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A Maria leu hoje uma frase

por Maria Joana Almeida, em 10.12.18

bored teachers.jpg

 

Já tinha escrito algo semelhante no primeiro texto que fiz no meu blogue. Há frases que aparecem na nossa vida que servem para validar uma convicção e sem nos apercebermos, condicionar a nossa ação e pensamento.

 

Acordei de manhã e enquanto fazia a viagem até um dos meus trabalhos li a seguinte frase que apareceu em pop-up nas redes sociais “Students don´t need a perfect teacher. Students need a happy teacher, who´s gonna make them excited to come to school and grow a love for learning” que é qualquer coisa como isto “Os alunos não precisam de um professor perfeito. Os alunos precisam de um professor feliz que os consiga entusiasmar para a aprendizagem”

 

Fazia todo o sentido. Conseguia rever-me no meu presente e no meu futuro.

 

Durante a manhã, na minha turma do curso de alfabetização, trabalhei com o mesmo entusiasmo de sempre. Aquele entusiasmo de quem trabalha para permitir ferramentas base do dia-a-dia. Dar liberdade, autonomia a adultos que ainda fazem parte do 5% de analfabetos que herdámos dos 26% em 1974. Mas também aquele entusiasmo de quem trabalha com uma equipa com o mesmo foco, com uma atitude construtiva, sensível e persistente. E acima de tudo uma equipa que encara cada indivíduo como singular com a sua história, fragilidades e comprometimentos que merecem, por respeito a cada perfil, um plano e um trabalho individual.

 

A Maria é nova nesta turma e à semelhança de muitos formandos nunca foi à escola e a sua vontade de aprender é inspiradora. Quer tanto aprender que quando erra por vezes quase chora porque a sua força de vontade contamina toda a racionalidade que nos diz que é a errar que aprendemos e que é passo a passo nunca imediato.

 

Hoje, passado dois meses de formação, a Maria leu uma frase. Não há palavras para a sua expressão perante os aplausos dos seus colegas e as palavras de motivação.

 

E a Maria, no seu modo ingénuo, dizia-me enquanto eu lhe dava, também, os parabéns: “Mas professora, não sei como hei-de explicar, mas a professora tem assim muito gosto em ensinar e assim é mais fácil”. E naquele momento regressei à frase. Condicionou, de uma forma muito positiva aquele dia.

 

A alfabetização de adultos tem sido encarado como um problema menor, muitas vezes com uma intervenção paliativa, pela rama, sem se permitir a conhecer as histórias de cada aluno. Há dois aspetos que determinam o sucesso desta intervenção: a consciência de que 5% é a percentagem mais elevada na Europa (ainda me recordo da expressão de admiração de um amigo alemão que não acreditava que ainda havia pessoas analfabetas) e que, em pleno século XXI, é inaceitável e tem de ser combatido; e de que ensinar um adulto a ler e a escrever tratando-o como mais um, fechando os olhos a um passando de vivências muito próprias e negando-lhes assim um futuro, é perpetuar a percentagem existente.

 

Num futuro, quando me perguntarem por um dos momentos mais significativos na minha vida profissional, este será, sem dúvida um desses momentos.

 

Estou longe de ser perfeita, mas convictamente certa de que sem amor, sem paixão ninguém ensina e ninguém aprende ponto.

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publicado às 22:07



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