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Somos nós que precisamos de Inclusão

por Maria Joana Almeida, em 28.05.22

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Ouvi hoje uma coisa bastante bonita. A primeira vez que seguramos um bebé é a primeira vez que nos anulamos. É a primeira vez onde o outro é verdadeiramente e visceralmente, mais importante.

 

Quando alguém nasce e cresce com alguma condição específica, para ele está tudo bem, até estar tudo mal. Quem precisa de apoio e terapia são muitas vezes a família mais próxima. Quem lida, diretamente e diariamente, com o que é estatisticamente diferente.

 

Somos nós, a percentagem maior de uma espécie de normalidade, que precisamos de uma  inclusão do que parece ser minoritário. Precisamos de inclusão de autenticidade, de verdade e dignidade. Na realidade, enquanto falarmos de inclusão dos outros, andamos nós excluídos do paradigma da diversidade.

 

Precisamos de aprender a falar e a comunicar. A sentir e perceber a linguagem não verbal. A sair da esfera pessoal e do conforto de crenças e morais individuais. Não se perde tempo a ouvir os outros. Ganha-se. Experiência e conhecimento.

 

Quando nos conseguimos olhar, soltos de amarras, talvez mesmo com armas disponíveiso lugar de amor tivesse mais dimensão que o lugar de ódio e revolta. Talvez o inconcebível se mantivesse no desconhecido.

 

Precisamos de nos segurar mutuamente. Agir como comunidade colocando de lado caprichos e egos. Permitir que a diversidade seja respeitada. E digna.

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publicado às 23:08

Hoje voltei a ter vontade de escrever sobre Educação.

por Maria Joana Almeida, em 16.04.22

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"Em Espanha, na região de Navarra, os alunos do Instituto Alaitz de Barañain decidiram assinalar o último dia de aulas de Koldo Ansa, antes de entrar na reforma, com um momento marcante. Estudantes e colegas juntaram-se nos corredores, escadas e recantos do edifício e fizeram-lhe uma ovação que o acompanhou até à saída." Jornal Público, dia 16 de abril.

 

 

Tenho desistido de escrever sobre Educação. Não porque não me interesse (enquanto Professora é uma parte muito significativa da minha vida) mas porque os problemas, as atitudes e premissas têm sido inalteráves ao longo do tempo. Esgotam-se nas mesmas soluções, nas mesmas queixas, por vezes na mesma apatia. A burocracia e o "by the book" têm a capacidade de sugar a energia e a motivação. Não desistimos, mas a corrida cansa.

 

Esta notícia fez-me parar. Impossível ficar indiferente.

Ser professor é um palco tramado. Entre direitos e deveres, exigências pessoais e coletivas, por vezes tudo se mistura e todos se misturam num clássico disparar de opiniões. A entidade ou instituição fica refém de opiniões baseadas em sites duvidosos, experiências que são meramente pessoais e uma falta de cruzar de informação com base em evidências que poluem, constrigem e desacreditam o verdadeiro palco de construção social.

 

Koldo Ansa foi professor de filosofia. Terá tido as suas desavenças, as suas desmotivações, os seus dias pesados, os seus dias alegres. Uma estrada entre o basta e continua. A corrida cansou mas não desistiu. E a prova são os aplausos no seu palco. Nada é mais inspirador do que um professor que consegue tocar a melodia certa, mesmo em que muitos dias tenha soado errado. É que o caminho tem por vezes desafinações estridentes. Mas quando acerta. Quando toda a orquestra flui, escola, professores e alunos, nada consegue ser mais catártico e inspirador.

 

Hoje sorri mais perante a educação. E consegui escrever sobre algo que já não escrevia há algum tempo. Foi um dia de notas certas.

 

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publicado às 16:38

Estamos todos em fila de espera para a morte.

por Maria Joana Almeida, em 14.02.22

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Este é um dia muito emotivo para mim. este é um palco muito desejado, não por vaidade, mas por ser uma homenagem à minha mãe.
Obrigada ao José Augusto Carneiro pelo carinho e pelas palavras e ao Mário Augusto por ter aceite o convite de apresentar o meu livro e incentivar-me a continuar a escrever.
 
