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Um dia eu apareço

por Maria Joana Almeida, em 31.12.18

 

JOANA FOTO.jpg

 

Penso que tinha 17 anos, andava na Cidade Universitária (já não existe) e caminhava perto do mercado de Alvalade. Do lado direito do mercado havia uma passagem para a rua que vai dar à Escola Eugénio dos Santos, minha antiga escola também.

 

Lembro-me que caminhava triste nesse dia, sei disso pelo impacto que tem, até hoje, a frase que li na parede ao fundo dessa passagem: “Um dia eu apareço”. Recordo-me perfeitamente de parar e sorrir. Se acreditasse em sinais divinos ali estava um (acho que no fundo acredito).

 

Com possibilidade de me repetir, há efetivamente frases que ouvimos ou lemos em determinados momentos e ficam guardadas a maturar. Frases a que recorremos ao mínimo sinal de poderem fazer sentido e por norma (porque é praticamente de lei) fazem sentido quando menos esperamos. “A vida resolve-se sozinha” é uma dessas frases. Quantas ginásticas mentais são feitas ano após ano na tentativa de resolver problemas e responder a perguntas difíceis. A verdade é que a vida acontece e tudo se resolve.

 

Um dia eu acabei a licenciatura; um dia arranjei o meu primeiro trabalho; um dia tive o meu primeiro carro; um dia o Mário apareceu; um dia fiz o meu mestrado; um dia tive novos desafios profissionais; um dia criei o meu blog; um dia abri o blog e ele estava nomeado. Um dia, vários dias, tive muitas desilusões, um dia portei-me muito mal; um dia portaram-se muito mal comigo; um dia fiz tantas perguntas; um dia, vários dias, vivi muito intensamente; um dia várias respostas apareceram e um dia, um dia em 2018 a Maria Luísa nasceu. Apareceu.

 

Não vou escrever sobre ser mãe. Já o fizeram de várias maneiras e feitios, só me iria repetir. É muito bonito. Muito mesmo.

E 2019 será, certamente, de mais momentos que me vão ligar eternamente aquele mural. Foi e será sempre essa a frase: "Um dia eu apareço".

 

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publicado às 14:10

Isto não é para meninos

por Maria Joana Almeida, em 20.12.18

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Experimentei várias vezes fazer surf. De vez em quando ainda tento. Não me recordo de experimentar (não é que conte com um vasto conhecimento de todos os desportos) algo tão exigente como este desporto. Conseguir nadar para passar a rebentação, acertar no momento de nadar quando se vê a onda e colocar-me em pé na prancha. Para mim é claramente um acontecimento francamente distante.

 

Li no intervalo de dois dias duas notícias sobre duas crianças que atingiram um patamar de topo com este desporto, a Marta Paço e o Davizinho. A Marta é invisual e o David Teixeira (Davizinho) tem síndrome da banda amniótica, uma má formação nos braços e nas pernas. A Marta ganhou a medalha de bronze no surf adaptado e o Davizinho é vice-campeão mundial nesta modalidade.

 

Há muito a dizer sobre estes acontecimentos fantásticos e ao mesmo tempo nada a dizer.

 

Quem costuma ler os textos que escrevo neste blogue conhece a minha aversão à condescendência, especialmente nos casos de deficiência. É a condescendência que nos faz estar no chão e nos impede de levantar. É a diferença entre estar deitado na prancha ou conseguir erguer-se mesmo num meio adverso. E é uma valente bofetada de luva branca (não encontro expressão melhor) olhar para estes incríveis atletas. Atletas que tiveram a sorte de ter vivências e referências que lhes permitiram perceber que o seu potencial não se define ou não se esgota em ter um corpo (em teoria) 100% funcional.

 

Há um momento no vídeo onde a mãe de Davizinho diz: “Uma vez uma mãe disse-me: Eu nunca deixaria o meu filho ir para o mar fazer surf porque eu amo-o muito. E eu respondi: É por amar muito o meu filho que eu o deixo fazer surf.” e podia fechar este texto com esta frase. Este é um bom exemplo de mãe que eu gostaria de ser: Apesar do medo, corajosa. Porque o amor e amar é um ato corajoso.

