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Voltaremos a dar a mão mãe.

por Maria Joana Almeida, em 04.12.20

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MÃE

 

Fechou-se hoje uma porta. A do amor incondicional de uma mãe, o sítio de onde vim e nunca mais poderei voltar.

 

Durante todo o tempo que possamos viver nunca entenderemos a lógica da vida e a lógica da morte. Não houve lógica na tua partida mãe.

 

Pergunto-me o que quer a vida ensinar-me com isto a não ser que estamos todos em fila de espera para a morte. Nua e cruamente, é apenas isto.

 

Passámos os teus anos, os meus e os do pai. Falhámos o Natal mãe, o nosso Natal.

 

Deixaste-me um legado difícil de acompanhar, ser Fátima, Mata, Fatucha, Fatinha, Avó Fama, e a mãe que foste não é para qualquer pessoa. A singularidade simples, generosa, genuína algumas vezes te prejudicou mas tantas vezes te compensou. O farol e pilar que foste e continuarás sempre a ser iluminou e segurou tantos pesares e tanta gente. Ninguém te ficava indiferente, tarefa impossível. Mesmo no hospital cativaste corações como só tu o sabias fazer. Como escrevi numa homenagem que te fiz enquanto estavas entre nós “A minha mãe é parecida com a minha avó. Não faltará nada a ninguém enquanto estiver por perto.” Mas a vida falhou-te mãe. Traíu-te, traiu-nos.

 

Se arrependimento matasse eu teria morrido mil vezes, por todos os momentos que nos aborrecemos por pequenas coisas, por todas as vezes que me queixei do teu sufocar de amor, por todas as vezes que não soube dar o valor, por todas as vezes que não olhei para os teus olhos como olhei nos teus últimos dias. E que bonitos que eram.. Mas sabes, no fundo, o que eu sempre quis foi que te orgulhasses de mim. Nos momentos de reconhecimento que tive foste sempre a primeira pessoa a quem liguei, não hesitava. Precisava de ouvir, “Parabéns filha, isso é muito bom, fico muito feliz” e esta frase ganhava mais peso e preenchia-me mais, do que qualquer outra declaração ou louvor. E eu sei que te orgulhas. Falamos disso mãe. Disseste-me.

 

Todos os que conversaram comigo neste período de inferno, que apenas agora começou, diziam recorrentemente: “Eu não tenho palavras” e não existem mesmo palavras para este caratér aleatório da vida. Mas eu tenho muitas mãe. E a primeira é esta cruel ironia: Sempre me sufocaste de amor e eu queixava-me. Nos últimos dias não havia amor suficiente que te pudesse dar. Passava as noites em claro para te ligar logo pela manhã apenas para me certificar que estavas ali, que ainda estavas ali. Inundava-te de mensagens às quais não davas vazão para responder pois o cansaço ganhava terreno. Eu sufocava-te de amor ao mesmo tempo que finalmente compreendia o que era esse amor que não cabe dentro de nós e que quer roubar todo o espaço antes que seja tarde demais.

 

Mantiveste-te fiel à tua essência até ao final dos teus dias. Nem nesta doença, a destruir-te por dentro, deixaste de pensar mais nos outros do que em ti própria.

 

O Tó, alguém que gosta muito de ti e de quem gostavas muito também, disse, quando escreveu sobre ti: “O problema das pessoas muito boas, é que nos dão tanto e parecem precisar de tão pouco que não nos preocupamos para saber se lhes podemos dar mais ou melhor.”

 

A tua preocupação constante com a Luisinha e Madalena, a mágoa de não as veres crescer, de não poderes cozinhar para elas, de não as poderes ir buscar à escola e cantares todas as músicas para as adormecer. A tua preocupação constante com o pai, comigo, com todos os que estavam perto de ti. Foste e és amada por todos.

 

Tiveste uma coragem inabalável, mas tão inglória. Foste a primeira a saber do teu estado, quando te encontravas sozinha, foste tu quem informaste a tua família, os teus irmãos que ouviram pela tua voz, da matriarca, as palavras mais horríveis que poderiam ouvir. E foste tu que me consolaste ao telefone.

Foi nesse dia, quando o pai me disse, que soube o que era ter o corpo a querer colapsar, a voz a desaparecer, a repetição inquebrável da frase “ não pode, não pode, não pode” de olhar para os mesmos objetos de sempre como se estivesse noutra dimensão, do buraco e do vazio repentino no peito, de ter de dar colo à Madalena e ter de tentar acalmar o impossível de acalmar. Senti uma desumanidade perante a vida e a verdadeira assunção da palavra crueldade e ingratidão. E foi, também, nesse dia que a minha fé morreu.

