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Na escola não se pode ser de esquerda nem de direita

por Maria Joana Almeida, em 19.11.20

 

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A minha crónica no jornal Público

 

"O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "São 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados”. E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independentemente dos seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

Erramos muito ainda quando falamos de inclusão, aliás, todos os textos sobre Inclusão falham redondamente quando assim se auto-intitulam, e falham redondamente porque o princípio deve ser sempre o da diversidade o da assunção da diversidade. Falar de inclusão é a antítese do que queremos. Mas lá chegaremos, ao dia em que não seja preciso um holofote perante a inclusão. Quando não for preciso reforçar que é homem ou mulher, que é imigrante, que de ascendência x, quando qualquer fator externo não é mais relevante do que sua competência. O momento chegará quando erradicamos, inconscientemente, do nosso discurso,”(…) e ela é mulher” e “foi o marido que ficou em casa a tomar conta do bebé”, “É africano e está na faculdade”, “Sim, temos muitos alunos de cadeira de rodas, temos um historial de inclusão”, “Sim os teus meninos, os alunos NEE”; “É para fazer os testes para os NEE?”

Não sei se irá lá por cotas, por discriminação positiva, por obrigação (não será de certeza). Creio que as mudanças profundas vêm acima de tudo por inspiração. As grandes mudanças vêm por contrapontos, por informação, por ouvir os dois lados da barricada, por correr o espetro. Porque de outra forma serão sempre assunções pouco sólidas. Facilmente manipuladas.

É por isso que áreas como a Cidadania não podem ser opcionais, por algo tão simples como o facto de que à escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

 

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos."

 

https://www.publico.pt/2020/11/18/impar/opiniao/escola-nao-esquerda-direita-1939423

 

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publicado às 23:48

Isto não é sobre esquerda nem direita.

por Maria Joana Almeida, em 11.11.20

 

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Este texto não tem cor partidária. Não é de esquerda, nem de direita. É sobre o que para mim é óbvio.

 

O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "Sâo 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo `coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados” . E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independetemente do seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência própria, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

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publicado às 21:44

5 perguntas, 5 respostas com David Santos (Noiserv)

por Maria Joana Almeida, em 06.11.20

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Ouve Radiohead todos os dias. Dire Straits e Pink Floyd em momentos de maior ansiedade para aligeirar os tempos pandémicos. É muito comunicativo nos concertos e ainda bem. É pragmático, mas emotivo, tem em conta a volatilidade do seu meio. Responde a todos os mails e mensagens que recebe. Faz questão. Três cidades na Turquia fazem parte das lista das cidades que mais ouve Noiserv, facto curioso para o qual não tem explicação . Há sempre um certo nervosismo e insegurança (normal) que o ajuda a equilibrar a sua carreira. Sente mais responsabilidade do que qualquer vaidade. Não projeta sonhos nem o futuro mas vai atrás da vida a acontecer. Tem uma sonoridade melancólica, bonita, cativante, profissional e já amplamente conhecida.

É o David Santos. Tem 38 anos, estudou no Técnico em no Curso de Eletrotécnica e computadores mas este entusiasmo pela música e por compor paralelo foi ganhando mais terreno e importância e é hoje Noiserv.

 

Obrigada David

 

1 – Não te vou perguntar porquê Noiserv, já o deves ter explicado várias vezes noutros espaços (eu depois procuro). Mas interessa-me que fales deste projeto. A música, foi-se desdobrando e acontecendo em paralelo na tua vida de estudante na faculdade. Neste caminho paralelo houve um momento onde decides seguir só a música. Quando foi o click?

 

Existiram vários momentos na verdade. A vida vai acontecendo, e dia-a-dia vamos tomando pequenas decisões que anos mais tarde parecem enormes. Talvez essas pequenas decisões tenham tomado um peso mais sério quando algures em 2007 pedi à minha “chefe” na Siemens, onde trabalhava, para ficar apenas em part-time porque precisava de tempo para gravar um disco, queria ter um disco nas lojas, pelo menos tentar. Na altura, ela disse-me que isso era contra as regras da empresa e que não seria possível, optei por me despedir. Voltei à faculdade, fiz o mestrado, segui na faculdade com uma bolsa de investigação. Algures em 2012, não renovei a bolsa e fiquei apenas com a música.

 

 

2 – Tu sentes-te artista? Ou sentes-te artista numa definição muito própria tua? Como é que te defines?

 

Não te sei responder em concreto. Acho que sou uma pessoa que gosta de fazer coisas, e de lutar por elas. Gosto de estar sempre a pensar e inventar qualquer coisa. Gosto de me entusiasmar e concretizar. Gosto muito de música e de me emocionar com ela.

