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"Indisciplinai-vos" (sempre)

por Maria Joana Almeida, em 16.09.18

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O início deste ano letivo trouxe um grande e bom desafio.

 

 

No passado dia 7 de Setembro, em conjunto com a Psicóloga Clínica Inês Marques, fui falar sobre Indisciplina no Colégio Vasco da Gama apresentando algumas sugestões e modus operandi fundamentais quando lidamos com alunos mais desafiantes dentro do contexto de sala de aula.

 

 

Quero salientar alguns aspectos essenciais como conclusões desta formação e mais especificamente deste tema:

 

 

Mesma linguagem: Há uma frase muito boa que é, no meu entender, a pedra basilar nas questões relacionadas com indisciplina: “If you aren´t in the arena also getting your ass kicked, i´m not interested in your feedback” e que quer dizer alguma coisa como isto: “A não ser que estejas também no terreno a ser bombardeado eu não estou interessado na tua opinião".

Os professores que lidam diariamente com alunos mais desafiantes e desafiadores sabem bem o desgaste físico e mental que lhes é diariamente exigido e a dificuldade empática de ouvir intervenções de quem não conhece o terreno e simultaneamente as exigências curriculares que são feitas. Já passei, durante muitos anos, por turmas muito exigentes do ponto de vista comportamental (de fim de linha) e sei qual o sentimento quando numa conferência alguém verbaliza muitos lugares comuns, como se da última descoberta mágica se tratasse e com a leveza de quem ouve casos, mas não os sente.

 

 

Equilíbrio funcional – As relações, qualquer relação precisa de investimento. Lidar com alunos desginados “mais difíceis” pode ser encarado como uma qualquer outra relação afetiva. É preciso amassar muito massa, muito “pára arranca” e “avança e recua” até encontrar um equilibro. Mais do que uma turma disciplinada, ou relação perfeita (um conceito que é absolutamente relativo, tal e qual como o conceito Indisciplina) é mais importante falar em equilíbrios funcionais. Aquele equilíbrio encontrado quando um professor se mostra disponível emocionalmente para ser líder daquele grupo, seguro dos desafios a que está exposto e do seu papel social fundamental.

 

 

Empatia: Nós somos muito mais do que só professores, somos modelos sociais. Se eu encarar uma turma apenas como um conjunto de alunos a quem me pagam para debitar matéria e estarem calados, eu vou passar uma imagem de que todos são só mais um e que não tenho mais nenhuma responsabilidade para com aquele grupo de pessoas. Negando assim os vários papéis sociais que inevitavelmente desempenho. Sem empatia, ou sem qualquer preocupação de conhecer a história e os background dos meus alunos eu não vou ter sucesso na minha profissão. Sem amor, sem paixão, ninguém ensina e ninguém aprende ponto.

 

 

Rasgar protocolos – “Pedagogia é aquilo que resulta”. Ficar preso apenas a uma forma de ensinar; às mesmas ferramentas e forma de encarar o ensino é manifestamente pouco para as exigências atuais. Flexibilidade é necessário. Não considero que “fazer pinos” e comportamentos floreados sejam a resposta para lidar com turmas difíceis, (atitudes não sentidas são automaticamente sentidas pelos alunos). O professor tem de estar ciente, dentro da sua “mala de ferramentas” e sem desvirtuar a sua própria personalidade, da sua turma e daquilo que resulta mostrando quem é e o que pretende. Qual o seu “regulamento interno” independentemente de existir um regulamento interno na escola. Um murro na mesa e uma liderança forte que não nivele por baixo, cumplicidade bem como uma boa dose de sentido de humor podem fazer milagres.

 

 

Quadrados, círculos, rectângulos… - Ter a consciência que quando planeamos uma aula e imaginamos o “quadrado” perfeito que é essa aula (porque os alunos não são os que imaginamos mas aqueles que temos) esquecemo-nos que, numa metáfora “cubista” à nossa sala, há várias formas de assimilar informação. Há círculos, triângulos, quadrados, rectângulos e outras formas muito próprias. Encaixar quadrados em todos não é possível.

É importante perceber que, por exemplo, quando um aluno se recusa a fazer um trabalho ou vai para debaixo da mesa, ou arranja uma forma “indisciplinar” de boicotar esse trabalho não tem como objetivo atingir o professor, o aluno pode, não saber fazer esse trabalho e sendo-lhe difícil verbalizar publicamente, um comportamento disruptivo é para si uma solução. 

 

 

Conversa de bastidores: Os minutos que um professor fica no final da aula ou nos corredores, recreio (bastidores), uma vez, duas vezes, as vezes que forem precisas está, ao invés de perder tempo (como já ouvi alguns professores verbalizarem),  a ganhar tempo na relação afetiva que é necessária nos alunos mais desafiantes. E está, claramente a passar uma mensagem de que aquele aluno não é mais um. Que não estão em equipas opostas. E que conhece-lo e conhecer as suas motivações interessa-lhe.

 

 

Isto dá trabalho. Dá. Dá muito trabalho. Qualquer relação para ser boa, suficientemente boa dá.

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publicado às 14:15

De bestial a besta

por Maria Joana Almeida, em 11.08.18

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Estava no 9ºano e a minha professora de inglês pediu-me para ler um texto do livro em voz alta. Fui confiante e apliquei o meu melhor sotaque. Comecei muito bem. Quase a chegar ao final do texto errei na leitura de uma palavra, a professora imediatamente me chamou a atenção. Retorqui verbalizando que tinha sido apenas ali, em todo o texto, que tinha errado, ao qual a professora respondeu numa expressão 50% séria, 50% divertida, “Joana, o erro é a morte do artista”.

