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5 perguntas, 5 respostas com o artista Diogo Landô

por Maria Joana Almeida, em 01.11.20

diogo lando.jpg

 

As redes sociais, frequentemente apregoadas como o bicho papão, têm uma componente fantástica que é precisamente dar a conhecer pessoas e obras muito interessantes. Foi o caso do Diogo Landô. Um acaso feliz nas viagens pelo Instagram.

Recordo-me de ter ficado rendida à arte do Diogo nas primeiras fotografias que vi. Tinha de o entrevistar.

O Diogo tem 35 anos. Estudou Arte e Comunicação e foi na arte digital que encontrou o seu espaço. É representado pelo Nuno Sacramento Arte Contemporânea e tem exibido o seu trabalho em diversos espaços, tendo já conquistado, também, o seu espaço no mercado exterior onde menciona: “ser mais aceite este tipo de arte” ou ”não considerado menor". Não vou tentar definir o trabalho do Diogo. A entrevista fala por si.

 

Obrigada Diogo

 

 

1 . Diogo, a primeira vez que vi uma obra tua, no Instagram, pensei: “Adoro. Nunca tinha visto isto assim” e “isto” refere-se ao facto de ser digital. Como caraterizas as tuas obras? Qual é história do Diogo que as cria?

Gosto de caracterizar a minha obra como “digital fine art”. O meu trabalho é essencialmente desenvolvido em suporte digital, recorrendo à foto-manipulação, colagem e pintura no computador, que depois é transposto para um suporte físico, numa peça única, normalmente impressa em alumínio ou acrílico.

Apesar do meio escolhido ser o digital, o meu trabalho apresenta plasticidades muito reais, tendo como elemento central a figura humana e as emoções, as imagens surgem através de camadas (layers) onde a figura se funde com o fundo e com a malha de texturas, atenuando as linhas das formas, da perceção e da identidade.

 A minha história é a de alguém que esteve sempre ligado às artes. O desenho e a fotografia são gostos adquiridos muito cedo, participei em vários projetos musicais e frequentei a Escola de Jazz do Porto, estudei Arte e Comunicação na ESAP, um curso que desenvolvia competências nas áreas da fotografia, cinema e design de comunicação e multimédia. Durante o período de faculdade fui também explorando a pintura e o interesse por banda desenhada. Penso que o meu trabalho seja um reflexo de todas essas áreas e influências.

 

 

2 - É um lugar-comum afirmar que o Diogo Landô que realizou as primeiras obras não é o mesmo de hoje. Quer seja pelo nascimento da tua filha, quer seja pelo caminho natural da vida a acontecer. O que sentes quando olhas para trás? Tudo faz sentido?

Sim, acho que é normal. O ser humano, em geral, tem tendência a mudar, a evoluir (e ainda bem!). As vivências e experiências levam a essa mudança. Por vezes há acontecimentos que provocam mudanças mais notórias e penso que isso me aconteceu no passado mais recente.

Possivelmente será interessante referir que eu terminei a licenciatura e já trabalhava em vários projetos de design e vídeo, coisas mais comerciais ou institucionais. Fui exibindo algum trabalho artístico, mas na altura a coisa não se deu e acabei por me virar para outros mercados/nichos, como o design e ilustração de livros, tendo mantido sempre uma produção artística pessoal, com esporádicas exposições ou apresentações de obra.

Esse meu trabalho artístico era, por norma, mais pesado, mais “dark”. Apresentava temáticas relacionadas com a morte, vida para além da morte, as relações amorosas, mas através de uma estética e uma abordagem mais agressiva, com muitas referencias a caveiras, mitologia e fantasias macabras.

Entretanto o meu trabalho começou a mudar e não foi uma mudança repentina ou intencional, foi algo que foi acontecendo ao longo dos anos e sem eu me aperceber.

Vários fatores como o meu casamento, o nascimento da minha filha, o alcance de algum sucesso e estabilidade profissional, mas também a maturidade que o tempo dá, levaram-me a procurar novas formas de me expressar. Acima de tudo, penso que o que mudou foi sobretudo a abordagem estética e a forma como eu olho para as coisas. Continuo essencialmente a tratar os mesmos temas, o meu foco é o ser humano, as suas experiências e emoções, mas mudou a forma como lido com esses temas.

É de frisar também o facto ter conhecido e começado a trabalhar com o Nuno Sacramento, que foi um grande impulso à minha criação artística. Quando alguém do meio acredita em nós e trabalha connosco para atingirmos o nosso potencial, isso reflete-se. Se a minha família e a minha vida mudaram a forma como eu abordava as temáticas dos meus trabalhos, o Nuno Sacramento alterou a forma como eu me empenho no meu trabalho. E na arte, é preciso um trabalho diário e continuo.

 

 

3 - Como sentes que o digital é recebido na comunidade artística, quer nacional ou internacional?

