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5 perguntas, 5 respostas com Ângelo Fernandes

por Maria Joana Almeida, em 29.05.18

 

 

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"Ângelo Fernandes é o fundador e presidente da Quebrar o Silêncio – a primeira associação portuguesa de apoio especializado a homens sobreviventes de violência e abuso sexual. Reivindicador dos direitos humanos, igualdade de género e feminismo, trabalha no sentido de desconstruir os valores tradicionais da masculinidade e na promoção de masculinidades cuidadoras e transformativas. Defende a participação ativa dos homens e rapazes na promoção e conquista de uma sociedade equitativa onde as mulheres e homens gozem de plena igualdade de direitos e oportunidades."

 

O Ângelo foi meu colega de curso. Empenhado, bem disposto e positivo, tem neste momento uma missão nobre entre mãos que vale muito a pena conhecer.

 

Obrigada Ângelo.

 

 

1 - Ângelo, criaste há pouco tempo a Associação Quebrar o Silêncio que tem como missão apoiar homens sobreviventes vítimas de abuso sexual. Poderia encontrar respostas na Internet, em algumas entrevistas que foste dando, mas gostaria que me dissesses qual o momento em que decidiste avançar com este projeto e as principais motivações? 

 

 

Antes da Quebrar o Silêncio não havia nenhuma associação com uma resposta e serviços de apoio especializados para homens sobreviventes de abuso sexual. Era uma necessidade que há muito necessitava de ser colmatada em Portugal. Foi aí que, com o apoio de pessoas amigas, fundámos a Quebrar o Silêncio.

Sobre as motivações que perguntas, desde cedo que discutimos várias vezes sobre tornarmos pública a minha história pessoal. Sabíamos que era uma opção para promover e dar visibilidade a este assunto, e que era também uma oportunidade de chegar a outros homens sobreviventes. A identificação é fundamental para que os homens sobreviventes possam começar a sentir que há um espaço que os recebe com segurança, que vão ser ouvidos e que as suas histórias vão ser validadas. E constatamos isso quando vários homens referem a importância de terem lido o meu testemunho antes de nos procurarem.

 

2 - É comum associar estes crimes a mulheres. Se realizássemos um “voxpop” conseguiríamos perceber que os homens são poucas vezes (ou quase nunca) apontados como vítimas de abuso sexual. Como explicas esta realidade e como encaras este panorama atualmente?

 

A verdade é que nem toda a gente acredita que os homens e rapazes possam ser abusados sexualmente. E se falarmos de violência doméstica, física e sexual, vários estudos indicam que é o homem que comete essa violência, principalmente contra mulheres e raparigas, mas também contra outros homens e rapazes. Esta é a realidade. No entanto, esta realidade também nos diz que os homens e rapazes são afetados pela violência sexual. Se sabemos que 1 em cada 3 mulheres é vítima de abuso sexual, sabemos também que 1 em cada 6 homens também o é.

Um dos obstáculos ao reconhecimento dessa realidade é o facto de a nossa sociedade continuar a ser regida por normas de género muito rígidas, os ditos estereótipos de género. E essas normas dizem que o homem tem de ser forte e saber proteger-se, e que “um homem a sério” ou “homem que é homem” jamais poderá ser vítima. São ideias que promovem o silenciamento dos homens sobreviventes e que impossibilita que possam sentir que podem procurar apoio. Não é por acaso que apenas 16% dos homens sobreviventes considera que foi vítima de abuso sexual.

É preciso fazer um trabalho que esteja coordenado entre diferentes dimensões, seja na educação, nas respostas de apoio ou na lei. Por exemplo, no atual Plano de Ação para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e à Violência Doméstica 2018-2021 reconhece-se a "intervenção junto de homens vítimas de VD e de violência e abuso sexual." Esta medida, que prevê a "especialização da intervenção para outros tipos de violência na CI e junto de grupos vulneráveis", é um reconhecimento histórico para nós e um marco para ser lembrado no futuro.

 

3 - Os números são (nem sempre) mas nestes casos importantes para percebermos a dimensão do problema. Quantas pessoas já contactaram a Associação deste que foi fundada? E quais os números reais de pessoas vítimas de abuso sexual no nosso país atualmente?

 

É impossível sabermos os números reais de vítimas de abuso sexual no nosso país. Sabemos que em Portugal os crimes sexuais apresentam a maior disparidade entre os crimes e as denúncias realizadas, fenómeno este conhecido como Cifras Negras. Portanto, quando temos acesso a ferramentas como o RASI,  Relatório Anual de Segurança Interna, é preciso termos uma visão e uma interpretação crítica dos números e estatísticas apresentadas. Sabemos, por exemplo, que no Reino Unido apenas 3,9% dos homens é que denuncia o seu caso. E estamos a falar de uma realidade onde existem várias respostas de apoio para homens e mulheres sobreviventes com décadas e décadas de trabalho feito nestas áreas.