 

Encaixámos a dor e seguimos em frente, de cabeça levantada e de armadura. Estive contigo na linha da frente, não haveria outra maneira. E se dúvidas houvesse sei hoje de onde vem o meu sentido de humor. O que ainda nos rimos no meio do inferno mãe. As fintas que tantas vezes fizemos à morte, a rir, a dar as voltas ao jogo, a sermos nós a dar as cartas. Disseste que não dava jeito nenhum morreres agora, que tinhas mais que fazer, o quão desleixados e a precisar de restauração estavam os hospitais para dizeres imediatamente a seguir, estou lá eu ralada com isto, restaurem-me mas é a mim. Ou mandares o médico tomar morfina que tu não a tomarias. O que nos rimos mãe. O que restava fazer? Sempre foste das pessoas com quem mais me ria. Vinha da nossa cumplicidade. Havia, ao mesmo tempo, um caráter pragmático e direto perante a vida.

 

A verdade é que os sinais estiveram lá, tantas vezes e com tanta intensidade, mas tu eras a Fátima, a minha mãe, a imortal. Uma força da natureza nas tuas convicções enquanto mãe, mulher e matriarca.

 

E que tempo tão carrasco para se poder estar doente...Pedem-nos racionalidade. Como se houvesse alguma racionalidade em perder uma mãe.

 

Num dia, sem esperar, estive sozinha contigo numa visita ao hospital que de alguma forma consegui impor sem esperar, e conversamos. Olhamo-nos mutuamente e demoradamente e, naquele olhar, sem esperármos, fizemos uma viagem de 38 anos em silêncio. Senti que ficámos em paz.

 

Ontem ainda te dei a mão mãe, ainda te falei ao ouvido, quero acreditar que sentiste, que ouviste. Fiquei até não me ser permitido mais, porque estar em casa quando estavas sozinha no hospital naquele que parecia ser o último dia não era opção. Foi.. Teria ficado até ao fim.

 

Tenho tanta coisa para te dizer, mas eu sei, que tu sabes tudo o que poderia escrever nesta nossa ligação visceral que é eterna.

 

Fizeste-me três pedidos, que honrarei até ao final dos meus dias, um deles , para ser “uma grande mãe e uma grande mulher.” Ainda, numa das nossas últimas conversas ao telefone, daquelas das 06h30, a hora em que o meu coração sossegava minimamente porque ainda estavas ali, disseste-me: "Olha, tu agora já não és Joaninha, tu agora tens de ser Joana." Uma frase tão simples e tão certa. Assim era, assim é a minha mãe.

 

Mãe, serei sempre a tua Joaninha, mas prometo que serei, certamente, Joana perante a vida para sempre. Sinto que este poderá ter sido o teu último grande ato de amor. Fazer crescer uma força e resiliência que apenas julguei ser quase sobrenatural.

 

Adeus Mãe, foste e serás sempre, o meu primeiro grande amor.

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publicado às 23:21

Na escola não se pode ser de esquerda nem de direita

por Maria Joana Almeida, em 19.11.20

 

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A minha crónica no jornal Público

 

"O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "São 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados”. E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independentemente dos seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

Erramos muito ainda quando falamos de inclusão, aliás, todos os textos sobre Inclusão falham redondamente quando assim se auto-intitulam, e falham redondamente porque o princípio deve ser sempre o da diversidade o da assunção da diversidade. Falar de inclusão é a antítese do que queremos. Mas lá chegaremos, ao dia em que não seja preciso um holofote perante a inclusão. Quando não for preciso reforçar que é homem ou mulher, que é imigrante, que de ascendência x, quando qualquer fator externo não é mais relevante do que sua competência. O momento chegará quando erradicamos, inconscientemente, do nosso discurso,”(…) e ela é mulher” e “foi o marido que ficou em casa a tomar conta do bebé”, “É africano e está na faculdade”, “Sim, temos muitos alunos de cadeira de rodas, temos um historial de inclusão”, “Sim os teus meninos, os alunos NEE”; “É para fazer os testes para os NEE?”

Não sei se irá lá por cotas, por discriminação positiva, por obrigação (não será de certeza). Creio que as mudanças profundas vêm acima de tudo por inspiração. As grandes mudanças vêm por contrapontos, por informação, por ouvir os dois lados da barricada, por correr o espetro. Porque de outra forma serão sempre assunções pouco sólidas. Facilmente manipuladas.

É por isso que áreas como a Cidadania não podem ser opcionais, por algo tão simples como o facto de que à escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

 

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos."

 

https://www.publico.pt/2020/11/18/impar/opiniao/escola-nao-esquerda-direita-1939423

 

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publicado às 23:48

Isto não é sobre esquerda nem direita.

por Maria Joana Almeida, em 11.11.20

 

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Este texto não tem cor partidária. Não é de esquerda, nem de direita. É sobre o que para mim é óbvio.

