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A minha visão sobre Educação. As várias visões sobre Educação e todas as suas (e nossas) variáveis.

A Ana é assertiva, bem-humorada e pró ativa. Conheci-a como diretora na escola onde ainda leciono.
Partilhamos gostos semelhantes. Gostamos dos mesmos filmes e de linguagens artísticas idênticas que nos proporcionam conversas interessantes e uma boa empatia.
Como diretora a Ana sempre se mostrou presente, atenta, perspicaz e uma boa ouvinte. É carinhosa com a comunidade educativa e reconhece, com muito orgulho e de forma extremamente motivante, o bom trabalho desempenhado pelos membros da escola.
O papel de diretora é exigente e feito de escolhas e decisões por vezes difíceis onde existem equilíbrios que não são fáceis de encontrar.
Obrigada Ana pelo teu testemunho.
1- Existem poucos espaços mais desafiantes do que o espaço escola, quer no papel de auxiliar de educação, professor ou diretor. Na tua opinião, e com a experiência que tens como directora de uma escola, quais os principais desafios deste cargo?
Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico.
(António Nóvoa)
Os principais desafios a enfrentar prendem-se com as múltiplas exigências que recaem na figura no diretor, nomeadamente todos os normativos e burocracias emanados pelos diferentes organismos do MEC, autarquia, famílias…, nem sempre compatíveis entre eles e, muitas vezes contraditórios.
Tentar conciliar estas exigências com a missão da escola e o projeto educativo, nem sempre é uma tarefa fácil.
A escola é um local privilegiado de aprendizagens académicas, mas também de valores humanistas, democráticos e de cidadania responsável.
Professores felizes têm vontade de vir para a escola e de fazer o seu melhor. O mesmo se passa com os alunos e pessoal não docente.
Mas, hoje em dia, deparamo-nos com perspetivas absurdas sobre as responsabilidades da escola (a escola passou a ser responsável por tudo…), principalmente por parte dos meios de comunicação social e de algumas famílias, que colocam em causa o que é veiculado em ambiente escolar.
Dou como exemplo o acesso às redes sociais e internet, de um modo geral, sem supervisão parental, que podem acarretar consequências terríveis e irreversíveis.Na perspetiva de muitos isso é responsabilidade da escola.
A crescente desresponsabilização dos pais em relação à educação dos filhos, é assustadora.
Educar exige muito trabalho, resiliência e tempo por parte das famílias…
"Imagine que a escola é um pote." "Porém as crianças precisam ter noções de meio ambiente, certo?", "E aulas de cidadania e higiene". "Alguém precisa preveni-los também contra a Sida, a violência sexual..."( o pote está mais do que cheio). Tudo isso é importante, mas não deve ser responsabilidade da escola".
(António Nóvoa)
2 - A função de Diretora traz consigo muitas responsabilidades e uma articulação forte, quer com a comunidade educativa, quer com o Ministério da Educação. Como se conseguem gerir ambos?
Como diretora, professora e cidadã, sempre defendi que a escola deve ser uma instituição humanista, motivadora, reconhecedora, solidária, empática e integradora, de modo a envolver os profissionais de educação, alunos e famílias na promoção das aprendizagens e do sucesso educativo e pessoal.
É muito importante ouvir as pessoas, aferir as suas sensibilidades, projetos, receios… de modo a sentirem-se felizes no seu local de trabalho.
Assim, na operacionalização com a comunidade educativa, autarquia e MEC, o diretor nunca deve desviar o foco dos seus princípios de vida, centrados nos valores do humanismo democrático e e conciliá-los com os procedimentos exigidos.
Ser diretor é também correr riscos.
3 - Qual consideras ser o perfil e as competências necessárias para a função de diretora de uma escola?
- Pessoas que se esforçam por desenvolver boas relações humanas colocando ênfase nas acções de envolvimento, partilha e delegação de competências, pois só assim os profissionais de educação e alunos se sentirão apoiados e gostarão do trabalho que desenvolvem;
- Pessoas que promovem e valorizam a comunicação e alicerçam a sua conduta em valores como a autonomia, determinação, humanismo e justiça;
- Pessoas que promovam a criação de visões de futuro para as suas escolas, apontando caminhos para alcançar os objetivos de forma motivadora e inovadora.
- Promovam a elevação da qualidade das aprendizagens, orientadas para o sucesso académico, pessoal e profissional.
4 - Olhando e refletindo para o espaço escola, quais as principais mudanças que consideras fundamentais existirem?
A escola atual continua a ter muitas semelhanças com a do Séc. XIX, na medida em que se pressupõe que os professores são os detentores do conhecimento, espartilhado em disciplinas/ áreas curriculares, horários e que os alunos são os seres que devem aprender o que lhes é transmitido, nas horas estipuladas.
Este tipo de escola não valoriza as aprendizagens e competências que cada indivíduo já transporta previamente.
Nos dias que correm isto é inqualificável, até porque os alunos têm à sua disposição uma série variadíssima de informação através da internet.
As escolas necessitam de turmas mais pequenas (20 alunos, no máximo) e formação prática dos docentes em área projeto/ ensino transdisciplinar e novas pedagogias, de modo a ser possível uma aprendizagem mais individualizada e uma consolidação de práticas inovadoras, projetadas no futuro.
5 - Escrevi há pouco tempo um texto sobre liberdade. Um pouco sobre “as más e boas” liberdades. Como se consegue gerir, com alunos, dentro do espaço escola a liberdade e os seus, inevitáveis, limites?
Respondo cintando o meu pedagogo preferido:
(…)na escola (…) O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.
(António Nóvoa)