testes psicotécnicos que fiz no 9ºano e recordo-me, mais claramente, do comentário da psicóloga no final, que entre a ironia e a seriedade disse: <em>“A Joana quer ser a defensora dos pobres e oprimidos”</em>. Sorri. Sabia que era qualquer coisa assim, talvez não exatamente.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Os caminhos que inicialmente quiseram seguir enfermagem, redefiniram-se para a área da educação, mais propriamente da educação especial. Quase não passei pela casa partida e o meu trabalho, foi desde o início, com crianças e jovens mais desafiantes.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Cresci à imagem do meu caminho e com quem me cruzei, que me definiu e continua a definir. Cada um tem o seu, e as críticas que rapidamemte lançamos às Joacines e Bourbons desta vida, têm em consideração sempre um percurso muito individual negando e <em>“intolerando”</em> gaiolas e redomas diferentes. <strong>O 25 de Abril também tem várias perspetivas dependendo de quem e como o viveu, e de quem o ouviu.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Há muitos mundos. Há mundos que estão do outro lado da barricada que, independentemente da nossa posição, situam-se numa espécie de mundo paralelo. Mas bem reais.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Ao longo do meu percurso o meu quadrado mental, assente em princípios sociais e legais, foi sofrendo alterações. <strong>Aquele mundo que no início ainda se situava única e exclusivamente numa espécie de gaiola dourada com níveis de conforto, amor e morais inquestionáveis foi ampliado. Vieram as histórias, as vividas e partilhadas, e o confronto com as morais confortáveis.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O rapaz de 11 anos que conheci que tinha ficado abandonado em casa aos 4 anos à sua sorte. Aquilo a quem Nuno Lobo Antunes apelidou, no seu relatório, um rapaz com uma “hiperatividade extraordinária”. Não cedia a nada. Só ultra medicado.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As casas que visitei que jurei a pés juntos não querer voltar.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As visitas a que assisti de um pai que havia abusado sexualmente de um filho.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O rapaz que foi para a escola depois do seu pai atacar a mãe com ácido e que nesse dia espancou um colega seu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- Os bebés e crianças que foram batidos e espancados e que, mais tarde, enquanto jovens, a sociedade não sabia o que fazer com eles.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O pequeno jovem que era maltratado e vivia em condições miseráveis, mas ainda assim queria ir para casa da sua mãe.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- As mães e os pais que sofreram de violência doméstica.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O adulto que está a agora a aprender a ler e a escrever mas que, em criança foi obrigado a mendigar e a ficar fora de casa se não levasse dinheiro suficiente.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- A adulta que a meio da aula pára para chorar desalmadamente porque ontem esteve a arrumar as roupas da filha que morreu.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">- O pai e filha que morrem abraçados quando ambos deviam estar a sorrir e a brincar.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Continuo?</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Que códigos morais existem nestas vidas? Que humanidade conhecem ou sentiram?</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Como podemos exigir uma estrutura psíquica de aço a alguém que, em última instância, pode não ter nada a perder?</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">São morais apenas assentes em códigos de sobrevivência primitivos. Muito longe, e ainda bem, dos nossos mundos. Aquele mundo em que às vezes, a nossa maior preocupação é saber que série ver na netflix à noite.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Reflitam.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:27141 2019-11-04T11:05:00 As enxadas da Educação. 2019-11-04T11:18:17Z 2019-11-04T11:18:17Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="joana pub.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G78174a4b/21601489_hwJzN.jpeg" alt="joana pub.jpeg" width="820" height="573" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Transcrevo o meu último artigo no Público.</span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083</a></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"(A propósito do recente documentário exibido na RTP 2, “Outra Escola”)</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O documentário Torre Bela, realizado em 1977 pelo alemão Thomas Harlan, que retrata a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril, tem uma cena deliciosa. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinham de ter, de repente um pensamento avant-garde.