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Aquela casa que é "A casa"

por Maria Joana Almeida, em 23.04.19

barreiros.jpg

 

Já não tenho avós. O avô Augusto foi o avô com o qual vivi, ainda alguns anos, como sendo o único. Faleceu em 2015. O avô "poeta" de olhar doce. Nunca vou esquecer o dia antes de falecer. Ouvi a sua voz ao telefone na véspera de apanhar o autocarro para o ver. Indescritível o que senti quando o ouvi e a mágoa por não ter conseguido vê-lo a tempo.

A minha avó Celisa era a matriarca. Os braços que abraçavam toda a aldeia onde vivia. Esta aldeia. Um pilar incontornável para todos. Justa, decidida, forte, mulher de não pedir licença para o trabalho. Uma Padeira de Aljubarrota, uma Joana d'Arc. A aldeia era a minha avó. 


A avó Emília e avô Manel (Vupa), avós paternos, faleceram quando eu era mais pequenina. Moravam ao lado de Barreiros, em Vila Nova, numa casa que para mim era no meio da floresta. Na altura queria muito brincar e sei que não passei o tempo que devia com ambos, nem lhes consegui dar o valor que mereciam. Hoje olho para trás e sei, consigo sentir aquele amor incondicional. Era a única neta menina da parte do pai.

A minha mãe diz que a avó Emília e o avô Manel eram muito apaixonados um pelo outro e eu acho que sentia isso. Ele era alfaiate e um homem muito bonito. Na foto que tenho dele, quando era novo, gosto de acreditar que tenho semelhanças com ele. Envaidece-me.

 

A avó Emília era despachada e muito doce. Recordo-me dela a rir, com olhos azuis muito bonitos, figura alta e magra. Defendia-me sempre, sempre. Era a menina. E o meu avô, se a bondade tivesse um rosto, era o avô "Vupa".


Os meus pais ficaram com a casa dos meus avós maternos, mesmo no centro da aldeia em Barreiros. Está remodelada mas ainda cheira aos avós.
Esta aldeia, toda Viseu, é também a minha casa. As memórias de infância vêm dali, das casas dos avós, separadas por um quilómetro que fazia ora a pé, ora de bicicleta (mal porque tinha uma subida chata) ora de carro. Os primos que faziam de irmãos, o contacto com os animais, a matança do porco, as galinhas, os coelhos, aquelas coisas PAN – distantes, mas contextualizadas. Tive essa sorte. A menina da cidade que ia à aldeia nas férias e que me ajudou a um maior equilíbrio.

 

Subi às árvores, caí muitas vezes de bicicleta (irritava-me não saber andar tão bem como os meus primos) fugi dos porcos e levava a burra com o meu avô de Vila Nova a Barreiros e vice versa. Era mais medricas, era. Mas as férias de verão ajudavam a “enrijecer” especialmente a autoestima. O amor da família é daqueles que nos constrói muito.  A casa dos meus avós, em Barreiros, por ser mais central, tornava-se, para mim, o centro do mundo.

 

A minha avó obrigava-nos, da maneira mais impossível de negar, a ir à missa ao domingo de manhã. Situação à qual acedíamos para (às vezes) a meio fugir e ir ver o Dragon Ball. Eu sabia que Deus perdoava (embora às vezes tivesse dúvidas e por isso reforçava as orações à noite que repetia sem perceber muito bem o que dizia). A minha avó só cozinhava as coisas que os netos gostavam e não deixava os pais ralharem connosco embora nos chamasse também a atenção, daquela forma que os avós chamam. Era apaziguadoura, doce com os netos, assertiva e mulher de pontos nos “is”. Destemida.

 

O Miguel Esteves Cardoso escreveu numa crónica: Os nortenhos são honestos, sinceros, directos, bem humorados e generosos. Não se importam de ser desconcertantes. Dizem o que lhes vai na alma e incitam-nos a fazer como eles, a sermos livres.(...) No Norte são as pessoas do Norte que nos endireitam. Quando comecei uma longa descrição do vinho que eu queria o empregado exasperou-se: "já está a complicar muito, porra! Fique-se com esta garrafa e não me fale mais de vinho".  Sem qualquer soberba, ou presunção percebi-o perfeitamente. É o que sinto.

 

Tenho um orgulho enorme quando digo que a minha família é toda de Viseu. Tenho um orgulho enorme na minha família. Herdou (herdámos) valores que prezo. É uma família da verdade, dignidade e do correto. É também aquela que me consegue pôr a rir como mais ninguém.

 

Lisboa tornou-se a minha cidade. Gosto de ir ao Amélia, ao Choupana. Aos festivais de cinema francês, italiano e o diabo a sete. Gosto de músca indie, alternativa, gosto jazz e sinto-me bem nestes ambientes. Acabaram por ser uma casa, mas não há nada comparado ao sentimento de pertença na casa cheia dos meus avós com muita comida, abraços, histórias, e as descomplicações, o direto e o honesto. O focar no que é realmente importante.

 

Vou poucas vezes à minha outra casa, menos do que gostava, mas é lá que também me endireito e é lá que também foi construído "aquele" pilar que me faz sentir bem no resto.

 

PS: Foto tirada este domingo perto de casa dos meus avós agora nossa.

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publicado às 08:48


14 comentários

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De A 3ª face a 23.04.2019 às 09:00

Que bonita homenagem! Adorei o texto.
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De belitaarainhadoscouratos a 24.04.2019 às 09:34

Tão bonito, o texto. E há um canastro! Na aldeia da minha Mãe, perto de Sever do Vouga, também há muitos desses
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De Rui Pereira a 24.04.2019 às 09:49

Destaque merecido. Excelente texto.
Parabéns!
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De Maria Araújo a 24.04.2019 às 10:08

Há memórias da infância que ficam para sempre pela simplicidade da vida que os familiares nos deram com valores, humildade e regras, o que faltam na sociedade actual.
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De Maria Joana Almeida a 24.04.2019 às 12:04

Sem dúvida Maria e merecem de facto ter voz.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 10:27

Que engraçado Joana, essa mesma aldeia de Barreiros era a aldeia dos avós do meu pai, que simplesmente a adorava.

Beijinhos
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De Maria Joana Almeida a 24.04.2019 às 12:05

Será que nos conhecemos? :)
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De Alfa a 24.04.2019 às 14:20

Memórias de infância que marcam e que mantêm vivos os que amamos, mesmo que Já não se encontrem entre nós.
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De Jo Ca a 24.04.2019 às 19:04

Que encanto. obrigado por escrever o que também eu sinto. Nada vale mais do que esses tempos de aldeia.

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