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Uma lufada de normalidade

por Maria Joana Almeida, em 29.03.20

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Ontem tive de pegar no carro. Senti-me, por momentos, Joana outra vez. Rádio sintonizada na SBSR, aquele som que me acompanha nas viagens para o trabalho diárias. Senti laivos de liberdade. Só tinha de ir até à Alameda, mas senti como se tivesse feito uma viagem para outro país. Tive um acesso de normalidade que me preencheu o resto do dia. Entre o medo e otimismo, prefiro, seguramente, o segundo.

 

A normalidade é, por estes dias, escassa. É feita, em momentos fugazes ou em alternativas que foram recriadas e inventadas para este momento. E se há competência que nos carateriza enquanto povo, é esta imediata capacidade de recriação quase instantânea e de rápido equilíbrio interno.

 

Por agora, nesta quarentena ou isolamento profilático, muitos trabalhos puderam ficar em teletrabalho, as compras ficam online, há festivais dentro de casa porque a time out é agora time in.

Neste processo atípico, as aulas também continuam. Professores e alunos, através de ferramentas, inúmeras vezes realçadas como indispensáveis numa escola que se quer do Sec XXI, mantêm o seu trabalho. As vozes dissonantes e mais inflamáveis fizeram-se rapidamente ouvir. Entre críticas às plataformas utilizadas como sendo pouco práticas a Encarregados de Educação que se queixam de não conseguir acompanhar todas as tarefas exigidas em casa.

E aqui, mesmo no centro do tsunami, há questões que serão sempre mais imunes a vírus. Apontar as nossas ansiedades e frustrações a uma entidade ou a outro elemento.

 

Manter uma rotina escolar, ou qualquer outra rotina, dentro do possível, é poder atribuir alguma normalidade aos nossos dias. É manter alguma sanidade mental, essencialmente se percebermos exactamente isto. É uma questão, acima de tudo, de sair do medo e manter-me à tona. Não acredito, que no meio deste processo se queira, ou se possa exigir mais.

Atiramos pedras mentais e verbais a professores, hoje dizemos, por passarmos 24 horas com os nossos filhos em casa, o quão importantes são. Criticamos médicos e enfermeiros mas batemos palmas há uns dias atrás à janela. Reinventamo-nos segundo os tempos.

 

Não é o tempo de atirar pedras, não é o tempo de exigir mais dos professores, ou exigir mais dos pais, exigir mais do vizinho, exigir mais do governo ou até mesmo de nós. Somos nada perante uma força invisível. E a única força motriz no meio do nada são as nossas relações, aquelas que constroem. 

 

Quando isto acabar é olhar para trás e manter a fotografia mental para encarar o futuro. Até lá resta-nos estes laivos de normalidade que são os nossos ventiladores sem número contado. Resta-nos partilhar os nossos silêncios naquela Praça de São Pedro com Francisco.

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publicado às 18:14

Nunca o mundo precisou tanto de uma Aldeia

por Maria Joana Almeida, em 16.03.20

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A frase: “É preciso uma aldeia para criar uma criança.” foi perdendo força e sentido pelas mudanças, inevitáveis, ao longo dos anos. As aldeias são agora cidades que têm outros ritmos e prioridades impostas que dificultam um sentido de comunidade que permita um maior olhar e cuidar do próximo.

 

A atualidade reveste-se de um panorama muito desolador. Imagino que a primeira curiosidade (legítima) quando acordamos de manhã é saber o número de infetados com Covid 19, em Portugal e no Mundo. Não é uma curiosidade mórbida, apenas um ato que nos permite algum controlo, com um pé dentro e outro fora da realidade, fora deste isolamento profilático ou quarentena.

 

O que era tão distante tornou-se numa realidade ao lado de casa. Aquilo que poderia parecer, à partida, ficar confinado a um espaço, galopou fronteiras, invisivelmente, deixando um rasto de caos pessoal, social e económico.

Neste momento de total reorganização de mentalidades há quem não ceda ao pânico, ao medo, mas também quem não ceda ao bom senso. A verdade é que não conhecemos isto. Não reconhecemos este espaço em que vivemos, uma espécie de ensaio sobre a cegueira, aqui, à porta de nossa casa. No entanto, no meio de tantos erros que podemos apontar aos dirigentes governamentais, o momento é absolutamente apartidário, e é também um momento de construção, mais do que crítica gratuita, um momento de humanidade, de comunidade e introspeção que nos passa habitualmente ao lado, a reboque do passo apressado diário. E é quando tudo pára que deve ser só isto que resta.

 

É por isso que para cada pessoa que leva amplamente mais do que a sua despensa pode armazenar, que existem 10 que levam as compras essenciais e em conta aos seus vizinhos que se encontram limitados e nos grupos de risco. Por cada pessoa que vai a um bar no Cais do Sodré, existem 10 que utilizam os seus alojamentos locais para que profissionais de saúde possam fazer o seu corajoso trabalho (não há melhores palmas do que estas). Por cada pessoa que assobia para o lado existem 10 médicos de outras áreas que se disponibilizam, aos seus amigos e conhecidos, publicamente para tirarem dúvidas de modo a não entupir a linha saúde 24 e por cada pessoa que critica cegamente todas as medidas tomadas publicamente existem inúmeras que reinventam ideias, iniciativas num total processo de construção para melhor lidarmos com este isolamento. E por cada notícia falsa, existem cadeias criadas para repor a verdade.

