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Creches a régua e esquadro

por Maria Joana Almeida, em 11.05.20

creches.jpg

 

Acredito (sei) que a DGS tem a melhor das intenções. Acredito, inclusivamente, que saiba que os modelos matemáticos importantes para criar relações neste vírus não conseguem ser aplicados em vários modelos sob a pena de cortar relações. Acredito que algumas medidas foram pensadas dentro de um quadrado analítico de prevenção, mas há sítios onde os quadrados não se regem pelo número exato de lados e forma, mas são antes uma casa, uma poça, um castelo. Dos 0 aos 3 anos os quadrados não têm limites.

 

O vínculo emocional, os abraços a partilha são ponto assente (devem ser), mesmo que figurativos, no sistema de ensino. Nos primeiros anos de vida são o pilar onde assenta toda a educação. A DGS sabe disto, tem de saber e está a fazer o seu papel. Um papel que tem de ser adaptado a uma realidade excecional. Todos sabemos os pontos praticamente irreais do plano de retorno às creches e também sabemos que na impossibilidade de se concretizarem colocam educadores e crianças num limbo de fragilidade e de desafio incomparável. A todos colocou.

 

O plano traçado, que será reavaliado quinzenalmente, é conhecido e entendido como forma de reabrir a economia. Há mais mortes (também figurativas) para além das causadas pela Covid 19. Tendo sido opção reabrir creches e jardins de infância e sabendo que terá de ser num regime verdadeiramente excecional não poderemos trabalhar num critério de opostos. Não poderá existir o mesmo contacto (tão necessário) assim como não poderão ser implementadas determinadas medidas que impliquem distâncias irreais e não partilha de objetos. Todos fizemos concessões nas nossas relações neste período e dentro deste campo, os pólos devem ser ouvidos num processo de construção. Perceber o que pode ser exequível dentro do tempo em que vivemos minimizando todos os riscos, quer seja a reabertura em moldes muito específicos com consequências que poderão ser inevitáveis ou o seu adiamento.

 

Não pode haver bodes expiatórios e um atirar de pedras indiscriminadamente. É dever de todos o comprometimento de procura de soluções, sem soberba e sem diletantismo, assumindo que durante um período de tempo as vidas, com ou sem confinamento, estão ainda suspensas, com poucas partilhas e, em muitos casos, a bem mais de dois metros.

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publicado às 21:01

5 perguntas 5 respostas com o Alexandre Henriques (fundador do blog ComRegras)

por Maria Joana Almeida, em 04.05.20

Apresentação1.jpg

 

Tinha criado o meu blog há relativamente pouco tempo quando recebi um mail do Alexandre Henriques. O Alexandre tinha lido o blog e entrou em contacto comigo para me convidar para colaborar com o ComRegras que estava também ainda num início.  Senti-me muito feliz com o convite, especialmente porque percebi rapidamente que ambos partilhávamos (e partilhamos) visões idênticas na área da Educação.

O Alexandre é professor e o fundador do ComRegras, um espaço que é, atualmente, uma referência na área da educação. O Alexandre assume convictamente as suas ideias, é assertivo, livre, empático e possui a humildade de saber ouvir pontos de vista diferentes e respeitá-los independentemente da sua posição.

Vale muito a pena ler o Alexandre.

Obrigada!

 

 

1 – Alexandre criaste o Blog ComRegras há sensivelmente 5 anos. Um blog que é hoje uma referência no mundo educacional contando com vários colaboradores de diferentes valências dentro da área da educação. Qual foi a tua principal motivação quando pensaste este espaço?

O ComRegras foi criado com o intuito de abordar assuntos relacionados com a (in)disciplina, daí o seu nome. Na altura coordenava um gabinete disciplinar e o projecto que estava a ser implementado apresentava resultados muito positivos. O ComRegras foi visto como um veiculo de transmissão desse mesmo projecto. Aliás, toda a estrutura desse gabinete continua acessível no blogue, pois acredito que a temática da (in)disciplina continua a ser prioritária no ensino.

 

 

2 – Este processo de crescimento e de visibilidade foi algo que previas poder acontecer? E sendo neste momento uma referência quais as responsabilidades que sentes (blog) ter para com a comunidade?

Nem pensar Joana. Lembro-me de no início ficar surpreendido por ver 5 mil, 10 mil, 15 mil, visualizações mensais, achava muito e naturalmente que é significativo, mas quando temos mais de 1 milhão e 600 mil visualizações num único mês como ocorreu no mês de abril, a nossa perspetiva muda.