 

Quando a minha mãe morreu, escrevi, que por muitos anos que pudéssemos viver nunca entenderíamos a lógica da vida ou a lógica da morte. Não havia lógica nenhuma na sua partida, a não ser que estamos todos em fila de espera para a morte. Este era o meu único sentimento. E é este o nome deste livro.

 

Este livro surgiu por causa da minha mãe. Surgiu da saudade e da revolta.

É um diário de, sensivelmente, um ano que retrata o que foi viver sem a minha mãe após a sua morte. É provavelmente um lugar-comum, mas efetivamente a escrita ajudou a apaziguar a raiva, a saudade e a explosão.

Os textos descrevem um processo do que foram os dias após a morte da minha mãe. Que espaço habitava passados dois dias, três, um mês, um ano. O que fica e o que vai e como se transforma. Como me fui apaziguando com a vida. Como foi difícil gerir o peso esmagador da maternidade, das responsabilidades quando estava sempre pronta a explodir. O meu trabalho, a minha relação com as outras pessoas. Descobrir outras casas e olhar para as casas que me reconstruiram.

 

No fundo sentia a vida a ferir-me e sentia essencialmente que a vida me devia muito.

 

A origem esteve numa ilustração maravilhosa da ilustradora Marta Nunes que adquiri após a morte da minha mãe. Era uma ilustração sobre a saudade. E não havia outra palavra que me preenchesse melhor do que aquela. Quando a vi e quando a comprei pensei na imagem de “mandar vir a saudade” e de se ter “instalado sozinha sem permissão”. Aquela ilustração era eu.

Depois fui seguindo o trabalho da Marta, cruzando com o que sentia. Com o que a saudade, às vezes esmagadora como uma pedra, outra como um rastilho pronto a explodir, me fazia agir e sentir. Foi claramente um processo catártico para acalmar a dor. E tenho a forte convicção que tudo o que está neste livro já (ou será) foi sentido por todos nós.

 

Tenho uma amiga que ilustrou, na minha opinião, de uma forma engraçada a minha escrita. Como uma “auto-estrada direta ao coração”. Acrescentaria que de facto há poucas curvas. É crua, mas melódica.

 

 

Ao longo do processo de escrita a fila foi-se modificando. Vivi na busca de aprender a viver de novo, outra vida. A fila traz-nos exactamente isso. Mesmo sabendo a senha que foi tirada quando nascemos. Há renascer e morrer até ao fim.

Queria, se me fosse permitido, porque a minha mãe gostaria e é como se a sentisse sentada ao pé de mim, falar um pouco sobre as pessoas que aqui estão comigo.

 

O meu pai.

 

Tinha de mudar a minha morada no cartão de cidadão o que implicava levantar-me cedo para tentar não apanhar uma fila considerável. Acordei cedo e pus-me a caminho sabendo que muito provavelmente, como tinha apanhado trânsito, teria de esperar bastante. Quase a chegar o meu pai envia-me uma mensagem a dizer: “Ainda demoras? Já cá estou e tenho uma senha para ti e está quase a chegar a tua vez”

 

Este é o meu pai.

 

O meu pai é a rede constante que tenho a amparar-me sempre. Não me deixa cair, não me deixa esquecer, se puder, não me deixa errar ou magoar nunca. Sem exigir, sem impor, sem cobrar. É amor incondicional.

 

À minha tia e ao meu tio que aqui estão, os irmãos mais novos da minha mãe que a acompanharam sempre nos últimos momentos de vida.

Pelos 40 anos de casamento dos meus pais escrevi que “(…)não me lembro de um fim-de-semana sem família ou amigos em casa. Sem um almoço ou um jantar, sem praia no Verão, sem histórias contadas na cadeira de verga na sala, sem chocolates Jubileu, sem risos. A casa dos meus pais. A de cá e a de Viseu, sempre foram (e são) como um abraço quente, reconfortante. São uma “casa”. Daquelas em que calçamos sempre pantufas mesmo quando entramos de salto alto. E aquela de onde nunca queremos sair e desejamos sempre voltar. Os meus tios são assim. Nada a ninguém faltará enquanto estiverem por perto.

Aos meus primos que aqui estão. A minha mãe também vos soube amar como filhos e como netos. Todos sentiram o afecto na casa dos meus pais. Como se sentiam abraçados e amados, de pantufas pela minha mãe.