 

Entre as várias memórias que guardei dos meus tempos de jovem estudante, recordo-me que esta me marcou profundamente, não de uma forma negativa, mas curiosa por ter achado que a chamada de atenção havia sido exagerada. Exagerada apenas nesta condição: gostaria, no fundo, de ter sentido apreço pela boa performance e depois aquela observação.

 

O “erro é a morte do artista” tem, atualmente, várias leituras e vários palcos. É, recorrentemente dúbio. Serve, em determinados contextos, para construir ou destruir.

 

Aprendi, por experiência própria, a importância do elogio e também a importância da crítica (ler crítica construtiva e não gratuita, a essa já lá vamos). É o equilíbrio entre ambas que nos faz evoluir. Esperar o momento certo e as palavras certas para um e para outro é a arte. Porque às vezes é preciso destruir um bocadinho, uma destruição controlada e reversível, para que possamos construir de novo e melhor.

 

Como professora (e em todas as áreas da minha vida) sei e acredito que reverter o elogio para primeiro lugar e somente para depois a crítica pode fazer milagres. Não que esta ordem tenha de ser de agenda, (por vezes é o reverso que resulta) mas verbalizar somente aspetos negativos de um aluno esgota o espaço para que possa crescer saudavelmente. E na vida, enquanto alunos de qualquer coisa, sabemos que o elogio público e a crítica em privado é o que define um mestre e bom aprendiz.

 

Dizer que os tempos atuais ganharam uma nova dimensão no acesso gratuito e público à crítica tornou-se já do espetro da verdade de la Palice. Constrói-se e destrói-se em segundos. A ética, a moral, os telhados de vidro deram lugar à facilidade em dar voz à nossa esfera mais negra de fúria e frustração. De repente, num determinado tempo deste mundo, podemos ser todos juízes, polícias, jornalistas, comentadores sem ser necessário ter um backround, apenas acesso à internet. Somos bestiais e bestas no mesmo dia.

 

Sem conhecermos todos os detalhes, julgamos no imediato, simplesmente porque podemos. E porque advêm daí um certo poder evangelizador e purista que se esqueceu da velha máxima “atire a primeira pedra quem nunca pecou”. Esquecemo-nos de refletir, de procurar a verdade, de nós próprios enquanto seres humanos. Esquecemo-nos de, na dúvida, perguntar em privado ao invés de destruir publicamente. E aquilo que poderia ser uma forma de construção e auxílio no equilíbrio social, transparente, tornou-se, em inúmeras situações, numa nova inquisição como um mercado livre sem regulação possível.

 

E querendo usar uma imagem atual, em forma de ironia e sem qualquer ideologia politica associada,  #nãosomostodosRobles  #sóquesomos.

 

 

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publicado às 01:07

Je suis Cristiano Ronaldo

por Maria Joana Almeida, em 02.07.18

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Aproveitando a onda, já perdida, do Mundial recordei-me da designação “Heróis nacionais” e de como o futebol, particularmente jogadores como o Cristiano Ronaldo, mexem multidões, entusiasmam os mais pequenos e nos dão um sentimento patriótico como mais nada nem ninguém nos dá.

 

Ouvi recentemente a seguinte frase: “Seleção Nacional, Heróis nacionais? Não. Heróis Nacionais são os bombeiros, os médicos, os profissionais que todos os dias salvam vidas e fazem o melhor pelos outros”. É uma frase bonita, mas também um lugar-comum e por isso acrescento, parafraseando alguém que muito estimo, “Não vamos banalizar a palavra herói, ser bombeiro, polícia, médico, futebolista determina a função de cada um. Agora há bombeiros que são heróis, há polícias que são heróis, há médicos que são heróis e há futebolistas que são heróis, que se destacam”.

 

No caso de jogadores como o Cristiano Ronaldo (e não só) há algo efetivamente de Herói Nacional (apesar de todas as críticas de que é constantemente alvo). Em qualquer escola, em qualquer bairro, em qualquer canto de uma rua, quando vemos jovens a jogar à bola, as t-shirts, os brincos e o penteado não nos deixam enganar, o CR7 é o ídolo, é o número na camisola e no coração de cada um. É o melhor.

 

E o que tem o Cristiano Ronaldo para nos ensinar e marcar as vidas dos jovens e a de qualquer um de nós?

 

Colocando de parte a sua arte de dominar a bola, “o dom” (não acredito muito em dons, acredito no trabalho) tem a determinação a vontade e resiliência. E a verdade é que não existem melhores caraterísticas para o sucesso de qualquer profissão. Este é o ato verdadeiramente heróico que Cristiano Ronaldo representa. Não são os brincos, o penteando, a frota de carros mas a dedicação ao seu objetivo. O foco e a confiança.

 

Vir do nada e ser tudo é um sonho de muitos jovens e por isso são, também, heróis, pais e professores que são capazes de desconstruir uma imagem que parece simples. Dar uns toques na bola não é condição sine qua none para ter sucesso como futebolista, assim como cantar, representar ou dançar em frente ao espelho desde pequenino não é sinónimo de ser artista e que independentemente do caminho escolhido não há sucesso coerente sem virar as costas às facilidades, estar ciente dos desafios, arriscar e estar disposto, inúmeras vezes, a sacrifícios pessoais.

 

A vida divide-se em dois tipos de pessoas, aquelas que num jogo de futebol anseiam pela 2º parte por ser a oportunidade para marcar mais golos e aquelas que receiam a 2ª parte com medo de sofrer golos. Há também, como completou um amigo meu, aquelas pessoas que vivem no intervalo com medo de dar o passo seguinte. Mas é no passo seguinte que pode residir aquilo que define o sucesso.