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Numa analogia que reconheço não ser demasiada ou imediatamente óbvia faz-me lembrar os professores do secundário. Durante anos os ditos meninos “da” educação especial não chegavam ao secundário. Com a escolaridade obrigatória até ao 12ºano, a realidade é atualmente bem diferente. De repente, alguém lhes quer fazer ver (normalmente os professores de educação especial) que aqueles meninos têm todo o direito de ali estar. Que há uma espécie de cooperativa onde estes alunos deixaram de ser da educação especial e passaram a ser de todos. E aquela enxada, a enxada dos conteúdos e objetivo final de fazer um aluno brilhar num exame final deixou de ser o objetivo único. Têm agora de fazer adaptações, preencher mais papel e lidar com alunos que “não sabem estar no secundário”.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Mas será este o desígnio de ser professor? Preparar apenas para avaliações finais?</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">“Obrigar” (este obrigar leia-se, (re)sensibilizar) professores a serem professores não é, atualmente, um contrassenso. É uma necessidade. Há muito que nas escolas o ato de ser professor tem sido relegado para outra dimensão. Não é mito, é realidade. A perda de auxiliares de educação e de pessoal administrativo aumentou as responsabilidades dentro das escolas, colocando as competências dos professores espartilhadas em inúmeras atividades que extravasam claramente as suas funções.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Esta repartição de funções veio colocar como ponto fulcral e quase único no trabalho de aula do professor, o cumprimento de um currículo como fim de percurso anual e objetivo máximo. Este caminho é inúmeras vezes contaminado por alunos que dificultam este processo e que ajudam a criar guetos mentais. Alunos de primeira e alunos de segunda. Estes alunos de segunda recebem um guarda-chuva marcado com um rótulo que lhes sirva e são encaminhados para qualquer apoio “porque deixa de ser problema meu” afinal se não responde ao currículo, (o objetivo máximo) não serve para o meu propósito de professor. Não quero ser mal interpretada. Não falo em passagens administrativas, facilitismo ou insistir em ajudar quem não quer ser ajudado (às vezes a maior aprendizagem é cair para se reerguer de novo). Falo em encarar todos os alunos como “todos os meus alunos” com areias na engrenagem ou não. Com o objetivo máximo de levar ao bom porto de cada um. Não é um percurso solitário, não o deve ser, repercutir uma sociedade assim não faz sentido.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Quando ouvimos numa reunião “Mas o que eu quero saber é se ele faz exame a nível de escola ou exame a nível nacional para saber como trabalhar com ele” ou “Mas este menino então é para fazer avaliação adaptada, é isso?” percebemos duas coisas: A nova função do professor, comandada única e exclusivamente pelos resultados, e o pouco tempo a desperdiçar para ouvir falar e trabalhar com alunos de segunda esperando que alguém lhes diga o que fazer.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Não estou a censurar, estou a revelar uma realidade, uma forma de agir e de pensar perpetuada por anos. A verdade é que há fundamento para esta realidade instituída, mas por estar instituída não quer dizer que seja justa, honesta ou aquilo que um professor deve representar. E é muito fácil entrarmos num funcionamento em modo robot, o trabalho acumulado torna nebuloso o discernimento.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Como podemos modificar então uma realidade tão instituída e tão pouco refletida? A legislação atual, o Dec.Lei 54/2018 de 6 de julho deu um impulso (escrava também das diferentes interpretações realizadas porque há aspetos impossíveis de serem decretados). A nossa posição e afirmação é também uma delas. Recordo-me de uma escola onde trabalhei recentemente, onde numa reunião, o diretor disse sem qualquer pudor “Eu estou a marimbar-me para os exames. Eu quero que todos os alunos sejam ajudados dentro das suas possibilidades”. Foi o escândalo na sala.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Vamos lá clarificar um cliché recorrente mas necessário de ser aplicado mentalmente: Todos os caminhos são legítimos quando feitos com rigor, e rigor significa definir objetivos consoante os pontos fortes e menos fortes do aluno, as suas expectativas e os caminhos possíveis. Não é nivelar por baixo ou fazer o “teste do coitadinho”, é dar as ferramentas de apoio que lhe permita a caixa correta para conseguir ver para lá do muro sempre assente no compromisso mútuo, não há sucesso sem trabalho e ninguém ajuda quem não quer ser ajudado.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">A Universidade é legítima, os cursos profissionais são legítimos, todos os percursos são legítimos desde que haja rigor. E adaptar o currículo e a avaliação quando é necessário não é facilitismo, é justiça."</span></em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:26979 2019-10-31T15:51:00 “Acalmemo-nos” todos um bocadinho. 2019-10-31T16:07:51Z 2019-11-05T15:36:22Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 403px; padding: 10px 10px;" title="Mafaldinha.