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My take 2

por Maria Joana Almeida, em 26.09.20

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Maria Madalena.

 

Nasceste no ano das palavras más. 29 de Fevereiro trouxe na sua génese, já atípica, um ano que mostrou ser o pior que poderia haver. Para mim. E para muitos.

 

Foste, és, uma espécie de oásis no meio de um deserto. És aqueles segundos no miradouro depois de um dia difícil. És um pequeno milagre, no que quer que isso queira dizer. Talvez este 29 diga (e dirá) muito sobre ti.

 

Cresceste num turbilhão de indefinições, de saídas proibidas, de muitas frustrações, de isolamentos, de medos. Mais da casa do que do mundo. Cresces numa espécie de mundo todo ele questionado e questionável. Mal havíamos saído (pouco) do buraco, caímos logo num outro mais profundo e, este sim, sem chão. Que perceção terás? Que imagem tens de uma avó que a vida decidiu trair?

 

Tens os cabelos loiros e olhos claros que contrastam com a escuridão de alguns dias. És simultaneamente luz e uma bússola para o amor. Terás nascido para podermos melhor resistir a esta vida. Missão que desconheces.

 

Não conheceste os medos e incertezas de uma primeira vez. De uma primeira filha. Houve menos “ses”. És um refúgio de um ano que quero esquecer e riscar. Um ano de onde apenas quero retirar este 29 do segundo mês e guarda-lo num espaço seguro. Não foste planeada, mas não haveria um mundo sem ti.

 

És mais certeza do que dúvidas. É mais fácil contigo mesmo quando é mais difícil. Tudo é relativizado e assente em ti e na tua irmã e nessa evolução, mesmo quando é sempre verão nas manhãs cá de casa porque é como se corressemos a maratona até sairmos. Mesmo quando ao final do dia o tempo parece escapar das mãos porque é sempre curto. Sempre. Mas depois há os beijos, as palavras importantes de amor e construção. As histórias escolhidas à noite de uma biblioteca já grande e recheada. E são estas últimas horas as que fazem o reset para um novo dia alimentado com certezas, com seguranças e a maratona que sabe a vida.

 

Obrigada Madalena. Amar tanto uma segunda vez e ao mesmo tempo é como nos deitarmos na areia num dia quente, balançar numa rede durante horas, descansar os olhos no miradouro mais bonito. É explodir de amor por dentro quando sorris.

 

Obrigada.

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publicado às 18:49

Palavras feitas para voar

por Maria Joana Almeida, em 22.09.20

 

 

 

 

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Quando após duas sessões, e num momento de reflexão de um texto, uma formanda do Curso de Técnica de Ação Educativa escreve:

"A palavra inclusão é utilizada vezes sem conta e, na maior parte das vezes, utilizada para focar o problema e não para fazer alguma coisa que promova essa mesma inclusão. Podemos dizer que há falta de recursos humanos para resolver a situação. As pessoas têm mais o hábito de colocar rótulos perdendo a noção das verdadeiras capacidades de uma criança que tenha alguma limitação. Daquilo que realmente conseguem fazer. É exatamente como diz o texto: Seremos uma sociedade mais justa quando a escola, a empregabilidade, a casa for mais justa. Quem se esforça , quem luta com mais ou menos comprometimento, tem de ser reconhecido. Isto é justiça"

Encontramos esperança e percebemos o bom caminho.

 

Há efetivamente palavras feitas para voar.

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publicado às 21:50

"A vida é assim" (Escola, vírus e afins)

por Maria Joana Almeida, em 15.09.20

 

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"O pequeno livro dos medos" de Sérgio Godinho

 

No decorrer de uma reunião de um conselho de turma discutiam-se as normas para o início deste novo ano letivo. Foram quase 60 minutos a discutir por que lado entravam os alunos, quem higienizava as salas, como se higienizava, se ficavam de pé, se ficavam sentados, a que distância, com que distância, tudo milimetricamente escrito e falado. Perante as dúvidas que se iam acumulando, se resultaria de uma forma ou da outra, e do risco de falhar, quando diretamente questionada uma das mentoras da turma, calmamente, respondeu: - “A vida é assim”. Não foi um “A vida é assim” equiparado a um “É o país que temos”, “Sabes como é em Portugal” ou “Estavas à espera do quê’’. Não. Foi um ”A vida é assim” entre o calmo, um ligeiro rasgo de sentido de humor e o sério. Foi acima de tudo uma frase feita que surgiu, naquele contexto, como um calmante, uma espécie de serenidade, um oásis no meio de um deserto, um lugar-comum rico de sentido.

 

É exatamente esta a expressão correta. “A vida é assim”. A vida empurra-nos contra a parede, tira-nos o tapete do chão, obriga-nos a que, inesperadamente tenhamos de pensar e agir milimetricamente enquanto 2020 continua a fazer o seu papel de nos manter em banho-maria sem prazo validade.