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publicado às 00:18

5 perguntas, 5 respostas com Ângelo Fernandes

por Maria Joana Almeida, em 29.05.18

 

 

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"Ângelo Fernandes é o fundador e presidente da Quebrar o Silêncio – a primeira associação portuguesa de apoio especializado a homens sobreviventes de violência e abuso sexual. Reivindicador dos direitos humanos, igualdade de género e feminismo, trabalha no sentido de desconstruir os valores tradicionais da masculinidade e na promoção de masculinidades cuidadoras e transformativas. Defende a participação ativa dos homens e rapazes na promoção e conquista de uma sociedade equitativa onde as mulheres e homens gozem de plena igualdade de direitos e oportunidades."

 

O Ângelo foi meu colega de curso. Empenhado, bem disposto e positivo, tem neste momento uma missão nobre entre mãos que vale muito a pena conhecer.

 

Obrigada Ângelo.

 

 

1 - Ângelo, criaste há pouco tempo a Associação Quebrar o Silêncio que tem como missão apoiar homens sobreviventes vítimas de abuso sexual. Poderia encontrar respostas na Internet, em algumas entrevistas que foste dando, mas gostaria que me dissesses qual o momento em que decidiste avançar com este projeto e as principais motivações? 

 

 

Antes da Quebrar o Silêncio não havia nenhuma associação com uma resposta e serviços de apoio especializados para homens sobreviventes de abuso sexual. Era uma necessidade que há muito necessitava de ser colmatada em Portugal. Foi aí que, com o apoio de pessoas amigas, fundámos a Quebrar o Silêncio.

Sobre as motivações que perguntas, desde cedo que discutimos várias vezes sobre tornarmos pública a minha história pessoal. Sabíamos que era uma opção para promover e dar visibilidade a este assunto, e que era também uma oportunidade de chegar a outros homens sobreviventes. A identificação é fundamental para que os homens sobreviventes possam começar a sentir que há um espaço que os recebe com segurança, que vão ser ouvidos e que as suas histórias vão ser validadas. E constatamos isso quando vários homens referem a importância de terem lido o meu testemunho antes de nos procurarem.

 

2 - É comum associar estes crimes a mulheres. Se realizássemos um “voxpop” conseguiríamos perceber que os homens são poucas vezes (ou quase nunca) apontados como vítimas de abuso sexual. Como explicas esta realidade e como encaras este panorama atualmente?

 

A verdade é que nem toda a gente acredita que os homens e rapazes possam ser abusados sexualmente. E se falarmos de violência doméstica, física e sexual, vários estudos indicam que é o homem que comete essa violência, principalmente contra mulheres e raparigas, mas também contra outros homens e rapazes. Esta é a realidade. No entanto, esta realidade também nos diz que os homens e rapazes são afetados pela violência sexual. Se sabemos que 1 em cada 3 mulheres é vítima de abuso sexual, sabemos também que 1 em cada 6 homens também o é.

Um dos obstáculos ao reconhecimento dessa realidade é o facto de a nossa sociedade continuar a ser regida por normas de género muito rígidas, os ditos estereótipos de género. E essas normas dizem que o homem tem de ser forte e saber proteger-se, e que “um homem a sério” ou “homem que é homem” jamais poderá ser vítima. São ideias que promovem o silenciamento dos homens sobreviventes e que impossibilita que possam sentir que podem procurar apoio. Não é por acaso que apenas 16% dos homens sobreviventes considera que foi vítima de abuso sexual.

É preciso fazer um trabalho que esteja coordenado entre diferentes dimensões, seja na educação, nas respostas de apoio ou na lei. Por exemplo, no atual Plano de Ação para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e à Violência Doméstica 2018-2021 reconhece-se a "intervenção junto de homens vítimas de VD e de violência e abuso sexual." Esta medida, que prevê a "especialização da intervenção para outros tipos de violência na CI e junto de grupos vulneráveis", é um reconhecimento histórico para nós e um marco para ser lembrado no futuro.

 

3 - Os números são (nem sempre) mas nestes casos importantes para percebermos a dimensão do problema. Quantas pessoas já contactaram a Associação deste que foi fundada? E quais os números reais de pessoas vítimas de abuso sexual no nosso país atualmente?

 

É impossível sabermos os números reais de vítimas de abuso sexual no nosso país. Sabemos que em Portugal os crimes sexuais apresentam a maior disparidade entre os crimes e as denúncias realizadas, fenómeno este conhecido como Cifras Negras. Portanto, quando temos acesso a ferramentas como o RASI,  Relatório Anual de Segurança Interna, é preciso termos uma visão e uma interpretação crítica dos números e estatísticas apresentadas. Sabemos, por exemplo, que no Reino Unido apenas 3,9% dos homens é que denuncia o seu caso. E estamos a falar de uma realidade onde existem várias respostas de apoio para homens e mulheres sobreviventes com décadas e décadas de trabalho feito nestas áreas.

No ano passado, em 2017, registámos na associação 74 pedidos de apoio, nem todos eles de homens sobreviventes; por vezes, há mulheres sobreviventes que nos procuram também, e que reencaminhamos para entidades parceiras, e também temos familiares que procuram apoio. Este ano até ao momento, leia-se final de maio, registámos 70 pedidos. A procura pelos serviços da Quebrar o Silêncio tem aumentado e podemos interpretar este aumento como uma resposta ao trabalho que fazemos pela visibilidade destes temas e dos serviços.

 

4 - O movimento “Metoo” entre outros, foi de alguma forma pioneiro (numa determinada Indústria é certo) em abanar estruturas e “descongelar” um determinado tipo de comportamentos que passavam muitas vezes pelos pingos da chuva sendo “aceites”. Qual a tua opinião sobre este movimento e se consideras que pode ter ao mesmo tempo um lado perverso de instrumentalização de poderes?

