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Escola e tolerância

por Maria Joana Almeida, em 18.10.20

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Por muito tempo que viva nunca conseguirei perceber o fundamentalismo, a vida a preto e branco. A falta de equilíbrio e bom senso. O definir a vida entre dois extremos. O querer viver sem cinzentos é um completo absurdo e um espaço de ignorância.

 

A escola e a esfera familiar não são, singularmente, detentoras da verdade nem antípodas. Não estão destituídas. É impossível. A escola educa.  

 

À escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. Apesar de todas as crenças, enquanto mãe, transmitirei, naturalmente, quer consciente ou inconscientemente a minha crença. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

 

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos.

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publicado às 22:45

Educação Inclusiva em voz off.

por Maria Joana Almeida, em 13.10.20

OS BASTIDORES DA.jpg

Olá, bem-vindos aos bastidores da Educação Inclusiva. Este é um espaço sem manuais, sem remédios, sem carimbos, sem chapa 5, sem fórmulas certas e por isso este é o espaço certo. Os manuais e legislações já foram lidos, escrutinados, usados, são precisos no que escrever e no que selecionar e, por isso, tão incertos. São mais imunes ao nosso âmago. Terão tanto de surpreendente como de óbvio consoante as nossas histórias e vivências. Num manual é mais fácil operamos no geral e mais desafiante particularizar. Num Manual é fácil todos serem Manuel e Maria quando, naturalmente, não são.

 

Este não é um espaço para responder linearmente a perguntas, nem um espaço para tirar notas certinhas num papel e poder aplicar na Escola. Isto não é um exame.

 

Nos bastidores estou eu e o outro, sem formalismos, sem soberba, sem assunções. Apenas duas ou mais histórias à espera de se cruzar. Nos bastidores é onde se alinha a peça para brilhar ou cair no palco. Não desanimemos com a segunda opção. Cair também é aprendizagem.

 

Vamos pôr os pontos nos “is”. Nada na vida é “by the book” ou se é, podendo naturalmente ser um caminho, não pode ser chamado vida. Morreu à partida na perda de genuinidade. Educar by the book não é educar. Aplicar medidas no âmbito da educação inclusiva by the book é tão entusiasmante ou tão estéril como tratar de um qualquer assunto na segurança social.

 

Evitemos o óbvio. Centremo-nos em nós, nos outros. Por instantes saltemos diagnósticos, listas, currículos, aprendizagens essenciais, computadores e avaliações. Concentremo-nos nas histórias. Nos bastidores.

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publicado às 21:53

5 perguntas, 5 respostas com o ator Gonçalo Lello

por Maria Joana Almeida, em 11.10.20

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C10H14N2 é uma expressão a reter, não enquanto expressão química da nicotina, mas enquanto peça escrita por Sandra José e apaixonadamente interpretada por Gonçalo Lello que esteve recentemente em cena na Casa do Coreto em Carnide.

Há muito tempo que não via uma peça, e há muito tempo que não via uma peça tão bem escrita e principalmente tão bem interpretada. Sozinho, o Gonçalo consegue preencher a sala. É o cancro, é a Margarida, é o amor, o humor, a luta, a angústia, o escárnio, o peso.. Consegue tocar em cada um de nós. As palavras voam. São sentidas, são inteligentes, são cheias. É um belíssimo texto.

Tive de conhecer o ator.

O Gonçalo é ator há quase 20 anos. Foi atrás do sonho. E ainda bem. Move-se por paixão, por princípios, por valores, pelo seu código pessoal e intransmissível. É nostálgico, atento, intenso, generoso. O Gonçalo percebe-se nesta peça.

O texto merece ser ouvido, o Gonçalo merece ser visto. Como um imperativo cultural.

 

Obrigada por esta entrevista.

 

  1. Há uma passagem que adoro na recente peça que fizeste, C10H14N2 da Sandra José, que diz: “Dois mais dois deixaram de ser quatro, quando me disseste talvez...”. O que mais te apaixonou neste texto?

 

Conheci este texto há cerca de 8 anos, através do Teatro Rápido, no Chiado. Uma versão curta (15 minutos), do texto original e integral de C10H14N2. Adorei o tema da peça, amor/desamor, perda, doença terminal, doença do coração, da mente... Fiquei maravilhado com a carga e força das palavras escritas pela Sandra José e pela óptima interpretação, na altura, do Rodrigo Saraiva. Fui ver a peça várias vezes. Como primeiro desafio para um monólogo, este texto seria sempre a minha escolha. Sou um privilegiado poder conhecer a escrita da Sandra José. E agora, poder dizê-la.

