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Quando eu for grande

por Maria Joana Almeida, em 18.06.21

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“O que queres ser quando fores grande?”.

 

No universo das frases/perguntas cliché esta será a que mais me incomoda particularmente.

Ainda hoje eu me questiono do que gostaria de ser quando for grande. E “grande” significava que tempo? Que quantidade?

 

As respostas, numa determinada idade, prendem-se também aos habituais lugares comuns. Os inquisidores, em jeito de memória muscular, esperam um “astronauta, arqueólogo, cientista, advogado” seguido imediatamente de um habitual: “Pois, ele tem jeito, ele até costuma fazer umas experiências em casa.” Na verdade todos fazemos..numa infância mais ou menos regular.

 

Mais incomodativo ainda é a assunção, quase como verdade absoluta, que aos 15, 16, 17 anos já se deve ter a certeza do que se quer ser ou fazer. Esta assunção ou expetativa poderia fazer sentido há alguns anos atrás. Nestas gerações dinâmicas e plurais definir um caminho certo é quase bizarro.

 

O sistema de ensino está planificado com expetativas em cada ano curricular. O que não deixa de ser necessário para existir uma espécie de norma, de caminho para facilitar expetativas, aferições. Mas não existe como único desenho possível, há flexibilidade para mais caminhos. E na liberdade dos estereótipos e preconceitos há avanços e recuos.

 

Há quem repita anos para mudar; há quem mude três vezes de curso; há quem não queira ir logo para a Universidade; há quem não queria ir para a Universidade. Todos estes caminhos são legítimos e todas estes avanços e recuos normas individuais.

 

Lembro-me de há uns anos atrás um pai de uma criança, que se encontrava no último ano do pré-escolar, não ver com bons olhos o adiamento de escolaridade proposto pela educadora por achar (verbalizando) que o seu filho iria “Chegar atrasado à Universidade” (sim, história real).

O sistema, por norma, exige escolhas demasiado cedo. Exige-o num tom de certeza e manifestando alguma culpabilização quando esse caminho “falha” esquecendo-se que nas falhas residem acasos e sucessos.

 

Há um legado difícil de contornar nos fracassos. Mudar de ano, voltar atrás num ano, mudar de curso, ainda tem o cunho do fracassado. As frases são pesadas e as reuniões com um semblante cerimonial.

O espaço ainda continua a ser marcado pelas notas e por aquilo que não é capaz de fazer em detrimento das competências pessoais e humanas. Estas são raramente enaltecidas e valorizadas. O valor quantitativo ainda é soberano e solitário. Há uma leveza urgente, necessária para assumir que há mais caminhos e que a não concretização de um, não poderá definir o futuro. Uma escolha não é uma sentença.

 

Continuará a haver pais que se amedrontem com os filhos poderem chegar atrasados à faculdade, outros que fiquem noites sem dormir porque o filho está no 9ºano e não sabe o que quer. Outros que procuram psicólogos porque o filho não quer ir para a Universidade.   Haverá de tudo, de tudo o que sejam expetativas defraudados, reflexos “fracassados” na gíria pessoal de cada família.

 

Não há verdades absolutas, mas há umas que se aproximam mais do que outras. Chegaremos atrasados e impreparados para aquilo que não nos faz felizes.

 

(Ilustração Mariana Rio)

http://www.marianario.com/

 

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publicado às 15:38

"Rankings" (8 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 24.05.21

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Hoje, nas notícias, alguém gritou pela manhã "a minha escola é melhor do que a tua". Hoje alguém quis, novamente, deixar plantada, consciente ou inconscientemente, a ideia de que a escola melhor é a escola de um único critério. O critério da seriação.
 
Hoje alguém gritou que a escola que se preocupa com o João porque a mãe sofre de violência doméstica e coloca as notas na caixa dos palavrões não é uma boa escola.
 
Hoje alguém gritou que a escola em que os professores protegem alunos de agressores e voltam a colocar as notas na caixa dos palavrões não serve.
 
Hoje, mais uma vez, deixou-se crescer a erva daninha que teima em enganar o que pode ser uma boa escola. Que teima em perceber que às vezes, tantas vezes, é preciso parar e tempo para curar e voltar a tirar as notas da caixa.
 
#martanunesilustra

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publicado às 22:05

Dia da mãe (há 3 dias)

por Maria Joana Almeida, em 06.05.21

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O meu pai (fiel e orgulhoso leitor dos meus textos) pediu-me para escrever no dia da mãe.
 
 
Comprei este livro numa livraria maravilhosa em Bruxelas quando estava grávida da Madalena e quando ainda tinha a minha primeira casa. Não era uma casa. Foi uma fortaleza. Em tudo.
 
Num dos dias da mãe, almoçamos no Avillez no Chiado. Provamos os seus croquetes e disseste, com uma certa evidência vaidosa no olhar: "os meus ainda são melhores". Sorrimos triunfantes. 
 