 

Este “A vida é assim” foi pronunciado hoje com sabedoria. Foi pronunciado por alguém que calmamente e friamente está à tona e consegue situar-se entre os antípodas. É que há ainda um longo caminho a percorrer no degradé de cinzento existente entre os arautos da desgraça e os laissez faire.

 

No arranque deste ano letivo, ainda a escola não abriu, e muitos arautos da desgraça esperam com fervor as suas assunções a materializarem-se num aumento de número de casos. Nestes casos parece haver um certo entusiasmo em encontrar evidências em como todo o plano de contingência é incompetente esquecendo-se de que nenhum de nós está do outro lado da barricada. Que “os portugueses” na gíria de inúmeros discursos políticos não são uma entidade onde não pertencemos. Existe também quem, genuinamente, esteja preocupado receando o pior e, também, milimetricamente encaixe a sua vida num quadrado de desinfectante, luvas, máscara e viseira minimizando o espaço possível para qualquer erro. Há quem vista o fato do imortal achando que o vírus a si não lhe assiste como se este contornasse os ”campeões”. E por fim aqueles que assumem e regem-se pelos cinzentos desta vida (desta vida que é assim) e que respeitam o que vivemos, que conhecem os cuidados básicos fazendo uso de uma cidadania plena sem objetores de consciência. Aqueles que sabem que nada pode ser controlado a régua e esquadro e que nas consequências os bodes expiatórios não são só outros. No espetro de cinzentos há quem não fuja das responsabilidades e não se coloque no alto do muro a criticar quem faz e não faz, enquanto de soslaio atira uma máscara para o chão.

 

Tenho uma objecção de consciência muito pessoal nos espaços onde impera o histerismo COVID, não porque não respeite o seu impacto. Respeito. Mas porque este novo vírus não nos deve fazer esquecer outras doenças que matam, que matam mais, de forma mais devastadora. O pânico,o medo, em parte legítimo, pelo seu desconhecimento, não poderá toldar tudo o resto. Houve tempos desperdiçados que poderiam ter sido valiosos. E este é também um facto não menos importante.

 

Não voltar à escola presencial no início deste ano letivo seria assumir que nada é pior do que este vírus, que tudo poderá ser substituído online e que todos serão uns incompetentes na operacionalização das medidas. Não voltar porque não há vacina é querer viver uma vida com livro de instruções como se vivêssemos num gigante laboratório com variáveis intocáveis.

 

Na era das objecções de consciência e da loucura fundamentalista instalada, sentimo-nos reféns de notícias inflamadas, opiniões irracionais e estados de alma “legitimamente” alterados.

 

Os casos irão certamente aumentar, não só propriamente pelo início do ano letivo, mas pela aproximação de condições climatéricas que acentuarão sintomas. Nessa altura os arautos da desgraça dissimulados continuarão a dobrar risos. Risos disfarçados de preocupações com dedo em riste para de imediato lançar culpas (mesmo que desdenhe dos cuidados básicos) a outros bodes expiatórios (os habituais). Serão perigosos porque levarão consigo alguma multidão. Esperemos, acima de tudo, que o desespero não nos atire para doenças, aí sim incuráveis, e certidões de óbito de valores e direitos adquiridos. Pouca gente se rirá depois. E teremos saudades dos inofensivos tempos da Covid.

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publicado às 10:13

40 anos de Fátima e Zeca

por Maria Joana Almeida, em 05.09.20

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Ela tinha cabelo escuro, comprido e um brilhozinho nos olhos, daqueles de Sérgio Godinho. Eram verdes e honestos. Arrebatadores. Era bonita. Muito mesmo. Ainda é.

 

Ele tinha olhos azuis, meigos, pueris. Era magro, correto, tímido, cativante. Ainda é.

 

Ela viveu o 25 e Abril de 1974 nas ruas de Lisboa. Encantada, perspicaz, bonita, jovem, mas de raízes. Ainda hoje faço perguntas sobre esse dia. Ele estava no Norte, no interior, não o viveu, não o percebeu de imediato. Quase ninguém o percebeu ali.

 

Sempre se conheceram, desde sempre. A minha mãe e o meu pai. Ele sempre fora apaixonado por ela. Como não ser..

 

Reencontraram-se em Lisboa, namoraram, casaram, nasci.

 

A Fátima e o Zeca, os meus pais, são de uma geração de trabalho, de não estarem parados, de não se queixarem. Lembro-me da minha mãe dizer, entre o jocoso e o sério: “Parece que há agora uma coisa que se chama depressão pós-parto. Eu lá tive tempo de ter uma depressão? Fui logo trabalhar” A minha mãe di-lo com a convicção de quem iria de imediato socorrer alguém que dela padecesse e de si precisasse.

 

A minha mãe e o meu pai sempre se moveram como um só. Sempre tiveram ambos um brilhozinho nos olhos entre eles, para mim e para o mundo. São de princípios, de valores, corretos, de família, de amigos. Nada a ninguém faltará enquanto estiverem por perto.

