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5 perguntas, 5 respostas com a Terapeuta da Fala Gracinda Valido

por Maria Joana Almeida, em 27.04.18

Gracinda.png

 

“A dedicação de Gracinda Antunes Valido à terapia da fala valeu-lhe o reconhecimento da comunidade escolar, que escolheu dar nome da terapeuta à antiga Escola Básica nº2 de Alcoitão.” (https://www.tsf.pt/sociedade/saude/interior/historias-de-uma-vida-dislexica-9257356.html)

 

A Gracinda Valido foi minha professora no mestrado em desenvolvimento e perturbações da linguagem na criança e vou guardar sempre o facto de ter sido a primeira pessoa que me fez compreender finalmente o que é a dislexia, quais os mitos associados, quais os problemas de muitos diagnósticos errados e confusões entre outras perturbações da linguagem.

É o nome a reter nesta área de intervenção e esta é uma entrevista obrigatória para conhecer a realidade e ajudar a quebrar mitos.

 

Muito obrigada professora.

 

 

1 – A terapia da fala é uma área fundamental na intervenção das várias dimensões das perturbações da linguagem, no entanto é comum ainda existir um desconhecimento da sua real importância associado a vários mitos. Ainda ouvimos dizer muitas vezes “Ela não precisa de terapia da fala porque fala bem”. Como caracteriza a Terapia da fala e as suas áreas de intervenção?

 

De facto, quando a alteração não é ao nível da articulação verbal da palavra, muitas vezes a perturbação de linguagem não é valorizada. Quando a criança apresenta um discurso que não é explicito, um vocabulário mal aplicado, uma estrutura sintática alterada, podem ser sinais de alerta de uma perturbação da linguagem mais grave do que não articular bem um fonema e necessitam de uma intervenção direta em Terapia da Fala precocemente. O educador e o cuidador devem estar alertas para todas as competências linguísticas e não só para a articulação verbal da palavra, tal como diz a Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala (APTF) a nossa intervenção não visa só a articulação:

“O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, intervenção e estudo científico das perturbações da comunicação humana, englobando não só todas as funções associadas à compreensão e expressão da linguagem oral e escrita, mas também outras formas de comunicação não verbal. O Terapeuta da Fala intervém, ainda, ao nível da deglutição (passagem segura de alimentos e bebidas através da orofaringe de forma a garantir uma nutrição adequada). O papel do Terapeuta da Fala passa por avaliar e intervir em indivíduos de todas as idades, desde recém-nascidos a idosos, tendo por objetivo geral otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição do indivíduo, melhorando, assim, a sua qualidade de vida (ASHA, 2007)”.

 

 

2 – A Gracinda é conhecida por ter um percurso de intervenção ligado mais concretamente a uma perturbação da linguagem específica, a dislexia. O que a levou a especializar-se nesta área?

 

Entrei no centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão em 1982 e anos mais tarde, tive um filho com dislexia. Tenho três filhos, dois deles com perturbações de linguagem. O meu filho é um disléxico grave e que me fez evoluir, fez-me criar métodos, fez-me criar uma bateria de avaliação de linguagem na competência fonológica, em conjunto com outras colegas, fez-me estudar, fez-me fazer estágio nesta área, fez-me apaixonar por esta perturbação da linguagem que é a dislexia. Tenho a sorte de ter um filho que me fez crescer enquanto terapeuta. Sendo um dos casos que cito como casos de sucesso, porque tem tido um percurso profissional brilhante, graças a identificação precoce da perturbação e a todo apoio que teve.

 

 

3 – Foi minha professora no mestrado em desenvolvimento e perturbações da linguagem na criança e vou guardar sempre o facto de ter sido a primeira pessoa que me fez compreender finalmente o que é a dislexia, quais os mitos associados, quais os problemas de muitos diagnósticos errados e confusões entre outras perturbações da linguagem. O que é efetivamente a dislexia e, principalmente, o que não é (mitos)?

 

 

Os “mitos” são muitos, contudo quando nos referimos a dislexia esta não é a troca em espelho das letras e números; não inclui a incoordenação motora ou alteração na lateralização; não se pode diagnosticar antes do ensino formal da leitura, podemos sim detetar sinais ao nível da consciência fonológica; não se diagnostica num exame oftalmológico ou postural.

