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5 perguntas, 5 respostas com Joana Sá Machado

por Maria Joana Almeida, em 18.11.18

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Há pessoas na vida que basta conhecer uma vez para criar uma empatia enorme. Há pessoas que ficamos anos sem ver e quando vemos nada mudou e mais se construiu. A Joana Sá Machado é assim.

Conhecemo-nos através do seu primo, meu colega na Faculdade, no cinema para ver o “Torre Bela”. Estivemos vários anos sem ter contacto até que há cinco anos atrás foi como se retomássemos a relação de amizade que ali tinha começado.

É difícil encontrar pessoas que são peças do nosso puzzle. Pessoas com o mesmo sentido de humor que nós: nonsense, acutilante e por vezes cáustico. Pessoas que numa sala, quando em pontas opostas, olhando uma para a outra sabemos exatamente o que estamos a pensar. É por isto e por muito mais que a Joana é das minhas pessoas, do meu círculo.

A Joana tem um percurso muito rico. Um exemplo de que o que escolhes como percurso na Universidade não tem que definir a tua vida mas pode servir de ferramenta para chegares ao teu lugar feliz.

 

 

1 – Joana Maria, minha querida capicua, ambas temos um blog, eu sobre Educação e tu sobre Lisboa aliada à fotografia. À partida parece que não existem pontos em comum mas este tema (educação), de tão vasto que é, alberga tantos outros. E as artes, como uma forma de Educação, estão muito presentes no teu dia-a-dia.

 Tendo em conta o teu percurso, desde a tua base académica, que acontecimentos na tua vida pessoal e profissional te trouxeram até este projeto (fotografia)?

 

Desde tenra idade que a sensibilidade para a Cultura e a Educação foram uma constante.

E isso veio de casa, veio dos meus pais, ou seja fui crescendo sempre com a noção que estudar era um privilégio mas que quando chegava à escola muita da minha bagagem vinha de casa.

A educação para mim foi sempre vista desses dois lados Casa Versus Escola e Escola Versus Casa. A assunção que estudar era um privilégio e que deveria estudar e formar-me consolidou-se no secundário quando me percebi que eu era muito mais das palavras do que das componentes técnicas. Formei-me em Direito, e hoje quase 20 anos depois dessa tão tenra decisão, continuo a achar que foi a decisão mais certa da vida, pois o meu curso de Direito é a ferramenta maior que tenho para entender esta Sociedade e tudo o que me rodeia. Mas se o Direito era uma certeza, e como sou humana, muitas mais certezas se instalavam na minha vida, no meu trabalho e na minha formação. Aí entra o meu pai, Produtor na RTP, do início de uma estação pública e de um sonho. A Imagem existiu sempre. Sempre. Não me lembro da vida sem fotografias, sem câmaras à volta e sem a RTP de pano de fundo. O Direito é em certos aspectos um espartilho e é também uma forma de estar (com muitos carreirismos com os quais não concordo), e os últimos 20 anos desta nossa Humanidade já nos mostrou que somos muito mais do que apenas uma coisa. Corri para a Fotografia, lancei um projecto sobre fotografia em Lisboa e estou até hoje, passados 7 anos a trabalhar em imagem. A minha vida é sobre as imagens, sobre a criatividade e sobre o valor da palavra.

 

 

2 – A nossa educação é fruto dos exemplos e referências, primeiro com os pais como role model, depois amigos e um conjunto de espaços e vivências que nos vão moldando. Que bagagem (valores) trazes dos teus pais, da tua família, de casa?

 

Sem me dar conta já fui respondendo a esta segunda questão, na primeira.

Mas de facto todos os meus comportamentos e atitudes a nível escolar eram um espelho que tinha em casa.

Estudei até ao nono ano em colégios privados, era um universo sempre mais protegido, lembro-me que quando fui para o público era tudo muito mais barulhento. Nos colégios era tudo mais controlado e silencioso. Eu era uma menina sossegada, sempre com sagacidade e sem grandes conflitos à minha volta. Os meus pais deram-me educação através de vários prismas. Primeiro a Humana, isso de estar próxima do outro, de ser boa colega, e principalmente não chatear os outros com problemas que pudesse estar a viver. Depois a educação do Bom Dia, do cumprimentar toda a gente. Repito: toda a gente. E depois os valores, o da aceitação sem me resignar, o de não concordar sem fazer um conchavo e principalmente de entender desde criança que a educação traz valores e a Cultura é uma grande base de generosidade para olhar para o mundo à nossa volta.

Nunca fui fã da obra de Salvador Dali, mas sempre o achei genial. Sentava-me sempre na igreja do Colégio ( das Doroteias) em frente da Imagem da Nossa Senhora, não porque a entendia, já que eu era uma menina entre uma infância feliz, mas essa mesma Imagem era lindíssima, e isso de alguma forma moveu-me. Não fossem os meus pais e a sua simplificação da vida em relação a mim e ao meu irmão e a minha vida teria sido claramente muito diferente. Era feliz na minha infância, e sem me questionar, eu era feliz porque sim, porque a base e o colo estavam lá.

 

 

3 – De que forma é que a fotografia, que no teu caso são uma forma de relações humanas, te tem feito evoluir enquanto pessoa e profissional? E de que forma se insurge como uma arte educativa?

 

A fotografia é um belíssimo espelho da matéria humana, não só pela sua questão temporal e pelo que nos faz sentir na memória, mas pelo património que me trouxe.

