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“Não é só querido e fofinho, é um trabalhador.”

por Maria Joana Almeida, em 30.03.18

 

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“Um projecto internacional procura criar uma rede de hotéis e restaurantes que recebam estágios de pessoas com Trissomia 21 e dificuldades intelectuais. Em Portugal ainda são poucos os que participam, mas os responsáveis não desistem de querer fazer este projecto crescer.(https://www.publico.pt/2018/03/21/sociedade/noticia/trissomia-21-nao-e-so-querido-e-fofinho-e-um-trabalhador-1807360/amp)”

 

Deparei-me com o título desta notícia no jornal Público e automaticamente pensei: Finalmente um título, uma frase que faz jus ao que é esperado quer de quem usufrua de todas as suas capacidades em pleno, quer de quem tenha comprometimentos físicos e ou intelectuais. Em ambos os casos não interessa se é fofinho, não interessa se é querido, interessa que desempenhe a sua função e que sejamos assertivos e exigentes com o que é esperado.

 

Assumo-me como muito impaciente a títulos e mensagens condescendentes no que toca a deficiência. O palavreado por vezes rebuscado que arranjamos para denominar qualquer aspeto quer físico ou intelectual com receio de ferir susceptibilidades por parecer menos socialmente aceite, ou quando suavizamos a postura e palavras para tornar o nosso discurso “mais fácil” de ser compreendido pelo “coitadinho” é no meu entender uma enorme falta de respeito. É o mesmo sentimento quando oiço, em reuniões de conselhos de turma, “Como ele faz parte do D.L. 3/2008 e tem um PEI (Programa Educativo Individual, em dei-lhe um 3”. Como se existisse um documento que serve de um passe livre para “ir andando” pela escola sem definir objetivos que devem ser, igualmente, exigentes e rigorosos, dentro do perfil de funcionalidade de cada aluno.

 

Sem qualquer floreado, a Trissomia 21, ou qualquer outro comprometimento intelectual reflete-se, naturalmente, em maiores dificuldades de acesso à vida laboral. A existência de instituições ou empresas disponíveis para tomar esta iniciativa demonstra o pensamento e atitude esperado de uma sociedade evoluída, onde o foco não deverá ser apenas os comprometimentos existentes dos empregados, mas sim dar a oportunidade, merecida, a que estes profissionais demonstrem as suas competências dentro do que é esperado no local de trabalho. Principalmente que encontrem um espaço que lhes permita continuar a sua formação pessoal e social que ficou suspensa no final da sua escolaridade e que tranquilize famílias que ficam órfãs de um espaço de formação após a conclusão da escola.

 

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publicado às 17:48

O samba de Maria Luísa

por Maria Joana Almeida, em 09.03.18

Maria Luísa.jpg

 

Há tempos li um post da autora do blog “Dias de uma Princesa” Catarina Beato, sobre a sua experiência na Maternidade Alfredo da Costa no nascimento da sua filha. Recordo-me de o ter guardado por sentir o quão importante é enaltecer a qualidade de um serviço público tão importante como este.

 

Passado quase um mês da minha ainda breve experiência como mãe, quero também deixar um breve texto sobre este momento e o profissionalismo que senti.

 

Recordo-me de uma amiga que me dizia que o que mais lhe interessava num serviço era a competência e não que fossem simpáticos, especialmente nesta área. Compreendo e concordo maioritariamente com esta afirmação. No entanto e tirando a questão da competência que naturalmente é o foco, a capacidade empática e os afetos são, no meu entender, parte integrante da competência, particularmente nesta área. A exposição do corpo, as hormonas, a responsabilidade e força da natureza de um corpo que gera vida, não é um simples procedimento médico.

 

Por todas as emoções que fluem durante 9 meses e especialmente durante o momento do trabalho de parto, a capacidade para saber o que dizer, como dizer e criar o melhor ambiente para receber uma vida não é pura simpatia, é competência e profissionalismo e por isso quero deixar estes breves agradecimentos:

 

Um obrigada à enfermeira Joana que me acompanhou no final do seu turno e que me abraçou e me deu a mão para não me mexer enquanto levava epidural. À outra enfermeira Joana que me fez o parto enquanto conversava serena e tranquila sobre vários assuntos e que no final me veio dar um beijo e felicitar pela linda Maria Luísa expressando genuína felicidade e preocupação. À doutora Graça que veio terminar o parto e que entrou na sala com umas antenas de joaninha pois era Carnaval e ajudou a amenizar e suavizar o incómodo das dores das contracções. A todos os enfermeiros sempre disponíveis para me ouvir e tirar dúvidas e todas as auxiliares pela paciência de  levantar e baixar a cama várias vezes ao dia. Às minhas companheiras de quarto que durante dois dias se tornaram no primeiro grupo de apoio, no pós parto, para a coisas tão simples como poder comer, ou tomar banho ou tão só partilhar piadas e preocupações.