 

Movimentos como o #MeToo e o #TimeIsUp são fundamentais. Temos assistido a mulheres (e alguns homens também) que têm conseguido falar publicamente e expor situações que têm deixado muita gente incrédula, mas também resistente a este tipo de situações. Com tanto mediatismo, temas como o abuso sexual e o assédio sexual têm estado no centro de várias discussões e conversas, e de certo modo foram sendo (re)introduzidas no nosso quotidiano — e isso é algo positivo. Com estes movimentos é preciso tomar estas oportunidades para informar e educar rigorosamente, isto é, não podemos apenas discutir caso a caso o que tem acontecido; é importante que o público em geral tome conhecimento em que contexto o abuso e o assédio tomam lugar nestes casos, em que moldes, quem são estes abusadores, a que estratégias recorrem, entre outras questões. É fundamental que este tipo de educação aconteça também. Por exemplo, por vezes há quem confunda assédio sexual com brincadeira, flirt ou até mesmo sedução, e é preciso clarificar de forma rigorosa e assertiva que assédio sexual não é nada disso. Do mesmo modo que também é preciso ir desconstruindo a “rape culture” e a cultura de responsabilização das vítimas. Este é uma linha de pensamento muito presente nos comentários a que temos acesso e também no trabalho que fazemos nas escolas. Há muitas ideias erradas, como a crença de que a vítima pode provocar, “meter-se a jeito” e que a vítima pode ser co-responsável pelo abuso. Estas ideias têm de ser desmistificadas e depois atualizadas. Movimentos como o #MeToo podem proporcionar estes momentos de aprendizagem.

 

5 - Sei que a Associação tem estado muito presente em escolas como forma de sensibilização para a sua missão. Como têm sido recebidos e que tipo de questões são normalmente colocadas pelos nossos jovens?

 

Para nós trabalhar com as escolas para a sensibilização e informação de rapazes e raparigas é fundamental, e foi logo desde início um dos nossos objetivos. O trabalho que fazemos nas escolas é também o nosso contributo para a prevenção do abuso sexual de rapazes e raparigas.

A aceitação por parte dos e das estudantes é muito interessante. Normalmente, prestam muita atenção ao que dizemos e aos números, definições e exemplos que apresentamos. O que registamos é que existem ainda muitas ideias e questões que vêm de uma educação assente nos papéis tradicionais da masculinidade e feminilidade. Observamos que há várias crenças que continuam enraizadas, como a de que um rapaz não pode chorar, que o papel do homem é sustentar a família, que o lugar da mulher é em casa, que os homens e rapazes não podem ser abusados sexualmente, que a responsabilidade do abuso sexual é da vítima (o que é mais premente no caso das vítimas mulheres). Também encontramos jovens com informações mais “atualizadas” sobre violência sexual e igualdade de género, mas não nos parece ser de todo a maioria. Por exemplo, muitos jovens identificam que abuso sexual não se limita apenas à penetração e violação, e que há formas de abuso que não incluem sequer contacto físico. É bom ver que existe já esta consciência junto das e dos jovens.

Este é um trabalho que é importante ser feito junto das escolas. Por vezes pode ser difícil porque parece não haver mudança, mas também é necessário reconhecer que o impacto de alguém que apresenta ideias diferentes e que pode aumentar o espectro de algumas noções mais restritas, pode ser já, só por si, a semente para uma mudança positiva.

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publicado às 15:30

Do lápis ao Ipad

por Maria Joana Almeida, em 14.05.18

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“Hoje pedimos aos nossos alunos que, quando entram na sala desliguem, saiam do nosso tempo e entrem na Idade Média" foi uma das frases de João Couvaneiro no último encontro sobre Educação que estive presente.

 

É uma frase bastante sugestiva sobre o uso de tecnologias em sala de aula. Embora seja cada vez mais comum a utilização de tecnologias nas escolas (não falo só dos computadores, quadros interativos e livros digitais mas também na utilização de telemóveis como atividade pedagógica e de ipads ao invés de caderno e caneta) sabemos que existem alguns profissionais da velha guarda que não vêem como uma mais-valia a utilização de algumas tecnologias resistindo à sua utilização apelidando-as de desnecessárias, distratoras e contraproducentes para a atenção e concentração necessária que uma aula exige. A verdade é que, não colocando de parte em nenhum momento as competências importantes por detrás da continuação da utilização do papel, livros e caneta e lápis, não é de todo possível negar a evolução constante das novas tecnologias (lembremo-nos que estamos na era em que é possível imprimir casas) e que negá-las, ao não serem incorporadas na dimensão escola renegando-as para alguns momentos e como disciplinas de 45minutos é, numa metáfora pertinente, chamar para dentro da sala de aula uma nova idade média que não tem continuação nem reflexo nas nossas sociedades, nem nos constantes novos desafios que o futuro trará.

 

A propósito deste tema, o jornal Público publicou recentemente uma notícia onde podemos ler: “Uma previsão do Fórum Económico Mundial diz que quatro em cada cinco crianças que entram hoje na escola terão empregos que ainda não existem.” a primeira pergunta (e bastante pertinente) do meu sogro quando leu este pequeno parágrafo foi: “Como se preparam crianças para empregos que não existem? O que trabalham?” Pensei imediatamente na necessidade de trabalhar o pensamento crítico por ser, na minha perspetiva, a competência mais importante e transversal não só para o mundo laboral, mas para a nossa capacidade de ultrapassar dificuldades em geral. A notícia continuava: “Não sendo possível prepara-los com base num currículo para um conteúdo que nem sequer existe, como se faz? Trabalhando-lhes a resiliência, o pensamento crítico, a capacidade de organizar, construir e discernir. “

 

É nesta resposta que reside aquilo que de mais importante a escola tem de oferecer e uma das suas maiores competências e desafio atual.