 

Não temos por hábito falhar nestes desafios da reinvenção e adaptação. É algo que também nos carateriza. É também tempo de pegar na frase: “É o país que temos” e resgata-la para este momento dando-lhe a volta ao sentido a que habitualmente é apregoada. Portugal não é perfeito, mas tenho a certeza que sabe ser a aldeia comunitária sempre que necessita.

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publicado às 22:18

Nem só de Parasitas se fazem os Óscares.

por Maria Joana Almeida, em 14.02.20

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Tinha quinze anos quando vi “A vida é bela”. Ainda me lembro da resistência que tive em aceder ir ver o filme: “Um filme italiano?? Porquê?” Não me interessavam, nesta altura, minimamente, filmes onde não se falasse inglês.

 

Quando o filme acabou, sem qualquer exagero de drama, fiquei retida na cadeira em silêncio, com um sentimento de preenchimento que ainda não havia sentido com outros filmes. Lembro-me de pensar e dizer “Dêem o Óscar a este homem. Quem é este homem?” Até então estava longe de saber o que era o neorrealismo italiano, que linguagem era aquela tão real, emotiva, crua, pulsante. Foi o ponto de viragem do que entedia ser o cinema.

 

Vibro muito com os Óscares. Como diz uma amiga minha entre o sério e o jocoso “Eu levo os Óscares muito a sério”. Não pretendo perder tempo a pensar que tudo já está pré-adjudicado e os podres da Indústria. Todos os setores o terão. Interessa-me os substitutos de vida que podem ser os filmes, a arte de fazer refletir e de nos atirarem para o colo ideias e imagens que nos obrigam a lidar com os nossos conceitos de vida. As histórias que nos fazem eco. Adoraria ser uma espécie de Mário Augusto ou mesmo de ganhar a vida a ver filmes e escrever sobre eles. Aliás, se eu tivesse uma bucket list a primeira linha seria “Ir assistir a uma gala dos Óscares e à festa de bastidores.” Duas margaritas e estou num filme de Almodôvar.

 

Um dia fui a um workshop intitulado “A história do cinema em 7 realizadores”. O formador contou o episódio da primeira projeção feita pelos irmãos Lumière a 28 de Dezembro de 1895 na primeira sala de cinema, o Eden, em Paris e do impacto que tiveram as primeiras imagens em movimento. Lembro-me de me ter comovido ao imaginar o entusiasmo deste princípio, deste nascimento. Lembro-me também de me sentir tão pequenina por desconhecer, até aquela data, inúmeros factos históricos cinematográficos. Eu, que me achava uma enorme conhecedora desta arte, fiquei estupefacta com o quão pouco sabia. Cheguei a casa como uma criança a atropelar-me para contar tudo o que tinha aprendido. Desde o neorrealismo italiano, passando pelo expressionismo alemão, a nouvelle vague, tudo conceitos que conhecia de nome mas não sabia extamente o que era nem o seu enquadramento cronológico e eco histórico.

 

Todo este enquadramento serve para chegar ao discurso do Joaquin Phoenix nesta última gala dos Óscares.

Já pouco me surpreendem discursos politizados por parecerem, categoricamente, enviesados por modas pontuais o que os tornam incrivelmente bacocos e até ultrajantes. Ricky Gervais foi o único a surpreender-me nos últimos tempos porque soube desconstruir, de uma forma hardcore, sim, todos os pontos dos discursos sensaborões habituais. Joaquin Phoenix foi outra surpresa. Houve, no seu discurso, honestidade, o nú e o cru. Existiram as habituais críticas políticas e alusões aos temas (demasiado importantes para serem toldados por sensos comuns) que vendem sempre: racismo, homofobia, direitos dos animais, mas houve algo especial, um mea culpa essencial. Um momento de reflexão pessoal que foi disruptivo com as lengalengas comuns em que a culpa reside sempre nos outros e nunca em nós próprios.

 

Os bodes expiatórios são sempre os outros e nunca nós. Como se em todos os milímetros das nossas vidas fosse possível agir puramente e imaculadamente sem nos boicotarmos por um segundo. Em todos residem telhados de vidro que ou são perpetuados por discursos que afastam essas sombras como purgas, ou por uma assunção de mea culpa e honestisdade de saber que se erra, que se faz parte, ainda que durante pouco tempo, de um mesmo grupo que se critica de longe.

 

Este é o único tipo de discurso evangelizador em que acredito, aquele onde reside o erro mas que se apoia nele para se reestruturar, porque é humano.