 

Os meus pais fazem hoje 40 anos de casados. Terão todos os ingredientes de um casamento de 40 anos. Os bons, os menos bons. Sempre amassaram a massa necessária para resultar. Nunca foi opção à primeira contrariedade desistirem, não por serem de uma determinada de época, mas por serem a Fátima e o Zeca. Sempre lado a lado no caminho. Sempre o “nós” em detrimento do “eu”. Com as suas cedências e exigências. Correu bem. Correu muito bem. Os frutos estão à vista.

 

Foram (são) 40 anos preenchidos com os outros e para os outros. Com o amor sempre visível. Não me lembro de um fim-de-semana sem família ou amigos em casa. Sem um almoço ou um jantar, sem praia no Verão, sem histórias contadas na cadeira de verga na sala, sem chocolates Jubileu, sem risos.

 

A casa dos meus pais. A de cá e a de Viseu, sempre foram (e são) como um abraço quente, reconfortante. São uma “casa”. Daquelas em que calçamos sempre pantufas mesmo quando entramos de salto alto. E aquela de onde nunca queremos sair e desejamos sempre voltar.

 

São amados, muito amados e são também inspiradores. São como se conta na igreja, no dia em que se casam. Até ao fim. Mas eles serão, para sempre, depois de qualquer fim.

 

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publicado às 23:56

Esta casa é uma oficina de corações.

por Maria Joana Almeida, em 31.08.20

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Há um livro para crianças que se chama "Oficina de Corações" e que conta a história de Matias que remendava corações na sua oficina.
 
Há casas que são muitos corações e que, simultaneamente, remendam corações. Corações vazios que passam a cheios, corações partidos que se reconstroem, corações remediados, mas acima de tudo feitas de corações de fibra boa, que habitam gente boa.
 
Há casas que são como um abraço, que nos aquecem mal entramos, que preenchem corações. Esta casa é assim.
A casa que engorda, que serena, que não se zanga, que dá e que recebe, uma casa impossível de estar vazia ou demasiado cheia.
A casa dos que foram, dos que estão, dos que virão. A casa de corações cheios, feita de pedaços de histórias, memórias de uma família. Uma família de gente de fibra boa. Gente que constrói.
 
É a casa. É minha também. Desde que nasci.

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publicado às 21:43

“Os estudos indicam que…”

por Maria Joana Almeida, em 14.08.20

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Não há assunto que não tenha sido submetido a um estudo, quer real ou imaginário, quer pessoal ou coletivo. Os estudos estão em todo o lado e absolutamente endeusados.

 

A expressão “Os estudos indicam que” fazem, recorrentemente, parte do léxico dos ambientes informativos e podem ter tanto de científico como de entediante e bacoco. A sua utilização massiva permite, também, enviesar ideias e fundamentar todos os argumentos. Para cada argumento haverá, com toda a certeza, um estudo.

 

Fica bem e mais completo, em qualquer discurso, dizer: “Os estudos indicam que” independentemente da fonte, do autor, do ano de publicação, do contexto. Tudo deuses menores perante a magnitude de deter verbalmente “ um estudo”. Um estudo é uma carta na manga, um passe vip para a obtenção de credulidade e de continência, Dependendo de quem o usa fica no mesmo patamar das miss que querem paz no mundo e das pessoas que apregoam “Porque eu sou uma pessoa que...”. É frequentemente esquecido que é preciso estudar o estudo para o envergar.

 

“Os estudos indicam que” é uma frase perigosa porque tanto é usada pelos preguiçosos e impostores como pelos que estudam. Pelos que se informam de facto. E por detrás de muita assertividade e segurança residem perigosos chacais que se alimentam da ignorância alheia.

 

Seria importante começar a diferenciar os estudos da vida e os estudos científicos. Não que os estudos da vida não possam ser corretos, mas serão sempre pessoais e intransmissíveis.

 

Os estudos sérios indicarão, com certeza, que há estudos imaginários que corrompem as opiniões, que corrompem a sociedade.

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publicado às 00:12

Para os meus tios. (Para os irmãos)

por Maria Joana Almeida, em 31.07.20

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Não tive irmãos, mas tenho duas filhas. Tenho muitos tios e primos e são a minha irmandade.

 

Vivo o amor de irmãos pela observação da minha mãe com os meus tios e é avassalador, é muito bonito, é muito reconfortante.

 

A minha mãe é a mais velha, é a Matriarca, e está muito doente. No dia da notícia que nos fez partir em cacos senti esse amor de irmãos, da dor instalada e vivida como se todos estivessem ligados por um único fio, um único cordão. Vi-os a ir ao chão, a dor a rasgar o peito. Vi o amor, um amor especial, daquele veio do mesmo sítio e marcado pelas histórias antigas e partilhadas. Não há cumplicidade igual. São seis e funcionam como se fossem um. A dor de um é a dor de todos.

 

Talvez isto não seja sempre assim e não serão todos assim, mas estes irmãos, os meus tios, pertencem aquela fibra de gente boa, gente muito boa que é emotiva, que constrói, que faz acontecer e que sabe amar profundamente.