 

 

3 – Disseste-me uma coisa muito interessante durante o tempo que conversamos, qualquer coisa como “uma pessoa que tira tempo da sua vida para me escrever merece que eu responda” Quando ouvi lembrei-me de pensar que tu tens os pés bem assentes na terra. É uma afirmação importante e revela muito sobre ti. A música mudou-te ou, pelo contrário, o que tu levaste para este projeto é o que faz dele o que é?

 

A única coisa, e que grande coisa, que a música me mudou foi um sentimento de concretização, até de algum orgulho maior em mim próprio e naquilo que as pessoas dizem gostar que faço. De resto, sou igual, nunca deixaremos de ser humanos, não voamos, não somos maiores que ninguém, podemos, ou não, ter a sorte de nos darmos mais às pessoas, mas só depende de nós.

 

 

4 – Não te pergunto sobre o futuro, sonhos e ambições, pois tal como eu, afirmaste não o conseguir fazer. Como está o teu presente? Estás onde queres estar?

 

Musicalmente falando, cada disco novo é um enorme “teste” para quem o fez, por todo o feedback que tenho tido, acho que este disco passou o teste e isso deixa-me inevitavelmente muito feliz. O futuro será sempre o mesmo, continuar a fazer o que mais gosto enquanto faça sentido para mim e para quem me ouve. E mais importante que tudo, nunca deixar de tomar as pequenas decisões que daqui os anos parecerão gigantes.

 

 

5 – Esta última pergunta é inevitavelmente ligada à Educação. Confesso que andei aqui um pouco às voltas para fazer um cruzamento entre a música, como arte educativa e o estado da Educação, mas não o vou fazer. Pergunto-te diretamente: da tua experiência e do que observas, o que achas da Educação em Portugal? Qual a tua sensibilidade sobre o assunto?

 

Teria de estar mais por dentro do assunto para te dar uma opinião objectiva. Apenas te consigo dizer, que ainda hoje me lembro dos “melhores” professores que tive enquanto adolescente, e acho que foram cruciais para tudo aquilo que sou hoje. Sou contra os modelos fechados de educação, o que torna cada professor especial é a sua forma única de chegar a cada aluno. Sobre a cultura na educação, acho que peca por pouco, não é suficiente uma peça de teatro por ano, a cultura são emoções e é isso que todos precisamos de valorizar para sermos mais dedicados a nós e a todos os que nos rodeiam.

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publicado às 22:16

2020

por Maria Joana Almeida, em 04.11.20

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Nunca percebi este esquema, como não percebo ainda as regras do Rugby ou do Baseball por muito que me expliquem, a par, também, de toda a árvore genealógica da saga, interminável, Star Wars. Não percebo este esquema quase tanto como não percebo haver espaço para a eleição de presidentes saídos de um filme de série z ou do canal Syfy.

 

Esta esquema é, também, uma imagem fidedigna do meu pensamento sempre que oiço/vejo um discurso de Donald Trump e fico num limbo cerebral, naquele espaço entre o confuso e o caótico, de estar perante uma realidade que supera um sketch humorístico, com a agravante de que é mesmo real e não tenho vontade de rir no final.

 

E por fim, este é também um esquema muito aproximado deste ano. Das medidas e não medidas, das proibições e restrições e das suas fragilidades e incoerências.

 

Esta é, no fundo, a imagem perfeita de 2020 onde nada faz sentido e por isso onde tudo acaba por fazer sentido. Onde já quase nada nos pode deixar mais atónitos e onde dançamos, constantemente, neste espetro entre o histerismo e a apatia, entre a verdade e o faz-de-conta. Seguimos, de máscara em riste, a dar high five de cotovelo fintando o caricato e tentado-o tornar normal. Tentado desenrolar este nó ad eternum.

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publicado às 22:17

5 perguntas, 5 respostas com o artista Diogo Landô

por Maria Joana Almeida, em 01.11.20

diogo lando.jpg

 

As redes sociais, frequentemente apregoadas como o bicho papão, têm uma componente fantástica que é precisamente dar a conhecer pessoas e obras muito interessantes. Foi o caso do Diogo Landô. Um acaso feliz nas viagens pelo Instagram.

Recordo-me de ter ficado rendida à arte do Diogo nas primeiras fotografias que vi. Tinha de o entrevistar.

O Diogo tem 35 anos. Estudou Arte e Comunicação e foi na arte digital que encontrou o seu espaço. É representado pelo Nuno Sacramento Arte Contemporânea e tem exibido o seu trabalho em diversos espaços, tendo já conquistado, também, o seu espaço no mercado exterior onde menciona: “ser mais aceite este tipo de arte” ou ”não considerado menor". Não vou tentar definir o trabalho do Diogo. A entrevista fala por si.