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publicado às 20:29

A minha cultura não é melhor nem pior que a tua.

por Maria Joana Almeida, em 30.01.20

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Nasci numa pequena casa no Lumiar. No nosso andar, onde vivia com os meus pais, viviam mais duas famílias. De um lado a Cristina e do outro a Tila. A Tila assinava como “Tilinha” os quadros que pintava, com cenários bucólicos através de técnicas que consigo hoje identificar como impressionistas. Um nome que coincidia com a sua personalidade generosa.

Era hábito, à noite, depois do jantar, a minha mãe juntar-se a elas à porta para um momento de conversa. E eu, ora ia para casa de uma ou para casa de outra. Gostava da casa da Tila porque tinha um cheiro muito caraterístico. O Sr. Virgílio, o seu marido fumava cachimbo e toda a casa tinha este cheiro semi doce e a tintas. Ele encontrava-se sempre na mesma poltrona da sala a fumar cachimbo, e eu sentava-me, com respeito e admiração numa outra poltrona. Enquanto apreciava os quadros ia ouvindo o que tinha para me dizer. Há uma frase que ainda hoje retenho e que os meus 7 ou 8 anos não me deixavam compreender. “Joana, há uma coisa muito importante que tens de aprender. Podem tirar-nos tudo mas nunca nos podem tirar a nossa cultura”. Ouvia com toda a solenidade que a minha tenra idade me permitia, acenando como se compreendesse o seu conteúdo e retendo esta informação como se um dia sentisse que faria sentido. Era bom homem e muito inteligente.


Com a maturidade claro que fez sentido.


Mais tarde, já com 18 anos, a morar agora em Odivelas e perdendo o contacto com estas famílias, fui tirar a carta de condução. O meu instrutor encaixava-se na designação, tradicional do “retornado”. Homem rezingão, de rosto rude e demasiado assertivo. Tinha um medo terrível de errar quando conduzia o que me levava, naturalmente, a cometer algumas asneiras. Todo o tempo da aula só se ouvia a Rádio África enquanto proferia opiniões negativas sobre a cultura africana ou sobre o seu entendimento toldado por uma guerra que não pediu para estar. Aquilo irritava-me. Uma vez, por ter gritado comigo, saí do carro e bati com a porta com toda a força que consegui, só para não lhe gritar de volta como me apetecia e entrei na escola de rompante a queixar-me. Perguntaram-me se queria mudar de instrutor. Eu disse que não. Que trataria eu do assunto Nunca gostei de dar parte fraca. Melhorou bastante porque me tornei mais assertiva. No final passei e dei-lhe um abraço e, por momentos, simpatizei com ele.


Estas duas histórias não estão sequer alinhadas e são pontas soltas na minha linha cronológica mas existe uma ligação interessante com a atualidade.


A nossa cultura não é de mais ninguém, não obedece a mais nenhuma regra que não a nossa. Partimos dela e a ela vamos parar quando tecemos opiniões, quando agimos. Moldou-se e molda-se desde o primeiro dia em que nascemos, num contexto onde nascemos, com quem convivemos e como crescemos. É por vezes escondida em determinados contextos e noutros expandida, mas é aquilo que garante a nossa genuinidade.


Pode ser também alterada com jogos de cintura sociais para nos posicionarmos, para nos defendermos, ou para atacarmos. As máscaras que muitas vezes necessitamos de usar assim nos obrigam.
São as diferentes culturas, a forma como crescemos, que ditam a nossa verdade, isentas de culpa ou de certo e errado e que estão acima de constituições, instituições, são livres, mesmo quando há consequências.


Um bom exemplo é o 25 de Abril de 1974. Há vários lados da barricada. Os de cá, os de lá, os de dentro, os de fora. Este dia é entendido consoante a história pessoal de cada um, ou do que lhes fizeram crer. Conheço quem defenda os dois lados da barricada com argumentos sólidos, com as suas verdades inquestionáveis. O documentário Torre Bela é um óptimo exemplo disto. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinha de ter, de repente um pensamento avant-garde. Quem tem razão? Qual a verdade pessoal que é mentira?


Cheguemos à atualidade, aos meus 37 anos, onde cada verdade pessoal é agora mais facilmente visível e escrutinada, onde a incapacidade de nos colocarmos em várias peles toldam o pensamento e contaminam o nosso o filtro crítico. Onde verdades tão complexas são diminuídas em argumentos tão poucochinhos e equipáveis a um tempo inquisitório que nos levam para a deliciosa sátira dos Monty Python “You are a witch” sem os contornos ou as culturas pessoais. Racismo, xenofobia, misoginia, fascismo, são guarda-chuvas por vezes demasiado fáceis, utilizados em tantos momentos como uma cultura de vitimização que pretendem por vezes apenas esconder situações de incompetência, amadorismo. Cito Irene Pimental, que no meio destes tempos controversos escreveu, o que para mim ,é o texto mais iluminado e refrescante: "Não tenho dúvidas de que há racismo em Portugal e que é necessária e vital mesmo a luta anti-racista, como em qualquer parte do mundo onde ele existe. Penso que é bom haver na Assembleia da República deputados portugueses de todas as etnias, da mesma forma que elas existem em Portugal. Há, porém, uma deriva (minoritária aqui, ao contrário da que existe por exemplo nos EUA ou no Brasil) racialista e identitária que tem feito muito mal na nossa sociedade, à luta anti-racista necessária e ao combate contra a extrema-direita. É uma deriva divisionista (…) que não tem conta as classes, nem os géneros e que explica tudo com o racismo/antiracismo, generalizando e falseando o que se passa. É uma deriva que insulta todos os que não pensam como eles e não vivam como eles em bolhas, através das quais vêem a realidade desfocada, de «racistas». É o pior que poderia ter acontecido ao combate anti-racista e por isso deve ser denunciado, pois está a causar estragos."