 

Depois dos cacos espalhados em compartimentos de dor que não conhecíamos, recusaram (recusámos) a ir de novo ao chão. Instalamos a dor e seguimos, num processo de construção, numa caminhada onde a força visceral e o sentido de humor são o antídoto mais valioso, mais curativo.

 

Há alguma distância geográfica que nos separa, mas que não tem dimensão suficiente para os irmãos. Um por um, dois a dois todos estão presentes, todos mostram o amor, todos se encontram nesta ligação umbilical.

 

Algumas doenças ganham sempre. Algumas são infelizmente de desfecho solitário, outras são rodeadas de afeto e outras são preenchidas por constantes fintas aos desfechos, por constantes provas de amor, por constantes presenças, por lutas, por constante construção. E a mãe será sempre uma privilegiada pelos irmãos que tem, pela família que cresceu à sua volta, a de sangue a que se tornou, também, família. Por sentir um amor de cinco irmãos extraordinários que, em nenhum momento, baixam quaisquer braços.

 

Enquanto filha, enquanto sobrinha, enquanto prima, sei a sorte que a minha mãe tem e que eu tenho por sentir esse amor.

 

São a casa, esta casa

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publicado às 03:00

Lista para enfrentar o mundo

por Maria Joana Almeida, em 13.07.20

 

 

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As listas para enfrentar o mundo não se vendem e não têm idade. Há ursos de peluche, e tudo o que representam, até ao final da nossa vida.

 

As listas para enfrentar o mundo podem variar consoante a dor. Há dores avaliadas de zero a dez. Há dores que rebentam a escala dos 10. E nessas dores, as listas, às vezes, ficam temporariamente vazias.

 

Depois da dor instalada há pontos que começam a surgir. Mesmo que saibamos que ainda há mais dor para além da escala. Que há mais dor para além do insuportável. Na lista, depois dos cacos mal amanhados, mal colados, começam a surgir pequenas construções. Dessas construções nascem novas realidades. Uma espécie de mundo paralelo, de pequenos planetas emocionais. A dor está lá. É grande e constante, como se fosse um abraço frio de que nunca nos livramos.

 

Quando escolhemos agarrar nos cacos da vida queremos colá-los e colocá-los o mais próximo do que foram, numa espécie de novo palco. Escolhemos pegar na cadeira de rodas, rir, trocar as voltas à vida, fintar a morte, mesmo sentindo a antítese interna.

 

As listas para enfrentar o mundo não são mais do que fintas à vida. Não são mais do que breves substitutos até equilibramos as novas formas dos cacos.

 

As listas para enfrentar o mundo são feitas de resiliência, de medo, de desnorte, de dor, de força, de pernas bambas, de amor, de saudade. São feitas de lugares de afeto, de doces, de vislumbres, de visões. São um sítio, uma pessoa, várias pessoas. São uma série, o trabalho, os filhos. São uma crença, uma ideia, um telefonema, um mergulho no mar, uma piada, uma gargalhada conjunta, um palavrão, um grito. São os ursos de peluche e os donuts desta vida.

São a nossa salvação.

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publicado às 23:22

Inclusão "by the book"

por Maria Joana Almeida, em 09.07.20

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"Há uma cena particularmente interessante no filme Good Will Hunting (O Bom Rebelde) de 1998, quando Robin Williams, enquanto psicólogo, interpela Matt Damon relativamente aos seus vastos conhecimentos aprendidos exclusivamente através dos livros, dizendo qualquer coisa como isto: “Se eu te perguntar por Michelangelo conseguirás dizer-me tudo sobre a sua obra, aspirações, posicionamento político, mas aposto que não me consegues falar do cheiro da capela sistina, nunca lá estiveste e nunca olhaste para aquele teto de cortar a respiração.”

 

As vivências e a sensibilidade não são ensinadas ou aprendidas “by the book”, é por isso que a utilização, apenas, do universo digital não é suficiente nem substituível do toque, da relação, da emoção presencial.

 

Esta é uma metáfora interessante para a frase: A Inclusão não se decreta.

 

É verdade que existe um Manual para a Inclusão que funciona num sistema dúbio. Aquilo que foi construído com o pressuposto de disponibilizar sugestões e orientações, é inúmeras vezes confundido com uma bíblia e utilizado de forma mais fervorosa do que o mais devoto crente. É muitas vezes seguido à risca relembrando por vezes os célebres jogos de encaixe na primeira infância e dos erros constantes até desenvolvermos a destreza manual e motora para dominar essa arte. Cada medida é encaixada num relatório servindo o texto escrito para “curar” o aluno, como se de um molde se tratasse. E por estar escrito, parece estar, por si só, a acontecer.