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G261736b8/21598585_FdFeP.jpeg" alt="Mafaldinha.jpg" width="403" height="442" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Tinha ido jantar com uma amiga ao café Austríaco no Chiado e, como habitual nas nossas conversas, falámos sobre relações, o panorama político atual com a eleição de novos deputados, as políticas sociais (no nosso caso por defeito de profissão) que estão em vigor e qual o impacto na nossa sociedade. Falámos dos perigos dos extremismos, dos últimos gritos da vida política, dos rótulos, dos <em>statements</em>, de políticas. Indignámo-nos com algumas situações e rimos com outras.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Recordo-me que em alguns momentos da nossa conversa, sempre que nos queríamos soltar de preocupações com as palavras e amarras, olhávamos primeiro em redor para ver quem estava ao nosso lado (numa quarta feira à noite havia pouca gente) e esgueirávamo-nos ligeiramente para falar baixinho como se uma determinada espécie de PIDE estivesse à espreita. Tinha de dar mil voltas à cabeça para fintar os nomes e as expressões que podia utilizar, porque não posso chamar pelo nome, mesmo que chamando pelo nome na minha cabeça não soe a desrespeito ou intolerância. Palavras que são hoje rapidamente e facilmente passíveis de serem julgadas em praça pública. Rótulos que são imediatamente associados a xenofobia, intolerância, radicalismo, conservadorismo, machismo, feminismo, extreminsmo, fundamentalismo e todos os "ismos" que se tornaram os bodes expiatórios (sempre os outros, nunca eu) deste tempo. Nunca se colecionou tantos rótulos e gavetas como a atualidade que vivemos.  Assemelha-se por vezes a uma caça às bruxas como no tempo da Inquisição, usando por vezes, raciocínios pobres <em>non sense</em> equiparáveis aos usados no icónico filme dos Monty Python “The quest for the holy grail”. </span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Sinto igualmente o cuidado de escolher a quem mando piadas, que é apenas isso mesmo, uma piada, por poder colocar algo em causa e ser julgada com uma moral que parece pretender ser superior. Mesmo que nos conheçam, mesmo que o nosso percurso tenha sido marcado por tudo menos os "ismos" -  os rótulos que nos querem colocar (bem pelo contrário). De repente parece que o peso da atualidade e de normas que se mostram apertadas, escrutinadas e redundantes colocam em causa pessoas e percursos. Parece ter-se instalado uma determinada moda de estar e pensar que não permite uma autorreflexão.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">São os arautos da moral, os ditadores dos bons costumes, deste e de outros séculos. Os mártires de ideologias que nunca se colocam em causa e mais grave, que não possuem um <em>background</em> que lhes permita fundamentar e refletir o seu pensamento. E assim se afastam do cerne das questões basilares com fogos de artíficios, palavras gastas e vazias de pensamento.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Na procura incessante de um "eu" no mundo, parece ser inevitável sufocarmo-nos num coletivo repleto de areias movediças. </span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Remodele-se este tempo por favor.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:26640 2019-10-22T17:31:00 Viram o Joker? Está lá tudo. 2019-10-22T16:37:32Z 2019-10-22T16:37:32Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="joker usar.jpeg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G31184d5d/21590021_mUURf.jpeg" alt="joker usar.jpeg" width="960" height="540" /></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Escrevo este texto sem saber, até ao momento, os factos exatos (provavelmente nunca saberemos) do que se passou numa sala de aula de TIC no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, mas caí no erro (não sei se um erro) de ler os inúmeros comentários de outros professores, colegas meus de carreira, que quase o intitulavam de um herói utilizando expressões coniventes com a violência verbalizada nas manchetes dos jornais.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;"><strong>Nota geral:</strong> Sendo verdade a violência verbal e física retratada nos <em>media</em> por parte do professor é absolutamente inadmissível que tal tenha acontecido. É absolutamente inadmissível punir em praça pública sem conhecimento de todo o contexto, assim como é absolutamente inadmissível a agressão por parte de alunos para com professores, bem como constantes oposições à autoridade de um professor dentro de uma sala de aula. Isto não é uma opinião, isto é um facto.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Assistimos e vamos tendo conhecimento, quase quotidianamente, de agressões verbais e, inclusivamente físicas, à classe docente por parte dos alunos e embora condenemos de imediato estes atos, parece existir uma certa condescendência latente que se refletem nas expressões: “mais do mesmo”; “são os alunos que temos”, “é o país que temos”. No dia em que um professor, por não sabemos ainda bem o quê, se humanizou, não conseguindo controlar os seus impulsos perante algo que terá à partida sido interpretado como um questionar da autoridade foi o escândalo social. <strong>Vejamos, é um escândalo sim, os professores são os adultos e são a referência, devem ser a referência, mas é igualmente escandaloso e retrato de uma sociedade doente, existir a violência inversa. Não pode, não deve, haver condescendência unilateral.