 

O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "Sâo 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo `coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados” . E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independetemente do seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência própria, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

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publicado às 21:44

5 perguntas, 5 respostas com David Santos (Noiserv)

por Maria Joana Almeida, em 06.11.20

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Ouve Radiohead todos os dias. Dire Straits e Pink Floyd em momentos de maior ansiedade para aligeirar os tempos pandémicos. É muito comunicativo nos concertos e ainda bem. É pragmático, mas emotivo, tem em conta a volatilidade do seu meio. Responde a todos os mails e mensagens que recebe. Faz questão. Três cidades na Turquia fazem parte das lista das cidades que mais ouve Noiserv, facto curioso para o qual não tem explicação . Há sempre um certo nervosismo e insegurança (normal) que o ajuda a equilibrar a sua carreira. Sente mais responsabilidade do que qualquer vaidade. Não projeta sonhos nem o futuro mas vai atrás da vida a acontecer. Tem uma sonoridade melancólica, bonita, cativante, profissional e já amplamente conhecida.

É o David Santos. Tem 38 anos, estudou no Técnico em no Curso de Eletrotécnica e computadores mas este entusiasmo pela música e por compor paralelo foi ganhando mais terreno e importância e é hoje Noiserv.

 

Obrigada David

 

1 – Não te vou perguntar porquê Noiserv, já o deves ter explicado várias vezes noutros espaços (eu depois procuro). Mas interessa-me que fales deste projeto. A música, foi-se desdobrando e acontecendo em paralelo na tua vida de estudante na faculdade. Neste caminho paralelo houve um momento onde decides seguir só a música. Quando foi o click?

 

Existiram vários momentos na verdade. A vida vai acontecendo, e dia-a-dia vamos tomando pequenas decisões que anos mais tarde parecem enormes. Talvez essas pequenas decisões tenham tomado um peso mais sério quando algures em 2007 pedi à minha “chefe” na Siemens, onde trabalhava, para ficar apenas em part-time porque precisava de tempo para gravar um disco, queria ter um disco nas lojas, pelo menos tentar. Na altura, ela disse-me que isso era contra as regras da empresa e que não seria possível, optei por me despedir. Voltei à faculdade, fiz o mestrado, segui na faculdade com uma bolsa de investigação. Algures em 2012, não renovei a bolsa e fiquei apenas com a música.

 

 

2 – Tu sentes-te artista? Ou sentes-te artista numa definição muito própria tua? Como é que te defines?

 

Não te sei responder em concreto. Acho que sou uma pessoa que gosta de fazer coisas, e de lutar por elas. Gosto de estar sempre a pensar e inventar qualquer coisa. Gosto de me entusiasmar e concretizar. Gosto muito de música e de me emocionar com ela.

 

 

3 – Disseste-me uma coisa muito interessante durante o tempo que conversamos, qualquer coisa como “uma pessoa que tira tempo da sua vida para me escrever merece que eu responda” Quando ouvi lembrei-me de pensar que tu tens os pés bem assentes na terra. É uma afirmação importante e revela muito sobre ti. A música mudou-te ou, pelo contrário, o que tu levaste para este projeto é o que faz dele o que é?

 

A única coisa, e que grande coisa, que a música me mudou foi um sentimento de concretização, até de algum orgulho maior em mim próprio e naquilo que as pessoas dizem gostar que faço. De resto, sou igual, nunca deixaremos de ser humanos, não voamos, não somos maiores que ninguém, podemos, ou não, ter a sorte de nos darmos mais às pessoas, mas só depende de nós.

 

 

4 – Não te pergunto sobre o futuro, sonhos e ambições, pois tal como eu, afirmaste não o conseguir fazer. Como está o teu presente? Estás onde queres estar?

 

Musicalmente falando, cada disco novo é um enorme “teste” para quem o fez, por todo o feedback que tenho tido, acho que este disco passou o teste e isso deixa-me inevitavelmente muito feliz. O futuro será sempre o mesmo, continuar a fazer o que mais gosto enquanto faça sentido para mim e para quem me ouve. E mais importante que tudo, nunca deixar de tomar as pequenas decisões que daqui os anos parecerão gigantes.

 

 

5 – Esta última pergunta é inevitavelmente ligada à Educação. Confesso que andei aqui um pouco às voltas para fazer um cruzamento entre a música, como arte educativa e o estado da Educação, mas não o vou fazer. Pergunto-te diretamente: da tua experiência e do que observas, o que achas da Educação em Portugal? Qual a tua sensibilidade sobre o assunto?