 

Após a leitura do Manual ficamos aptos a conhecer metodologias, medidas universais medidas seletivas, medidas adicionais. Somos capazes, num instante, de realizar uma pequena lista do que vou fazer com determinado aluno e de passar o ano a colocar vistos e cruzinhas num papel que tanto pode ser da Maria como do Manuel, porque ambos têm exatamente as mesmas medidas. Esquecem-se, os mais fervorosos do “livro”, que ambos não têm as mesmas vivências, o mesmo background, nem o mesmo objetivo. E ainda que exista um diagnóstico igual que lhes permite a seleção para tais medidas, a Maria não é o Manuel, nem o Manuel é Maria e nem um diagnóstico um fim.

 

Às vezes o aluno não precisa de ter mais tempo para acabar o teste, ou de fazer o teste em sala à parte, mas se calhar precisa de um sinal de pertença e de afeto do professor que se pode traduzir numa simples conversa sobre as angústias, os medos, os sonhos. Talvez precise de esquecer aquele teste e elaborar um trabalho, ou pelo contrário (porque isto é também sinal de afeto), de colocar os pontos nos “is”, ser assertivo, às vezes deixar cair e chamar à responsabilidade com a mensagem subentendida de que eu interesso-me por ti e conheço o teu valor, independentemente de qualquer diagnóstico escrito. Ainda que estas conversas não venham expressamente explícitas no Manual, elas devem residir no nosso âmago e ser parte do nosso profissionalismo. Cada professor terá o seu manual de inclusão interno que se traduz em gestos, ações e palavras e, arrisco dizer, que aqueles que menos usam a palavra inclusão ou o Manual, em prol de olhar mais para os seus alunos, estão, seguramente, mais comprometidos com a sua profissão.

 

Agir “by the book”perante a Educação ou perante qualquer aspeto da vida é assumir que existe um livro de instruções no nosso caminho e que tudo se resume a uma simples dicotomia de cores: preto e branco. A razão não está nos acérrimos defensores de algo a que chamam Inclusão (que os cega da verdade e da razão esgotando o tema numa lógica simples de obrigação, esquecendo as particularidades de cada um) nem nos acérrimos defensores da separação de determinados alunos pelas suas caraterísticas e apologistas dos rakings. Ambas posições são prenúncios de ditaduras. As leituras enviesadas e unilaterais que vêm de modas, de assimilação de informações pouco claras e de experiências muito pessoais toldam a empatia e a opinião. Estas atitudes prejudicam recorrentemente um trabalho que não pode ser olhado de uma forma geral, mas sim, através de um respeito muito individual e particular que permita a qualquer aluno um caminho que lhe faça sentido.

 

As capelas sistinas desta vida só ganham sentido e existem na sua plenitude quando são vividas e quando têm a capacidade de nos emocionar porque permitem a capacidade de sentir e não apenas de carimbar um qualquer passaporte. As vidas dos alunos não podem ser regidas por listas de medidas em relatórios. Merecem que cada palavra escrita sobre si tenha em conta, mais do que o que está expresso num Manual, uma história, um objetivo, um caminho individual, que deve ser, por todos, ampliado."

in Público 03-07-2020

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publicado às 23:00

5 perguntas, 5 respostas com André Góis

por Maria Joana Almeida, em 16.06.20

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O André faz parte do meu círculo de amigos. É pai, político, web developer, músico e um pensador. É parte integrante daqueles que sabem identificar os problemas da nossa sociedade de forma sensata, fundamentada, argumentativa e sem soberba. Dos que não se deixa levar pela rama e deseja ir à raiz do problema. E, principalmente, dos que “sai do sofá” e quer fazer parte da solução tendo um papel ativo e responsável nos vários palcos da sua vida.

Obrigada André por esta entrevista.

 

 

  1. André, és Web Developer, poderia fazer uma pesquisa para perceber mais exatamente aquilo que fazes mas é sempre mais seguro e eficaz perguntar-te diretamente. O que é um Web developer?

 

“Web developer” é o nome que se dá a um tipo específico de programador que se especializa em desenvolver software para a World Wide Web, que por sua vez é tudo aquilo que pode ser acedido na internet através de um endereço. Principalmente sites, mas não só.

As pessoas estão mais habituadas à expressão Web designer, que é quem trabalha o desenho gráfico e organização de um site, o Web developer, de uma forma muito simplificada é quem desenvolve as funcionalidades e torna o site interactivo.

No início da internet um site era pouco mais que uma coleção de documentos ligados entre si. Tinham texto, imagens, alguns detalhes interactivos e depois links para outros documentos, e por aí em diante. Nos últimos anos aquilo a que se chama um site transformou-se numa coisa progressivamente mais sofisticada, tanto que a fronteira entre o software que corremos dentro browser ou fora dele se desvaneceu. É cada vez mais a normal usar o browser como o principal meio para interagir com os nossos dispositivos. Recebemos e enviamos emails, usamos processadores de texto, folhas de cálculo, editamos imagens, vemos filmes, ouvimos música, fazemos compras, comunicamos uns com os outros, etc, tudo em sites. O trabalho de um Web developer é desenvolver estas ferramentas.

