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40 anos de Fátima e Zeca

por Maria Joana Almeida, em 05.09.20

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Ela tinha cabelo escuro, comprido e um brilhozinho nos olhos, daqueles de Sérgio Godinho. Eram verdes e honestos. Arrebatadores. Era bonita. Muito mesmo. Ainda é.

 

Ele tinha olhos azuis, meigos, pueris. Era magro, correto, tímido, cativante. Ainda é.

 

Ela viveu o 25 e Abril de 1974 nas ruas de Lisboa. Encantada, perspicaz, bonita, jovem, mas de raízes. Ainda hoje faço perguntas sobre esse dia. Ele estava no Norte, no interior, não o viveu, não o percebeu de imediato. Quase ninguém o percebeu ali.

 

Sempre se conheceram, desde sempre. A minha mãe e o meu pai. Ele sempre fora apaixonado por ela. Como não ser..

 

Reencontraram-se em Lisboa, namoraram, casaram, nasci.

 

A Fátima e o Zeca, os meus pais, são de uma geração de trabalho, de não estarem parados, de não se queixarem. Lembro-me da minha mãe dizer, entre o jocoso e o sério: “Parece que há agora uma coisa que se chama depressão pós-parto. Eu lá tive tempo de ter uma depressão? Fui logo trabalhar” A minha mãe di-lo com a convicção de quem iria de imediato socorrer alguém que dela padecesse e de si precisasse.

 

A minha mãe e o meu pai sempre se moveram como um só. Sempre tiveram ambos um brilhozinho nos olhos entre eles, para mim e para o mundo. São de princípios, de valores, corretos, de família, de amigos. Nada a ninguém faltará enquanto estiverem por perto.

 

Os meus pais fazem hoje 40 anos de casados. Terão todos os ingredientes de um casamento de 40 anos. Os bons, os menos bons. Sempre amassaram a massa necessária para resultar. Nunca foi opção à primeira contrariedade desistirem, não por serem de uma determinada de época, mas por serem a Fátima e o Zeca. Sempre lado a lado no caminho. Sempre o “nós” em detrimento do “eu”. Com as suas cedências e exigências. Correu bem. Correu muito bem. Os frutos estão à vista.

 

Foram (são) 40 anos preenchidos com os outros e para os outros. Com o amor sempre visível. Não me lembro de um fim-de-semana sem família ou amigos em casa. Sem um almoço ou um jantar, sem praia no Verão, sem histórias contadas na cadeira de verga na sala, sem chocolates Jubileu, sem risos.

 

A casa dos meus pais. A de cá e a de Viseu, sempre foram (e são) como um abraço quente, reconfortante. São uma “casa”. Daquelas em que calçamos sempre pantufas mesmo quando entramos de salto alto. E aquela de onde nunca queremos sair e desejamos sempre voltar.

 

São amados, muito amados e são também inspiradores. São como se conta na igreja, no dia em que se casam. Até ao fim. Mas eles serão, para sempre, depois de qualquer fim.

 

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publicado às 23:56



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