 

  1. Estiveste na área de gestão de marketing mas o tua vida levou-te até ao teatro, dois mais dois não têm mesmo de ser 4. Que Gonçalo quis virar este percurso?

 

A minha geração, nasci em 73, foi educada para “tirar uma licenciatura para ser alguém na vida.” Foi o que eu fiz, meio aos tombos e sem grandes certezas sobre o quereria de facto. Na altura não haviam workshops. Assim que obtive a minha independência financeira, depois de ter entrado no mercado laboral, na área do marketing, percebi que havia uma coisa apenas que era certa, só vivemos uma vida. Eu teria de viver a vida que eu queria viver, e não a vida que sonharam para mim. Não foi uma decisão fácil, ainda hoje não sei se foi a melhor escolha, mas foi a minha escolha, a minha vontade e o meu sonho. Agradeço muito a importância e apoio do meu anjo da guarda, a Ana Brito e Cunha, da mãe da minha filha Beatriz, a Maria João e como não poderia deixar de ser os meus pais, o meu ministério da cultura. Li um dia há muitos anos uma ideia de um escritor e filósofo americano, de seu nome Ralph Waldo Emerson que dizia o seguinte: “Rir muito e com frequência, ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afecto das crianças, merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos, apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros, deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social, saber que ao menos uma vida respirou mais facilmente porque existis-te. Isso é ter sucesso.” Ainda acredito nisso.

 

  1. As personagens que interpretas são de um Gonçalo que já existe ou descobres outros no processo de construção?

 

O Gonçalo (a pessoa e o actor) existe sempre em qualquer trabalho. Nós somos a roupagem à criação das criaturas que irão dar origem e vida às personagens. Em qualquer trabalho há sempre, ou acredito haver, o fascínio da descoberta e aprendizagem. Em teatro, como actor interessa-me mais esse trabalho, porque é maior o trabalho e disponibilidade. Há mais tempo. “Temos sempre tempo, quando temos tempo.”

 

  1. Quais as peças e personagens do teatro que mais te ficaram na memória? Algum foi fundamental para a tua decisão de ser ator e consequente construção?

 

Foram muitas as personagens e foram algumas as peças que me influenciaram, assim como filmes e realizadores. Mas o que mais me influencia são os actores. Adoro ver bons actores a trabalhar. E nisso tenho tido sorte e procuro muito essa fortuna. Saliento alguns exemplos: Mário Viegas, António Feio, Filipe Duarte, Dinarte Branco, Rita Loureiro, Albano Jerónimo, Isabel Abreu, José Raposo, Maria Joâo Luis, Miguel Borges, Sandra José, Sofia de Portugal, Ana Brito e Cunha, Maria Rueff, Eduardo Frazão, Beatriz Batarda, João Lagarto, Rui Melo, Rui Luis Brás, Joana Brandão, Nicolau Breyner, Nuno Lopes e Carla Galvão. E nos estrangeiros: Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Meryl Streep. Alexandra Lencastre ... tantos. Al Pacino, Peter Sellers, Marlon Brando, obviamente. O que me importa como actor, não é a carreira, é fazer bem o meu trabalho. Ser leal com a minha profissão. Ser um ser educado, consciente do mundo que me rodeia, conseguir questionar e tentar passar mensagem. Fazer o outro pensar, ou apenas divertir-se. É essa a minha responsabilidade. Se sentir que o que estou fazer está certo e que está a ir a um determinado lugar e que faz sentido persisto, eventualmente as coisas acontecerão. Eu não me arrependo de nada. Sinto que cometi o que chamaria de erros. Escolhi o projecto errado ou não persegui determinado personagem, mas tudo o que faço é parte de mim e só eu irei obter algo disso. Eu acredito num dia de cada vez; tenho HOJE, é isso que eu tenho. Estou mais vivo no teatro do que em qualquer outro lugar, mas o que levo para o teatro, eu recebo-o das ruas. Nunca estarei sozinho se tiver um livro.