 

 

  1. A tua ferramenta de trabalho é o computador, o que te permite uma maior mobilidade não havendo uma obrigatoriedade de posto fixo. Encontras alguma desvantagem nesta possibilidade?

 

Essa é uma pergunta que tem uma resposta chata, que é “depende”. 

Na minha profissão, trabalhar remotamente é perfeitamente possível e é uma coisa que já fazia com alguma regularidade antes do confinamento. Ao contrário de muitas pessoas não foi uma coisa que tivesse que aprender a fazer ou que exigisse adaptação. Para trabalhar só preciso de um computador e de ligação à internet. Isso permite tanto estar num escritório, como em casa, numa biblioteca, num café, etc.

Isso traz alguma autonomia e liberdade para organizar o meu dia. É particularmente útil com crianças pequenas. Há ocasiões e fases de projectos em que ainda é útil (e saudável) estar com os meus colegas, mas muitas vezes as pessoas deslocam-se diariamente de casa para o trabalho e do trabalho para casa, com custos muito elevados (de tempo, financeiros, emocionais e até ambientais) sem que isso traga propriamente alguma vantagem. No fundo é um bocado olhar para o trabalho como uma coisa que se faz e não como um sítio para onde se vai. Quando desligamos esses dois sentidos da palavra “trabalho” conseguimos por exemplo, e tenho períodos em que isso acontece comigo, viver e trabalhar em regiões ou países diferentes.

No entanto isto não quer dizer que seja sempre possível ou desejável trabalhar remotamente. Obviamente a natureza de muitas profissões não é de todo compatível com teletrabalho, mas mesmo quando é não é líquido que seja sempre uma coisa positiva.

O maior perigo é mesmo a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo para todas as outras áreas da vida se esvanecer. Isto pode partir da própria pessoa, seja por necessidade ou dificuldade em separar as coisas, mas também pode nascer de pressão externa. Uma relação laboral desequilibrada é uma relação laboral desequilibrada, seja dentro do mesmo edifício ou não, e trabalhar de casa pode criar a expectativa por parte do empregador de existir uma disponibilidade total e constante. 

Os smartphones, chats, emails, etc, já criam um ambiente em que estamos sempre ligados, adicionando a isso o estarmos sempre potencialmente “no escritório” pode-nos fazer regredir e não avançar na nossa relação com o trabalho. Há países onde o “direito a desligar” já é levado muito a sério e acho que, tendo em conta que parece haver um movimento de várias empresas para uma maior aceitação do teletrabalho (provocado muito por esta experiência forçada do confinamento) é preciso garantir que esse movimento é positivo e nos leva enquanto comunidade para um sítio melhor.

 

 

  1. Para além da tua profissão, e de outros papéis que desempenhas, és pai. Existe um debate, que não é recente, no que diz respeito à utilização de determinadas tecnologias na escola, nomeadamente a utilização do telemóvel. Os argumentos vão desde à proibição total pelo lado menos positivo que a utilização deste dispositivo pode ter, até à possibilidade do uso do telemóvel como parte integrante de uma aula. Na tua opinião este é um debate que te faz eco na sociedade tecnológica em que vivemos?

 

Bem, primeiro é preciso desmontar a ideia de “novas tecnologias”. Muito daquilo a que nos referimos já não é propriamente novo. Muitas destas tecnologias já têm décadas. Alguém que tenha 20 anos agora já não conheceu o mundo sem o digital. E mais que isso, acho que o estado eterno de “novidade” contribui para se continuar a olhar para estas coisas como externas ao “mundo real”, quando no fundo são uma parte muito relevante da nossa realidade e têm que ser vistas como tal. Aqui a escola, como algo que nos dá as ferramentas para ler e interpretar o mundo, tem um papel fundamental na unificação destas “realidades”.

Por exemplo, há 10 anos ainda era raro estar ligado à internet na rua, agora assume-se que, por omissão, estamos todos sempre “online” e isto será cada vez mais verdade. Os dispositivos fazem parte da nossa vida, ter um contato progressivo com eles e aprender a usá-los é essencial. E aprender a usá-los não é só aquilo a que se chama normalmente “literacia digital”.

Existe esse primeiro nível básico que a tem a ver com conhecer as ferramentas e saber usá-las numa perspectiva operativa (usar um processador de texto, folha de cálculos, o e-mail, etc), mas existe um outro nível cada vez mais importante que é saber gerir a nossa vida digital. A nossa interação com os outros, mas também com as instituições, seja o estado, um banco, a comunicação social, etc, é feita cada vez mais online (se não for já exclusivamente online) e muitos de nós temos um entendimento muito limitado sobre como flui a informação na internet ou sobre como a podemos aproveitar da melhor forma, ou por outro lado como nos podemos salvaguardar das várias ameaças que existem.