 

Teria de estar mais por dentro do assunto para te dar uma opinião objectiva. Apenas te consigo dizer, que ainda hoje me lembro dos “melhores” professores que tive enquanto adolescente, e acho que foram cruciais para tudo aquilo que sou hoje. Sou contra os modelos fechados de educação, o que torna cada professor especial é a sua forma única de chegar a cada aluno. Sobre a cultura na educação, acho que peca por pouco, não é suficiente uma peça de teatro por ano, a cultura são emoções e é isso que todos precisamos de valorizar para sermos mais dedicados a nós e a todos os que nos rodeiam.

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publicado às 22:16

2020

por Maria Joana Almeida, em 04.11.20

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Nunca percebi este esquema, como não percebo ainda as regras do Rugby ou do Baseball por muito que me expliquem, a par, também, de toda a árvore genealógica da saga, interminável, Star Wars. Não percebo este esquema quase tanto como não percebo haver espaço para a eleição de presidentes saídos de um filme de série z ou do canal Syfy.

 

Esta esquema é, também, uma imagem fidedigna do meu pensamento sempre que oiço/vejo um discurso de Donald Trump e fico num limbo cerebral, naquele espaço entre o confuso e o caótico, de estar perante uma realidade que supera um sketch humorístico, com a agravante de que é mesmo real e não tenho vontade de rir no final.

 

E por fim, este é também um esquema muito aproximado deste ano. Das medidas e não medidas, das proibições e restrições e das suas fragilidades e incoerências.

 

Esta é, no fundo, a imagem perfeita de 2020 onde nada faz sentido e por isso onde tudo acaba por fazer sentido. Onde já quase nada nos pode deixar mais atónitos e onde dançamos, constantemente, neste espetro entre o histerismo e a apatia, entre a verdade e o faz-de-conta. Seguimos, de máscara em riste, a dar high five de cotovelo fintando o caricato e tentado-o tornar normal. Tentado desenrolar este nó ad eternum.

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publicado às 22:17

5 perguntas, 5 respostas com o artista Diogo Landô

por Maria Joana Almeida, em 01.11.20

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As redes sociais, frequentemente apregoadas como o bicho papão, têm uma componente fantástica que é precisamente dar a conhecer pessoas e obras muito interessantes. Foi o caso do Diogo Landô. Um acaso feliz nas viagens pelo Instagram.

Recordo-me de ter ficado rendida à arte do Diogo nas primeiras fotografias que vi. Tinha de o entrevistar.

O Diogo tem 35 anos. Estudou Arte e Comunicação e foi na arte digital que encontrou o seu espaço. É representado pelo Nuno Sacramento Arte Contemporânea e tem exibido o seu trabalho em diversos espaços, tendo já conquistado, também, o seu espaço no mercado exterior onde menciona: “ser mais aceite este tipo de arte” ou ”não considerado menor". Não vou tentar definir o trabalho do Diogo. A entrevista fala por si.

 

Obrigada Diogo

 

 

1 . Diogo, a primeira vez que vi uma obra tua, no Instagram, pensei: “Adoro. Nunca tinha visto isto assim” e “isto” refere-se ao facto de ser digital. Como caraterizas as tuas obras? Qual é história do Diogo que as cria?

Gosto de caracterizar a minha obra como “digital fine art”. O meu trabalho é essencialmente desenvolvido em suporte digital, recorrendo à foto-manipulação, colagem e pintura no computador, que depois é transposto para um suporte físico, numa peça única, normalmente impressa em alumínio ou acrílico.

Apesar do meio escolhido ser o digital, o meu trabalho apresenta plasticidades muito reais, tendo como elemento central a figura humana e as emoções, as imagens surgem através de camadas (layers) onde a figura se funde com o fundo e com a malha de texturas, atenuando as linhas das formas, da perceção e da identidade.

 A minha história é a de alguém que esteve sempre ligado às artes. O desenho e a fotografia são gostos adquiridos muito cedo, participei em vários projetos musicais e frequentei a Escola de Jazz do Porto, estudei Arte e Comunicação na ESAP, um curso que desenvolvia competências nas áreas da fotografia, cinema e design de comunicação e multimédia. Durante o período de faculdade fui também explorando a pintura e o interesse por banda desenhada. Penso que o meu trabalho seja um reflexo de todas essas áreas e influências.

 

 

2 - É um lugar-comum afirmar que o Diogo Landô que realizou as primeiras obras não é o mesmo de hoje. Quer seja pelo nascimento da tua filha, quer seja pelo caminho natural da vida a acontecer. O que sentes quando olhas para trás? Tudo faz sentido?

Sim, acho que é normal. O ser humano, em geral, tem tendência a mudar, a evoluir (e ainda bem!). As vivências e experiências levam a essa mudança. Por vezes há acontecimentos que provocam mudanças mais notórias e penso que isso me aconteceu no passado mais recente.