 

A capacidade do ser humano para produzir e reinventar parece ser ilimitada resultando em infindáveis “possibilidades tecnológicas” e tem de ser papel central da escola responder e acompanhar este desafio. Por um lado preparar os alunos para esta realidade ao mesmo tempo que ajuda a refletir sobre as duas faces da mesma moeda, relembrando de onde vimos, o que evoluímos e o que pretendemos para o nosso futuro. Um futuro que será escassamente feito de papel, caneta e lápis mas sim através de constantes novas tecnologias que vão redesenhar o nosso mundo com um novo tipo de comunicação e desafios.

 

Notícia Público: (https://www.publico.pt/2018/05/14/sociedade/noticia/gulbenkian-tem-25-milhoes-de-euros-para-chegar-as-organizacoes-do-portugal-real-1829662) 

 

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publicado às 21:06

5 perguntas, 5 respostas com a Terapeuta da Fala Gracinda Valido

por Maria Joana Almeida, em 27.04.18

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“A dedicação de Gracinda Antunes Valido à terapia da fala valeu-lhe o reconhecimento da comunidade escolar, que escolheu dar nome da terapeuta à antiga Escola Básica nº2 de Alcoitão.” (https://www.tsf.pt/sociedade/saude/interior/historias-de-uma-vida-dislexica-9257356.html)

 

A Gracinda Valido foi minha professora no mestrado em desenvolvimento e perturbações da linguagem na criança e vou guardar sempre o facto de ter sido a primeira pessoa que me fez compreender finalmente o que é a dislexia, quais os mitos associados, quais os problemas de muitos diagnósticos errados e confusões entre outras perturbações da linguagem.

É o nome a reter nesta área de intervenção e esta é uma entrevista obrigatória para conhecer a realidade e ajudar a quebrar mitos.

 

Muito obrigada professora.

 

 

1 – A terapia da fala é uma área fundamental na intervenção das várias dimensões das perturbações da linguagem, no entanto é comum ainda existir um desconhecimento da sua real importância associado a vários mitos. Ainda ouvimos dizer muitas vezes “Ela não precisa de terapia da fala porque fala bem”. Como caracteriza a Terapia da fala e as suas áreas de intervenção?

 

De facto, quando a alteração não é ao nível da articulação verbal da palavra, muitas vezes a perturbação de linguagem não é valorizada. Quando a criança apresenta um discurso que não é explicito, um vocabulário mal aplicado, uma estrutura sintática alterada, podem ser sinais de alerta de uma perturbação da linguagem mais grave do que não articular bem um fonema e necessitam de uma intervenção direta em Terapia da Fala precocemente. O educador e o cuidador devem estar alertas para todas as competências linguísticas e não só para a articulação verbal da palavra, tal como diz a Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala (APTF) a nossa intervenção não visa só a articulação:

“O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, intervenção e estudo científico das perturbações da comunicação humana, englobando não só todas as funções associadas à compreensão e expressão da linguagem oral e escrita, mas também outras formas de comunicação não verbal. O Terapeuta da Fala intervém, ainda, ao nível da deglutição (passagem segura de alimentos e bebidas através da orofaringe de forma a garantir uma nutrição adequada). O papel do Terapeuta da Fala passa por avaliar e intervir em indivíduos de todas as idades, desde recém-nascidos a idosos, tendo por objetivo geral otimizar as capacidades de comunicação e/ou deglutição do indivíduo, melhorando, assim, a sua qualidade de vida (ASHA, 2007)”.

 

 

2 – A Gracinda é conhecida por ter um percurso de intervenção ligado mais concretamente a uma perturbação da linguagem específica, a dislexia. O que a levou a especializar-se nesta área?

 

Entrei no centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão em 1982 e anos mais tarde, tive um filho com dislexia. Tenho três filhos, dois deles com perturbações de linguagem. O meu filho é um disléxico grave e que me fez evoluir, fez-me criar métodos, fez-me criar uma bateria de avaliação de linguagem na competência fonológica, em conjunto com outras colegas, fez-me estudar, fez-me fazer estágio nesta área, fez-me apaixonar por esta perturbação da linguagem que é a dislexia. Tenho a sorte de ter um filho que me fez crescer enquanto terapeuta. Sendo um dos casos que cito como casos de sucesso, porque tem tido um percurso profissional brilhante, graças a identificação precoce da perturbação e a todo apoio que teve.

 

 

3 – Foi minha professora no mestrado em desenvolvimento e perturbações da linguagem na criança e vou guardar sempre o facto de ter sido a primeira pessoa que me fez compreender finalmente o que é a dislexia, quais os mitos associados, quais os problemas de muitos diagnósticos errados e confusões entre outras perturbações da linguagem. O que é efetivamente a dislexia e, principalmente, o que não é (mitos)?

 

 

Os “mitos” são muitos, contudo quando nos referimos a dislexia esta não é a troca em espelho das letras e números; não inclui a incoordenação motora ou alteração na lateralização; não se pode diagnosticar antes do ensino formal da leitura, podemos sim detetar sinais ao nível da consciência fonológica; não se diagnostica num exame oftalmológico ou postural.

As dificuldades grafo motoras, de orientação espacial, lateralidade, psicomotoras, etc. são independentes da dislexia. Estas comorbilidades podem existir em algumas crianças disléxicas, mas não são estas alterações que fazem o diagnóstico de dislexia.

Segundo a organização mundial de saúde (OMS) , a Classificação Internacional das Doenças–ICD 9 (dislexia 315.02), e a International Dyslexia Association, dislexia é uma perturbação da linguagem escrita (leitura e escrita) que tem na sua génese num défice fonológico e que não envolve outras competências cognitivas, nem sensoriais.

 

 

4 - A internet está inundada de várias designações e planos de intervenção nesta área e sabemos que induz muitos pais e professores em erro sendo muito comum, em Educação Especial, recebermos inúmeros diagnósticos de dislexia que percebemos que não são diagnósticos corretos. Como e que profissionais podem efetivamente avaliar e concluir a existência desta perturbação de linguagem?