Jantamos num Goês e amaste. Estavas sempre pronta a experimentar tudo. A comida era, é, um universo de amor.
 
Não te poderei oferecer nenhum presente hoje. E este dia é particularmente filho da mãe porque não posso sentir-me em casa. É como se estivesse numa rua vazia, sem nada para me conter, sem um espaço para me sentar, sem um rosto para olhar. Sem o meu colo para me deitar.
 
Talvez, acredito que certamente, o maior presente que te poderei dar, aquele que me pode ajudar a manter a casa mais preenchida é o amor e a vontade perante a vida que sempre tiveste. A maneira como te deixavas arrebatar pela vista nas Azenhas do mar, no Douro, na Madeira. Como quase choraste no ballet contemporâneo a que te levei no Teatro Camões (queria ter-te contado como me senti na peça que fui ver há pouco tempo no Dona Maria). Como te emocionavas perante a beleza. Era absolutamente inspirador e reconfortante.
 
Já doente, disseste: "Dava-me algum jeito morrer agora, tenho mais que fazer!" 
Este amor à vida (que Camus tão bem escreveu). O sentido de humor perspicaz, às vezes cáustico, às vezes negro, mas sempre pronta para pôr a vida em sentido. Olha-la nos olhos, para a enfrentar. 
 
Tenho tudo isso mãe. É de ti.
 
E quando chega o final do dia, numa espécie de dever cumprido, sinto-me um pouco em casa. Oiço o "És tão bonita" e imagino o teu olhar a brilhar.
 
Este é o presente que te posso dar.

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publicado às 09:21

"Empatia" (6 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 18.04.21

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Não queria que o toque se transformasse propriamente em ouro. Mas há muitos nomes no ouro. A minha ideia de Midas transformaria a ignorância, a displicência, a justiça, os dogmas.
Na minha ideia de toque não transformaria todos os escuros que nos iluminam, mas iluminaria quem se encontrasse apenas no escuro. No lugar onde não há pitada de ouro, de empatia, e onde se vive na ideia de um soberanismo provinciano.
Na minha ideia de toque de Midas tirava finalmente a máscara e a venda. Iluminava a verdade.
 
 
Ilustração: #martanunesilustra

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publicado às 20:56

Raízes (5 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 14.04.21
 

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As minhas sustentam-se em corações. Corações que me bombeiam e me suportam. São casas, são nomes, são memórias, são danças e canções. Às vezes são maiores outras vezes mais pequenas. Dançam ao meu som. Ao som do que preciso. Estão lá. Não me deixam cair. Curam-me, recentram-me, desafiam-me. Cada raiz tem um nome. Um coração. Danço sempre na vida ao som de cada uma.
 
 
Ilustração de:

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publicado às 21:47

"Amor" (4 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 07.04.21
 

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Soubesse eu dizer alguma novidade sobre o amor. Aquele que vale a pena. O Nick Cave descreveu-o como gostaria em Carnage. Que desce as montanhas como um comboio na chuva. Veloz, fugaz, que trespassa o peito. Aquele que vale a pena não se rende, não obedece, não se curva, não cede. É feroz e implacável. O amor que vale a pena não se segura. Quando habita no nosso colo não estamos ali. Habitamos outro espaço.
 
 

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publicado às 17:29

"Saudade" (3 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 06.04.21
 

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Mandei vir a saudade.
 
Instalou-se sozinha, faz sala comigo. Não perguntou legitimidade ou permissão. Não obedece às minhas regras ou desejos. É plena de si.
 
Às vezes conversa. Às vezes chora e ri. Não sonha. Relembra.
 
Esta saudade instalou-se na minha sala, na minha parede.
 
 
 
(A ilustração maravilhosa é da martanunesilustração)

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publicado às 17:09

"Fila de espera" (2 da série ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 04.04.21
 

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Estamos sempre em fila de espera para alguma coisa, quase sempre sem saber que estamos. "Um dia eu apareço" vi escrito numa parede perto do liceu há 20 anos. Nessa fila de espera apareceram muitas coisas, trabalhos, amores, filhas, dor (uma dor muito grande). Senti-me dentro de corações e fui (a) oficina(s) de corações.

A nossa vez aguarda-nos, não nos deixa esquecer. A senha para viver foi tirada quando nascemos e aguarda os nossos passos. Mas como diz um amigo meu "Mesmo quando chove para mim é sempre Primavera", seguimos de senha em senha desejando sempre o amor. No fundo é o que sempre esperamos. A nossa vez.

 
(ilustração #martanunesilustra)

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publicado às 17:30

"Até já" (1 da série ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 04.03.21

 

Marta nunes ilustra 1.jpg

 

1 da série ilustra

 

Costumamos dizer um "até já" à morte. Um "até já" que se situa no espetro da evidência, da nossa senha de espera. Usamo-lo simultaneamente com medo e coragem. É projetado como certeza que queremos longínqua.
No jogo de xadrez que é a nossa vida tentamos adiar o "até já". Há peças que saltam e recuam, mas nós os peões seguimos em frente. Às vezes conseguimos o cheque-mate e o "até já" adia-se, outras vezes ficamos encurralados e a vida nem sempre é misericordiosa. Quem fica procura sempre aquele ponto no céu. O nosso peão amado que a vida não poupou, o "até já" que no jogo não se adiou.