Possivelmente será interessante referir que eu terminei a licenciatura e já trabalhava em vários projetos de design e vídeo, coisas mais comerciais ou institucionais. Fui exibindo algum trabalho artístico, mas na altura a coisa não se deu e acabei por me virar para outros mercados/nichos, como o design e ilustração de livros, tendo mantido sempre uma produção artística pessoal, com esporádicas exposições ou apresentações de obra.

Esse meu trabalho artístico era, por norma, mais pesado, mais “dark”. Apresentava temáticas relacionadas com a morte, vida para além da morte, as relações amorosas, mas através de uma estética e uma abordagem mais agressiva, com muitas referencias a caveiras, mitologia e fantasias macabras.

Entretanto o meu trabalho começou a mudar e não foi uma mudança repentina ou intencional, foi algo que foi acontecendo ao longo dos anos e sem eu me aperceber.

Vários fatores como o meu casamento, o nascimento da minha filha, o alcance de algum sucesso e estabilidade profissional, mas também a maturidade que o tempo dá, levaram-me a procurar novas formas de me expressar. Acima de tudo, penso que o que mudou foi sobretudo a abordagem estética e a forma como eu olho para as coisas. Continuo essencialmente a tratar os mesmos temas, o meu foco é o ser humano, as suas experiências e emoções, mas mudou a forma como lido com esses temas.

É de frisar também o facto ter conhecido e começado a trabalhar com o Nuno Sacramento, que foi um grande impulso à minha criação artística. Quando alguém do meio acredita em nós e trabalha connosco para atingirmos o nosso potencial, isso reflete-se. Se a minha família e a minha vida mudaram a forma como eu abordava as temáticas dos meus trabalhos, o Nuno Sacramento alterou a forma como eu me empenho no meu trabalho. E na arte, é preciso um trabalho diário e continuo.

 

 

3 - Como sentes que o digital é recebido na comunidade artística, quer nacional ou internacional?

Eu acho que o digital está a começar a ser aceite como uma forma de produção artística, apesar de ainda haver muita gente que não lhe atribui o mesmo valor de outras formas de arte. Até certo ponto isso é normal, pois é um meio muito novo e necessita de tempo para se impor no mundo artístico. Temos de perceber que a primeira versão do Photoshop tem 30 anos. Por comparação, o meio que antecedeu a sua introdução no mundo das artes visuais foi, talvez, a fotografia e isso foi há quase 200 anos e, mesmo assim, aos olhos do público geral, ainda não é vista com a mesma nobreza da pintura ou da escultura. Portanto, o digital é um meio muito novo, que se impôs mais facilmente através do vídeo, mas que, como obra estática, quadro, só muito recentemente começou a entrar nas galerias, museus e coleções.

Existe também a questão da designação de arte digital ser muito abrangente. Serve para arte 3D, fotografia, pintura, ilustração, design gráfico, colagem, etc. Pode ser para reprodução em massa, aplicada a merchandise, edições limitadas ou obras únicas. São demasiadas coisas para serem categorizadas todas como uma só. Se quisermos fazer um paralelismo, seria o mesmo que falarmos em pintura e assumir que todo o tipo de pintura é igual, não distinguindo óleo de acrílico, de aguarela ou pastel e, partindo do principio que toda a pintura é semelhante em técnica ou resultado estético, quando sabemos que não o é.

Em suma, acho que o digital enquanto “fine art” está a entrar no meio artístico, mas por vezes é ainda depreciado por algum público e agentes culturais. Sinto talvez mais abertura na Europa Central, onde me parece haver uma maior aceitação para o valor artístico do digital, mas felizmente tenho encontrado gente que gosta do meu trabalho, tanto cá como no estrangeiro.

 

 

4 - Senti o ímpeto de perguntar as tuas influências, mas esta seria uma pergunta óbvia e um tanto ou quanto recorrente. Sou da opinião que as influências estão na obra e que as influências são mais das nossas experiências de vida do que propriamente de outros artistas. Interessa-me mais saber as tuas ambições. Há um objetivo? Que caminhos gostarias de percorrer e alcançar o quê?

Penso que faz sentido responder a esta questão, explicando como e quando eu comecei a apostar numa carreira e profissionalização de artista.

Como já referi, eu sempre mantive uma produção artística associada à pintura, à arte digital e até outros projetos que fui fazendo. Fazia-os, acima de tudo, para mim, como forma de me expressar e pelo prazer do ato criativo, mantendo sempre a minha atividade como designer editorial.

Há coisa de 2 anos, senti que deveria avaliar a minha produção artística, se era algo que deveria manter como “hobby” e focar-me exclusivamente em progredir na carreira enquanto designer editorial, algo que eu gostava e gosto de fazer. Foi então que conheci o Nuno Sacramento e decidi começar a apostar mais na produção artística.