Da mesma forma que ensinamos os nossos filhos a andar na rua, a não falar com estranhos, a olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada, também há muito a aprender sobre a nossa presença digital. Saber proteger a nossa privacidade e os nossos dados, saber verificar as fontes de notícias que recebemos antes de as reproduzir nas redes, saber lidar com cyberbullying, saber perceber que a internet é uma nova forma de espaço público e que muito daquilo que fazemos online é potencialmente visível (e registado) por terceiros, etc.

E atenção que não estou a falar de um conhecimento técnico profundo. Por exemplo, não sou partidário de uma corrente que acha que temos que ensinar programação a todas as crianças, não faz sentido. Usando uma metáfora, não temos todos que ser mecânicos para sabermos usar um automóvel de uma forma eficaz, segura e responsável. Nesse sentido parece-me quase absurdo pensar em banir os dispositivos das escolas.

Sei que muitas das preocupações dos pais e professores têm a ver com os dispositivos serem fontes de distração e portais para fora do espaço da escola. Acho que aqui depende muito da idade dos alunos, é obviamente preciso adaptar. No entanto é preciso deixar claro que usar dispositivos nas aulas não quer dizer necessariamente que tenham que ser, ou até que devam ser, os dispositivos pessoais dos miúdos. Aliás, é preciso não esquecer que o acesso a estas “novas tecnologias” é ainda muito desigual. Cerca de um quarto das famílias não têm acesso à internet, portanto quando falamos em usar dispositivos na escola temos que ter em atenção que é preciso garantir que não fica ninguém para trás e que estaremos a diminuir o fosso e não a aumentá-lo.

Por fim, e ainda relacionado com a desigualdade, acho que o digital na escola tem um potencial ainda timidamente explorado para a partilha de conteúdos e materiais de apoio às aulas, ou até de aulas propriamente ditas (como tem acontecido com a telescola, por exemplo). As escolas não são todas iguais, não estão em regiões iguais, não têm bibliotecas iguais e não têm os mesmos recursos disponíveis. Uma das principais vantagens do digital é que assim que um recurso é criado é possível reproduzi-lo infinitamente com custos muito baixos. Fazendo talvez um pouco o paralelo com o tema do teletrabalho, que uma das vantagens que tem é não fazer depender o acesso ao trabalho do sítio em que vivemos, acho que também o digital pode ter um efeito paralelo nas escolas.

 

 

  1. As circunstâncias atuais inesperadas colocaram–nos, maioritariamente em time in, colocando a própria escola em teletrabalho. O mundo continuou de forma não presencial o que nos pode levar a repensar toda uma dinâmica e percepção de “trabalho”. Quais os principais desafios nesta eventual mudança de paradigma laboral?

 

É importante não esquecer que o teletrabalho continua a ser trabalho. O sítio onde se trabalha é só um dos aspectos. O trabalho continua a ter problemas muito antigos e a tecnologia aqui pode trazer algumas oportunidades, mas também pode trazer (e já traz) problemas e desafios. Continuamos a trabalhar horas a mais, o nível dos salários em Portugal continua muito baixo, ainda não invertemos o sentido da precarização do trabalho, aliás aqui a tecnologia também tem tido um papel negativo ao criar aquilo a que se chama “gig economy”, que é um nome novo para um desses problemas antigos que referi. Estes continuam a ser os pontos onde é necessário falar de “mudança de paradigma laboral”. Se não existe previsibilidade na relação com o trabalho, ou se não temos rendimentos suficientes para assegurar o essencial nossa vida, o local onde se trabalha passa para um plano secundário. 

Relativamente ao teletrabalho em particular já falei em cima do problema do “direito a desligar”, acho que esse é um dos desafios, e é algo com que já temos que lidar há algum tempo, mas há mais desafios.

Outro desafio está relacionado com os custos do espaço e do equipamento necessário para trabalhar. Um trabalhador por conta de outrem quando se desloca para o escritório da empresa não é esperado que leve o próprio computador, ou que leve a cadeira onde se vai sentar. Em teletrabalho as coisas podem não ser tão claras. Há o perigo do esvanecimento da fronteira entre o trabalhador por conta de outrem e o profissional liberal, o que cria um desequilíbrio de responsabilidade e de encargos entre o trabalhador e o empregador.

Depois, e partindo do princípio que existe uma relação de trabalho saudável e justa, existem desafios mais operativos com o teletrabalho. Trabalhar sozinho e estar ao mesmo tempo integrado numa equipa exige organização e processos adaptados a essa realidade. Diria mesmo que o mais difícil não é o trabalho remoto, é a colaboração remota que é um desafio. É preciso comunicar com as outras pessoas de uma forma eficiente, é preciso planear e é preciso ter uma forma simples de acompanhar o progresso da equipa. Acho que não é por acaso que a minha área [a programação] está tão bem adaptada a esta realidade. Por um lado ajuda muito ter destreza na utilização das ferramentas digitais. Por outro lado a natureza sistemática do trabalho do programador faz com que seja possível dividir os projectos em partes muito pequenas, o que por sua vez permite planear cada semana e cada dia com alguma precisão. Isso também torna mais fácil dividir o trabalho pelas equipas e permite a autonomia de cada um durante grandes períodos.