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Algo vai muito mal “no reino de Portugal” quando o apelo à violência vem de todos os lados. Alunos contra professores, professores contra alunos, professores contra o resto da sociedade, pais contra professores e professores contra pais. <strong>É apenas contra a violência que se deve estar contra. Venha de  onde vier.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">O que se torna mais preocupante num “reino” como este é o terreno fértil para a entrada de fundamentalismos igualmente inadmissíveis por fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. <strong>Quando o Chega chegou ao Parlamento é porque já se infiltrou em todas as áreas. Não, no tempo do Salazar não era bom, mas este tempo também não o está a ser.</strong></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Tudo começa a ser preocupante e a pergunta que devemos fazer é como chegámos até aqui? Qual a metáfora do arquiduque Franz Ferdinand que fará despoletar o gatilho para que se acabe de vez com uma cultura de despenalização e desculpabilização de atos que não podem, em nenhum momento, numa sociedade atual ser livre de consequências?</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Lembram-se do filme Joker? Vejam e revejam. Está tudo lá.</span></strong></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:26435 2019-09-30T23:05:00 Tu 2019-09-30T22:06:11Z 2019-09-30T22:06:11Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 572px; padding: 10px 10px;" title="tu.png" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G81172e76/21570494_TtS0p.png" alt="tu.png" width="572" height="720" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando me abraças é como se fechassem todas as caixas de Pandora. </span><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando sorris para mim é como se derretesse internamente e tomasse todas as doses de oxitocina do mundo. Quando não te vejo por dois segundos no exterior é como se caísse em queda livre para debaixo do chão. Quando te volto a ver é como se me deitasse na areia quente depois de um banho de mar. Quando fazes beicinho é como se te quisesse engolir num abraço. Quando estou mais de um dia sem te ver é como se o meu corpo fosse a definição viva da palavra inquietação como a música de José Mário Branco.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando ralho contigo de manhã por estar atrasada e logo após te deixar na escola sinto remorsos. É como se ficassem em falta todos os beijos que te quero sempre dar. Quando te imponho limites e não te deixo fazer tudo o que queres não sinto remorsos porque sei que não vou estar sempre perto de ti e mais convictamente sei que um dia não estarei mesmo.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando desarrumas tudo por um ainda pouco auto controlo motor ou só porque tem piada, meço a minha reação pelo meu cansaço. Ou ralho ou junto-me a ti no chão criando um pequeno caos. Quando chamas ininterruptamente "Mamã" por 30 segundos, que para mim são longos minutos, é como se acabasse um treino de ginásio. Quando não chamas, sinto falta do meu outro nome.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando apregoo, também convictamente, que ser mãe não é claramente a única coisa que me define e que o meu trabalho e carreira é o que fazem o equilíbrio saudável digo-o enquanto penso em ti. Este equilíbrio é o que me faz feliz, o que te faz feliz, mas em caso de dúvida, corro para ti. Sempre.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">Quando não era mãe era como se vivesse numa bolha muito racional com pouco espaço para dissertações emotivas, agora que sou assumo esta “irracionalidade” e gosto.</span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: 12pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;">(Este blog faz quatro anos. É um blog sobre Educação, não sobre maternidade, mas como forma de comemorar nada melhor do que um texto sobre um dos maiores momentos educativos de uma vida: Ser mãe da Maria Luísa).</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:pedimosgomascomoresgate:26196 2019-09-26T10:25:00 A extenuante palavra Inclusão. 2019-09-26T09:49:00Z 2019-09-26T09:49:00Z <p class="sapomedia images"><img style="width: 820px; padding: 10px 10px;" title="Maria-Joana-Almeida (1).jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G3d17183c/21566879_BJ08W.jpeg" alt="Maria-Joana-Almeida (1).jpg" width="820" height="573" /></p> <p> </p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Transcrevo o meu último artigo no Público.