Desde aí, o objetivo tem sido sempre criar uma carreira sólida e duradoura, algo que nem sempre acontece no meio artístico.

É um novo desafio, algo que me dá imenso prazer e, de momento, o objetivo concreto é fazer a transição completa para me dedicar exclusivamente à arte.

 

 

5 - Esta última pergunta acaba por ser sempre relacionada com a Educação. Lembro-me de te ter perguntado, na nossa videochamada, qual tinha sido o momento, aquele momento cirúrgico, na escola, que ajudou a traçar o início do teu percurso artístico. Queria que falasses acerca dele e que fizesses uma breve reflexão sobre a dicotomia (?) Criatividade vs Escola – Convergência ou Divergência?

Não foi tanto o traçar o percurso artístico, até porque isso acontece no meu 11º ou 12º ano, já em artes, mas foi algo que marcou a minha orientação estética e visual.

Eu fiz o secundário no agrupamento de artes, vertente de design, pelo que estava a ter introdução a ferramentas digitais (Photoshop/Corel) e, num determinado projeto, penso que na elaboração de uma capa para um álbum, eu estava a fazer uma série de experiências no computador, à procura de uma estética que fosse de encontro ao tipo de música que eu ouvia. Foi nessa altura que uma professora me mostrou o livro Dust Covers, do Dave Mckean, que é um artista que eu ainda hoje admiro muito e que, na altura, tinha acabado de produzir as capas para o Sandman (banda desenhada), todas através de processos mix media que utilizavam também o computador, mas também pintura, fotografia, colagens, encenação... tudo basicamente. Foi aí que eu senti que queria explorar várias áreas e que havia possibilidades de o fazer de as combinar.

Em relação à dinâmica Criatividade-Escola, penso que é algo que é importante e que deve existir, não só em relação às artes, mas a todas as disciplinas.

Estou fora do ensino há já alguns anos, mas pela minha experiência pessoal e pelo que observo através dos media ou colegas que lecionam, acho que o sistema atual de ensino está muito mecânico e decorado. Para mim, o ensino deveria fomentar mais a interrogação e compreensão das disciplinas e conteúdos lecionados. Os jovens devem ser incentivados a ser criativos e encontrar formas alternativas de abordar assuntos e problemas, caso contrário, a educação torna-se cinzenta e aborrecida, com o objetivo de criar pessoas para executar um determinado número de funções, que provavelmente irão mudar no futuro, mas sem espírito crítico. 

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publicado às 22:11

Escola e tolerância

por Maria Joana Almeida, em 18.10.20

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Por muito tempo que viva nunca conseguirei perceber o fundamentalismo, a vida a preto e branco. A falta de equilíbrio e bom senso. O definir a vida entre dois extremos. O querer viver sem cinzentos é um completo absurdo e um espaço de ignorância.

 

A escola e a esfera familiar não são, singularmente, detentoras da verdade nem antípodas. Não estão destituídas. É impossível. A escola educa.  

 

À escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. Apesar de todas as crenças, enquanto mãe, transmitirei, naturalmente, quer consciente ou inconscientemente a minha crença. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

 

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos.

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publicado às 22:45

Educação Inclusiva em voz off.

por Maria Joana Almeida, em 13.10.20

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Olá, bem-vindos aos bastidores da Educação Inclusiva. Este é um espaço sem manuais, sem remédios, sem carimbos, sem chapa 5, sem fórmulas certas e por isso este é o espaço certo. Os manuais e legislações já foram lidos, escrutinados, usados, são precisos no que escrever e no que selecionar e, por isso, tão incertos. São mais imunes ao nosso âmago. Terão tanto de surpreendente como de óbvio consoante as nossas histórias e vivências. Num manual é mais fácil operamos no geral e mais desafiante particularizar. Num Manual é fácil todos serem Manuel e Maria quando, naturalmente, não são.

 

Este não é um espaço para responder linearmente a perguntas, nem um espaço para tirar notas certinhas num papel e poder aplicar na Escola. Isto não é um exame.

 

Nos bastidores estou eu e o outro, sem formalismos, sem soberba, sem assunções. Apenas duas ou mais histórias à espera de se cruzar. Nos bastidores é onde se alinha a peça para brilhar ou cair no palco. Não desanimemos com a segunda opção. Cair também é aprendizagem.

 

Vamos pôr os pontos nos “is”. Nada na vida é “by the book” ou se é, podendo naturalmente ser um caminho, não pode ser chamado vida. Morreu à partida na perda de genuinidade. Educar by the book não é educar. Aplicar medidas no âmbito da educação inclusiva by the book é tão entusiasmante ou tão estéril como tratar de um qualquer assunto na segurança social.

 

Evitemos o óbvio. Centremo-nos em nós, nos outros. Por instantes saltemos diagnósticos, listas, currículos, aprendizagens essenciais, computadores e avaliações. Concentremo-nos nas histórias. Nos bastidores.