Sobre a responsabilidade, não é a primeira vez que me perguntam isso e a sensação é sempre a mesma. Quando escrevo ou publico algo, estou sozinho em frente ao teclado e não penso muito em quem lê ou quantas pessoas vão ler. Claro que certos assuntos são mais polémicos ou quando denuncio algo sensível tenho o cuidado de verificar antes, mas no essencial, continuo a ser eu e a minha forma de ver as coisas, apenas e só.

Hoje vejo o ComRegras como um amplificador de voz da comunidade educativa, não do Alexandre Henriques. Aliás, não é por acaso que está escrito no final do blogue “publicamos a sua opinião” e temos vários colaboradores que sempre que podem partilham a sua visão.

 

 

3 – Os professores têm estado inúmeras vezes nos centros dos tsunami, com uma opinião pública nem sempre positiva. Lembrando-me de uma conhecida frase proferida por John Kennedy que diz: “Não pergunte o que pode o seu país fazer por si, mas sim o que pode fazer pelo seu país”, gostaria de colocar uma pergunta ao contrário: O que sentes que ainda falta aos professores fazerem, ou o que podem ainda fazer pelo país?

Considero os professores faróis sociais, são responsáveis pelo futuro do país. Esta responsabilidade tem de estar sempre presente nas suas cabeças. Evidentemente que a imagem do professor está demasiado associada às lutas sindicais, o que é uma pena, pois como podemos verificar no ensino à distância, os professores portugueses têm muita qualidade.

Os professores são guardiões de valores, são imperadores do saber. Milhares de pessoas com este perfil são um pilar social muito importante. Pelos seus alunos, pelo seu país, os professores precisam de continuar o processo de transmissão e orientação do saber e não há nada mais importante que moldar o tecido social.

Este é um processo contínuo e julgo que neste momento estamos num processo de integração da tecnologia no processo de ensino. Vejo as salas de aula do futuro obrigatoriamente diferentes, algo que já começou mas que no futuro será acelerado, até pelas contingências atuais.

 

 

4 – Eu sei que é uma pergunta algo cliché (mas sempre pertinente) quais são para ti, atualmente, as principais caraterísticas de um bom professor, aquelas que podem fazer a diferença, independentemente, do sítio onde te encontras?

Conhecimento e empatia. Só podes ensinar se dominares como ninguém aquilo que estás a transmitir, mesmo que o professor seja visto cada vez mais como um orientador, se não dominares os conteúdos, o aluno irá perder-se. A empatia é ainda mais importante, ninguém aprende de quem não se gosta. Se o professor não for um ser empático, o aluno vai desligar, cumpre a sua função como se picasse o ponto numa fábrica, mas vai sair da aula e esquecer-se rapidamente do que foi lecionado.

A empatia abre uma autoestrada para o respeito, para a disciplina, para o conhecimento e consequente sucesso. O professor é também um gestor de emoções, algo que infelizmente não é trabalhado na sua formação como deveria.

 

 

5 – Nesta última questão, quero incluir duas perguntas. Faz-te sentido criar, à semelhança de outras profissões, uma Ordem de Professores? E se sim, qual o trabalho a ser feito por esta Ordem tendo em conta os atuais desequilíbrios na carreira docente?

Sim, não sei se o caminho será uma Ordem ou algo diferente, mas os professores precisam claramente de algo que os afaste da guerrilha constante dos sindicatos, mesmo que estes até tenham razão em muito do que dizem. Há quem pense que não gosto dos sindicatos, não é verdade, precisam de um refresh, disso não tenho dúvidas, mas são essenciais para manter um certo equilíbrio. Mas existem certas áreas que não entram, ou não deveriam entrar no campo sindical, como a formação docente, a criação e cumprimento de um código deontológico, uma participação mais ativa nas políticas educativas, uma estrutura que represente os professores ao mais alto nível.
Hoje temos associações de professores, associações de diretores, uma quantidade absurda de sindicatos, um Conselho Nacional de Educação claramente politizado, um Conselho de Escolas onde só se sentam directores, etc. Mas no meu mundo perfeito, gostaria de ver um órgão de professores, mas mesmo professores, dos que ainda dão aulas, representando assim toda a classe docente.
Vejo muitos representantes mas vejo também muitos interesses cooperativos, talvez por isso nas salas de professores exista um afastamento e direi até repúdio por muitas dessas estruturas.
E não Joana, não sou candidato a nada, o que quero mesmo é dar aulas e continuar a divertir-me com o ComRegras.

 

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publicado às 16:03


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