Para terminar acho que é importante dizer que a escolha entre usar ou não o teletrabalho não tem que ser uma escolha binária. Existem várias configurações possíveis, como estar fora alguns dias da semana, meio dia, ou alternar por temporadas. Isso pode permitir usufruir de algumas vantagens do trabalho remoto mitigando as desvantagens.

Não acho que o teletrabalho possa configurar propriamente um novo paradigma. Tenho visto reacções que vão da euforia à exasperação, e como acontece normalmente a realidade estará algures no meio. É mais uma ferramenta que é bom que esteja à disposição de quem quer ou precisa, mas sempre sem esquecer que o trabalho tem outros desafios. E é especialmente importante não substituir um dogma por outro dogma.

 

 

  1. Na tua perspetiva, olhando para as várias dimensões que ocupas, e para o debate em torno das novas tecnologias, como é que encaras a Educação no nosso País? O que precisa a nossa Escola para responder aos desafios atuais e para onde caminhamos?

 

Tentando resumir numa frase, acho que a escola de que precisamos é precisamente uma que abrace a ideia de que não sabemos para onde caminhamos.

A minha passagem pela escola, e não vejo ainda diferenças substanciais na escola das minhas filhas, foi baseada em duas ideias principais. Uma é uma ideia de previsibilidade do futuro, de que existe uma sequência linear de etapas para superar, e que se forem superadas sem grandes percalços o futuro está garantido. A outra é uma ideia de uniformização, que resulta de uma mentalidade industrial, que é obcecada em transformar tudo em indicadores aferíveis, comparáveis e reproduzíveis, mas que deixa pouco espaço para a diversidade de interesses, diversidade de competências e diversidade de percursos. 

Em relação à ideia de previsibilidade parece-me claro que se há coisa com que podemos contar é com a imprevisibilidade do futuro. Não é possível saber que competências técnicas serão importantes daqui a 20 anos. Cada vez mais profissões são automatizadas ou mudam radicalmente de natureza à medida que o tempo passa, e tudo indica que isso continuará a acontecer mais e mais depressa. Nesse sentido parece-me anacrónico insistir num modelo de ensino baseado em ciclos de memorização/avaliação que vão sucessivamente afunilando com vista a uma especialização qualquer que não sabemos sequer se vai existir. Na minha opinião é preciso desenvolver competências mais transversais, dar ferramentas para ler a realidade, para a interpretar, e para a alterar. É preciso estimular a curiosidade, promover a criatividade e isso consegue-se não estigmatizando o erro. Na minha experiência a única forma de inovar é já ter experimentado e errado vezes suficientes até se encontrar qualquer coisa nova. A única forma de não errar é repetir só o que já se conhece.

Sobre a ideia de uniformização, a forma como o sistema está desenhado assemelha-se uma escada, como vários degraus e patamares, em que no topo está o curso superior. É uma forma redutora e perigosa de olhar para o potencial de cada um de nós e um sistema que cria a ideia dos que “ficam pelo caminho”, como se não tivessem capacidade para continuar a subir, ou simplesmente caíssem da escada. Ora aquilo de que precisamos é exactamente do contrário, de diversidade e de interseção de caminhos. as comunidades mais diversas são por norma as mais saudáveis e as mais resilientes.

Sem uma alteração profunda de modelo arriscamo-nos a desaproveitar o nosso potencial individual e colectivo, e dados os desafios colectivos que temos pela frente acho que esse é um risco que não podemos correr. É urgente fomentar duas coisas que parecem contraditórias, mas não são. A autonomia e a capacidade de colaborar. Colaborar não só no sentido de “co-laborar” que aponta para um “trabalhar/laborar” em conjunto, mas também no sentido  tomar decisões em conjunto, de saber ouvir, debater, construir e sustentar argumentos, encontrar soluções, sejam elas consensos ou compromissos. Uma coisa que em retrospectiva me choca na minha passagem pela escola, e de que me apercebi muito tarde, foi que em nenhuma outra altura da minha vida passei tanto tempo numa sala com pelos menos outras 20 pessoas da minha idade, e no entanto a comunicação era bidirecional entre o professor e cada um dos alunos individualmente em vez de ser uma comunicação em rede. Por absurdo é quase como se ter vários alunos na mesma sala fosse apenas a consequência de uma qualquer optimização de recursos e não um recurso (valiosíssimo) em si. 

Todos nós, tanto individualmente, como em Portugal, como enquanto humanidade, temos muitos desafios e ameaças pela frente que vamos ter que saber encarar e, com alguma sorte, transformar em oportunidades. Mas para isso temos que conseguir usar melhor o potencial de cada um de nós e de todos. Para isso não basta fazer um debate que se fique pelo encontro entre “novas tecnologias” e o sistema de ensino que temos agora, é preciso mesmo ir à raiz do problema e perguntar o que queremos da escola.

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publicado às 17:16


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