A nossa cultura é aquilo que ninguém nos pode tirar, mas o assumirmos a complexidade de ambos os lados e possuirmos honestidade intelectual torna-nos mais verdadeiros e completos. Às vezes abraçar menos causas, que não são mais que refúgios morais ditados por contextos, modas, deveríamos abraçar mais pessoas e assim ter mais mundo do que o quintal a que estamos habituados.

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publicado às 22:14

É necessário um Polígrafo em cada esquina no que toca à Educação

por Maria Joana Almeida, em 30.01.20

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Opinião Público 20-01-2020

 

"Após a apoteose de textos corridos e comentários sobre os “não chumbos” no ensino básico, eis que surge um novo “cai o Carmo e a Trindade” no seio dos fóruns educacionais livres de filtros mas repletos, como habitualmente, de caixinhas mentais que operam no senso comum, numa raiva contida, numa cor partidária, ou num arrasto de jogos constantes do telefone estragado que vão contaminado até as mentes supostamente mais esclarecidas. O ruído de tom feroz consegue ser, por vezes, bastante persuasivo.

 

Recordo-me de uma amiga que verbalizava, há pouco tempo, que a sua filha de um ano teria agora de começar a ficar na escola das 9h às 19h e, perante o olhar horrorizado de quem ouvia, disse: Que posso fazer? Não tenho ajudas, peço o desemprego? Um ano…

 

Idealmente deveria ser este o ponto de partida. Longe estamos dos tempos em que a aldeia educava a criança. Alguém estaria com ela ou a iria buscar. A atualidade é bem diferente. Há avós que não conseguem estar disponíveis, não há avós, não há dinheiro para empregadas e não há dinheiro para pagar rendas e empréstimos se não trabalharmos.

 

Sempre fui apologista de que a escola não poderia ser um contentor de armazenar crianças e que o seu papel deveria (deve) ser bem definido. Continuo exatamente na mesma linha de pensamento, mas com uma condicionante, a escola é produtora de sociedade e um espaço de excelência que sim, também educa. Criar diferentes espaços e horários na escola com papéis bem definidos pode ajudar no processo de desenvolvimento dos alunos. Lembremo-nos do que trouxe o Desporto Escolar à escola, a capacidade de, independentemente do sítio ou dos meios com que a criança nasceu, ter a oportunidade de realizar várias experiências que em casa dificilmente poderia realizar. Aliás, é este o propósito da instituição Escola. Quando há rigor e organização, a escola é o sítio privilegiado para a conquista de inúmeras competências tendo a família como aliada. E este rigor e organização implica, também, definir bem os limites da escola na intervenção.

 

Analisemos o seguinte cenário: crianças que chegam a casa às 19h, que vão ainda fazer os trabalhos de casa, projetos, onde os pais exaustos do trabalho não são inundados de uma leveza saudável para a realização sã destas atividades (trabalhos de casa não têm de implicar apenas fichas de trabalho, mas coisas simples como a leitura de uma notícia, livro, debate com os pais). Rapidamente ambos são contaminados pelo cansaço, pelas palavras e atitudes pouco pensadas criando um pequeno caos que a hora de dormir não permite recuperar ou “fechar o círculo” para que o fim do dia seja saudável.

 

É verdade que a escola se tem tornado um bode expiatório cada vez mais frequente e cada vez mais fácil de atacar (a todos os níveis). Nada ajuda. Descredibilização do ensino, dos professores, muitos autodidactas de internet, de modelos, de crenças, de definições (de sofá) que se tornaram a nova bíblia. Todos, de repente, sabem falar de educação e das suas especificidades.

 

Por isso, calma, pessoas. É um projeto-piloto. É um projeto com fundamentação, com objetivos, com uma forma de operacionalização, com avaliação de impacto e com conclusões. Não é um texto do Wikipedia ou um site desconfiável.

 

Avaliemos primeiro. Critiquemos depois, com fundamento, de preferência."