 

É fundamental que quem avalie dificuldades de aprendizagem tenha consciência da importância de um trabalho em equipa com psicólogos, professores, e outros profissionais para uma avaliação completa de todas as competências da criança/jovem.

 A avaliação nomeadamente da consciência fonológica, que se reflete em dificuldades na linguagem escrita (leitura e escrita) são a base do diagnostico de dislexia, contudo há toda uma panóplia de perturbações de linguagem que podem ser confundidas com dislexia, nomeadamente as perturbações de linguagem especifica da competência fonológica, que apresentam alterações fonológicas na oralidade que transpõe depois para a escrita, funcionando na linguagem escrita como as crianças disléxicas. A base de um diagnóstico correto e intervenção apropriada está no raciocínio clínico. Dar erros não é sinónimo de Dislexia. Consequentemente saber avaliar, correlacionar os resultados de forma a realizar diagnósticos diferenciais na área da linguagem torna-se vital para os profissionais que trabalham nesta área. Só assim estas crianças/jovens podem ter contemplado no seu plano educativo uma avaliação que não penalize o seu potencial enquanto alunos, sendo avaliados pedagogicamente, pelo conteúdo da informação e não pela forma como escrevem.

A intervenção num erro por má consciência fonológica é diferente da intervenção de um erro por má integração da regra gramatical. Quando uma criança escreve camisola com Z, camizola, não pode ser interpretado da mesma forma que outra que escreve casimola em vez de camisola. Há que saber interpretar o erro e a causa do mesmo.  Dada a relação íntima da consciência fonológica com a aquisição da linguagem escrita, a intervenção mostra-se ainda mais pertinente para o sucesso no percurso pedagógico. Devemos intervir ao nível da consciência fonológica, para ajudar a ultrapassar as alterações no período pré-escolar, para que se evitem ou minimizem todas as dificuldades na aprendizagem da linguagem escrita

O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, tratamento e estudo científico da comunicação humana e das perturbações com ela relacionadas, englobando todos os processos associados com a compreensão e produção da linguagem oral e escrita, como atras já referi. Desta forma, é com certeza um técnico fundamental neste processo, dado o seu domínio profundo do desenvolvimento da linguagem e perturbações associadas.

 

 

5 – No seu percurso profissional está em contacto, naturalmente, com muitas escolas, pais e professores. De que forma analisa aquilo que a escola tem feito ou poderia fazer mais nas áreas das perturbações da linguagem?

 

A minha atuação enquanto Terapeuta da fala é sobretudo com os professores dos agrupamentos do concelho de Cascais e Sintra, onde sinto que todo trabalho feito de sensibilização para estas perturbações tem tido um resultado muito positivo. É através de ações de formação, da discussão de casos e partilha de estratégias com a educação que conseguimos que no terreno estas crianças mostrem o seu valor pedagógico e não sejam penalizados pela forma como escrevem. Ser terapeuta da fala de uma criança disléxica, obriga, na minha opinião, uma articulação estreita com o/s Professor/es. Sinto que os professores estão, cada vez mais, sensibilizados para as dificuldades destas crianças e têm – se empenhado em fazer o perfil dos seus alunos com dislexia através da ficha do júri nacional de exame, o que identifica as dificuldades funcionais da criança e ajuda a conhece-los melhor.

 

É fundamental que o terapeuta da fala e o professor estejam de mãos dadas na abordagem a estas crianças.

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publicado às 17:51

“Não é só querido e fofinho, é um trabalhador.”

por Maria Joana Almeida, em 30.03.18

 

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“Um projecto internacional procura criar uma rede de hotéis e restaurantes que recebam estágios de pessoas com Trissomia 21 e dificuldades intelectuais. Em Portugal ainda são poucos os que participam, mas os responsáveis não desistem de querer fazer este projecto crescer.(https://www.publico.pt/2018/03/21/sociedade/noticia/trissomia-21-nao-e-so-querido-e-fofinho-e-um-trabalhador-1807360/amp)”

 

Deparei-me com o título desta notícia no jornal Público e automaticamente pensei: Finalmente um título, uma frase que faz jus ao que é esperado quer de quem usufrua de todas as suas capacidades em pleno, quer de quem tenha comprometimentos físicos e ou intelectuais. Em ambos os casos não interessa se é fofinho, não interessa se é querido, interessa que desempenhe a sua função e que sejamos assertivos e exigentes com o que é esperado.

 

Assumo-me como muito impaciente a títulos e mensagens condescendentes no que toca a deficiência. O palavreado por vezes rebuscado que arranjamos para denominar qualquer aspeto quer físico ou intelectual com receio de ferir susceptibilidades por parecer menos socialmente aceite, ou quando suavizamos a postura e palavras para tornar o nosso discurso “mais fácil” de ser compreendido pelo “coitadinho” é no meu entender uma enorme falta de respeito. É o mesmo sentimento quando oiço, em reuniões de conselhos de turma, “Como ele faz parte do D.L. 3/2008 e tem um PEI (Programa Educativo Individual, em dei-lhe um 3”. Como se existisse um documento que serve de um passe livre para “ir andando” pela escola sem definir objetivos que devem ser, igualmente, exigentes e rigorosos, dentro do perfil de funcionalidade de cada aluno.

 

Sem qualquer floreado, a Trissomia 21, ou qualquer outro comprometimento intelectual reflete-se, naturalmente, em maiores dificuldades de acesso à vida laboral. A existência de instituições ou empresas disponíveis para tomar esta iniciativa demonstra o pensamento e atitude esperado de uma sociedade evoluída, onde o foco não deverá ser apenas os comprometimentos existentes dos empregados, mas sim dar a oportunidade, merecida, a que estes profissionais demonstrem as suas competências dentro do que é esperado no local de trabalho. Principalmente que encontrem um espaço que lhes permita continuar a sua formação pessoal e social que ficou suspensa no final da sua escolaridade e que tranquilize famílias que ficam órfãs de um espaço de formação após a conclusão da escola.