 

Ana, Janjan e Bebé, a minha mãe foi primeiro vossa antes de ser minha. Acompanhou-vos desde pequeninas antes de imaginar ter uma filha. Eu. Depois veio o Mário, o Tó e Gonçalo que a sentiram igualmente cúmplice no amor e os vossos filhos foram os primeiros netos da minha mãe. Cresci com vocês. E a ligação é para toda a vida.

 

Às minhas amigas que aqui estão. A minha mãe dizia que esta amizade era rara. Não conhecia mais nenhum grupo assim. Vibramos genuinamente com os sucessos de todas e choramos juntas infelicidades. São outra família. Num patamar de amor igual.

 

O Mário. Aguentou o barco. Não vergou, mesmo quando era quase insuportável. Foi a parede inabalável que segurou as minhas fugas, as minhas explosões, que segurou a Maria Luísa e Madalena, a família quando eu não as conseguia gerir. Quando o peso da maternidade por cima da revolta era quase absolutamente desgastante. Quando eu tentava ser mãe e só queria ser filha.

O Mário é um pai absolutamente extraordinário. Que se moldou com o amor. A pessoa que diz que gostava de escrever como eu mas que fala em público como gostaria de falar.

 

À Luísa e ao Manuel, obrigada por me acolherem tantas vezes como uma filha também.

 

A Ana Gralheiro, directora de uma escola onde estive, fica a amizade e admiração eterna. A pessoa que me respondeu, quando liguei a dizer que iria a editar um livro “Mas qual era a tua dúvida?” Um beijo enorme para ti.

 

E termino esta apresentação com uma ideia presente num dos textos, o facto de pisarmos vários palcos em vida. Os que desejamos, os que surgem inesperadamente, os que evitamos. Hoje terei palmas e terei palmas silenciosas, que me acompanharão o resto da vida. E nas palavras da minha mãe, dita são início pelo Mário Augusto, “tenho lá tempo para morrer, tenho mais que fazer”.Temos mesmo. Temos muito a fazer nesta fila de espera

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publicado às 16:04

Sobre a escola? É isto.

por Maria Joana Almeida, em 06.12.21

 

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A escola é uma instituição que tem, na sua génese, o objetivo de diminuir as diferenças sociais encontrando meios que permitam responder à sua comunidade educativa em concreto. A autonomia atribuída às escolas pretende precisamente isto: olhar para a sua envolvência. É seu papel mobilizar os seus recursos e conhecimento da comunidade de forma a conseguir responder com sucesso a todos os alunos, quer o aluno que possui todos os recursos; sociais, familiares e psicológicos, quer o aluno que não tem rede social, estrutura familiar ou psicológica que lhe permita uma base saudável para encontrar sucesso. Este é o espetro que a escola deve servir. É para este propósito que a escola existe.

O ensino regular é, segundo a declaração de Salamanca, o lugar de excelência para combater atitudes discriminatórias. No entanto existem grandes dificuldades descritas pelos professores do Ensino regular para trabalhar com a diversidade verbalizando bastas vezes a sua incapacidade para lidar com necessidades educativas especiais. As medidas são encaradas como uma necessidade protocolar e fazendo uso maioritariamente de uma educação formal mantendo-se as reuniões formais.

 

O caminho educativo tem-se pautado por ampliar a evidência da diversidade na nossa sociedade. As legislações vigentes expressam o caminho: aceitação e respeito pela diversidade; inclusão; autonomia das escolas. O objetivo é claro e justo. A sua operacionalização, por esbarrar com crenças pessoais, tem dificultado, muitas vezes, o caminho.  

 

O trabalho isolado dos professores, continua a ser uma das maiores fragilidades, discutida e apontada, em vários fóruns educacionais. Após treze anos e após três anos de uma legislação que assenta de forma mais garrida na necessidade de caminharmos para a diversidade, as necessidades educativas especiais ainda parecem ser vistas como “os outros”.

 

Mesmo na presença de exemplos descritos como preditores de sucesso no respeito pela diversidade existem ainda exemplos que ficam presos apenas a uma educação formal, necessária de ser decretada, confinada a fotocópias do decreto e exposta em folhas de Excel.

