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A minha cultura não é melhor nem pior que a tua.

por Maria Joana Almeida, em 30.01.20

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Nasci numa pequena casa no Lumiar. No nosso andar, onde vivia com os meus pais, viviam mais duas famílias. De um lado a Cristina e do outro a Tila. A Tila assinava como “Tilinha” os quadros que pintava, com cenários bucólicos através de técnicas que consigo hoje identificar como impressionistas. Um nome que coincidia com a sua personalidade generosa.

Era hábito, à noite, depois do jantar, a minha mãe juntar-se a elas à porta para um momento de conversa. E eu, ora ia para casa de uma ou para casa de outra. Gostava da casa da Tila porque tinha um cheiro muito caraterístico. O Sr. Virgílio, o seu marido fumava cachimbo e toda a casa tinha este cheiro semi doce e a tintas. Ele encontrava-se sempre na mesma poltrona da sala a fumar cachimbo, e eu sentava-me, com respeito e admiração numa outra poltrona. Enquanto apreciava os quadros ia ouvindo o que tinha para me dizer. Há uma frase que ainda hoje retenho e que os meus 7 ou 8 anos não me deixavam compreender. “Joana, há uma coisa muito importante que tens de aprender. Podem tirar-nos tudo mas nunca nos podem tirar a nossa cultura”. Ouvia com toda a solenidade que a minha tenra idade me permitia, acenando como se compreendesse o seu conteúdo e retendo esta informação como se um dia sentisse que faria sentido. Era bom homem e muito inteligente.


Com a maturidade claro que fez sentido.


Mais tarde, já com 18 anos, a morar agora em Odivelas e perdendo o contacto com estas famílias, fui tirar a carta de condução. O meu instrutor encaixava-se na designação, tradicional do “retornado”. Homem rezingão, de rosto rude e demasiado assertivo. Tinha um medo terrível de errar quando conduzia o que me levava, naturalmente, a cometer algumas asneiras. Todo o tempo da aula só se ouvia a Rádio África enquanto proferia opiniões negativas sobre a cultura africana ou sobre o seu entendimento toldado por uma guerra que não pediu para estar. Aquilo irritava-me. Uma vez, por ter gritado comigo, saí do carro e bati com a porta com toda a força que consegui, só para não lhe gritar de volta como me apetecia e entrei na escola de rompante a queixar-me. Perguntaram-me se queria mudar de instrutor. Eu disse que não. Que trataria eu do assunto Nunca gostei de dar parte fraca. Melhorou bastante porque me tornei mais assertiva. No final passei e dei-lhe um abraço e, por momentos, simpatizei com ele.


Estas duas histórias não estão sequer alinhadas e são pontas soltas na minha linha cronológica mas existe uma ligação interessante com a atualidade.


A nossa cultura não é de mais ninguém, não obedece a mais nenhuma regra que não a nossa. Partimos dela e a ela vamos parar quando tecemos opiniões, quando agimos. Moldou-se e molda-se desde o primeiro dia em que nascemos, num contexto onde nascemos, com quem convivemos e como crescemos. É por vezes escondida em determinados contextos e noutros expandida, mas é aquilo que garante a nossa genuinidade.


Pode ser também alterada com jogos de cintura sociais para nos posicionarmos, para nos defendermos, ou para atacarmos. As máscaras que muitas vezes necessitamos de usar assim nos obrigam.
São as diferentes culturas, a forma como crescemos, que ditam a nossa verdade, isentas de culpa ou de certo e errado e que estão acima de constituições, instituições, são livres, mesmo quando há consequências.


Um bom exemplo é o 25 de Abril de 1974. Há vários lados da barricada. Os de cá, os de lá, os de dentro, os de fora. Este dia é entendido consoante a história pessoal de cada um, ou do que lhes fizeram crer. Conheço quem defenda os dois lados da barricada com argumentos sólidos, com as suas verdades inquestionáveis. O documentário Torre Bela é um óptimo exemplo disto. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinha de ter, de repente um pensamento avant-garde. Quem tem razão? Qual a verdade pessoal que é mentira?


Cheguemos à atualidade, aos meus 37 anos, onde cada verdade pessoal é agora mais facilmente visível e escrutinada, onde a incapacidade de nos colocarmos em várias peles toldam o pensamento e contaminam o nosso o filtro crítico. Onde verdades tão complexas são diminuídas em argumentos tão poucochinhos e equipáveis a um tempo inquisitório que nos levam para a deliciosa sátira dos Monty Python “You are a witch” sem os contornos ou as culturas pessoais. Racismo, xenofobia, misoginia, fascismo, são guarda-chuvas por vezes demasiado fáceis, utilizados em tantos momentos como uma cultura de vitimização que pretendem por vezes apenas esconder situações de incompetência, amadorismo. Cito Irene Pimental, que no meio destes tempos controversos escreveu, o que para mim ,é o texto mais iluminado e refrescante: "Não tenho dúvidas de que há racismo em Portugal e que é necessária e vital mesmo a luta anti-racista, como em qualquer parte do mundo onde ele existe. Penso que é bom haver na Assembleia da República deputados portugueses de todas as etnias, da mesma forma que elas existem em Portugal. Há, porém, uma deriva (minoritária aqui, ao contrário da que existe por exemplo nos EUA ou no Brasil) racialista e identitária que tem feito muito mal na nossa sociedade, à luta anti-racista necessária e ao combate contra a extrema-direita. É uma deriva divisionista (…) que não tem conta as classes, nem os géneros e que explica tudo com o racismo/antiracismo, generalizando e falseando o que se passa. É uma deriva que insulta todos os que não pensam como eles e não vivam como eles em bolhas, através das quais vêem a realidade desfocada, de «racistas». É o pior que poderia ter acontecido ao combate anti-racista e por isso deve ser denunciado, pois está a causar estragos."


A nossa cultura é aquilo que ninguém nos pode tirar, mas o assumirmos a complexidade de ambos os lados e possuirmos honestidade intelectual torna-nos mais verdadeiros e completos. Às vezes abraçar menos causas, que não são mais que refúgios morais ditados por contextos, modas, deveríamos abraçar mais pessoas e assim ter mais mundo do que o quintal a que estamos habituados.

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publicado às 22:14



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