 

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publicado às 17:48

O samba de Maria Luísa

por Maria Joana Almeida, em 09.03.18

Maria Luísa.jpg

 

Há tempos li um post da autora do blog “Dias de uma Princesa” Catarina Beato, sobre a sua experiência na Maternidade Alfredo da Costa no nascimento da sua filha. Recordo-me de o ter guardado por sentir o quão importante é enaltecer a qualidade de um serviço público tão importante como este.

 

Passado quase um mês da minha ainda breve experiência como mãe, quero também deixar um breve texto sobre este momento e o profissionalismo que senti.

 

Recordo-me de uma amiga que me dizia que o que mais lhe interessava num serviço era a competência e não que fossem simpáticos, especialmente nesta área. Compreendo e concordo maioritariamente com esta afirmação. No entanto e tirando a questão da competência que naturalmente é o foco, a capacidade empática e os afetos são, no meu entender, parte integrante da competência, particularmente nesta área. A exposição do corpo, as hormonas, a responsabilidade e força da natureza de um corpo que gera vida, não é um simples procedimento médico.

 

Por todas as emoções que fluem durante 9 meses e especialmente durante o momento do trabalho de parto, a capacidade para saber o que dizer, como dizer e criar o melhor ambiente para receber uma vida não é pura simpatia, é competência e profissionalismo e por isso quero deixar estes breves agradecimentos:

 

Um obrigada à enfermeira Joana que me acompanhou no final do seu turno e que me abraçou e me deu a mão para não me mexer enquanto levava epidural. À outra enfermeira Joana que me fez o parto enquanto conversava serena e tranquila sobre vários assuntos e que no final me veio dar um beijo e felicitar pela linda Maria Luísa expressando genuína felicidade e preocupação. À doutora Graça que veio terminar o parto e que entrou na sala com umas antenas de joaninha pois era Carnaval e ajudou a amenizar e suavizar o incómodo das dores das contracções. A todos os enfermeiros sempre disponíveis para me ouvir e tirar dúvidas e todas as auxiliares pela paciência de  levantar e baixar a cama várias vezes ao dia. Às minhas companheiras de quarto que durante dois dias se tornaram no primeiro grupo de apoio, no pós parto, para a coisas tão simples como poder comer, ou tomar banho ou tão só partilhar piadas e preocupações.

 

E um especial obrigada ao pai que esteve sempre presente, em equipa e com uma força excecional que ultrapassou o seu receio de assistir ao parto e de todas as emoções durante esse período.

 

 

E é isto. Toda uma nova definição de olheiras, toda uma nova definição de prioridades e toda uma nova dimensão de amor. Todo um novo samba mas do mais antigo que há.. E é isto. Estou feita uma lamechas pirosa que até já veste de cor de rosa, já dizia a Capicua.

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publicado às 14:35

Cinco perguntas, cinco respostas com Luís Osório

por Maria Joana Almeida, em 01.02.18

luis osorio.png

 

Conheci o Luís através de alguns programas de televisão, entrevistas e dos seus livros. É uma “apresentação” recente, mas depressa criei uma enorme empatia pelas suas palavras e forma de escrever.

O Luís, tal como o próprio considera, tem um percurso incatalogável. Jornalista, escritor, consultor, tem revelado um percurso que assume como livre. E é precisamente essa liberdade e (acrescentado por mim) sensibilidade e perspicácia no que observa que podemos encontrar nas suas respostas a estas cinco perguntas.

 

Obrigada Luís.

 

 

1 - Luís, fale-me um pouco do seu percurso profissional, desde o tempo em que foi jornalista até às atuais atividades que exerce neste momento. Quais as suas motivações?

 

- É um percurso talvez incatalogável. Os meus amigos jornalistas definem-me como escritor, os escritores como jornalista, os de televisão como de imprensa, os de imprensa como de televisão. Sempre quis fazer o que em cada momento me apetecia, não me prender a nada, ser livre. Com duas preocupações sempre: a de ser profissional e rigoroso, a de intervir no largo universo das ideias, da criatividade e da procura. A minha motivação é de viver o mais intensamente possível. 

 

 

2 - O Luís transmite uma grande sensibilidade na sua escrita e uma afetividade contagiante quando fala em pessoas e espaços significativos que se traduzem na descrição detalhada de várias caraterísticas quer físicas quer psicológicas. Os afetos, a proximidade são, no seu entender, a força motriz das nossas relações?

 

- Não. Acho que a força motriz é a capacidade de nós próprios, absolutamente sozinhos, desenharmos o nosso caminho. É desse apaziguamento e convicção que se parte para as relações com os outros e com o mundo.  

 

 

3 - Sei, pelo que li, que é fã, como eu de Woody Allen. Recordei há pouco tempo um dos seus filmes e um dos meus preferidos, Annie Hall, o qual termina com esta frase: "E lembrei-me de uma velha anedota: Um tipo vai ao seu psiquiatra e diz:"O meu irmão é louco, pensa que é uma galinha" E o médico diz: "Porque não o interna?" E ele responde "Eu internava, mas preciso dos ovos"

É mais ou menos isto que eu sinto sobre as relações entre pessoas. São totalmente irracionais, loucas e absurdas..mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos.". Gostaria que a comentasse.