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publicado às 02:13

A retenção escolar e o telefone estragado.

por Maria Joana Almeida, em 05.12.19

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"As palavras chumbo e retenção entraram na esfera léxica da imprensa portuguesa e têm-se equiparado ao jogo do telefone estragado, um famoso jogo que guardo da minha infância. Desenrola-se da seguinte forma: uma palavra ou expressão é dita ao ouvido por alguém, a fonte, e é passada rapidamente ao ouvido dos seguintes elementos do jogo. O último elemento do jogo terá de proferir exatamente o que ouviu. O resultado final costuma ser hilariante pois nunca corresponde à verdade da origem tendo sido a mensagem completamente deturpada e alterada no final. Este jogo divertido continua a ser usado como uma metáfora certeira para várias situações diárias de forma pueril.

Assim estamos nós.

 

À boa maneira portuguesa, perdão, global, espalhou-se como um vírus nas “redes” a notícia de que não havia chumbos até ao 9ºano evocando as mais inúmeras notícias e piadas.

 

Como muito cética que sou a todas as notícias imediatas, abstive-me de qualquer consideração ou comentário (embora existissem piadas francamente boas) sem antes perceber o quão “estragado” estava este “telefone”. Tentei ir à mensagem inicial.

 

Após algumas leituras atentas não consegui perceber a indignação por dois motivos essenciais: A medida excecional do chumbo já existe desde a década de 90 e a sua evolução tem seguido um “modus operandi” europeu que se tem debruçado sobre o trabalho a desenvolver para evitar a retenção ao invés de usar este mecanismo como única medida educativa perante o fracasso. E pelo que pude apurar, num esclarecimento do Secretário de Estado da Educação João Costa: “Muito se tem falado sobre a proposta de elaboração de um plano de não retenção para o Ensino Básico. Alguns tentam reduzir esta intenção a um nível de conversa de café, dizendo que agora se quer que todos os alunos passem de ano, independentemente do que sabem. Ora, nem isto está no Programa do Governo, nem seria séria uma proposta desta natureza. O que se pretende, conforme explicitado, é desenvolver um conjunto de ações que contribuam para melhorar as aprendizagens dos alunos, de forma a que a retenção não seja necessária, uma vez que todos aprenderam.” O que de alguma forma me reconfortou pois temi, por aquilo que li, que existiria uma espécie de lei a proibir expressamente as retenções até ao 9ºano.

 

Entrando agora um pouco nos clichés habituais associados a esta área, mas que, vamos assumir, fazem parte da vida (são eles também do senso comum). O chumbo por si só não é, nem nunca poderá ser uma opção (esta será a parte onde entram os recursos mencionados no comunicado do Secretário de Estado). A falácia dos recursos não tem a ver com o facto de não serem necessários, são, mas porque é utópico e ingénuo assumir que vai chegar o dia em que os recursos serão suficientes (qual D. Sebastião num dia de nevoeiro). Isto é um facto, por vários motivos: A falta de recursos continua a estar maioritariamente ligada mais às nossas conceções do que propriamente aos aspetos humanos ou materiais. Reitero aqui: de nada adianta existirem mais 10 ou 20 funcionários e salas cheias de equipamentos se continuarmos a trabalhar e pensar dentro de um quadrado interpretativo da escola parado no tempo. Segundo facto: Há muito casos onde, por muitos recursos que existam, há situações que são efetivamente excecionais, o que não quer dizer que se desista ou simplesmente se retenha um aluno, mas porque, em muitos casos aquele ainda não é o momento certo para as mudanças exigidas. Por fim há também questões de memória muscular que boicotam permanentemente todo o processo.

 

Há pouco tempo numa reunião, alguns professores queixavam-se da impossibilidade de um aluno com dislexia severa conseguir corresponder ao currículo. Uma vez que não conseguia ler ou escrever de forma adequada para um 10ºano como conseguiriam avaliar? (Às vezes o século XXI fica à porta de muitas salas de aula.) Relembrei que há muitos alunos disléxicos na Universidade cuja única adaptação que tiveram de fazer foi a adoção de um computador em substituição do papel e caneta. Falei também da importância do aluno sentir pequenos sucessos para possibilitar uma base mais estável emocionalmente que lhe permitisse, e que permitisse a todos os envolvidos, baixar os níveis de ansiedade. A utilização de um computador nas salas de aula e de instrumentos de apoio (os possíveis tendo em conta a disciplina) são opções absolutamente válidas e enquadradas na lei, mas a nossa memória muscular obriga a um entendimento e uma expressão dentro do nosso quadrado mental confortável. Muitas vezes, diversas vezes, sob a capa da exigência, está um facilitismo conservador.

 

Pegando neste exemplo, a mudança do papel e caneta como forma quase exclusiva e aprendizagem para o computador ainda exige alguns recursos mentais pouco instituídos. Ninguém pede uma substituição absoluta, mas uma ferramenta de apoio óbvia. Esta é a mesma exigência que se pede a um aluno com dislexia severa que escreva e leia com uma velocidade igual à de outro aluno.

 

Ao longo do meu percurso nas escolas deparei-me com poucas retenções que acabaram por se revelar a melhor medida para o aluno. Sim existem, são as retenções excecionais. Foram boas decisões porque existiu uma articulação fundamental com a escola e pais e um plano delineado ao pormenor que conseguiu motivar o aluno e todos os envolvidos.