 

  1. Disseste-me numa conversa que te fazia sentido um único Ministério que englobasse a Educação e Cultura. Gostava que desenvolvesses esta ideia. 

Como actor e público, é-me indiferente ter um ministério da cultura ou uma secretaria de estado. O que importa é haver investimento orçamental na cultura em Portugal. Andamos há 40 anos a lutar por 1% para a cultura, quando deveríamos ter um mínimo de 5%. A cultura e as artes em geral são também produtos vendáveis. E quando digo vendáveis, digo de exportação. A cultura e o acesso à cultura, às artes, deve ser para todos. É um direito. Assim como a educação. É na escola que podemos iniciar a construção de novos públicos. Instruir melhor através da obrigatoriedade do ensino da expressão dramática. Dá novas dinâmicas, liberta ansiedades, faz ganhar a confiança e instrui e passa conhecimento. Daí, para mim, ser primordial haver um super ministério, Educação e Cultura.

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publicado às 21:51

My take 2

por Maria Joana Almeida, em 26.09.20

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Maria Madalena.

 

Nasceste no ano das palavras más. 29 de Fevereiro trouxe na sua génese, já atípica, um ano que mostrou ser o pior que poderia haver. Para mim. E para muitos.

 

Foste, és, uma espécie de oásis no meio de um deserto. És aqueles segundos no miradouro depois de um dia difícil. És um pequeno milagre, no que quer que isso queira dizer. Talvez este 29 diga (e dirá) muito sobre ti.

 

Cresceste num turbilhão de indefinições, de saídas proibidas, de muitas frustrações, de isolamentos, de medos. Mais da casa do que do mundo. Cresces numa espécie de mundo todo ele questionado e questionável. Mal havíamos saído (pouco) do buraco, caímos logo num outro mais profundo e, este sim, sem chão. Que perceção terás? Que imagem tens de uma avó que a vida decidiu trair?

 

Tens os cabelos loiros e olhos claros que contrastam com a escuridão de alguns dias. És simultaneamente luz e uma bússola para o amor. Terás nascido para podermos melhor resistir a esta vida. Missão que desconheces.

 

Não conheceste os medos e incertezas de uma primeira vez. De uma primeira filha. Houve menos “ses”. És um refúgio de um ano que quero esquecer e riscar. Um ano de onde apenas quero retirar este 29 do segundo mês e guarda-lo num espaço seguro. Não foste planeada, mas não haveria um mundo sem ti.

 

És mais certeza do que dúvidas. É mais fácil contigo mesmo quando é mais difícil. Tudo é relativizado e assente em ti e na tua irmã e nessa evolução, mesmo quando é sempre verão nas manhãs cá de casa porque é como se corressemos a maratona até sairmos. Mesmo quando ao final do dia o tempo parece escapar das mãos porque é sempre curto. Sempre. Mas depois há os beijos, as palavras importantes de amor e construção. As histórias escolhidas à noite de uma biblioteca já grande e recheada. E são estas últimas horas as que fazem o reset para um novo dia alimentado com certezas, com seguranças e a maratona que sabe a vida.

 

Obrigada Madalena. Amar tanto uma segunda vez e ao mesmo tempo é como nos deitarmos na areia num dia quente, balançar numa rede durante horas, descansar os olhos no miradouro mais bonito. É explodir de amor por dentro quando sorris.

 

Obrigada.

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publicado às 18:49

Palavras feitas para voar

por Maria Joana Almeida, em 22.09.20

 

 

 

 

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Quando após duas sessões, e num momento de reflexão de um texto, uma formanda do Curso de Técnica de Ação Educativa escreve:

"A palavra inclusão é utilizada vezes sem conta e, na maior parte das vezes, utilizada para focar o problema e não para fazer alguma coisa que promova essa mesma inclusão. Podemos dizer que há falta de recursos humanos para resolver a situação. As pessoas têm mais o hábito de colocar rótulos perdendo a noção das verdadeiras capacidades de uma criança que tenha alguma limitação. Daquilo que realmente conseguem fazer. É exatamente como diz o texto: Seremos uma sociedade mais justa quando a escola, a empregabilidade, a casa for mais justa. Quem se esforça , quem luta com mais ou menos comprometimento, tem de ser reconhecido. Isto é justiça"

Encontramos esperança e percebemos o bom caminho.

