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“Acalmemo-nos” todos um bocadinho.

por Maria Joana Almeida, em 31.10.19

Mafaldinha.jpg

Tinha ido jantar com uma amiga ao café Austríaco no Chiado e, como habitual nas nossas conversas, falámos sobre relações, o panorama político atual com a eleição de novos deputados, as políticas sociais (no nosso caso por defeito de profissão) que estão em vigor e qual o impacto na nossa sociedade. Falámos dos perigos dos extremismos, dos últimos gritos da vida política, dos rótulos, dos statements, de políticas. Indignámo-nos com algumas situações e rimos com outras.

 

Recordo-me que em alguns momentos da nossa conversa, sempre que nos queríamos soltar de preocupações com as palavras e amarras, olhávamos primeiro em redor para ver quem estava ao nosso lado (numa quarta feira à noite havia pouca gente) e esgueirávamo-nos ligeiramente para falar baixinho como se uma determinada espécie de PIDE estivesse à espreita. Tinha de dar mil voltas à cabeça para fintar os nomes e as expressões que podia utilizar, porque não posso chamar pelo nome, mesmo que chamando pelo nome na minha cabeça não soe a desrespeito ou intolerância. Palavras que são hoje rapidamente e facilmente passíveis de serem julgadas em praça pública. Rótulos que são imediatamente associados a xenofobia, intolerância, radicalismo, conservadorismo, machismo, feminismo, extreminsmo, fundamentalismo e todos os "ismos" que se tornaram os bodes expiatórios (sempre os outros, nunca eu) deste tempo. Nunca se colecionou tantos rótulos e gavetas como a atualidade que vivemos.  Assemelha-se por vezes a uma caça às bruxas como no tempo da Inquisição, usando por vezes, raciocínios pobres non sense equiparáveis aos usados no icónico filme dos Monty Python “The quest for the holy grail”. 

 

Sinto igualmente o cuidado de escolher a quem mando piadas, que é apenas isso mesmo, uma piada, por poder colocar algo em causa e ser julgada com uma moral que parece pretender ser superior. Mesmo que nos conheçam, mesmo que o nosso percurso tenha sido marcado por tudo menos os "ismos" -  os rótulos que nos querem colocar (bem pelo contrário). De repente parece que o peso da atualidade e de normas que se mostram apertadas, escrutinadas e redundantes colocam em causa pessoas e percursos. Parece ter-se instalado uma determinada moda de estar e pensar que não permite uma autorreflexão.

 

São os arautos da moral, os ditadores dos bons costumes, deste e de outros séculos. Os mártires de ideologias que nunca se colocam em causa e mais grave, que não possuem um background que lhes permita fundamentar e refletir o seu pensamento. E assim se afastam do cerne das questões basilares com fogos de artíficios, palavras gastas e vazias de pensamento.

 

Na procura incessante de um "eu" no mundo, parece ser inevitável sufocarmo-nos num coletivo repleto de areias movediças. 

 

Remodele-se este tempo por favor.

 

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publicado às 15:51



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