 

- As relações entre as pessoas são também irracionais. E têm uma dimensão de imprevisibilidade que as torna extraordinárias e dilacerantes. Sobretudo quando as pessoas têm uma aspiração de liberdade. Isso fá-las desenvolver um mecanismo de proteção, a construção de um mundo que apenas a elas pertence, um reduto de liberdade que pode ser de loucura para os outros. Mas as pessoas também são racionais nas suas relações, mas essas não são muito interessantes. 

 

 

4 – Quem são as suas grandes referências que o influenciaram na sua escrita? O que o move e como é feito todo este processo criativo?

 

- Não tenho referências diretas na escrita. Gosto muito de alguns escritores, sigo-os quase religiosamente. Philip Roth ou Javier Marias, entre os de sucesso. José Saramago entre os portugueses. O processo é muito orgânico, muito natural. Tenho as ideias e deixo-as amadurecer em silêncio, ficam a medrar. Depois volto a elas e abandono-as para sempre ou dou-lhes guarida entre os meus fantasmas.  

 

 

5 – Porque este é um blog de Educação e quando falamos em Educação não falamos, evidentemente, só da Escola, mas de todas áreas e espaços que influenciam a nossa personalidade, gostaria que o Luís apontasse os grandes desafios que existem atualmente nesta área. Do que precisam os nossos jovens?

                             

- Não sei o que dizer, sinceramente. O mundo, e o país, está cheio de pessoas que falam do que não sabem. Nada sei. Sei que há centenas de pessoas que pensam sobre o tema. Sei que muito se tem melhorado, todos os índices o provam. Sei que os professores não são dignificados, como se fossem apenas um bando de gente que pode ser instrumentalizada e não o centro do sistema (com os alunos). Sei que existe um desfasamento entre o mundo académico e o meio empresarial. E sei que os nossos jovens precisam muitas vezes de um desígnio, uma motivação que transcenda os seus desejos. O país necessita de criar uma dinâmica na sua educação, nas suas políticas educativas; os casos de sucesso no mundo, tanto o coreano como o finlandês, têm isso muito presente. 

 

 

Mais informações sobre Luís Osório  - https://escritores.online/escritor/luis-osorio/

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publicado às 16:18

Para os amigos (especialmente os meus)

por Maria Joana Almeida, em 13.01.18

blog.jpg

 

 

Tinha pensado em fazer um texto sobre a eliminação de certos produtos alimentares em hospitais e escolas, assunto delicado para mim porque os doces têm uma dimensão de grande importância na minha vida, mas vou deixar para outro texto.

 

Hoje quero falar sobre amigos, os meus amigos, uma base de segurança tão, ou por vezes mais forte, do que a família.

Tenho amigos maravilhosos (todos irão dizer que isto é um cliché porque também têm) mas para mim, e como acontece com os filhos, os meus vão ser sempre os melhores.

 

 

Tenho amigos que tomavam conta de mim à noite quando íamos sair e me acompanhavam quer fisicamente ou por whatsapp até à porta da minha casa para me certificar que estava bem.

 

Tenho amigos que me pagaram todos os custos de um fim-de-semana fora, numa altura mais apertada de dinheiro, porque não havia opção de eu não ir com “o pessoal todo” para o festival de música.

 

Tenho amigos que se levantaram a meio da noite e foram ter comigo porque estava triste.

 

Tenho amigos que analisaram os meus namorados, ou possíveis namorados, para terem a certeza que eu não me iria magoar.

 

Tenho amigos que me oferecem canecas a dizer “wake up and make up” porque um dia viram a minha cara lavada de manhã e pensaram que eu estava doente.

 

Tenho amigos que me levaram de manhã ao hospital quando tive o maior susto da minha vida com os meus olhos.

 

Tenho amigos que vão à casa da outra margem buscar-me a correspondência.

 

Tenho amigos que no meu casamento me diziam, entre a convicção e o bom humor, que estavam ali para tudo: para me vestir, para me abraçar, para me levar à casa de banho para levantar o vestido, para me levar ao altar e para agarrar no carro se eu mudasse de ideias à última da hora e quisesse fugir. (Não quis, foi, para mim, o casamento mais bonito de sempre e um dos dias mais maravilhosos da minha vida)

 

Tenho amigos que se enfiaram num estúdio e preparam uma música, escrita inteiramente por eles (que permaneceu nos ouvidos de todos durante muitos e muitos meses após) e que ensaiaram uma dança que nos envolveu durante o casamento, num dos momentos altos daquele dia.

 

Tenho amigos que me fizeram um livro com fotos da minha despedida de solteira, completamente à minha medida, com as fotos e dedicatórias de amor, daquele amor que só os amigos, como estes, nos podem dar.

 

Tenho amigos que, mesmo com filhos, me atendem o telefone às altas horas da noite por estar a passar um mau bocado e dizem que vão apanhar um táxi para vir ter comigo.

 

Tenho amigos que sabem o que se passa comigo, mesmo sem eu falar, e ficam ali, só ali ao lado sem falar, só para me abraçar.

 

Tenho amigos que vibraram e choraram de felicidade quando souberam que estava grávida e que me encheram a casa com tudo o que possa precisar.

 

Tenho amigos que querem elaborar um plano de ajuda e vigilância para as noites que ficar sozinha com a bebé.

 

Tenho amigos que me disseram que se for preciso são eles a darem-me a mão no dia em que a Maria Luísa nascer.

 

Tenho amigos que torcem por mim e pelo Mário, sempre.

 

A família é a base incontornável da nossa vida, das mais importantes. Sou muito grata pela família que tenho e por tudo o que fazem, no que estiver ao seu alcance, para me fazer feliz. Os meus pais em especial.

Ter amigos que se igualam a uma família é uma dádiva. É um complemento. Não são de sangue, mas é como se fossem. São irmãos que nunca tive.

 

Alguns, há mais de 25 anos que crescemos e "vivemos" juntos.

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publicado às 18:21


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