 

Há efetivamente palavras feitas para voar.

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publicado às 21:50

"A vida é assim" (Escola, vírus e afins)

por Maria Joana Almeida, em 15.09.20

 

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"O pequeno livro dos medos" de Sérgio Godinho

 

No decorrer de uma reunião de um conselho de turma discutiam-se as normas para o início deste novo ano letivo. Foram quase 60 minutos a discutir por que lado entravam os alunos, quem higienizava as salas, como se higienizava, se ficavam de pé, se ficavam sentados, a que distância, com que distância, tudo milimetricamente escrito e falado. Perante as dúvidas que se iam acumulando, se resultaria de uma forma ou da outra, e do risco de falhar, quando diretamente questionada uma das mentoras da turma, calmamente, respondeu: - “A vida é assim”. Não foi um “A vida é assim” equiparado a um “É o país que temos”, “Sabes como é em Portugal” ou “Estavas à espera do quê’’. Não. Foi um ”A vida é assim” entre o calmo, um ligeiro rasgo de sentido de humor e o sério. Foi acima de tudo uma frase feita que surgiu, naquele contexto, como um calmante, uma espécie de serenidade, um oásis no meio de um deserto, um lugar-comum rico de sentido.

 

É exatamente esta a expressão correta. “A vida é assim”. A vida empurra-nos contra a parede, tira-nos o tapete do chão, obriga-nos a que, inesperadamente tenhamos de pensar e agir milimetricamente enquanto 2020 continua a fazer o seu papel de nos manter em banho-maria sem prazo validade.

 

Este “A vida é assim” foi pronunciado hoje com sabedoria. Foi pronunciado por alguém que calmamente e friamente está à tona e consegue situar-se entre os antípodas. É que há ainda um longo caminho a percorrer no degradé de cinzento existente entre os arautos da desgraça e os laissez faire.

 

No arranque deste ano letivo, ainda a escola não abriu, e muitos arautos da desgraça esperam com fervor as suas assunções a materializarem-se num aumento de número de casos. Nestes casos parece haver um certo entusiasmo em encontrar evidências em como todo o plano de contingência é incompetente esquecendo-se de que nenhum de nós está do outro lado da barricada. Que “os portugueses” na gíria de inúmeros discursos políticos não são uma entidade onde não pertencemos. Existe também quem, genuinamente, esteja preocupado receando o pior e, também, milimetricamente encaixe a sua vida num quadrado de desinfectante, luvas, máscara e viseira minimizando o espaço possível para qualquer erro. Há quem vista o fato do imortal achando que o vírus a si não lhe assiste como se este contornasse os ”campeões”. E por fim aqueles que assumem e regem-se pelos cinzentos desta vida (desta vida que é assim) e que respeitam o que vivemos, que conhecem os cuidados básicos fazendo uso de uma cidadania plena sem objetores de consciência. Aqueles que sabem que nada pode ser controlado a régua e esquadro e que nas consequências os bodes expiatórios não são só outros. No espetro de cinzentos há quem não fuja das responsabilidades e não se coloque no alto do muro a criticar quem faz e não faz, enquanto de soslaio atira uma máscara para o chão.

 

Tenho uma objecção de consciência muito pessoal nos espaços onde impera o histerismo COVID, não porque não respeite o seu impacto. Respeito. Mas porque este novo vírus não nos deve fazer esquecer outras doenças que matam, que matam mais, de forma mais devastadora. O pânico,o medo, em parte legítimo, pelo seu desconhecimento, não poderá toldar tudo o resto. Houve tempos desperdiçados que poderiam ter sido valiosos. E este é também um facto não menos importante.

 

Não voltar à escola presencial no início deste ano letivo seria assumir que nada é pior do que este vírus, que tudo poderá ser substituído online e que todos serão uns incompetentes na operacionalização das medidas. Não voltar porque não há vacina é querer viver uma vida com livro de instruções como se vivêssemos num gigante laboratório com variáveis intocáveis.

 

Na era das objecções de consciência e da loucura fundamentalista instalada, sentimo-nos reféns de notícias inflamadas, opiniões irracionais e estados de alma “legitimamente” alterados.