 

 Os pais são uma outra variável que tem de ser tida em conta neste processo de retenção/não retenção. Há pais que não podem pagar explicações ou sequer ajudar nos trabalhos de casa e onde estes trabalhos se podem transformar numa autêntica fonte de ansiedade para todos. Vale a pena? Em muitos casos não enviar trabalhos para casa e dar a volta à situação na escola é uma medida exigente e não facilitista.

 

Abordemos rapidamente outras variáveis do outro lado da barricada. E quem não quer ser ajudado, apesar de todos os recursos conceptuais, humanos ou materiais? E os pais que interpretam uma lei considerando que mesmo quem não trabalha e se agarra somente a um diagnóstico tem de ter 3 ou 10? Não há retenção ou não retenção que possa salvar barreiras interpretativas que não se colocam em causa. Há que cair para depois lamber as feridas.

 

A escola é um espaço de desafios complexos e tem naturalmente limites. E claro que estes têm também de ser tidos em consideração."

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publicado às 14:57

Há mundos de m…..

por Maria Joana Almeida, em 11.11.19

 

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Recordo-me dos testes psicotécnicos que fiz no 9ºano e recordo-me, mais claramente, do comentário da psicóloga no final, que entre a ironia e a seriedade disse: “A Joana quer ser a defensora dos pobres e oprimidos”. Sorri. Sabia que era qualquer coisa assim, talvez não exatamente.

 

Os caminhos que inicialmente quiseram seguir enfermagem, redefiniram-se para a área da educação, mais propriamente da educação especial. Quase não passei pela casa partida e o meu trabalho, foi desde o início, com crianças e jovens mais desafiantes.

 

Cresci à imagem do meu caminho e com quem me cruzei, que me definiu e continua a definir. Cada um tem o seu, e as críticas que rapidamemte lançamos às Joacines e Bourbons desta vida, têm em consideração sempre um percurso muito individual negando e “intolerando” gaiolas e redomas diferentes. O 25 de Abril também tem várias perspetivas dependendo de quem e como o viveu, e de quem o ouviu.

 

Há muitos mundos. Há mundos que estão do outro lado da barricada que, independentemente da nossa posição, situam-se numa espécie de mundo paralelo. Mas bem reais.

 

Ao longo do meu percurso o meu quadrado mental, assente em princípios sociais e legais, foi sofrendo alterações. Aquele mundo que no início ainda se situava única e exclusivamente numa espécie de gaiola dourada com níveis de conforto, amor e morais inquestionáveis foi ampliado. Vieram as histórias, as vividas e partilhadas, e o confronto com as morais confortáveis.

 

- O rapaz de 11 anos que conheci que tinha ficado abandonado em casa aos 4 anos à sua sorte. Aquilo a quem Nuno Lobo Antunes apelidou, no seu relatório, um rapaz com uma “hiperatividade extraordinária”. Não cedia a nada. Só ultra medicado.

- As casas que visitei que jurei a pés juntos não querer voltar.

- As visitas a que assisti de um pai que havia abusado sexualmente de um filho.

- O rapaz que foi para a escola depois do seu pai atacar a mãe com ácido e que nesse dia espancou um colega seu.

- Os bebés e crianças que foram batidos e espancados e que, mais tarde, enquanto jovens, a sociedade não sabia o que fazer com eles.

- O pequeno jovem que era maltratado e vivia em condições miseráveis, mas ainda assim queria ir para casa da sua mãe.

- As mães e os pais que sofreram de violência doméstica.

- O adulto que está a agora a aprender a ler e a escrever mas que, em criança foi obrigado a mendigar e a ficar fora de casa se não levasse dinheiro suficiente.

- A adulta que a meio da aula pára para chorar desalmadamente porque ontem esteve a arrumar as roupas da filha que morreu.

- O pai e filha que morrem abraçados quando ambos deviam estar a sorrir e a brincar.

 

Continuo?

 

Que códigos morais existem nestas vidas? Que humanidade conhecem ou sentiram?

Como podemos exigir uma estrutura psíquica de aço a alguém que, em última instância, pode não ter nada a perder?

 

São morais apenas assentes em códigos de sobrevivência primitivos. Muito longe, e ainda bem, dos nossos mundos. Aquele mundo em que às vezes, a nossa maior preocupação é saber que série ver na netflix à noite.

 

Reflitam.

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publicado às 15:55

As enxadas da Educação.

por Maria Joana Almeida, em 04.11.19

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Transcrevo o meu último artigo no Público.

https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083

 

"(A propósito do recente documentário exibido na RTP 2, “Outra Escola”)

O documentário Torre Bela, realizado em 1977 pelo alemão Thomas Harlan, que retrata a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril, tem uma cena deliciosa. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinham de ter, de repente um pensamento avant-garde.