As dificuldades grafo motoras, de orientação espacial, lateralidade, psicomotoras, etc. são independentes da dislexia. Estas comorbilidades podem existir em algumas crianças disléxicas, mas não são estas alterações que fazem o diagnóstico de dislexia.

Segundo a organização mundial de saúde (OMS) , a Classificação Internacional das Doenças–ICD 9 (dislexia 315.02), e a International Dyslexia Association, dislexia é uma perturbação da linguagem escrita (leitura e escrita) que tem na sua génese num défice fonológico e que não envolve outras competências cognitivas, nem sensoriais.

 

 

4 - A internet está inundada de várias designações e planos de intervenção nesta área e sabemos que induz muitos pais e professores em erro sendo muito comum, em Educação Especial, recebermos inúmeros diagnósticos de dislexia que percebemos que não são diagnósticos corretos. Como e que profissionais podem efetivamente avaliar e concluir a existência desta perturbação de linguagem?

 

É fundamental que quem avalie dificuldades de aprendizagem tenha consciência da importância de um trabalho em equipa com psicólogos, professores, e outros profissionais para uma avaliação completa de todas as competências da criança/jovem.

 A avaliação nomeadamente da consciência fonológica, que se reflete em dificuldades na linguagem escrita (leitura e escrita) são a base do diagnostico de dislexia, contudo há toda uma panóplia de perturbações de linguagem que podem ser confundidas com dislexia, nomeadamente as perturbações de linguagem especifica da competência fonológica, que apresentam alterações fonológicas na oralidade que transpõe depois para a escrita, funcionando na linguagem escrita como as crianças disléxicas. A base de um diagnóstico correto e intervenção apropriada está no raciocínio clínico. Dar erros não é sinónimo de Dislexia. Consequentemente saber avaliar, correlacionar os resultados de forma a realizar diagnósticos diferenciais na área da linguagem torna-se vital para os profissionais que trabalham nesta área. Só assim estas crianças/jovens podem ter contemplado no seu plano educativo uma avaliação que não penalize o seu potencial enquanto alunos, sendo avaliados pedagogicamente, pelo conteúdo da informação e não pela forma como escrevem.

A intervenção num erro por má consciência fonológica é diferente da intervenção de um erro por má integração da regra gramatical. Quando uma criança escreve camisola com Z, camizola, não pode ser interpretado da mesma forma que outra que escreve casimola em vez de camisola. Há que saber interpretar o erro e a causa do mesmo.  Dada a relação íntima da consciência fonológica com a aquisição da linguagem escrita, a intervenção mostra-se ainda mais pertinente para o sucesso no percurso pedagógico. Devemos intervir ao nível da consciência fonológica, para ajudar a ultrapassar as alterações no período pré-escolar, para que se evitem ou minimizem todas as dificuldades na aprendizagem da linguagem escrita

O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, tratamento e estudo científico da comunicação humana e das perturbações com ela relacionadas, englobando todos os processos associados com a compreensão e produção da linguagem oral e escrita, como atras já referi. Desta forma, é com certeza um técnico fundamental neste processo, dado o seu domínio profundo do desenvolvimento da linguagem e perturbações associadas.

 

 

5 – No seu percurso profissional está em contacto, naturalmente, com muitas escolas, pais e professores. De que forma analisa aquilo que a escola tem feito ou poderia fazer mais nas áreas das perturbações da linguagem?

 

A minha atuação enquanto Terapeuta da fala é sobretudo com os professores dos agrupamentos do concelho de Cascais e Sintra, onde sinto que todo trabalho feito de sensibilização para estas perturbações tem tido um resultado muito positivo. É através de ações de formação, da discussão de casos e partilha de estratégias com a educação que conseguimos que no terreno estas crianças mostrem o seu valor pedagógico e não sejam penalizados pela forma como escrevem. Ser terapeuta da fala de uma criança disléxica, obriga, na minha opinião, uma articulação estreita com o/s Professor/es. Sinto que os professores estão, cada vez mais, sensibilizados para as dificuldades destas crianças e têm – se empenhado em fazer o perfil dos seus alunos com dislexia através da ficha do júri nacional de exame, o que identifica as dificuldades funcionais da criança e ajuda a conhece-los melhor.

 

É fundamental que o terapeuta da fala e o professor estejam de mãos dadas na abordagem a estas crianças.

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publicado às 17:51


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