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Para os meus tios. (Para os irmãos)

por Maria Joana Almeida, em 31.07.20

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Não tive irmãos, mas tenho duas filhas. Tenho muitos tios e primos e são a minha irmandade.

 

Vivo o amor de irmãos pela observação da minha mãe com os meus tios e é avassalador, é muito bonito, é muito reconfortante.

 

A minha mãe é a mais velha, é a Matriarca, e está muito doente. No dia da notícia que nos fez partir em cacos senti esse amor de irmãos, da dor instalada e vivida como se todos estivessem ligados por um único fio, um único cordão. Vi-os a ir ao chão, a dor a rasgar o peito. Vi o amor, um amor especial, daquele veio do mesmo sítio e marcado pelas histórias antigas e partilhadas. Não há cumplicidade igual. São seis e funcionam como se fossem um. A dor de um é a dor de todos.

 

Talvez isto não seja sempre assim e não serão todos assim, mas estes irmãos, os meus tios, pertencem aquela fibra de gente boa, gente muito boa que é emotiva, que constrói, que faz acontecer e que sabe amar profundamente.

 

Depois dos cacos espalhados em compartimentos de dor que não conhecíamos, recusaram (recusámos) a ir de novo ao chão. Instalamos a dor e seguimos, num processo de construção, numa caminhada onde a força visceral e o sentido de humor são o antídoto mais valioso, mais curativo.

 

Há alguma distância geográfica que nos separa, mas que não tem dimensão suficiente para os irmãos. Um por um, dois a dois todos estão presentes, todos mostram o amor, todos se encontram nesta ligação umbilical.

 

Algumas doenças ganham sempre. Algumas são infelizmente de desfecho solitário, outras são rodeadas de afeto e outras são preenchidas por constantes fintas aos desfechos, por constantes provas de amor, por constantes presenças, por lutas, por constante construção. E a mãe será sempre uma privilegiada pelos irmãos que tem, pela família que cresceu à sua volta, a de sangue a que se tornou, também, família. Por sentir um amor de cinco irmãos extraordinários que, em nenhum momento, baixam quaisquer braços.

 

Enquanto filha, enquanto sobrinha, enquanto prima, sei a sorte que a minha mãe tem e que eu tenho por sentir esse amor.

 

São a casa, esta casa

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publicado às 03:00

Lista para enfrentar o mundo

por Maria Joana Almeida, em 13.07.20

 

 

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As listas para enfrentar o mundo não se vendem e não têm idade. Há ursos de peluche, e tudo o que representam, até ao final da nossa vida.

 

As listas para enfrentar o mundo podem variar consoante a dor. Há dores avaliadas de zero a dez. Há dores que rebentam a escala dos 10. E nessas dores, as listas, às vezes, ficam temporariamente vazias.

 

Depois da dor instalada há pontos que começam a surgir. Mesmo que saibamos que ainda há mais dor para além da escala. Que há mais dor para além do insuportável. Na lista, depois dos cacos mal amanhados, mal colados, começam a surgir pequenas construções. Dessas construções nascem novas realidades. Uma espécie de mundo paralelo, de pequenos planetas emocionais. A dor está lá. É grande e constante, como se fosse um abraço frio de que nunca nos livramos.

 

Quando escolhemos agarrar nos cacos da vida queremos colá-los e colocá-los o mais próximo do que foram, numa espécie de novo palco. Escolhemos pegar na cadeira de rodas, rir, trocar as voltas à vida, fintar a morte, mesmo sentindo a antítese interna.

 

As listas para enfrentar o mundo não são mais do que fintas à vida. Não são mais do que breves substitutos até equilibramos as novas formas dos cacos.

 

As listas para enfrentar o mundo são feitas de resiliência, de medo, de desnorte, de dor, de força, de pernas bambas, de amor, de saudade. São feitas de lugares de afeto, de doces, de vislumbres, de visões. São um sítio, uma pessoa, várias pessoas. São uma série, o trabalho, os filhos. São uma crença, uma ideia, um telefonema, um mergulho no mar, uma piada, uma gargalhada conjunta, um palavrão, um grito. São os ursos de peluche e os donuts desta vida.

São a nossa salvação.