 

Obrigada Diogo

 

 

1 . Diogo, a primeira vez que vi uma obra tua, no Instagram, pensei: “Adoro. Nunca tinha visto isto assim” e “isto” refere-se ao facto de ser digital. Como caraterizas as tuas obras? Qual é história do Diogo que as cria?

Gosto de caracterizar a minha obra como “digital fine art”. O meu trabalho é essencialmente desenvolvido em suporte digital, recorrendo à foto-manipulação, colagem e pintura no computador, que depois é transposto para um suporte físico, numa peça única, normalmente impressa em alumínio ou acrílico.

Apesar do meio escolhido ser o digital, o meu trabalho apresenta plasticidades muito reais, tendo como elemento central a figura humana e as emoções, as imagens surgem através de camadas (layers) onde a figura se funde com o fundo e com a malha de texturas, atenuando as linhas das formas, da perceção e da identidade.

 A minha história é a de alguém que esteve sempre ligado às artes. O desenho e a fotografia são gostos adquiridos muito cedo, participei em vários projetos musicais e frequentei a Escola de Jazz do Porto, estudei Arte e Comunicação na ESAP, um curso que desenvolvia competências nas áreas da fotografia, cinema e design de comunicação e multimédia. Durante o período de faculdade fui também explorando a pintura e o interesse por banda desenhada. Penso que o meu trabalho seja um reflexo de todas essas áreas e influências.

 

 

2 - É um lugar-comum afirmar que o Diogo Landô que realizou as primeiras obras não é o mesmo de hoje. Quer seja pelo nascimento da tua filha, quer seja pelo caminho natural da vida a acontecer. O que sentes quando olhas para trás? Tudo faz sentido?

Sim, acho que é normal. O ser humano, em geral, tem tendência a mudar, a evoluir (e ainda bem!). As vivências e experiências levam a essa mudança. Por vezes há acontecimentos que provocam mudanças mais notórias e penso que isso me aconteceu no passado mais recente.

Possivelmente será interessante referir que eu terminei a licenciatura e já trabalhava em vários projetos de design e vídeo, coisas mais comerciais ou institucionais. Fui exibindo algum trabalho artístico, mas na altura a coisa não se deu e acabei por me virar para outros mercados/nichos, como o design e ilustração de livros, tendo mantido sempre uma produção artística pessoal, com esporádicas exposições ou apresentações de obra.

Esse meu trabalho artístico era, por norma, mais pesado, mais “dark”. Apresentava temáticas relacionadas com a morte, vida para além da morte, as relações amorosas, mas através de uma estética e uma abordagem mais agressiva, com muitas referencias a caveiras, mitologia e fantasias macabras.

Entretanto o meu trabalho começou a mudar e não foi uma mudança repentina ou intencional, foi algo que foi acontecendo ao longo dos anos e sem eu me aperceber.

Vários fatores como o meu casamento, o nascimento da minha filha, o alcance de algum sucesso e estabilidade profissional, mas também a maturidade que o tempo dá, levaram-me a procurar novas formas de me expressar. Acima de tudo, penso que o que mudou foi sobretudo a abordagem estética e a forma como eu olho para as coisas. Continuo essencialmente a tratar os mesmos temas, o meu foco é o ser humano, as suas experiências e emoções, mas mudou a forma como lido com esses temas.

É de frisar também o facto ter conhecido e começado a trabalhar com o Nuno Sacramento, que foi um grande impulso à minha criação artística. Quando alguém do meio acredita em nós e trabalha connosco para atingirmos o nosso potencial, isso reflete-se. Se a minha família e a minha vida mudaram a forma como eu abordava as temáticas dos meus trabalhos, o Nuno Sacramento alterou a forma como eu me empenho no meu trabalho. E na arte, é preciso um trabalho diário e continuo.

 

 

3 - Como sentes que o digital é recebido na comunidade artística, quer nacional ou internacional?

Eu acho que o digital está a começar a ser aceite como uma forma de produção artística, apesar de ainda haver muita gente que não lhe atribui o mesmo valor de outras formas de arte. Até certo ponto isso é normal, pois é um meio muito novo e necessita de tempo para se impor no mundo artístico. Temos de perceber que a primeira versão do Photoshop tem 30 anos. Por comparação, o meio que antecedeu a sua introdução no mundo das artes visuais foi, talvez, a fotografia e isso foi há quase 200 anos e, mesmo assim, aos olhos do público geral, ainda não é vista com a mesma nobreza da pintura ou da escultura. Portanto, o digital é um meio muito novo, que se impôs mais facilmente através do vídeo, mas que, como obra estática, quadro, só muito recentemente começou a entrar nas galerias, museus e coleções.

