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5 perguntas, 5 respostas com Catarina Beato (dias de uma princesa)

por Maria Joana Almeida, em 12.10.18

 

Catarina-Beato (1).jpg

 

Sigo o blogue da Catarina Beato desde 2014. Sempre admirei a sua força de vontade, determinação e organização. Comecei a ler por curiosidade, na altura andava de dieta e uma amiga minha tinha-me falado do blogue “dias de uma princesa". Fui ler e rapidamente criei uma empatia com a sua escrita. É muito bem escrito. Não era floreada, não era “perfeita”, era real . E é isso que me interessa.

 

Há uma expressão muito boa de Winnicott, “uma mãe suficientemente boa”. Como recente mãe, nunca uma expressão me fez tanto sentido. A Catarina Beato tem, diretamente ou subtilmente, ajudado a desmistificar um ainda presente e pesado preconceito de que uma mãe pode ou não pode algo e que deve ser perfeita. Ser mãe não é a única coisa que nos define, embora seja a melhor viagem de sempre. E são nas várias coisas que nos definem que reside o melhor que podemos dar aos nossos filhos.

 

Obrigada Catarina.

 

 

1  - Assim como a Catarina, também tenho uma filha Maria Luísa e também tinha uma particular preferência por um rapaz. A Catarina chega a verbalizar várias vezes que tinha muito medo de ter uma menina. Este medo vem de algo mais pessoal, particular do seu espaço familiar, ou da sociedade atual?

 

Como escrevi no meu blog e é exactamente a resposta a esta questão:

“Durante a gravidez  afirmei muitas vezes: “é-me indiferente desde que tenha saúde”. E sentia exactamente isso mas esperava que – como das outras vezes – encontrassem um pilinha na ecografia. “Sou mãe de rapazes.”  Essa era a minha certeza.

Eu não queria ser mãe de uma menina. E eu explico-te porquê. Porque tinha medo de não ser menina suficiente para ser a tua referência. Não sei maquilhar-me, não pinto as unhas, sou demasiado despreocupada com aquilo que visto. Não fui a menina que recebia elogios, era demasiado “rapaz” para isso. Era maior do que as minhas amigas, mais bruta que as minhas amigas, menos “menina”. Cresci com a amizade dos rapazes, com o “és cá dos nossos”, “és mesmo fixe”. “Sou mãe de rapazes”, pensei sempre, como se isso me protegesse de todas as questões que ficaram por resolver na minha adolescência.

Duas ecografias e nada de pilinha, “quase de certeza que é uma menina”, garantiu a médica. O meu marido e o meu filho adolescente comoveram-se. E eu fiquei muito quieta, em pânico.  “Uma menina.” “E agora? Uma menina? Mas eu sou mãe de rapazes!”

O Afonso, o meu rapaz de cinco anos, teve um período de negação. Ajudou a esconder a minha. Depois aceitou: “eu afinal gosto de meninas e quero a mana”. Eu ainda demorei.

Tenho medo de ser mãe de uma menina apenas porque sou mulher e sei que isto do género ainda significa que muitas coisas são diferentes. Porque este mundo ainda assiste a situações gravíssimas em que as mulheres são maltratadas apenas porque são mulheres, porque ainda confundimos defender os diretos das mulheres com não poderem ser vaidosas ou mostrar o corpo. As mulheres não querem ser iguais aos homens, somos fisicamente diferentes, mas querem poder ser mulheres, da forma livre que o decidirem ser – suaves ou brutas, mães ou não, trabalhadoras em casa ou sem conseguirem ir a casa pelo cargo importante que têm, discretas ou despidas, cheias de pudor ou vergonha nenhuma, princesas ou camionistas.

Não queria ser mãe de uma menina. Agora sou mãe de uma menina. E espero conseguir que sintas essa liberdade e esse mundo de possibilidades.”

 

 

 

2 – Sente que, como mãe e na sua educação, há diferenças na forma como lida com a Maria Luíza por ser rapariga em relação aos seus filhos rapazes?

 

Não, não há qualquer diferença. Quase nem na forma de vestir porque a Maria Luiza herdou muitas coisas dos irmãos. Tal como nos brinquedos. Sou exactamente a mesma mãe.

 

 

3 – A Catarina tem um percurso muito interessante e é sem dúvida a referência de uma mulher forte, resiliente, corajosa e muito estruturada no sentido em que está ciente das suas potencialidades e fragilidades. Como mãe, qual a mensagem mais importante que quer passar aos seus filhos?

 

Quero apenas que sejam felizes como a noção de liberdade e responsabilidade. Acho que a maioria das coisas que tomamos como certas a vida encarrega-se de nos trocar as voltas por isso o melhor é ir deixando acontecer e reagir de acordo com as necessidades de cada momento (também nas mensagens que queremos passar). Acredito que somos um exemplo na vida dos nossos filhos. Não pela imitação mas pelo valores que transmitimos.

 

 

 

4 – A mãe da Catarina é professora e vivemos hoje, fruto de muitas guerras, alguma certas outras menos, um escrutínio público das várias dimensões do professor passando uma imagem maioritariamente negativa. Como encara estas notícias?

 

Naturalmente encaro de forma negativa porque acredito que os professores são uma parte fundamental da formação de um povo e de um país. Remetemos um professores para um lugar menor o que trás consequências a médio e longo prazo.

“Arrisco dizer que me lembro de todos os meus professores: os chatos, os fixes, os intelectuais, os divertidos, os que nunca se enganavam e os distraídos, os que faziam parte da mobília e os estagiários. Foram, todos eles, uns mais que outros, fundamentais na minha vida.”

 

 

5 – Este é um blog sobre Educação e as suas várias dimensões e por isso finalizo esta entrevista com a seguinte pergunta: Qual a sua visão sobre o mundo da Educação em Portugal? Quais os nossos pontos fortes e o caminho que ainda temos de percorrer?

 

Os pontos fortes são as pessoas as também um sistema exigente e com excelentes bases. Os pontos fracos, para além de alguma falta de actualização é o constante desinvestimento do Estado que se traduz numa falta de prestigio para a classe profissional. A Educação é o pilar de um país. E quando construímos uma casa com pilares fracos, a casa cai.

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publicado às 22:53



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