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A minha visão sobre Educação. As várias visões sobre Educação e todas as suas (e nossas) variáveis.

Conheci o José recentemente, através de amigos em comum. É inteligente, empático, bem resolvido e um bom escritor. É da ala dos mal comportados com um discurso bem humorado, acutilante e provocador, algo displicente em relação a si própio e por tudo isto um homem muito interessante.
É ler a entrevista.
(Obrigada Zé)
1 – Olá José. Estava aqui a tentar pensar qual seria a melhor pergunta para começar esta entrevista, mas honestamente, aquilo que me ocorre perguntar é: Zé, conta-me a tua história.
R: A história não é curta, mas vou tentar abreviar. Comecei a escrever ficção ainda na escola secundária. Na altura havia um suplemento literário no Diário de Notícias, o “DN Jovem”, e foi para lá que comecei a mandar histórias, que entretanto eram publicadas. Fi-lo durante anos, até à idade limite do suplemento, os 26 anos. Tempos depois publiquei o primeiro livro, os contos “A Casa do Fim”. Entretanto, tinha feito a licenciatura em Agronomia. Comecei a trabalhar como engenheiro agrónomo, e esse contacto com o campo fez-me continuar a escrever histórias rurais. Seguiu-se o romance “Breviário das Más Inclinações”. E depois vieram outros livros. Pelo meio fui escrevendo em jornais e revistas, desde a Visão, Grande Reportagem, O Independente. Actualmente, faço crítica literária no jornal Público. Depois de vários anos sem publicar, mas não sem escrever, em 2018 foi editado “O Escuro Que Te Ilumina”, um romance erótico suportado pela história de um amor incondicional e que acho ser um “amor feliz”, e que foi muito bem aceite pelos leitores.
2 – Quem te segue nas redes sociais percebe que a imagem tem um peso determinante. Brincas, inclusivamente dizendo, de forma sarcástica, que o “interior e ter saúde é o que interessa”. Esta importância é também um legado da tua história. Como olhas para o conceito beleza?
R: Isso tem muito a ver, como dizes, com a história da minha vida, e com a importância que damos à imagem. Para as mulheres é ponto assente que a imagem que passam é de grande importância. Mas penso que durante muito tempo os homens não quiseram aceitar, ou sequer pensar, que a imagem deles é também de grande importância para as mulheres, embora muitas delas ainda não o consigam assumir e se refugiem naquela justificação tonta da “beleza interior”. No entanto, passam a vida a actuar e a referirem-se entre elas aos “gajos giros” a propósito de tudo, e a primazia das suas escolhas em termos sociais, sublinho o “sociais”, recai sempre nesses, quer seja para ir beber um copo, um café, para uma noitada, para uma ida à praia, para aparecer socialmente em jantares. Os outros são de segunda linha, ou de segunda escolha (risos), para quando os primeiros mostram não ser assim tão bons como os imaginavam. Note-se que não me refiro aqui a relações amorosas, aí as coisas são diferentes, há outros factores que pesam. Este é um movimento quase inconsciente – os homens fazem obviamente o mesmo mas não têm a pressão social para não o assumirem. Se eu puder sair com uma mulher bonita não saio com uma feia, ponto final. No caso das mulheres, assumir sem mais nem menos o desejo físico – como os homens o fazem – não é ainda uma coisa muito comum, têm a necessidade de o justificar ou disfarçar com outros factores: amizade, inteligência, bondade. Mas todos sabemos que não é isso, que essas são apenas justificações criadas para um certo disfarce. Eu demorei um bocado a perceber isto porque ia acreditando no que me diziam sobre a primazia da “bondade do coração”, enquanto ao mesmo tempo elas se enrolavam com outros gajos mais giros (risos), dando-me justificações sem sentido para não “beberem um copo” comigo. O meu último romance é, assim, também uma espécie de catarse desses anos, uma espécie de tentativa de apaziguamento com a vida e com a minha anterior “ingenuidade” em acreditar no que me diziam. Depois tive que mudar a aparência, e as minhas novas ideias sobre isto confirmaram-se (risos). Era mesmo e apenas um problema de imagem.
3 – O teu recente livro “O escuro que te ilumina” é um dos candidatos ao Prémio Livro do Ano Bertrand 2018. É um livro que trouxe algum “desconforto” e que não foi consensual. O que te deu mais prazer na escrita deste livro? As críticas tiveram algum eco em ti?
R: Estou habituado à crítica, também a faço no jornal. Lido muito bem com ela, sempre lidei. Acho que o importante quando se publica livros é nunca tirar os pés do chão com os elogios nem nunca cair com as críticas. As opiniões são o que são, e por isso sempre relativas. Muitas vezes têm muito mais a ver com quem as faz do que com o objecto em si. Eu sabia que este livro não iria ser consensual, pelo tema e pela escrita. É um livro “mal-comportado” dentro do panorama da literatura portuguesa actual, que aborda coisas mais escuras, quase secretas, coisas que guardamos nas nossas fantasias, cenas que não se expõem. Mas esse foi um dos motores da minha escrita, iluminá-las um pouco. Não acho, longe disso, que seja um livro pornográfico, para mim é uma bonita história de amor. O desconforto que tenha provocado, sobretudo em alguns homens, e pensando agora nisso, acabo por o entender. O livro põe em causa uma certa ideia de masculinidade. As mulheres gostaram muito mais do livro porque têm muito mais poder de imaginação e de fantasia.
4 – Os “escuros”, os nossos “escuros, são no teu entender o balanço inevitável para o nosso dia-a-dia rotineiro e aquilo que tornam a pessoa mais interessante, mais completa?
R: Os nossos “escuros” são os lugares de onde vem a nossa vida. Eles moldam-nos, condicionam ou provocam as nossas acções, a maneira como olhamos para a vida. Esse escuro, muitas vezes sobre a forma de inconsciente, por vezes parece muito mais inteligente do que nós porque nos vai dirigindo, dando sinais da direcção que devemos tomar. Torna-se um problema quando não o conseguimos ler, quando nem sabemos que ele existe. A tarefa da psicanálise, por exemplo, é tornar esse escuro consciente para que possa ser pensado, lido, arrumado. De uma certa maneira, mas obviamente em menor grau, a escrita faz o mesmo. Escrever ficção é também enfiar os dedos nessa matéria escura e trazer alguma coisa para a luz, para que ilumine mais um pouco.
5 – A literatura faz parte do processo educativo de todos nós. Sendo este um blog em que o tema central é a Educação é inevitável colocar esta questão, uma vez que também foste professor. Como vês a Educação do nosso país? Onde estamos e para onde caminhamos aos teus olhos?
Fui professor durante muito pouco tempo, de matemática e de ciências naturais, acho que era assim que se chamava. Depois também dei aulas, mas a um outro nível, coisas mais científicas, mas a adultos. Ando um pouco afastado dos temas da educação, mas tenho notado em como a escrita, o modo de escrever, se tem deteriorado. Não me refiro apenas a como se escrever mas ao léxico usado. Em pouco mais de vinte anos parece-me que o nosso vocabulário comum diminuiu bastante. Isso nota-se não apenas na vida do dia-a-dia mas também na literatura que se escreve hoje, nos autores mais novos. A escola deveria ter também um importante papel nisso, e só há uma maneira de fazer isso: incentivar muito a leitura, e não apenas de livros mais recentes, mas sobretudo dos clássicos da nossa língua. Acho que esse retorno é imprescindível.