Numa analogia que reconheço não ser demasiada ou imediatamente óbvia faz-me lembrar os professores do secundário. Durante anos os ditos meninos “da” educação especial não chegavam ao secundário. Com a escolaridade obrigatória até ao 12ºano, a realidade é atualmente bem diferente. De repente, alguém lhes quer fazer ver (normalmente os professores de educação especial) que aqueles meninos têm todo o direito de ali estar. Que há uma espécie de cooperativa onde estes alunos deixaram de ser da educação especial e passaram a ser de todos. E aquela enxada, a enxada dos conteúdos e objetivo final de fazer um aluno brilhar num exame final deixou de ser o objetivo único. Têm agora de fazer adaptações, preencher mais papel e lidar com alunos que “não sabem estar no secundário”.

Mas será este o desígnio de ser professor? Preparar apenas para avaliações finais?

“Obrigar” (este obrigar leia-se, (re)sensibilizar) professores a serem professores não é, atualmente, um contrassenso. É uma necessidade. Há muito que nas escolas o ato de ser professor tem sido relegado para outra dimensão. Não é mito, é realidade. A perda de auxiliares de educação e de pessoal administrativo aumentou as responsabilidades dentro das escolas, colocando as competências dos professores espartilhadas em inúmeras atividades que extravasam claramente as suas funções.

Esta repartição de funções veio colocar como ponto fulcral e quase único no trabalho de aula do professor, o cumprimento de um currículo como fim de percurso anual e objetivo máximo. Este caminho é inúmeras vezes contaminado por alunos que dificultam este processo e que ajudam a criar guetos mentais. Alunos de primeira e alunos de segunda. Estes alunos de segunda recebem um guarda-chuva marcado com um rótulo que lhes sirva e são encaminhados para qualquer apoio “porque deixa de ser problema meu” afinal se não responde ao currículo, (o objetivo máximo) não serve para o meu propósito de professor. Não quero ser mal interpretada. Não falo em passagens administrativas, facilitismo ou insistir em ajudar quem não quer ser ajudado (às vezes a maior aprendizagem é cair para se reerguer de novo). Falo em encarar todos os alunos como “todos os meus alunos” com areias na engrenagem ou não. Com o objetivo máximo de levar ao bom porto de cada um. Não é um percurso solitário, não o deve ser, repercutir uma sociedade assim não faz sentido.

Quando ouvimos numa reunião “Mas o que eu quero saber é se ele faz exame a nível de escola ou exame a nível nacional para saber como trabalhar com ele” ou “Mas este menino então é para fazer avaliação adaptada, é isso?” percebemos duas coisas: A nova função do professor, comandada única e exclusivamente pelos resultados, e o pouco tempo a desperdiçar para ouvir falar e trabalhar com alunos de segunda esperando que alguém lhes diga o que fazer.

Não estou a censurar, estou a revelar uma realidade, uma forma de agir e de pensar perpetuada por anos. A verdade é que há fundamento para esta realidade instituída, mas por estar instituída não quer dizer que seja justa, honesta ou aquilo que um professor deve representar. E é muito fácil entrarmos num funcionamento em modo robot, o trabalho acumulado torna nebuloso o discernimento.

Como podemos modificar então uma realidade tão instituída e tão pouco refletida? A legislação atual, o Dec.Lei 54/2018 de 6 de julho deu um impulso (escrava também das diferentes interpretações realizadas porque há aspetos impossíveis de serem decretados). A nossa posição e afirmação é também uma delas. Recordo-me de uma escola onde trabalhei recentemente, onde numa reunião, o diretor disse sem qualquer pudor “Eu estou a marimbar-me para os exames. Eu quero que todos os alunos sejam ajudados dentro das suas possibilidades”. Foi o escândalo na sala.

Vamos lá clarificar um cliché recorrente mas necessário de ser aplicado mentalmente: Todos os caminhos são legítimos quando feitos com rigor, e rigor significa definir objetivos consoante os pontos fortes e menos fortes do aluno, as suas expectativas e os caminhos possíveis. Não é nivelar por baixo ou fazer o “teste do coitadinho”, é dar as ferramentas de apoio que lhe permita a caixa correta para conseguir ver para lá do muro sempre assente no compromisso mútuo, não há sucesso sem trabalho e ninguém ajuda quem não quer ser ajudado.

A Universidade é legítima, os cursos profissionais são legítimos, todos os percursos são legítimos desde que haja rigor. E adaptar o currículo e a avaliação quando é necessário não é facilitismo, é justiça."

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publicado às 11:05

“Acalmemo-nos” todos um bocadinho.

por Maria Joana Almeida, em 31.10.19

Mafaldinha.jpg

Tinha ido jantar com uma amiga ao café Austríaco no Chiado e, como habitual nas nossas conversas, falámos sobre relações, o panorama político atual com a eleição de novos deputados, as políticas sociais (no nosso caso por defeito de profissão) que estão em vigor e qual o impacto na nossa sociedade. Falámos dos perigos dos extremismos, dos últimos gritos da vida política, dos rótulos, dos statements, de políticas. Indignámo-nos com algumas situações e rimos com outras.