 

Tenho a forte convicção, de que um dos aspetos fundamentais para um trabalho justo e digno é não apontar com um “holofote” para a diferença, nem assumir atitudes que denunciem um “eu” e os “outros”. Como se a sociedade se dividisse em dois. Atitudes paternalistas, enfatizadas ou demasiado infantilizadas prejudicam o autoconceito destas crianças. Pedro Calado afirmava no seu artigo: “Certos jovens afirmam que antes de entrar em contacto com diversos programas, não se apercebiam da sua não conformidade às normas nomeadamente devido ao abandono ou insucesso escolar. São os modos de abordagem dos interventores sociais que lhes inculcaram este sentimento e o(a) levaram a considerar o seu estatuto como uma deficiência social e, frequentemente, como necessitando de uma relação próxima da terapêutica.” (CALADO, 2014)

 

Os palcos onde se faz a verdadeira diferença não cabem em checklists, fotografias ou atividades momentâneas em dias específicos como o Dia Internacional da Pessoa com Diferença ou nos logotipos das cadeiras de rodas. Não cabem na burocracia formal em reuniões pontuais inscritas em tempos específicos no horário. Os palcos onde se faz a verdadeira diferença são, na maior parte das vezes, silenciosos, informais, em conversas de bastidores. Não se querem estridentes nem laissez-faire. Querem-se “nós” e nunca os “os outros”.

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publicado às 12:01

Inclusão que atrasa inclusão.

por Maria Joana Almeida, em 30.10.21

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Se Vasco Santana fosse um entendido na Educação facilmente poderíamos resgatar uma das suas famosas frases e afirmar, convictamente, “Inclusões há muitas seus palermas”.

 

Há aquela “Inclusão de bolso”, sempre preparada para nos atirar com os clichés, dos mais fofinhos, aos mais descabidos. Entre eles temos o famoso: “Porque tu podes ser diferente, mas és igual a nós”, até ao “Mas estes meninos não são meus, deviam estar numa escola especial”.

 

A “Inclusão sabe tudo”: Os que têm na ponta da língua toda a legislação e um modus operandi por eles irrepreensível com base no diagnóstico e “cura” como uma espécie de livro do Pantagruel. Que venham novas legislações que não há nada de novo a aprender. É ver e aplicar.

 

A “Inclusão que não usa a palavra Inclusão” por deter como paradigma a diversidade e não um holofote constante sobre a diferença como forma de atos altruístas perante “os outros”. (Esta será aquela que me serve).

 

E há também, (haverá naturalmente e caricatamente, mais categorias) a “Inclusão by the book.”: gente entendida nesta área, com formação, que pretende usar “a” estratégia e “o” recurso adequado. Que pretende ensinar quem não sabe. Que centra, em 90%, nos preciosismos e tem dificuldade em avançar no que quer enquanto todo o estaminé burocrático e material exato, do catálogo exato, não estiver disponível.

 

Já muito foi dito sobre os três primeiros e por isso quero debruçar-me sobre este último. O “by the book” é um pouco mais difícil de desconstruir porque a verdade e a parte legal estão inegavelmente do lado que quem “a pratica”. É uma inevitabilidade. Por outro lado, há um aspeto que é por vezes esquecido: o valor da educação não formal e os bastidores da Educação Inclusiva. “Incluir” por livros e materiais desliga a nossa atenção no que é absolutamente essencial. As pessoas com que trabalhamos e os objetivos que pretendemos alcançar. Nada é “by the book” e nada, absolutamente nada, em educação é completamente linear. Desde a metodologia à avaliação. E esperar pelas condições atmosféricas certeiras para trabalhar, “para incluir” é absolutamente caricato.

 

Em praticamente nenhum momento, ou nem sempre, teremos todas as condições, todas as coordenadas, todo o plano para agir e atuar. Mas estes jovens existem todos os dias e não podem ficar à espera.

 

 O ensino à distância é um exemplo concreto. Há anos que se apregoava a necessidade de educar os alunos, a população para as Tecnologias de Informação, embora saibamos que o lápis e a caneta ainda configuram uma elevada percentagem do ensino atualmente. Em tempo de pandemia não houve preparação, nem momento certo, houve uma necessidade de agir e, apesar de todos os defeitos, foi o que permitiu a continuidade da escola em casa.

 

Há um “book” para a inclusão, mas o “chapéu” da inclusão mora individualmente em cada um de nós. Consoante a nossa crença. E quando esta fixa e se fecha numa categoria, sem reflexão, funcionará de igual forma ao extremo que quer separar todos os alunos. Nós e os outros.