 

Vou fechar este texto com uma frase de Marta Paço: “O mar é justo. No mar sinto-me igual aos outros.”

 

Seremos uma sociedade mais completa quando a escola, a empregabilidade, a casa, for mais justa. Quem se esforça, quem luta com mais ou menos comprometimento tem de ser reconhecido. Isto é justiça.

 

Vídeo David Teixeira: https://www.facebook.com/ZLocalHeroes/videos/the-radical-surfer/2158658961115110/

Marta Paço: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-dez-2018/interior/marta-paco-cega-e-campea-de-surf-no-mar-sinto-que-sou-igual-aos-outros--

 

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publicado às 11:39

A Maria leu hoje uma frase

por Maria Joana Almeida, em 10.12.18

bored teachers.jpg

 

Já tinha escrito algo semelhante no primeiro texto que fiz no meu blogue. Há frases que aparecem na nossa vida que servem para validar uma convicção e sem nos apercebermos, condicionar a nossa ação e pensamento.

 

Acordei de manhã e enquanto fazia a viagem até um dos meus trabalhos li a seguinte frase que apareceu em pop-up nas redes sociais “Students don´t need a perfect teacher. Students need a happy teacher, who´s gonna make them excited to come to school and grow a love for learning” que é qualquer coisa como isto “Os alunos não precisam de um professor perfeito. Os alunos precisam de um professor feliz que os consiga entusiasmar para a aprendizagem”

 

Fazia todo o sentido. Conseguia rever-me no meu presente e no meu futuro.

 

Durante a manhã, na minha turma do curso de alfabetização, trabalhei com o mesmo entusiasmo de sempre. Aquele entusiasmo de quem trabalha para permitir ferramentas base do dia-a-dia. Dar liberdade, autonomia a adultos que ainda fazem parte do 5% de analfabetos que herdámos dos 26% em 1974. Mas também aquele entusiasmo de quem trabalha com uma equipa com o mesmo foco, com uma atitude construtiva, sensível e persistente. E acima de tudo uma equipa que encara cada indivíduo como singular com a sua história, fragilidades e comprometimentos que merecem, por respeito a cada perfil, um plano e um trabalho individual.

 

A Maria é nova nesta turma e à semelhança de muitos formandos nunca foi à escola e a sua vontade de aprender é inspiradora. Quer tanto aprender que quando erra por vezes quase chora porque a sua força de vontade contamina toda a racionalidade que nos diz que é a errar que aprendemos e que é passo a passo nunca imediato.

 

Hoje, passado dois meses de formação, a Maria leu uma frase. Não há palavras para a sua expressão perante os aplausos dos seus colegas e as palavras de motivação.

 

E a Maria, no seu modo ingénuo, dizia-me enquanto eu lhe dava, também, os parabéns: “Mas professora, não sei como hei-de explicar, mas a professora tem assim muito gosto em ensinar e assim é mais fácil”. E naquele momento regressei à frase. Condicionou, de uma forma muito positiva aquele dia.

 

A alfabetização de adultos tem sido encarado como um problema menor, muitas vezes com uma intervenção paliativa, pela rama, sem se permitir a conhecer as histórias de cada aluno. Há dois aspetos que determinam o sucesso desta intervenção: a consciência de que 5% é a percentagem mais elevada na Europa (ainda me recordo da expressão de admiração de um amigo alemão que não acreditava que ainda havia pessoas analfabetas) e que, em pleno século XXI, é inaceitável e tem de ser combatido; e de que ensinar um adulto a ler e a escrever tratando-o como mais um, fechando os olhos a um passando de vivências muito próprias e negando-lhes assim um futuro, é perpetuar a percentagem existente.

 

Num futuro, quando me perguntarem por um dos momentos mais significativos na minha vida profissional, este será, sem dúvida um desses momentos.

 

Estou longe de ser perfeita, mas convictamente certa de que sem amor, sem paixão ninguém ensina e ninguém aprende ponto.

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publicado às 22:07


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