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Ainda não sei fazer croquetes

por Maria Joana Almeida, em 22.12.20

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A minha mãe fazia croquetes. Os melhores que alguma vez comi, e sem qualquer medo de errar, os melhores que alguma vez alguém comeu. Tudo o que cozinhava era muito bom. Cozinhar era amor. Não era apenas um ato de amor. Era amor.

 

Ontem comi rissóis num restaurante (croquetes nunca me atreverei) e não eram maus. Perguntei se eram caseiros, se era a senhora da cozinha que os fazia (acho que procurava amor) e o senhor respondeu-me que não, que já ninguém fazia isso. Ele não conheceu a minha mãe. Que sacrilégio seria comprar croquetes, rissóis ou empadas. Só se fosse apenas para comprovar o óbvio: a minha mãe fazia melhor.

 

A cronista Ruth Manus, escreveu certa vez no Observador, a propósito de um texto que agitou os ânimos há uns tempos  “Minha querida, se você tem uma carreira consolidada e espaço para se manifestar, você está usufruindo de conquistas feministas. Caso contrário você ainda estaria fritando croquetes em casa.”

 

A minha mãe fazia croquetes, mas não sabia apenas fazer croquetes. A minha mãe sabia ensinar e sabia o que queria e não queria. O meu pai aprendeu a fazer croquetes. Ambos os faziam e fritavam. O meu pai sabe fazer tudo em casa, não por imposição, mas porque não era opção alguém em casa “ajudar”. A minha mãe sempre quis ambos com trabalho e ambos como parte integrante de tudo o que uma casa exige. Mas nunca exigiu só para um.

 

A minha mãe disse-me que queria que eu fosse uma grande mãe e uma grande mulher. Penso que sei qual a sua crença sobre isso, porque são várias as crenças sobre isto.

 

Quando era mais nova a minha mãe queria que eu aprendesse a cozinhar com ela (ela sabe que eu aprendi várias coisas), queria que eu soubesse bordar, fazer ponto de cruz, fazer cachecóis (também fiz alguns), dizia-me também ao mesmo tempo para endireitar as costas e ler, ler muito. Eu não gostava de bordar e não gostava de ponto cruz. Os cachecóis também demoravam muito tempo e não tinha paciência. Também não percebia porque tinha de ler muito e chateava-me ter de pensar sempre se tinha as costas direitas. Deixei as tentativas de ponto de cruz, mas li compulsivamente entre os 12 e os 18 anos e deixava bilhetes debaixo das almofadas de toda gente, assim quase como um balanço daquele dia.

 

A minha mãe tinha medo que eu viajasse, mas uma vez, numa altura em que me sentia muito triste, disse-me para eu fazer uma viagem. A minha mãe queria que eu fosse à missa e falasse com Deus, mas tinha, especialmente comigo, inúmeras vezes, um sentido de humor acutilante, sarcástico e negro. Às vezes, em grupo,  apenas nós nos ríamos, de lágrimas, só porque olhava para ela no momento certo. A minha mãe era, também, uma antítese completa. E era, porque ela me conhecia como ninguém. Aprimorava-se nas críticas, ao mesmo tempo que me dava asas. Fui percebendo isso. Deu-me muita escolha, sem primazia em nenhuma. Eu escolhi escrever, porque achava que me sentia melhor do que a fazer outras coisas. E escrevi-lhe muito em vida. E quando lia os meus textos, os olhos brilhavam igualmente como se eu tivesse feito o cachecol mais bonito ou os croquetes mais deliciosos. Ela queria-me feliz e só isso lhe importava.

 

A véspera de natal será esta quinta-feira. Não estaremos juntas desta vez. Não vou comer a tua comida. Mas continuo de costas direitas mãe, desta vez a ler receitas. Tenho muita vontade de fazer croquetes. Quero acrescentar mais à minha carreira. E era isso que tu gostarias, o que puder alcançar, mais e melhor. E eu vou sentir os teus olhos a brilhar.

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publicado às 23:00


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