Ilustração #martanunesilustra

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publicado às 11:58

Que não se repudie por completo o online.

por Maria Joana Almeida, em 01.03.21

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“Nas escolas ainda continuamos a pedir aos alunos para deixar o século XXI à porta” disse João Couvaneiro, o nomeado português para o “Nobel da Educação” (Global Teacher Prize) em 2017, relativamente à utilização de tecnologias. Em 2020, ironicamente, um vírus não inviabilizou computadores, mas transpôs portas inviabilizando relações humanas.

 

Desde março de 2020 que a expressão online invadiu as casas e as escolas como uma espécie de tábua de salvação. Neste novo paradigma existem vários lados da barricada: Os optimistas que encaram esta fase como uma necessidade ao mesmo tempo que refletem sobre as suas potencialidades; Os pessimistas que encontram apenas lados absolutamente negativos. Há espetros de cinzento que se encontram no espaço da razoabilidade e será sempre sobre estes cinzentos que fará sentido refletir.

 

“Nada substitui o presencial” é uma frase que se tornou num absoluto lugar comum. Esta premissa é, naturalmente, um facto. É também um facto que o presencial adotado desde maio de 2020 é um lugar muito distante do desejado. Não há espaço para toques nem reconhecer expressões faciais. É um presencial enviesado.

 

Neste confinamento parte II partimos com algumas vantagens. Já o vivemos, já identificamos os problemas, já nos preparámos. E há surpresas muito interessantes. Houve tempos de adaptações e este ensino à distância, atual, teve tempo de aprender com os erros do primeiro.

 

No universo da educação há alíneas de decretos que promovem a diversificação de instrumentos quer como medidas universais quer como medidas seletivas. São essenciais na categoria da diferenciação pedagógica. Mas por defeito de reflexão ou por memória muscular tendemos a reproduzir um modus operandi repetitivo e protocolar. O ensino à distância obrigou-nos a sermos esta alínea do decreto e a torná-la universal, todos os dias.

É estranho afirma-lo, e estranho escreve-lo, mas há efetivamente alunos que têm beneficiando com o ensino online. Conhecemos todos os constrangimentos desta metodologia. Conhecemos a desigualdade desta medida. Sim. São factos. Mas será, também, importante refletir sobre o que de interessante e benéfico tem trazido. Houve hiperatividades e dislexias que “desapareceram”. O défice de atenção baixou os níveis de dispersão e de repente usámos diversificação de instrumentos como se todo o ensino dependesse disso (tantas vezes depende). Tornou-se a norma. E quando se tornou a norma, alguns milagres têm, efetivamente, acontecido.

 

A falta de autonomia dos alunos é um dos aspetos mais mencionados ao longo de todos os ciclos de ensino e, mais flagrantemente, no ensino secundário. Nas avaliações descritivas realizadas é, provavelmente, a palavra mais vezes mencionada como um aspeto negativo e que dificulta tudo o resto. Poderíamos teorizar sobre de onde vem, ou onde começou esta falha, esta necessidade. “Os pais protegem e dão pouca autonomia”; “Os professores dizem exatamente o que é para fazer sem espaço para criar”; “Os professores seguram os alunos com notas para não ficarem retidos”; “A palavra inclusão, com objetivos nobres na sua essência, é demasiada vez deturpada como lógica de levar meninos ao colo”. São estas as hipóteses, ou todas as hipóteses juntas ou nenhuma delas. Cada um terá a sua crença.

 

Pensar a educação num modelo misto (presencial e online) como forma de cruzar e fortalecer competências, principalmente a autonomia, tornou-se, neste momento, absolutamente imperativo.

As plataformas digitais saíram dos armários da escola, das utopias de alguns pensadores, dos papéis e protocolos bafientos. Pensar num modelo presencial direto e um modelo online indireto poderia aproximar mais do que afastar. Poderia responder mais às necessidades individuais e menos a estatísticas e percentagens. No entanto a conta teria de ser bem certa. Para que todos os ingredientes resultassem, em nenhum momento, quase como um nível, um se deveria sobrepor ao outro nas intencionalidades.

 

O mundo é, neste momento (arrisco o sempre) um tabuleiro de xadrez. As jogadas são feitas consoante os números. É um jogo longo, com adiamentos, raramente com empates, onde se tenta encurralar o vírus que é rei. Após o cheque mate, o jogo deverá ser analisado, estudado. Deitar fora os erros depois de os compreender e resgatar as jogadas certeiras para que as portas não se voltem a fechar.

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publicado às 16:06


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