 

E um especial obrigada ao pai que esteve sempre presente, em equipa e com uma força excecional que ultrapassou o seu receio de assistir ao parto e de todas as emoções durante esse período.

 

 

E é isto. Toda uma nova definição de olheiras, toda uma nova definição de prioridades e toda uma nova dimensão de amor. Todo um novo samba mas do mais antigo que há.. E é isto. Estou feita uma lamechas pirosa que até já veste de cor de rosa, já dizia a Capicua.

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publicado às 14:35

Cinco perguntas, cinco respostas com Luís Osório

por Maria Joana Almeida, em 01.02.18

luis osorio.png

 

Conheci o Luís através de alguns programas de televisão, entrevistas e dos seus livros. É uma “apresentação” recente, mas depressa criei uma enorme empatia pelas suas palavras e forma de escrever.

O Luís, tal como o próprio considera, tem um percurso incatalogável. Jornalista, escritor, consultor, tem revelado um percurso que assume como livre. E é precisamente essa liberdade e (acrescentado por mim) sensibilidade e perspicácia no que observa que podemos encontrar nas suas respostas a estas cinco perguntas.

 

Obrigada Luís.

 

 

1 - Luís, fale-me um pouco do seu percurso profissional, desde o tempo em que foi jornalista até às atuais atividades que exerce neste momento. Quais as suas motivações?

 

- É um percurso talvez incatalogável. Os meus amigos jornalistas definem-me como escritor, os escritores como jornalista, os de televisão como de imprensa, os de imprensa como de televisão. Sempre quis fazer o que em cada momento me apetecia, não me prender a nada, ser livre. Com duas preocupações sempre: a de ser profissional e rigoroso, a de intervir no largo universo das ideias, da criatividade e da procura. A minha motivação é de viver o mais intensamente possível. 

 

 

2 - O Luís transmite uma grande sensibilidade na sua escrita e uma afetividade contagiante quando fala em pessoas e espaços significativos que se traduzem na descrição detalhada de várias caraterísticas quer físicas quer psicológicas. Os afetos, a proximidade são, no seu entender, a força motriz das nossas relações?

 

- Não. Acho que a força motriz é a capacidade de nós próprios, absolutamente sozinhos, desenharmos o nosso caminho. É desse apaziguamento e convicção que se parte para as relações com os outros e com o mundo.  

 

 

3 - Sei, pelo que li, que é fã, como eu de Woody Allen. Recordei há pouco tempo um dos seus filmes e um dos meus preferidos, Annie Hall, o qual termina com esta frase: "E lembrei-me de uma velha anedota: Um tipo vai ao seu psiquiatra e diz:"O meu irmão é louco, pensa que é uma galinha" E o médico diz: "Porque não o interna?" E ele responde "Eu internava, mas preciso dos ovos"

É mais ou menos isto que eu sinto sobre as relações entre pessoas. São totalmente irracionais, loucas e absurdas..mas nós vamos aguentando porque precisamos dos ovos.". Gostaria que a comentasse.

 

- As relações entre as pessoas são também irracionais. E têm uma dimensão de imprevisibilidade que as torna extraordinárias e dilacerantes. Sobretudo quando as pessoas têm uma aspiração de liberdade. Isso fá-las desenvolver um mecanismo de proteção, a construção de um mundo que apenas a elas pertence, um reduto de liberdade que pode ser de loucura para os outros. Mas as pessoas também são racionais nas suas relações, mas essas não são muito interessantes. 

 

 

4 – Quem são as suas grandes referências que o influenciaram na sua escrita? O que o move e como é feito todo este processo criativo?

 

- Não tenho referências diretas na escrita. Gosto muito de alguns escritores, sigo-os quase religiosamente. Philip Roth ou Javier Marias, entre os de sucesso. José Saramago entre os portugueses. O processo é muito orgânico, muito natural. Tenho as ideias e deixo-as amadurecer em silêncio, ficam a medrar. Depois volto a elas e abandono-as para sempre ou dou-lhes guarida entre os meus fantasmas.  

 

 

5 – Porque este é um blog de Educação e quando falamos em Educação não falamos, evidentemente, só da Escola, mas de todas áreas e espaços que influenciam a nossa personalidade, gostaria que o Luís apontasse os grandes desafios que existem atualmente nesta área. Do que precisam os nossos jovens?