 

Ouviremos, sem sombra de dúvida, os arautos das várias “inclusões” apregoarem que as decisões terão de ser sempre em prol dos alunos. Esquecemo-nos, bastas vezes, que a nossa crença é autocentrada e raramente altruísta. Está assente na forma como perceciono o outro. É que raramente nos queremos enganar ou ter dúvidas, quando são estas que nos permitem crescer e encontrar outros caminhos.

 

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publicado às 20:56

Cometer caridade na Educação.

por Maria Joana Almeida, em 17.10.21

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"António Lobo Antunes escreveu uma crónica (“Os Pobrezinhos”) de que gosto particularmente, usando com frequência para expressar alguns atos. "Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida. Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria”

 

Não gosto da palavra caridade. Gosto da palavra solidariedade, mas ainda assim, são bastas as vezes em que andam de mão dada, e numa espécie de osmose torna-se impercetível onde começa uma e acaba outra.

 

Nas escolas também há os pobres, de uma forma mais encapuçada. Não são descalços, nem rotos, alguns até são bem vestidos “e de boas famílias”, mas tiveram o azar, ou a sorte de pertencer a uma alínea de um decreto e a partir daí abriu-se a caixa de pandora. São “os outros”.  São aqueles que são lembrados no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e que passam a fazer parte de um palco de uma espécie de Got talent onde as suas histórias de coragem e perseverança, apesar de terem uma deficiência (“os outros”), dão o mote a um altruísmo irresistível. Há um dia em que são lembrados que são pobres. Pobres de anonimato, pobres do “Nós”, pobres do grupo, pobres de espaço.

 

Em dias específicos colocam-se pequenos lembretes a dizer que “és diferente de mim, mas igual por dentro” e que “cada pessoa tem a sua maneira especial de ser bonita”, para lembrar ao pobre que faz parte de outro leque. Que tem um constante holofote sobre si, mais para salvar os outros do que a si próprio.

 

Normalmente os dias específicos são no início do ano (basta recordar um texto que é muito comum de ler nas redes sociais nos inícios do ano letivo, apelando a não nos esquecermos dos meninos diferentes) e no Dia Internacional das pessoas com Deficiência.

 

São alunos acometidos de caridade e de solidariedade. Com trabalhos de voluntariado pontuais, com testes adaptados não à sua individualidade, mas daquilo que padecem no conceito geral de cada um.

 

A minha grande questão e o meu problema com estas atitudes não se prendem apenas com aquilo a que por vezes me soa um pouco a displicente, mas com a perda de tempo em relação aquilo que é efetivamente importante: as limitações de liberdade no acesso ao emprego; no acesso à via pública; nas universidades; nos números de empregabilidade de muitos de nós. Sim, nós. Não os outros. Assumamos, de vez, a diversidade.

 

Os indicadores de direitos humanos de 2020, publicado pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos revela uma percentagem que tem vindo a subir desde 2011. Com uma taxa de empregabilidade de 5% em 2011 para 13,5% em 2019. O sistema de quotas implementado desde 2001 e os projetos responsáveis de visibilidade deste problema têm permitido esta tendência crescente de empregabilidade. E é neste ponto que é necessário focar. Este crescimento não acontece, nem pode acontecer quando exigimos menos daquilo que um aluno pode dar independentemente das suas limitações. Quando acomodados por uma expetativa toldada pelo preconceito nivelamos por baixo oferecendo palavras e desenhos. Como diz Sandro Resende responsável pelo projeto Manicómio, “São 4 anos de dignidade, não são 4 anos de folhas A4”. É que ainda há muitos alunos presos em folhas A4.

 

Compreendamos o seguinte, quando falamos de Educação Inclusiva, falamos de Educação. Ponto."

(in Jornal "Público", 14 de Setembro de 2021)

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publicado às 17:12

"Tu és amor"

por Maria Joana Almeida, em 11.09.21

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O título encaixaria na perfeição numa linha de Gustavo Santos ou numa qualquer passagem cliché de âmbito religioso. Mas não.