Existe também a questão da designação de arte digital ser muito abrangente. Serve para arte 3D, fotografia, pintura, ilustração, design gráfico, colagem, etc. Pode ser para reprodução em massa, aplicada a merchandise, edições limitadas ou obras únicas. São demasiadas coisas para serem categorizadas todas como uma só. Se quisermos fazer um paralelismo, seria o mesmo que falarmos em pintura e assumir que todo o tipo de pintura é igual, não distinguindo óleo de acrílico, de aguarela ou pastel e, partindo do principio que toda a pintura é semelhante em técnica ou resultado estético, quando sabemos que não o é.

Em suma, acho que o digital enquanto “fine art” está a entrar no meio artístico, mas por vezes é ainda depreciado por algum público e agentes culturais. Sinto talvez mais abertura na Europa Central, onde me parece haver uma maior aceitação para o valor artístico do digital, mas felizmente tenho encontrado gente que gosta do meu trabalho, tanto cá como no estrangeiro.

 

 

4 - Senti o ímpeto de perguntar as tuas influências, mas esta seria uma pergunta óbvia e um tanto ou quanto recorrente. Sou da opinião que as influências estão na obra e que as influências são mais das nossas experiências de vida do que propriamente de outros artistas. Interessa-me mais saber as tuas ambições. Há um objetivo? Que caminhos gostarias de percorrer e alcançar o quê?

Penso que faz sentido responder a esta questão, explicando como e quando eu comecei a apostar numa carreira e profissionalização de artista.

Como já referi, eu sempre mantive uma produção artística associada à pintura, à arte digital e até outros projetos que fui fazendo. Fazia-os, acima de tudo, para mim, como forma de me expressar e pelo prazer do ato criativo, mantendo sempre a minha atividade como designer editorial.

Há coisa de 2 anos, senti que deveria avaliar a minha produção artística, se era algo que deveria manter como “hobby” e focar-me exclusivamente em progredir na carreira enquanto designer editorial, algo que eu gostava e gosto de fazer. Foi então que conheci o Nuno Sacramento e decidi começar a apostar mais na produção artística.

Desde aí, o objetivo tem sido sempre criar uma carreira sólida e duradoura, algo que nem sempre acontece no meio artístico.

É um novo desafio, algo que me dá imenso prazer e, de momento, o objetivo concreto é fazer a transição completa para me dedicar exclusivamente à arte.

 

 

5 - Esta última pergunta acaba por ser sempre relacionada com a Educação. Lembro-me de te ter perguntado, na nossa videochamada, qual tinha sido o momento, aquele momento cirúrgico, na escola, que ajudou a traçar o início do teu percurso artístico. Queria que falasses acerca dele e que fizesses uma breve reflexão sobre a dicotomia (?) Criatividade vs Escola – Convergência ou Divergência?

Não foi tanto o traçar o percurso artístico, até porque isso acontece no meu 11º ou 12º ano, já em artes, mas foi algo que marcou a minha orientação estética e visual.

Eu fiz o secundário no agrupamento de artes, vertente de design, pelo que estava a ter introdução a ferramentas digitais (Photoshop/Corel) e, num determinado projeto, penso que na elaboração de uma capa para um álbum, eu estava a fazer uma série de experiências no computador, à procura de uma estética que fosse de encontro ao tipo de música que eu ouvia. Foi nessa altura que uma professora me mostrou o livro Dust Covers, do Dave Mckean, que é um artista que eu ainda hoje admiro muito e que, na altura, tinha acabado de produzir as capas para o Sandman (banda desenhada), todas através de processos mix media que utilizavam também o computador, mas também pintura, fotografia, colagens, encenação... tudo basicamente. Foi aí que eu senti que queria explorar várias áreas e que havia possibilidades de o fazer de as combinar.

Em relação à dinâmica Criatividade-Escola, penso que é algo que é importante e que deve existir, não só em relação às artes, mas a todas as disciplinas.

Estou fora do ensino há já alguns anos, mas pela minha experiência pessoal e pelo que observo através dos media ou colegas que lecionam, acho que o sistema atual de ensino está muito mecânico e decorado. Para mim, o ensino deveria fomentar mais a interrogação e compreensão das disciplinas e conteúdos lecionados. Os jovens devem ser incentivados a ser criativos e encontrar formas alternativas de abordar assuntos e problemas, caso contrário, a educação torna-se cinzenta e aborrecida, com o objetivo de criar pessoas para executar um determinado número de funções, que provavelmente irão mudar no futuro, mas sem espírito crítico. 

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