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publicado às 21:53

5 perguntas, 5 respostas com o ator Gonçalo Lello

por Maria Joana Almeida, em 11.10.20

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C10H14N2 é uma expressão a reter, não enquanto expressão química da nicotina, mas enquanto peça escrita por Sandra José e apaixonadamente interpretada por Gonçalo Lello que esteve recentemente em cena na Casa do Coreto em Carnide.

Há muito tempo que não via uma peça, e há muito tempo que não via uma peça tão bem escrita e principalmente tão bem interpretada. Sozinho, o Gonçalo consegue preencher a sala. É o cancro, é a Margarida, é o amor, o humor, a luta, a angústia, o escárnio, o peso.. Consegue tocar em cada um de nós. As palavras voam. São sentidas, são inteligentes, são cheias. É um belíssimo texto.

Tive de conhecer o ator.

O Gonçalo é ator há quase 20 anos. Foi atrás do sonho. E ainda bem. Move-se por paixão, por princípios, por valores, pelo seu código pessoal e intransmissível. É nostálgico, atento, intenso, generoso. O Gonçalo percebe-se nesta peça.

O texto merece ser ouvido, o Gonçalo merece ser visto. Como um imperativo cultural.

 

Obrigada por esta entrevista.

 

  1. Há uma passagem que adoro na recente peça que fizeste, C10H14N2 da Sandra José, que diz: “Dois mais dois deixaram de ser quatro, quando me disseste talvez...”. O que mais te apaixonou neste texto?

 

Conheci este texto há cerca de 8 anos, através do Teatro Rápido, no Chiado. Uma versão curta (15 minutos), do texto original e integral de C10H14N2. Adorei o tema da peça, amor/desamor, perda, doença terminal, doença do coração, da mente... Fiquei maravilhado com a carga e força das palavras escritas pela Sandra José e pela óptima interpretação, na altura, do Rodrigo Saraiva. Fui ver a peça várias vezes. Como primeiro desafio para um monólogo, este texto seria sempre a minha escolha. Sou um privilegiado poder conhecer a escrita da Sandra José. E agora, poder dizê-la.

 

  1. Estiveste na área de gestão de marketing mas o tua vida levou-te até ao teatro, dois mais dois não têm mesmo de ser 4. Que Gonçalo quis virar este percurso?

 

A minha geração, nasci em 73, foi educada para “tirar uma licenciatura para ser alguém na vida.” Foi o que eu fiz, meio aos tombos e sem grandes certezas sobre o quereria de facto. Na altura não haviam workshops. Assim que obtive a minha independência financeira, depois de ter entrado no mercado laboral, na área do marketing, percebi que havia uma coisa apenas que era certa, só vivemos uma vida. Eu teria de viver a vida que eu queria viver, e não a vida que sonharam para mim. Não foi uma decisão fácil, ainda hoje não sei se foi a melhor escolha, mas foi a minha escolha, a minha vontade e o meu sonho. Agradeço muito a importância e apoio do meu anjo da guarda, a Ana Brito e Cunha, da mãe da minha filha Beatriz, a Maria João e como não poderia deixar de ser os meus pais, o meu ministério da cultura. Li um dia há muitos anos uma ideia de um escritor e filósofo americano, de seu nome Ralph Waldo Emerson que dizia o seguinte: “Rir muito e com frequência, ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afecto das crianças, merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos, apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros, deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social, saber que ao menos uma vida respirou mais facilmente porque existis-te. Isso é ter sucesso.” Ainda acredito nisso.

 

  1. As personagens que interpretas são de um Gonçalo que já existe ou descobres outros no processo de construção?

 

O Gonçalo (a pessoa e o actor) existe sempre em qualquer trabalho. Nós somos a roupagem à criação das criaturas que irão dar origem e vida às personagens. Em qualquer trabalho há sempre, ou acredito haver, o fascínio da descoberta e aprendizagem. Em teatro, como actor interessa-me mais esse trabalho, porque é maior o trabalho e disponibilidade. Há mais tempo. “Temos sempre tempo, quando temos tempo.”

 

  1. Quais as peças e personagens do teatro que mais te ficaram na memória? Algum foi fundamental para a tua decisão de ser ator e consequente construção?

