Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



"A vida é assim" (Escola, vírus e afins)

por Maria Joana Almeida, em 15.09.20

 

sergio godinho.jpg

"O pequeno livro dos medos" de Sérgio Godinho

 

No decorrer de uma reunião de um conselho de turma discutiam-se as normas para o início deste novo ano letivo. Foram quase 60 minutos a discutir por que lado entravam os alunos, quem higienizava as salas, como se higienizava, se ficavam de pé, se ficavam sentados, a que distância, com que distância, tudo milimetricamente escrito e falado. Perante as dúvidas que se iam acumulando, se resultaria de uma forma ou da outra, e do risco de falhar, quando diretamente questionada uma das mentoras da turma, calmamente, respondeu: - “A vida é assim”. Não foi um “A vida é assim” equiparado a um “É o país que temos”, “Sabes como é em Portugal” ou “Estavas à espera do quê’’. Não. Foi um ”A vida é assim” entre o calmo, um ligeiro rasgo de sentido de humor e o sério. Foi acima de tudo uma frase feita que surgiu, naquele contexto, como um calmante, uma espécie de serenidade, um oásis no meio de um deserto, um lugar-comum rico de sentido.

 

É exatamente esta a expressão correta. “A vida é assim”. A vida empurra-nos contra a parede, tira-nos o tapete do chão, obriga-nos a que, inesperadamente tenhamos de pensar e agir milimetricamente enquanto 2020 continua a fazer o seu papel de nos manter em banho-maria sem prazo validade.

 

Este “A vida é assim” foi pronunciado hoje com sabedoria. Foi pronunciado por alguém que calmamente e friamente está à tona e consegue situar-se entre os antípodas. É que há ainda um longo caminho a percorrer no degradé de cinzento existente entre os arautos da desgraça e os laissez faire.

 

No arranque deste ano letivo, ainda a escola não abriu, e muitos arautos da desgraça esperam com fervor as suas assunções a materializarem-se num aumento de número de casos. Nestes casos parece haver um certo entusiasmo em encontrar evidências em como todo o plano de contingência é incompetente esquecendo-se de que nenhum de nós está do outro lado da barricada. Que “os portugueses” na gíria de inúmeros discursos políticos não são uma entidade onde não pertencemos. Existe também quem, genuinamente, esteja preocupado receando o pior e, também, milimetricamente encaixe a sua vida num quadrado de desinfectante, luvas, máscara e viseira minimizando o espaço possível para qualquer erro. Há quem vista o fato do imortal achando que o vírus a si não lhe assiste como se este contornasse os ”campeões”. E por fim aqueles que assumem e regem-se pelos cinzentos desta vida (desta vida que é assim) e que respeitam o que vivemos, que conhecem os cuidados básicos fazendo uso de uma cidadania plena sem objetores de consciência. Aqueles que sabem que nada pode ser controlado a régua e esquadro e que nas consequências os bodes expiatórios não são só outros. No espetro de cinzentos há quem não fuja das responsabilidades e não se coloque no alto do muro a criticar quem faz e não faz, enquanto de soslaio atira uma máscara para o chão.

 

Tenho uma objecção de consciência muito pessoal nos espaços onde impera o histerismo COVID, não porque não respeite o seu impacto. Respeito. Mas porque este novo vírus não nos deve fazer esquecer outras doenças que matam, que matam mais, de forma mais devastadora. O pânico,o medo, em parte legítimo, pelo seu desconhecimento, não poderá toldar tudo o resto. Houve tempos desperdiçados que poderiam ter sido valiosos. E este é também um facto não menos importante.

 

Não voltar à escola presencial no início deste ano letivo seria assumir que nada é pior do que este vírus, que tudo poderá ser substituído online e que todos serão uns incompetentes na operacionalização das medidas. Não voltar porque não há vacina é querer viver uma vida com livro de instruções como se vivêssemos num gigante laboratório com variáveis intocáveis.

 

Na era das objecções de consciência e da loucura fundamentalista instalada, sentimo-nos reféns de notícias inflamadas, opiniões irracionais e estados de alma “legitimamente” alterados.

 

Os casos irão certamente aumentar, não só propriamente pelo início do ano letivo, mas pela aproximação de condições climatéricas que acentuarão sintomas. Nessa altura os arautos da desgraça dissimulados continuarão a dobrar risos. Risos disfarçados de preocupações com dedo em riste para de imediato lançar culpas (mesmo que desdenhe dos cuidados básicos) a outros bodes expiatórios (os habituais). Serão perigosos porque levarão consigo alguma multidão. Esperemos, acima de tudo, que o desespero não nos atire para doenças, aí sim incuráveis, e certidões de óbito de valores e direitos adquiridos. Pouca gente se rirá depois. E teremos saudades dos inofensivos tempos da Covid.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:13



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D