 

Os casos irão certamente aumentar, não só propriamente pelo início do ano letivo, mas pela aproximação de condições climatéricas que acentuarão sintomas. Nessa altura os arautos da desgraça dissimulados continuarão a dobrar risos. Risos disfarçados de preocupações com dedo em riste para de imediato lançar culpas (mesmo que desdenhe dos cuidados básicos) a outros bodes expiatórios (os habituais). Serão perigosos porque levarão consigo alguma multidão. Esperemos, acima de tudo, que o desespero não nos atire para doenças, aí sim incuráveis, e certidões de óbito de valores e direitos adquiridos. Pouca gente se rirá depois. E teremos saudades dos inofensivos tempos da Covid.

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publicado às 10:13

40 anos de Fátima e Zeca

por Maria Joana Almeida, em 05.09.20

Apresentação1.jpg

Ela tinha cabelo escuro, comprido e um brilhozinho nos olhos, daqueles de Sérgio Godinho. Eram verdes e honestos. Arrebatadores. Era bonita. Muito mesmo. Ainda é.

 

Ele tinha olhos azuis, meigos, pueris. Era magro, correto, tímido, cativante. Ainda é.

 

Ela viveu o 25 e Abril de 1974 nas ruas de Lisboa. Encantada, perspicaz, bonita, jovem, mas de raízes. Ainda hoje faço perguntas sobre esse dia. Ele estava no Norte, no interior, não o viveu, não o percebeu de imediato. Quase ninguém o percebeu ali.

 

Sempre se conheceram, desde sempre. A minha mãe e o meu pai. Ele sempre fora apaixonado por ela. Como não ser..

 

Reencontraram-se em Lisboa, namoraram, casaram, nasci.

 

A Fátima e o Zeca, os meus pais, são de uma geração de trabalho, de não estarem parados, de não se queixarem. Lembro-me da minha mãe dizer, entre o jocoso e o sério: “Parece que há agora uma coisa que se chama depressão pós-parto. Eu lá tive tempo de ter uma depressão? Fui logo trabalhar” A minha mãe di-lo com a convicção de quem iria de imediato socorrer alguém que dela padecesse e de si precisasse.

 

A minha mãe e o meu pai sempre se moveram como um só. Sempre tiveram ambos um brilhozinho nos olhos entre eles, para mim e para o mundo. São de princípios, de valores, corretos, de família, de amigos. Nada a ninguém faltará enquanto estiverem por perto.

 

Os meus pais fazem hoje 40 anos de casados. Terão todos os ingredientes de um casamento de 40 anos. Os bons, os menos bons. Sempre amassaram a massa necessária para resultar. Nunca foi opção à primeira contrariedade desistirem, não por serem de uma determinada de época, mas por serem a Fátima e o Zeca. Sempre lado a lado no caminho. Sempre o “nós” em detrimento do “eu”. Com as suas cedências e exigências. Correu bem. Correu muito bem. Os frutos estão à vista.

 

Foram (são) 40 anos preenchidos com os outros e para os outros. Com o amor sempre visível. Não me lembro de um fim-de-semana sem família ou amigos em casa. Sem um almoço ou um jantar, sem praia no Verão, sem histórias contadas na cadeira de verga na sala, sem chocolates Jubileu, sem risos.

 

A casa dos meus pais. A de cá e a de Viseu, sempre foram (e são) como um abraço quente, reconfortante. São uma “casa”. Daquelas em que calçamos sempre pantufas mesmo quando entramos de salto alto. E aquela de onde nunca queremos sair e desejamos sempre voltar.

 

São amados, muito amados e são também inspiradores. São como se conta na igreja, no dia em que se casam. Até ao fim. Mas eles serão, para sempre, depois de qualquer fim.

 

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publicado às 23:56

Esta casa é uma oficina de corações.

por Maria Joana Almeida, em 31.08.20

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Há um livro para crianças que se chama "Oficina de Corações" e que conta a história de Matias que remendava corações na sua oficina.
 
Há casas que são muitos corações e que, simultaneamente, remendam corações. Corações vazios que passam a cheios, corações partidos que se reconstroem, corações remediados, mas acima de tudo feitas de corações de fibra boa, que habitam gente boa.
 
Há casas que são como um abraço, que nos aquecem mal entramos, que preenchem corações. Esta casa é assim.
A casa que engorda, que serena, que não se zanga, que dá e que recebe, uma casa impossível de estar vazia ou demasiado cheia.
A casa dos que foram, dos que estão, dos que virão. A casa de corações cheios, feita de pedaços de histórias, memórias de uma família. Uma família de gente de fibra boa. Gente que constrói.
 