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publicado às 23:22

Inclusão "by the book"

por Maria Joana Almeida, em 09.07.20

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"Há uma cena particularmente interessante no filme Good Will Hunting (O Bom Rebelde) de 1998, quando Robin Williams, enquanto psicólogo, interpela Matt Damon relativamente aos seus vastos conhecimentos aprendidos exclusivamente através dos livros, dizendo qualquer coisa como isto: “Se eu te perguntar por Michelangelo conseguirás dizer-me tudo sobre a sua obra, aspirações, posicionamento político, mas aposto que não me consegues falar do cheiro da capela sistina, nunca lá estiveste e nunca olhaste para aquele teto de cortar a respiração.”

 

As vivências e a sensibilidade não são ensinadas ou aprendidas “by the book”, é por isso que a utilização, apenas, do universo digital não é suficiente nem substituível do toque, da relação, da emoção presencial.

 

Esta é uma metáfora interessante para a frase: A Inclusão não se decreta.

 

É verdade que existe um Manual para a Inclusão que funciona num sistema dúbio. Aquilo que foi construído com o pressuposto de disponibilizar sugestões e orientações, é inúmeras vezes confundido com uma bíblia e utilizado de forma mais fervorosa do que o mais devoto crente. É muitas vezes seguido à risca relembrando por vezes os célebres jogos de encaixe na primeira infância e dos erros constantes até desenvolvermos a destreza manual e motora para dominar essa arte. Cada medida é encaixada num relatório servindo o texto escrito para “curar” o aluno, como se de um molde se tratasse. E por estar escrito, parece estar, por si só, a acontecer.

 

Após a leitura do Manual ficamos aptos a conhecer metodologias, medidas universais medidas seletivas, medidas adicionais. Somos capazes, num instante, de realizar uma pequena lista do que vou fazer com determinado aluno e de passar o ano a colocar vistos e cruzinhas num papel que tanto pode ser da Maria como do Manuel, porque ambos têm exatamente as mesmas medidas. Esquecem-se, os mais fervorosos do “livro”, que ambos não têm as mesmas vivências, o mesmo background, nem o mesmo objetivo. E ainda que exista um diagnóstico igual que lhes permite a seleção para tais medidas, a Maria não é o Manuel, nem o Manuel é Maria e nem um diagnóstico um fim.

 

Às vezes o aluno não precisa de ter mais tempo para acabar o teste, ou de fazer o teste em sala à parte, mas se calhar precisa de um sinal de pertença e de afeto do professor que se pode traduzir numa simples conversa sobre as angústias, os medos, os sonhos. Talvez precise de esquecer aquele teste e elaborar um trabalho, ou pelo contrário (porque isto é também sinal de afeto), de colocar os pontos nos “is”, ser assertivo, às vezes deixar cair e chamar à responsabilidade com a mensagem subentendida de que eu interesso-me por ti e conheço o teu valor, independentemente de qualquer diagnóstico escrito. Ainda que estas conversas não venham expressamente explícitas no Manual, elas devem residir no nosso âmago e ser parte do nosso profissionalismo. Cada professor terá o seu manual de inclusão interno que se traduz em gestos, ações e palavras e, arrisco dizer, que aqueles que menos usam a palavra inclusão ou o Manual, em prol de olhar mais para os seus alunos, estão, seguramente, mais comprometidos com a sua profissão.

 

Agir “by the book”perante a Educação ou perante qualquer aspeto da vida é assumir que existe um livro de instruções no nosso caminho e que tudo se resume a uma simples dicotomia de cores: preto e branco. A razão não está nos acérrimos defensores de algo a que chamam Inclusão (que os cega da verdade e da razão esgotando o tema numa lógica simples de obrigação, esquecendo as particularidades de cada um) nem nos acérrimos defensores da separação de determinados alunos pelas suas caraterísticas e apologistas dos rakings. Ambas posições são prenúncios de ditaduras. As leituras enviesadas e unilaterais que vêm de modas, de assimilação de informações pouco claras e de experiências muito pessoais toldam a empatia e a opinião. Estas atitudes prejudicam recorrentemente um trabalho que não pode ser olhado de uma forma geral, mas sim, através de um respeito muito individual e particular que permita a qualquer aluno um caminho que lhe faça sentido.

 

As capelas sistinas desta vida só ganham sentido e existem na sua plenitude quando são vividas e quando têm a capacidade de nos emocionar porque permitem a capacidade de sentir e não apenas de carimbar um qualquer passaporte. As vidas dos alunos não podem ser regidas por listas de medidas em relatórios. Merecem que cada palavra escrita sobre si tenha em conta, mais do que o que está expresso num Manual, uma história, um objetivo, um caminho individual, que deve ser, por todos, ampliado."

in Público 03-07-2020

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publicado às 23:00


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