                             

- Não sei o que dizer, sinceramente. O mundo, e o país, está cheio de pessoas que falam do que não sabem. Nada sei. Sei que há centenas de pessoas que pensam sobre o tema. Sei que muito se tem melhorado, todos os índices o provam. Sei que os professores não são dignificados, como se fossem apenas um bando de gente que pode ser instrumentalizada e não o centro do sistema (com os alunos). Sei que existe um desfasamento entre o mundo académico e o meio empresarial. E sei que os nossos jovens precisam muitas vezes de um desígnio, uma motivação que transcenda os seus desejos. O país necessita de criar uma dinâmica na sua educação, nas suas políticas educativas; os casos de sucesso no mundo, tanto o coreano como o finlandês, têm isso muito presente. 

 

 

Mais informações sobre Luís Osório  - https://escritores.online/escritor/luis-osorio/

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publicado às 16:18

Para os amigos (especialmente os meus)

por Maria Joana Almeida, em 13.01.18

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Tinha pensado em fazer um texto sobre a eliminação de certos produtos alimentares em hospitais e escolas, assunto delicado para mim porque os doces têm uma dimensão de grande importância na minha vida, mas vou deixar para outro texto.

 

Hoje quero falar sobre amigos, os meus amigos, uma base de segurança tão, ou por vezes mais forte, do que a família.

Tenho amigos maravilhosos (todos irão dizer que isto é um cliché porque também têm) mas para mim, e como acontece com os filhos, os meus vão ser sempre os melhores.

 

 

Tenho amigos que tomavam conta de mim à noite quando íamos sair e me acompanhavam quer fisicamente ou por whatsapp até à porta da minha casa para me certificar que estava bem.

 

Tenho amigos que me pagaram todos os custos de um fim-de-semana fora, numa altura mais apertada de dinheiro, porque não havia opção de eu não ir com “o pessoal todo” para o festival de música.

 

Tenho amigos que se levantaram a meio da noite e foram ter comigo porque estava triste.

 

Tenho amigos que analisaram os meus namorados, ou possíveis namorados, para terem a certeza que eu não me iria magoar.

 

Tenho amigos que me oferecem canecas a dizer “wake up and make up” porque um dia viram a minha cara lavada de manhã e pensaram que eu estava doente.

 

Tenho amigos que me levaram de manhã ao hospital quando tive o maior susto da minha vida com os meus olhos.

 

Tenho amigos que vão à casa da outra margem buscar-me a correspondência.

 

Tenho amigos que no meu casamento me diziam, entre a convicção e o bom humor, que estavam ali para tudo: para me vestir, para me abraçar, para me levar à casa de banho para levantar o vestido, para me levar ao altar e para agarrar no carro se eu mudasse de ideias à última da hora e quisesse fugir. (Não quis, foi, para mim, o casamento mais bonito de sempre e um dos dias mais maravilhosos da minha vida)

 

Tenho amigos que se enfiaram num estúdio e preparam uma música, escrita inteiramente por eles (que permaneceu nos ouvidos de todos durante muitos e muitos meses após) e que ensaiaram uma dança que nos envolveu durante o casamento, num dos momentos altos daquele dia.

 

Tenho amigos que me fizeram um livro com fotos da minha despedida de solteira, completamente à minha medida, com as fotos e dedicatórias de amor, daquele amor que só os amigos, como estes, nos podem dar.

 

Tenho amigos que, mesmo com filhos, me atendem o telefone às altas horas da noite por estar a passar um mau bocado e dizem que vão apanhar um táxi para vir ter comigo.

 

Tenho amigos que sabem o que se passa comigo, mesmo sem eu falar, e ficam ali, só ali ao lado sem falar, só para me abraçar.

 

Tenho amigos que vibraram e choraram de felicidade quando souberam que estava grávida e que me encheram a casa com tudo o que possa precisar.

 

Tenho amigos que querem elaborar um plano de ajuda e vigilância para as noites que ficar sozinha com a bebé.

 

Tenho amigos que me disseram que se for preciso são eles a darem-me a mão no dia em que a Maria Luísa nascer.

 

Tenho amigos que torcem por mim e pelo Mário, sempre.

 

A família é a base incontornável da nossa vida, das mais importantes. Sou muito grata pela família que tenho e por tudo o que fazem, no que estiver ao seu alcance, para me fazer feliz. Os meus pais em especial.

Ter amigos que se igualam a uma família é uma dádiva. É um complemento. Não são de sangue, mas é como se fossem. São irmãos que nunca tive.

 

Alguns, há mais de 25 anos que crescemos e "vivemos" juntos.

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publicado às 18:21

“Gostei muito da tua postura”

por Maria Joana Almeida, em 05.01.18

 

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Encerradas as festividades é altura de retorno à rotina ou a diferentes rotinas.

 

Numa das idas à escola, onde lecciono, neste novo ano, uma professora que conheci recentemente numa reunião veio desejar um bom ano e verbalizou, apontando para mim: “Gostei de ti, gostei muito da tua postura na reunião, estiveste muito bem. Às vezes os outros professores esquecem-se do que é a Educação Especial.”