É a casa. É minha também. Desde que nasci.

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publicado às 21:43

“Os estudos indicam que…”

por Maria Joana Almeida, em 14.08.20

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Não há assunto que não tenha sido submetido a um estudo, quer real ou imaginário, quer pessoal ou coletivo. Os estudos estão em todo o lado e absolutamente endeusados.

 

A expressão “Os estudos indicam que” fazem, recorrentemente, parte do léxico dos ambientes informativos e podem ter tanto de científico como de entediante e bacoco. A sua utilização massiva permite, também, enviesar ideias e fundamentar todos os argumentos. Para cada argumento haverá, com toda a certeza, um estudo.

 

Fica bem e mais completo, em qualquer discurso, dizer: “Os estudos indicam que” independentemente da fonte, do autor, do ano de publicação, do contexto. Tudo deuses menores perante a magnitude de deter verbalmente “ um estudo”. Um estudo é uma carta na manga, um passe vip para a obtenção de credulidade e de continência, Dependendo de quem o usa fica no mesmo patamar das miss que querem paz no mundo e das pessoas que apregoam “Porque eu sou uma pessoa que...”. É frequentemente esquecido que é preciso estudar o estudo para o envergar.

 

“Os estudos indicam que” é uma frase perigosa porque tanto é usada pelos preguiçosos e impostores como pelos que estudam. Pelos que se informam de facto. E por detrás de muita assertividade e segurança residem perigosos chacais que se alimentam da ignorância alheia.

 

Seria importante começar a diferenciar os estudos da vida e os estudos científicos. Não que os estudos da vida não possam ser corretos, mas serão sempre pessoais e intransmissíveis.

 

Os estudos sérios indicarão, com certeza, que há estudos imaginários que corrompem as opiniões, que corrompem a sociedade.

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publicado às 00:12

Para os meus tios. (Para os irmãos)

por Maria Joana Almeida, em 31.07.20

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Não tive irmãos, mas tenho duas filhas. Tenho muitos tios e primos e são a minha irmandade.

 

Vivo o amor de irmãos pela observação da minha mãe com os meus tios e é avassalador, é muito bonito, é muito reconfortante.

 

A minha mãe é a mais velha, é a Matriarca, e está muito doente. No dia da notícia que nos fez partir em cacos senti esse amor de irmãos, da dor instalada e vivida como se todos estivessem ligados por um único fio, um único cordão. Vi-os a ir ao chão, a dor a rasgar o peito. Vi o amor, um amor especial, daquele veio do mesmo sítio e marcado pelas histórias antigas e partilhadas. Não há cumplicidade igual. São seis e funcionam como se fossem um. A dor de um é a dor de todos.

 

Talvez isto não seja sempre assim e não serão todos assim, mas estes irmãos, os meus tios, pertencem aquela fibra de gente boa, gente muito boa que é emotiva, que constrói, que faz acontecer e que sabe amar profundamente.

 

Depois dos cacos espalhados em compartimentos de dor que não conhecíamos, recusaram (recusámos) a ir de novo ao chão. Instalamos a dor e seguimos, num processo de construção, numa caminhada onde a força visceral e o sentido de humor são o antídoto mais valioso, mais curativo.

 

Há alguma distância geográfica que nos separa, mas que não tem dimensão suficiente para os irmãos. Um por um, dois a dois todos estão presentes, todos mostram o amor, todos se encontram nesta ligação umbilical.

 

Algumas doenças ganham sempre. Algumas são infelizmente de desfecho solitário, outras são rodeadas de afeto e outras são preenchidas por constantes fintas aos desfechos, por constantes provas de amor, por constantes presenças, por lutas, por constante construção. E a mãe será sempre uma privilegiada pelos irmãos que tem, pela família que cresceu à sua volta, a de sangue a que se tornou, também, família. Por sentir um amor de cinco irmãos extraordinários que, em nenhum momento, baixam quaisquer braços.

 

Enquanto filha, enquanto sobrinha, enquanto prima, sei a sorte que a minha mãe tem e que eu tenho por sentir esse amor.

 

São a casa, esta casa

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publicado às 03:00


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