 

O título vem de uma história bonita. Uma história de amor. No verão, no quente de Monsaraz (o calor é sempre paradoxal, fica entre o lugar de amor e o insuportável) a Sílvia contou-me a história de um aluno. E a forma como a marcou ficou marcada na minha pele. Pelo arrepio e pelo calor. Ele disse-lhe. "Tu és diferente Professora. Tu és amor".

 

Esta história é um poema. De pessoas poema.

 

O “Zé”, o aluno, está no 2ºano. Tem dificuldades de aprendizagem. Não tem um vocabulário muito rico (diz o processo). E custa-lhe explicar-se.

O Zé não se apercebe da riqueza do que disse. De como a desarmou, de como me desarmou quando a história foi reproduzida. De como nos arrepiou. O Zé não soube naquele momento e talvez demore algum tempo a saber, ou talvez nunca vá saber, como em três palavras desenhou toda uma planificação. Toda uma metodologia.

 

A Sílvia é professora e é minha amiga há muitos anos. Falamos a mesma linguagem. A da educação e a da vida. A Sílvia tem muita formação. Todo um conjunto de técnicas e instrumentos estudados e guardados. É fundamental. Mas as planificações do seu trabalho não são desenhadas a régua e esquadro, não são guardadas numa folha de excel. São amor.

As (e os) professoras como a Sílvia são da linguagem de Coimbra de Matos “A ciência ou se faz com amor ou não se faz”.

 

Há um ano letivo a iniciar-se e com ele um conjunto de procedimentos iguais, mecânicos, gerais. Há as citações no final das apresentações iguais todos os anos. Há todo um comboio de lugares comuns associados, os necessários e os não necessários. Mas há uma autonomia moral que não pode ser esmagada pelo excel, pelas listas. O espaço intermédio entre o professor e aluno. O espaço desconhecido, o espaço para conhecer. O tempo. A reflexão. A disponibilidade. A tentativa e erro. A incerteza. O falhar. O voltar. O falhar outra vez. O acertar.

 

Não sei se haverá maior validação do que a frase do Zé para definir um professor. Para definir alguém. Mas se um dia um aluno me disser “Tu és amor”, terei mais certezas.

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publicado às 01:12

Quando eu for grande

por Maria Joana Almeida, em 18.06.21

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“O que queres ser quando fores grande?”.

 

No universo das frases/perguntas cliché esta será a que mais me incomoda particularmente.

Ainda hoje eu me questiono do que gostaria de ser quando for grande. E “grande” significava que tempo? Que quantidade?

 

As respostas, numa determinada idade, prendem-se também aos habituais lugares comuns. Os inquisidores, em jeito de memória muscular, esperam um “astronauta, arqueólogo, cientista, advogado” seguido imediatamente de um habitual: “Pois, ele tem jeito, ele até costuma fazer umas experiências em casa.” Na verdade todos fazemos..numa infância mais ou menos regular.

 

Mais incomodativo ainda é a assunção, quase como verdade absoluta, que aos 15, 16, 17 anos já se deve ter a certeza do que se quer ser ou fazer. Esta assunção ou expetativa poderia fazer sentido há alguns anos atrás. Nestas gerações dinâmicas e plurais definir um caminho certo é quase bizarro.

 

O sistema de ensino está planificado com expetativas em cada ano curricular. O que não deixa de ser necessário para existir uma espécie de norma, de caminho para facilitar expetativas, aferições. Mas não existe como único desenho possível, há flexibilidade para mais caminhos. E na liberdade dos estereótipos e preconceitos há avanços e recuos.

 

Há quem repita anos para mudar; há quem mude três vezes de curso; há quem não queira ir logo para a Universidade; há quem não queria ir para a Universidade. Todos estes caminhos são legítimos e todas estes avanços e recuos normas individuais.

 

Lembro-me de há uns anos atrás um pai de uma criança, que se encontrava no último ano do pré-escolar, não ver com bons olhos o adiamento de escolaridade proposto pela educadora por achar (verbalizando) que o seu filho iria “Chegar atrasado à Universidade” (sim, história real).

O sistema, por norma, exige escolhas demasiado cedo. Exige-o num tom de certeza e manifestando alguma culpabilização quando esse caminho “falha” esquecendo-se que nas falhas residem acasos e sucessos.

 

Há um legado difícil de contornar nos fracassos. Mudar de ano, voltar atrás num ano, mudar de curso, ainda tem o cunho do fracassado. As frases são pesadas e as reuniões com um semblante cerimonial.