No ano passado, em 2017, registámos na associação 74 pedidos de apoio, nem todos eles de homens sobreviventes; por vezes, há mulheres sobreviventes que nos procuram também, e que reencaminhamos para entidades parceiras, e também temos familiares que procuram apoio. Este ano até ao momento, leia-se final de maio, registámos 70 pedidos. A procura pelos serviços da Quebrar o Silêncio tem aumentado e podemos interpretar este aumento como uma resposta ao trabalho que fazemos pela visibilidade destes temas e dos serviços.

 

4 - O movimento “Metoo” entre outros, foi de alguma forma pioneiro (numa determinada Indústria é certo) em abanar estruturas e “descongelar” um determinado tipo de comportamentos que passavam muitas vezes pelos pingos da chuva sendo “aceites”. Qual a tua opinião sobre este movimento e se consideras que pode ter ao mesmo tempo um lado perverso de instrumentalização de poderes?

 

Movimentos como o #MeToo e o #TimeIsUp são fundamentais. Temos assistido a mulheres (e alguns homens também) que têm conseguido falar publicamente e expor situações que têm deixado muita gente incrédula, mas também resistente a este tipo de situações. Com tanto mediatismo, temas como o abuso sexual e o assédio sexual têm estado no centro de várias discussões e conversas, e de certo modo foram sendo (re)introduzidas no nosso quotidiano — e isso é algo positivo. Com estes movimentos é preciso tomar estas oportunidades para informar e educar rigorosamente, isto é, não podemos apenas discutir caso a caso o que tem acontecido; é importante que o público em geral tome conhecimento em que contexto o abuso e o assédio tomam lugar nestes casos, em que moldes, quem são estes abusadores, a que estratégias recorrem, entre outras questões. É fundamental que este tipo de educação aconteça também. Por exemplo, por vezes há quem confunda assédio sexual com brincadeira, flirt ou até mesmo sedução, e é preciso clarificar de forma rigorosa e assertiva que assédio sexual não é nada disso. Do mesmo modo que também é preciso ir desconstruindo a “rape culture” e a cultura de responsabilização das vítimas. Este é uma linha de pensamento muito presente nos comentários a que temos acesso e também no trabalho que fazemos nas escolas. Há muitas ideias erradas, como a crença de que a vítima pode provocar, “meter-se a jeito” e que a vítima pode ser co-responsável pelo abuso. Estas ideias têm de ser desmistificadas e depois atualizadas. Movimentos como o #MeToo podem proporcionar estes momentos de aprendizagem.

 

5 - Sei que a Associação tem estado muito presente em escolas como forma de sensibilização para a sua missão. Como têm sido recebidos e que tipo de questões são normalmente colocadas pelos nossos jovens?

 

Para nós trabalhar com as escolas para a sensibilização e informação de rapazes e raparigas é fundamental, e foi logo desde início um dos nossos objetivos. O trabalho que fazemos nas escolas é também o nosso contributo para a prevenção do abuso sexual de rapazes e raparigas.

A aceitação por parte dos e das estudantes é muito interessante. Normalmente, prestam muita atenção ao que dizemos e aos números, definições e exemplos que apresentamos. O que registamos é que existem ainda muitas ideias e questões que vêm de uma educação assente nos papéis tradicionais da masculinidade e feminilidade. Observamos que há várias crenças que continuam enraizadas, como a de que um rapaz não pode chorar, que o papel do homem é sustentar a família, que o lugar da mulher é em casa, que os homens e rapazes não podem ser abusados sexualmente, que a responsabilidade do abuso sexual é da vítima (o que é mais premente no caso das vítimas mulheres). Também encontramos jovens com informações mais “atualizadas” sobre violência sexual e igualdade de género, mas não nos parece ser de todo a maioria. Por exemplo, muitos jovens identificam que abuso sexual não se limita apenas à penetração e violação, e que há formas de abuso que não incluem sequer contacto físico. É bom ver que existe já esta consciência junto das e dos jovens.

Este é um trabalho que é importante ser feito junto das escolas. Por vezes pode ser difícil porque parece não haver mudança, mas também é necessário reconhecer que o impacto de alguém que apresenta ideias diferentes e que pode aumentar o espectro de algumas noções mais restritas, pode ser já, só por si, a semente para uma mudança positiva.

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publicado às 15:30


2 comentários

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De P. P. a 29.05.2018 às 20:40

Magnífico.
Excelente iniciativa. Na 2.ª temporada de 13 Reasons Why assistimos a uma das mais forma de violência e violação para com um adolescente.
Por outro lado, são inúmeros os casos de violência praticados por mulheres ou homens para com outros homens.
Raramente se fala de assédio "no masculino". Também existe. E nem todos o apreciamos ...
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.10.2018 às 22:04

Parabéns e obrigada. Parabéns pela iniciativa que é uma realidade necessária é fundamental. Parabéns pela coragem e determinação. E obrigada pela partilha e pelo exemplo.
Susana Marques

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