Já fotografei, tanta, tanta, tanta gente. Já vi tanta coisa através da minha lente que muitas vezes me questiono onde vou guardar tudo isso. Trabalhar em fotografia, e eu essencialmente fotografo mais pessoas do que produto, faz-me antes de mais ter uma capacidade relacional efectiva porque preciso que as inseguranças, as reservas e por vezes desabafos não apareçam nas minhas fotografias. Aí o desafio é gigante, e eu dou por mim a ser um veículo de algo que apesar de ter a minha autoria, não me pertence.

A imagem de cada um de nós é o nosso primeiro cartão de cidadão. E a cidadania e a sua assunção é tão importante. Obviamente que tudo isto me fez evoluir bastante, em parte acalmou-me e fez-me traçar um caminho mais concreto e posicionar-me na fotografia a 100%. Como arte educativa e agora que o spectrum da fotografia está tão alargado sinto-me a viver um grande desafio da fotografia não ser banalizada e a reserva da vida privada não seja um motor veiculado por fotografias (e vídeos). Mas as fotografias são na sua base relações humanas, não me imagino a fotografar sem estabelecer de imediato uma sintonia com a pessoa que estou a fotografar.

 

4 – Quem te conhece sabe que és uma pessoa informada, consciente dos problemas do nosso pais e com um discurso estruturado e equilibrado acerca dos diversos temas quentes da nossa sociedade. Ambas, como forma de retirar o peso negativo das várias notícias que surgem diariamente, costumamos aligeirar o ambiente com algumas piadas, mas conscientes dos problemas sérios que assolam a nossa atualidade.

Enquanto cidadã e utilizadora diária das redes sociais, o que vês do outro lado da tua lente que te preocupa?

 

Vivemos uma altura a meu ver mais complicada do que desafiante. As redes sociais, a exposição, a rapidez do “passa a palavra”, os hashtags, os grupos de whatsapp, tudo nos faz estar em contacto e nos faz passar informações. Comunicar passou a ser o lenitivo maior desta Humanidade, mas a pergunta que me coloco todos os dias é justamente essa: será que temos que comunicar tanto? Será que temos que nos expor tanto? Faz sentido fotografar o meu filho no banco da escola e “instagrar” o momento? A minha resposta é não. Uso redes sociais, Facebook e Instagram, sei que há mais, mas não tenho capacidade para mais, na minha conta que é pessoal de Instagram público fotos do meu dia-a-dia, para mim isso é pacífico, mas deixo o alerta: não sei fazer stories, não uso hashtags e tremo quando me dizem “vamos criar um grupo de whatsapp!”. No Facebook onde tenho páginas profissionais comunico o meu trabalho, e faço-o com todo o empenho. O Facebook permite-me ter acesso a muito do que se passa a nível de notícias no mundo, e isso é inspirador até para os posts que vou escrevendo sobre política e que tantas críticas merecem. Agora acho que devemos reavaliar muita coisa.. Se antigamente aparecer na televisão era algo quase impossível hoje no banho fazes um vídeo a dizer que usas um gel de banho fantástico, está demais, está efectivamente de mais. E no que toca à educação, não é isto que quero para os meus filhos. É necessário mais consciência e perceber que as fotos, os vídeos e as palavras que escrevemos nas redes sociais deixam de ser nossas a partir do momento em que são publicadas. E eu questiono: será que queremos entregar ao mundo esse património? Que a reserva das opiniões volte a estar na Moda, seja um statement. Democracia é ter Opinião e fazer uso dela para melhorar o mundo, não para fomentar exposições, juízos e até mesmo violência.

 

 

 

5 – Esta última questão tem sempre a sua tónica mais ligada à Educação na vertente “escola”. Pegando no final da pergunta anterior como encaras o futuro da Educação em Portugal?

 

O Futuro da Educação em Portugal!  Fica o desabafo que é e pergunta mais difícil desta entrevista. Antes de mais há duas coisas que têm que ser transversais numa sociedade. Um Governo quando constrói o seu Orçamento do Estado, e entra na baliza dos cortes tem que perceber que cortar na saúde e na escola pública, é cortar nas duas maiores importâncias da vida de um cidadão. Vivemos nos últimos anos (2011/2015) tempos muito difíceis com a estadia da Troika no nosso país, e sinceramente se as coisas tivessem continuado, a escola pública teria sido extinta, porque dentro deste liberalismos que em parte o mundo ocidental vive há a assunção que mais vale teres dinheiro para pagar um colégio, do que ter um ensino gratuito.

O futuro da Educação passa pela requalificação do papel da Escola na sociedade, passa pelos pais perceberem que o trabalho escolar começa aos 3 anos quando vamos por os nossos filhos na pré-primária. Passa pela assunção que um Professor não é “pau para toda a obra” e que o respeito começa na hora em que em concurso público, estes são colocados. Passa por entender que um professor ensina, não está ali a educar. Mas passa principalmente pelo poder Legislativo: de entender que acesso a uma escola seja ela pública ou privada deve ser um direito inabalável, e que estudar deve ser efectivamente a fase mais tranquila da vida de um cidadão. E fica a sugestão: preparem os nossos estudantes para o mercado de trabalho de forma consciente. A longo prazo esta ideia fará de nós, um país mais desenvolvido em todas as frentes de uma sociedade.

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publicado às 21:19



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