</span></strong></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/09/23/sociedade/opiniao/extenuante-palavra-inclusao-1887596" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/09/23/sociedade/opiniao/extenuante-palavra-inclusao-1887596</a></span></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">"Assisti recentemente a um vídeo curioso. Alguém filmava um baile nas ruas de Maastricht. Ouvia-se André Rieu e dançava-se valsa. No meio havia um par que também dançava, ela em cadeira de rodas, ele em pé. Esta seria uma daquelas imagens bonitas que se colocam facilmente em qualquer abertura de um colóquio ou congresso sobre Inclusão. As cadeiras de roda são maioritariamente o símbolo de uma sociedade inclusiva, da inclusão, da boa vontade, daquela máxima “Fomos buscar uma senhora de cadeira de rodas porque estamos muito atentos, somos muito modernos, somos muito inclusivos”.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O mais interessante ao assistir a este vídeo, não foi a senhora a dançar de cadeira de rodas, foi o olhar de quem filmou, foi o “olhar” de quem ali estava. Não houve um único momento onde fosse sentido que aquela situação fosse diferente de todos os outros pares que dançavam. E porque deveria ser?</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Porque falamos em Inclusão? Por que é que a Inclusão é quase como uma matéria dada à parte num determinando gabinete a uma determinada hora decretada por pontos e exemplificada num Manual? Por que é que quando uma escola tem muitos alunos de cadeira de rodas físicas ou intelectuais se aplaude chamando como exemplo de uma escola inclusiva? Realizam-se passeios, encontros, verbalizam-se palavras de apoio, palmadas nas costas, um leve brilhozinho nos olhos e um certo altruísmo do que está a ser feito, numa certa superioridade ingénua. Numa breve analogia é como se olhássemos aquele vídeo com setas de néon e câmara sempre assente na senhora de cadeira de rodas. Presa numa determinada jaula transparente.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">António Nóvoa escreveu isto em 2005: “As coisas da educação discutem-se, quase sempre, a partir das mesmas dicotomias, das mesmas oposições, dos mesmos argumentos. Anos e anos a fio, banalidades. Palavras gastas. Irritantemente óbvias, mas sempre repetidas como se fossem novidade. Uns anunciam o paraíso, outros o caos – a educação das novas gerações é sempre pior que a nossa. Será?! (…) A certeza de conhecer e possuir “a solução” é o caminho mais curto para a ignorância. E não se pode acabar com isto?”</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Uma dessas palavras “Irritantemente óbvias” é exatamente esta palavra: Inclusão. Partindo desta posição pressupõe-se que existe uma entidade nesta sociedade que “tem o poder” de incluir alguém que está à margem da sociedade. Se a sociedade são “todos” então voltamos a pressupor que há um “nós” e “os outros”. Uma sociedade de primeira e uma de segunda.</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">O Secretário de Estado da Educação, João Costa, costuma referir, em alguns encontros, uma imagem bastante reveladora desta mentalidade: Em duas turmas diferentes havia dois meninos em cadeira de rodas, um em cada turma. Numa simulação de prevenção no caso de um sismo que assistiu numa das turmas um dos colegas agarrava no menino de cadeira de rodas e colocava-o debaixo de uma mesa e ali ficava juntamente com ele. Na outra sala o aluno de cadeira de rodas ficava num espaço distante dos outros a observar os seus colegas enquanto faziam a simulação. O Secretário de Estado da Educação perguntou porque estava ele ali, que assim ele podia morrer, ao qual um aluno respondeu. “Não, mas ele não conta”. “Ele não conta… (Há espaços onde não há óbvios, nem por decreto).</span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">Os argumentos do modus operandi de cada escola relativamente “aos outros” multiplicam-se entre: “A inclusão é impossível”; “Há falta de recursos nas escolas”.  Estas são as expressões eternamente repetidas. Havia falta de recursos há 10 anos, há falta de recursos hoje, e haverá, certamente, falta de recursos daqui a 10 anos. Arrisco dizer que a falta de recursos são maioritariamente humanos e menos materiais. Não adianta ter armazenado em armários fechados inúmeros materiais se não formos capazes de tratar todos com dignidade aceitando a diversidade dentro de nós e não porque um decreto a impõe. As barreiras são efetivamente muito mais ideológicas do que físicas. Este conceito (Inclusão) é frequentemente enviesado e hermeticamente fechado em politicamente corretos. Esbarra em leituras muito próprias e que deturpam o seu sentido, porque parafraseando Rodolfo Castro, um extraordinário contador de histórias, “Quando lemos uma história a moral não está na história, a moral está em nós. </span></em></p> <p style="text-align: justify;"> </p> <p style="text-align: justify;"><em><span style="font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;">“(…) quando conseguirmos perceber a diversidade humana não mais haverá lugar à Inclusão, à exclusão, à discriminação. A Escola será um lugar de todos e para todos.” (Rui Proença Garcia)"</span></em></p>