 

Recordo-me que em alguns momentos da nossa conversa, sempre que nos queríamos soltar de preocupações com as palavras e amarras, olhávamos primeiro em redor para ver quem estava ao nosso lado (numa quarta feira à noite havia pouca gente) e esgueirávamo-nos ligeiramente para falar baixinho como se uma determinada espécie de PIDE estivesse à espreita. Tinha de dar mil voltas à cabeça para fintar os nomes e as expressões que podia utilizar, porque não posso chamar pelo nome, mesmo que chamando pelo nome na minha cabeça não soe a desrespeito ou intolerância. Palavras que são hoje rapidamente e facilmente passíveis de serem julgadas em praça pública. Rótulos que são imediatamente associados a xenofobia, intolerância, radicalismo, conservadorismo, machismo, feminismo, extreminsmo, fundamentalismo e todos os "ismos" que se tornaram os bodes expiatórios (sempre os outros, nunca eu) deste tempo. Nunca se colecionou tantos rótulos e gavetas como a atualidade que vivemos.  Assemelha-se por vezes a uma caça às bruxas como no tempo da Inquisição, usando por vezes, raciocínios pobres non sense equiparáveis aos usados no icónico filme dos Monty Python “The quest for the holy grail”. 

 

Sinto igualmente o cuidado de escolher a quem mando piadas, que é apenas isso mesmo, uma piada, por poder colocar algo em causa e ser julgada com uma moral que parece pretender ser superior. Mesmo que nos conheçam, mesmo que o nosso percurso tenha sido marcado por tudo menos os "ismos" -  os rótulos que nos querem colocar (bem pelo contrário). De repente parece que o peso da atualidade e de normas que se mostram apertadas, escrutinadas e redundantes colocam em causa pessoas e percursos. Parece ter-se instalado uma determinada moda de estar e pensar que não permite uma autorreflexão.

 

São os arautos da moral, os ditadores dos bons costumes, deste e de outros séculos. Os mártires de ideologias que nunca se colocam em causa e mais grave, que não possuem um background que lhes permita fundamentar e refletir o seu pensamento. E assim se afastam do cerne das questões basilares com fogos de artíficios, palavras gastas e vazias de pensamento.

 

Na procura incessante de um "eu" no mundo, parece ser inevitável sufocarmo-nos num coletivo repleto de areias movediças. 

 

Remodele-se este tempo por favor.

 

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publicado às 15:51

Viram o Joker? Está lá tudo.

por Maria Joana Almeida, em 22.10.19

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Escrevo este texto sem saber, até ao momento, os factos exatos (provavelmente nunca saberemos) do que se passou numa sala de aula de TIC no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, mas caí no erro (não sei se um erro) de ler os inúmeros comentários de outros professores, colegas meus de carreira, que quase o intitulavam de um herói utilizando expressões coniventes com a violência verbalizada nas manchetes dos jornais.

 

Nota geral: Sendo verdade a violência verbal e física retratada nos media por parte do professor é absolutamente inadmissível que tal tenha acontecido. É absolutamente inadmissível punir em praça pública sem conhecimento de todo o contexto, assim como é absolutamente inadmissível a agressão por parte de alunos para com professores, bem como constantes oposições à autoridade de um professor dentro de uma sala de aula. Isto não é uma opinião, isto é um facto.

 

Assistimos e vamos tendo conhecimento, quase quotidianamente, de agressões verbais e, inclusivamente físicas, à classe docente por parte dos alunos e embora condenemos de imediato estes atos, parece existir uma certa condescendência latente que se refletem nas expressões: “mais do mesmo”; “são os alunos que temos”, “é o país que temos”. No dia em que um professor, por não sabemos ainda bem o quê, se humanizou, não conseguindo controlar os seus impulsos perante algo que terá à partida sido interpretado como um questionar da autoridade foi o escândalo social. Vejamos, é um escândalo sim, os professores são os adultos e são a referência, devem ser a referência, mas é igualmente escandaloso e retrato de uma sociedade doente, existir a violência inversa. Não pode, não deve, haver condescendência unilateral.

 

Algo vai muito mal “no reino de Portugal” quando o apelo à violência vem de todos os lados. Alunos contra professores, professores contra alunos, professores contra o resto da sociedade, pais contra professores e professores contra pais. É apenas contra a violência que se deve estar contra. Venha de  onde vier.

 

O que se torna mais preocupante num “reino” como este é o terreno fértil para a entrada de fundamentalismos igualmente inadmissíveis por fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. Quando o Chega chegou ao Parlamento é porque já se infiltrou em todas as áreas. Não, no tempo do Salazar não era bom, mas este tempo também não o está a ser.

 

Tudo começa a ser preocupante e a pergunta que devemos fazer é como chegámos até aqui? Qual a metáfora do arquiduque Franz Ferdinand que fará despoletar o gatilho para que se acabe de vez com uma cultura de despenalização e desculpabilização de atos que não podem, em nenhum momento, numa sociedade atual ser livre de consequências?

 

Lembram-se do filme Joker? Vejam e revejam. Está tudo lá.

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publicado às 17:31


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