 

Foram muitas as personagens e foram algumas as peças que me influenciaram, assim como filmes e realizadores. Mas o que mais me influencia são os actores. Adoro ver bons actores a trabalhar. E nisso tenho tido sorte e procuro muito essa fortuna. Saliento alguns exemplos: Mário Viegas, António Feio, Filipe Duarte, Dinarte Branco, Rita Loureiro, Albano Jerónimo, Isabel Abreu, José Raposo, Maria Joâo Luis, Miguel Borges, Sandra José, Sofia de Portugal, Ana Brito e Cunha, Maria Rueff, Eduardo Frazão, Beatriz Batarda, João Lagarto, Rui Melo, Rui Luis Brás, Joana Brandão, Nicolau Breyner, Nuno Lopes e Carla Galvão. E nos estrangeiros: Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Meryl Streep. Alexandra Lencastre ... tantos. Al Pacino, Peter Sellers, Marlon Brando, obviamente. O que me importa como actor, não é a carreira, é fazer bem o meu trabalho. Ser leal com a minha profissão. Ser um ser educado, consciente do mundo que me rodeia, conseguir questionar e tentar passar mensagem. Fazer o outro pensar, ou apenas divertir-se. É essa a minha responsabilidade. Se sentir que o que estou fazer está certo e que está a ir a um determinado lugar e que faz sentido persisto, eventualmente as coisas acontecerão. Eu não me arrependo de nada. Sinto que cometi o que chamaria de erros. Escolhi o projecto errado ou não persegui determinado personagem, mas tudo o que faço é parte de mim e só eu irei obter algo disso. Eu acredito num dia de cada vez; tenho HOJE, é isso que eu tenho. Estou mais vivo no teatro do que em qualquer outro lugar, mas o que levo para o teatro, eu recebo-o das ruas. Nunca estarei sozinho se tiver um livro.

 

  1. Disseste-me numa conversa que te fazia sentido um único Ministério que englobasse a Educação e Cultura. Gostava que desenvolvesses esta ideia. 

Como actor e público, é-me indiferente ter um ministério da cultura ou uma secretaria de estado. O que importa é haver investimento orçamental na cultura em Portugal. Andamos há 40 anos a lutar por 1% para a cultura, quando deveríamos ter um mínimo de 5%. A cultura e as artes em geral são também produtos vendáveis. E quando digo vendáveis, digo de exportação. A cultura e o acesso à cultura, às artes, deve ser para todos. É um direito. Assim como a educação. É na escola que podemos iniciar a construção de novos públicos. Instruir melhor através da obrigatoriedade do ensino da expressão dramática. Dá novas dinâmicas, liberta ansiedades, faz ganhar a confiança e instrui e passa conhecimento. Daí, para mim, ser primordial haver um super ministério, Educação e Cultura.

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publicado às 21:51

My take 2

por Maria Joana Almeida, em 26.09.20

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Maria Madalena.

 

Nasceste no ano das palavras más. 29 de Fevereiro trouxe na sua génese, já atípica, um ano que mostrou ser o pior que poderia haver. Para mim. E para muitos.

 

Foste, és, uma espécie de oásis no meio de um deserto. És aqueles segundos no miradouro depois de um dia difícil. És um pequeno milagre, no que quer que isso queira dizer. Talvez este 29 diga (e dirá) muito sobre ti.

 

Cresceste num turbilhão de indefinições, de saídas proibidas, de muitas frustrações, de isolamentos, de medos. Mais da casa do que do mundo. Cresces numa espécie de mundo todo ele questionado e questionável. Mal havíamos saído (pouco) do buraco, caímos logo num outro mais profundo e, este sim, sem chão. Que perceção terás? Que imagem tens de uma avó que a vida decidiu trair?

 

Tens os cabelos loiros e olhos claros que contrastam com a escuridão de alguns dias. És simultaneamente luz e uma bússola para o amor. Terás nascido para podermos melhor resistir a esta vida. Missão que desconheces.

 

Não conheceste os medos e incertezas de uma primeira vez. De uma primeira filha. Houve menos “ses”. És um refúgio de um ano que quero esquecer e riscar. Um ano de onde apenas quero retirar este 29 do segundo mês e guarda-lo num espaço seguro. Não foste planeada, mas não haveria um mundo sem ti.

 

És mais certeza do que dúvidas. É mais fácil contigo mesmo quando é mais difícil. Tudo é relativizado e assente em ti e na tua irmã e nessa evolução, mesmo quando é sempre verão nas manhãs cá de casa porque é como se corressemos a maratona até sairmos. Mesmo quando ao final do dia o tempo parece escapar das mãos porque é sempre curto. Sempre. Mas depois há os beijos, as palavras importantes de amor e construção. As histórias escolhidas à noite de uma biblioteca já grande e recheada. E são estas últimas horas as que fazem o reset para um novo dia alimentado com certezas, com seguranças e a maratona que sabe a vida.

 

Obrigada Madalena. Amar tanto uma segunda vez e ao mesmo tempo é como nos deitarmos na areia num dia quente, balançar numa rede durante horas, descansar os olhos no miradouro mais bonito. É explodir de amor por dentro quando sorris.

 

Obrigada.

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publicado às 18:49


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