Eu acho que o digital está a começar a ser aceite como uma forma de produção artística, apesar de ainda haver muita gente que não lhe atribui o mesmo valor de outras formas de arte. Até certo ponto isso é normal, pois é um meio muito novo e necessita de tempo para se impor no mundo artístico. Temos de perceber que a primeira versão do Photoshop tem 30 anos. Por comparação, o meio que antecedeu a sua introdução no mundo das artes visuais foi, talvez, a fotografia e isso foi há quase 200 anos e, mesmo assim, aos olhos do público geral, ainda não é vista com a mesma nobreza da pintura ou da escultura. Portanto, o digital é um meio muito novo, que se impôs mais facilmente através do vídeo, mas que, como obra estática, quadro, só muito recentemente começou a entrar nas galerias, museus e coleções.

Existe também a questão da designação de arte digital ser muito abrangente. Serve para arte 3D, fotografia, pintura, ilustração, design gráfico, colagem, etc. Pode ser para reprodução em massa, aplicada a merchandise, edições limitadas ou obras únicas. São demasiadas coisas para serem categorizadas todas como uma só. Se quisermos fazer um paralelismo, seria o mesmo que falarmos em pintura e assumir que todo o tipo de pintura é igual, não distinguindo óleo de acrílico, de aguarela ou pastel e, partindo do principio que toda a pintura é semelhante em técnica ou resultado estético, quando sabemos que não o é.

Em suma, acho que o digital enquanto “fine art” está a entrar no meio artístico, mas por vezes é ainda depreciado por algum público e agentes culturais. Sinto talvez mais abertura na Europa Central, onde me parece haver uma maior aceitação para o valor artístico do digital, mas felizmente tenho encontrado gente que gosta do meu trabalho, tanto cá como no estrangeiro.

 

 

4 - Senti o ímpeto de perguntar as tuas influências, mas esta seria uma pergunta óbvia e um tanto ou quanto recorrente. Sou da opinião que as influências estão na obra e que as influências são mais das nossas experiências de vida do que propriamente de outros artistas. Interessa-me mais saber as tuas ambições. Há um objetivo? Que caminhos gostarias de percorrer e alcançar o quê?

Penso que faz sentido responder a esta questão, explicando como e quando eu comecei a apostar numa carreira e profissionalização de artista.

Como já referi, eu sempre mantive uma produção artística associada à pintura, à arte digital e até outros projetos que fui fazendo. Fazia-os, acima de tudo, para mim, como forma de me expressar e pelo prazer do ato criativo, mantendo sempre a minha atividade como designer editorial.

Há coisa de 2 anos, senti que deveria avaliar a minha produção artística, se era algo que deveria manter como “hobby” e focar-me exclusivamente em progredir na carreira enquanto designer editorial, algo que eu gostava e gosto de fazer. Foi então que conheci o Nuno Sacramento e decidi começar a apostar mais na produção artística.

Desde aí, o objetivo tem sido sempre criar uma carreira sólida e duradoura, algo que nem sempre acontece no meio artístico.

É um novo desafio, algo que me dá imenso prazer e, de momento, o objetivo concreto é fazer a transição completa para me dedicar exclusivamente à arte.

 

 

5 - Esta última pergunta acaba por ser sempre relacionada com a Educação. Lembro-me de te ter perguntado, na nossa videochamada, qual tinha sido o momento, aquele momento cirúrgico, na escola, que ajudou a traçar o início do teu percurso artístico. Queria que falasses acerca dele e que fizesses uma breve reflexão sobre a dicotomia (?) Criatividade vs Escola – Convergência ou Divergência?

Não foi tanto o traçar o percurso artístico, até porque isso acontece no meu 11º ou 12º ano, já em artes, mas foi algo que marcou a minha orientação estética e visual.

Eu fiz o secundário no agrupamento de artes, vertente de design, pelo que estava a ter introdução a ferramentas digitais (Photoshop/Corel) e, num determinado projeto, penso que na elaboração de uma capa para um álbum, eu estava a fazer uma série de experiências no computador, à procura de uma estética que fosse de encontro ao tipo de música que eu ouvia. Foi nessa altura que uma professora me mostrou o livro Dust Covers, do Dave Mckean, que é um artista que eu ainda hoje admiro muito e que, na altura, tinha acabado de produzir as capas para o Sandman (banda desenhada), todas através de processos mix media que utilizavam também o computador, mas também pintura, fotografia, colagens, encenação... tudo basicamente. Foi aí que eu senti que queria explorar várias áreas e que havia possibilidades de o fazer de as combinar.

Em relação à dinâmica Criatividade-Escola, penso que é algo que é importante e que deve existir, não só em relação às artes, mas a todas as disciplinas.

Estou fora do ensino há já alguns anos, mas pela minha experiência pessoal e pelo que observo através dos media ou colegas que lecionam, acho que o sistema atual de ensino está muito mecânico e decorado. Para mim, o ensino deveria fomentar mais a interrogação e compreensão das disciplinas e conteúdos lecionados. Os jovens devem ser incentivados a ser criativos e encontrar formas alternativas de abordar assuntos e problemas, caso contrário, a educação torna-se cinzenta e aborrecida, com o objetivo de criar pessoas para executar um determinado número de funções, que provavelmente irão mudar no futuro, mas sem espírito crítico. 

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publicado às 22:11


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