O espaço ainda continua a ser marcado pelas notas e por aquilo que não é capaz de fazer em detrimento das competências pessoais e humanas. Estas são raramente enaltecidas e valorizadas. O valor quantitativo ainda é soberano e solitário. Há uma leveza urgente, necessária para assumir que há mais caminhos e que a não concretização de um, não poderá definir o futuro. Uma escolha não é uma sentença.

 

Continuará a haver pais que se amedrontem com os filhos poderem chegar atrasados à faculdade, outros que fiquem noites sem dormir porque o filho está no 9ºano e não sabe o que quer. Outros que procuram psicólogos porque o filho não quer ir para a Universidade.   Haverá de tudo, de tudo o que sejam expetativas defraudados, reflexos “fracassados” na gíria pessoal de cada família.

 

Não há verdades absolutas, mas há umas que se aproximam mais do que outras. Chegaremos atrasados e impreparados para aquilo que não nos faz felizes.

 

(Ilustração Mariana Rio)

http://www.marianario.com/

 

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publicado às 15:38

"Rankings" (8 da série Ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 24.05.21

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Hoje, nas notícias, alguém gritou pela manhã "a minha escola é melhor do que a tua". Hoje alguém quis, novamente, deixar plantada, consciente ou inconscientemente, a ideia de que a escola melhor é a escola de um único critério. O critério da seriação.
 
Hoje alguém gritou que a escola que se preocupa com o João porque a mãe sofre de violência doméstica e coloca as notas na caixa dos palavrões não é uma boa escola.
 
Hoje alguém gritou que a escola em que os professores protegem alunos de agressores e voltam a colocar as notas na caixa dos palavrões não serve.
 
Hoje, mais uma vez, deixou-se crescer a erva daninha que teima em enganar o que pode ser uma boa escola. Que teima em perceber que às vezes, tantas vezes, é preciso parar e tempo para curar e voltar a tirar as notas da caixa.
 
#martanunesilustra

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publicado às 22:05

Dia da mãe (há 3 dias)

por Maria Joana Almeida, em 06.05.21

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O meu pai (fiel e orgulhoso leitor dos meus textos) pediu-me para escrever no dia da mãe.
 
 
Comprei este livro numa livraria maravilhosa em Bruxelas quando estava grávida da Madalena e quando ainda tinha a minha primeira casa. Não era uma casa. Foi uma fortaleza. Em tudo.
 
Num dos dias da mãe, almoçamos no Avillez no Chiado. Provamos os seus croquetes e disseste, com uma certa evidência vaidosa no olhar: "os meus ainda são melhores". Sorrimos triunfantes. 
 
Jantamos num Goês e amaste. Estavas sempre pronta a experimentar tudo. A comida era, é, um universo de amor.
 
Não te poderei oferecer nenhum presente hoje. E este dia é particularmente filho da mãe porque não posso sentir-me em casa. É como se estivesse numa rua vazia, sem nada para me conter, sem um espaço para me sentar, sem um rosto para olhar. Sem o meu colo para me deitar.
 
Talvez, acredito que certamente, o maior presente que te poderei dar, aquele que me pode ajudar a manter a casa mais preenchida é o amor e a vontade perante a vida que sempre tiveste. A maneira como te deixavas arrebatar pela vista nas Azenhas do mar, no Douro, na Madeira. Como quase choraste no ballet contemporâneo a que te levei no Teatro Camões (queria ter-te contado como me senti na peça que fui ver há pouco tempo no Dona Maria). Como te emocionavas perante a beleza. Era absolutamente inspirador e reconfortante.
 
Já doente, disseste: "Dava-me algum jeito morrer agora, tenho mais que fazer!" 
Este amor à vida (que Camus tão bem escreveu). O sentido de humor perspicaz, às vezes cáustico, às vezes negro, mas sempre pronta para pôr a vida em sentido. Olha-la nos olhos, para a enfrentar. 
 
Tenho tudo isso mãe. É de ti.
 
E quando chega o final do dia, numa espécie de dever cumprido, sinto-me um pouco em casa. Oiço o "És tão bonita" e imagino o teu olhar a brilhar.
 
Este é o presente que te posso dar.

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publicado às 09:21


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