 

É sempre simpático receber um elogio, mas a parte que quero salientar e, para mim a mais importante, é a frase: “Às vezes os outros professores esquecem-se do que é a Educação Especial.”

 

Há 13 anos que vou a reuniões de conselhos de turma e, naturalmente, vamos evoluindo e percebendo dinâmicas, ganhando autoconfiança e ajustando o discurso e postura aos diferentes momentos. Já conseguimos antecipar comportamentos, atitudes e o nosso discurso fica mais fluído e assertivo.

 

Assertividade é um aspeto fundamental, ao mesmo tempo que necessário por diversos motivos. É verdade que a Educação Especial encontra um espaço reduzido em muitas escolas o que se reflete em algumas reuniões de conselho de turma. Ainda existem alguma incogruências na definição do papel do professor de Educação Especial e na legislação que, por enquanto, continua em vigor e que é pública,  bem como temas e procedimentos que se misturam e que cabe também ao professor de Educação Especial ajudar a clarificar.

 

Existem professores fantásticos, genuinamente interessados no sucesso dos alunos que partilham e ouvem todos os intervenientes e onde encontramos no seu discurso soluções, atitudes construtivistas e honestidade intelectual para identificar pontos fortes e fragilidades como base para traçar um plano de sucesso.

Professores que não ficam presos num modus operandi e gostam de arriscar. Professores das várias áreas com uma sensibilidade que lhes permite bom senso e sensatez no seu funcionamento e que valorizam e compreendem o trabalho de todas as áreas. São aqueles professores que estão atentos e colocam questões relevantes no sentido de ajudar e aumentar as potencialidades dos alunos. Especialmente dos alunos que manifestam algum comprometimento e querem, por isso, trabalhar em conjunto com a Educação Especial olhando para esta área como uma mais valia e um instrumento valioso para continuar a construir ao invés de colocar entraves. Tenho tido a sorte de conhecer muitos professores assim ao longo do meu percurso e com os quais muito aprendi.

 

Quando gostam da minha postura o que me interessa essencialmente é que eu tenha conseguido passar uma mensagem, da melhor maneira possível, e esclarecer todas as dúvidas que me são possíveis de esclarecer levando todos a querer participar ativamente neste trabalho que não é, em nenhum momento, um trabalho isolado. E isso sim faz-me feliz.

 

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publicado às 22:32

Porque o afeto é revolucionário.

por Maria Joana Almeida, em 15.12.17

 

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(Vou chama-la de Alice. É um nome fictício, mas é uma pessoa real)

 

 

Alice está na casa dos 60, é cabo verdiana e é minha formanda no curso de alfabetização. Está a aprender a ler e a escrever, o seu grande sonho que ficou desde logo registado na primeira entrevista.

 

Alice iniciou esta formação há sensivelmente ano e meio. Não sabia pegar corretamente num lápis, não conhecia nenhuma letra, não tinha a competência óculo manual desenvolvida para passar para o caderno o que estava no quadro. Tinha a letra grande e tosca.

 

Alice acordava (e acorda) todos os dias às 04h da manhã para ir trabalhar, faz limpezas numa empresa. Às 09h30 em ponto está na formação para, como diz, “não perder o comboio”. Sai da formação às 12h30 e volta ao trabalho para regressar a casa pelas 20h. Não há uma queixa, não há uma palavra brusca. Há um constante sorriso e vontade de aprender.

 

Alice não ia às compras porque tinha medo de ser enganada, era ajudada pela irmã e pelos filhos. Não sabia lidar com o dinheiro. Quando recebia uma carta em casa, não sabia para quem era, não reconhecia nomes, tinha de pedir ajuda.

 

Passado sensivelmente um ano e meio Alice tem uma letra bonita, esforçada.  Lê, escreve, faz contas. Alice reconhece nomes nas cartas; sabe o valor do dinheiro, conhece todas as letras, compreendeu o mecanismo da leitura e até já lê casos especiais de leitura. Tem o seu ritmo, que é respeitado, e que a levou até aqui. Ao sonho.

 

Eu e Alice temos uma boa relação, que vai para além, como deve ir quando queremos criar o espaço para alcançar sonhos, da professora – aluna. Há um enorme respeito mútuo e um carinho muito grande.

 

Alice sabe que vou ser mãe de uma menina. Sabe que se vai chamar Maria Luísa. Um destes dia pediu-me para escrever o nome dela num papel. “Maria” sabia, mas Luísa estava na dúvida e não se queria enganar.

 

Esta semana ofereceu-me uma caixa de madeira, feita à mão, “de uma senhora muito habilidosa que faz. Ofereci uma à minha sobrinha e quero oferecer-lhe esta a si. À minha professora”.

 

 

E é isto, O afeto é de facto revolucionário.

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publicado às 20:51

Breve reflexão sobre T.P.C

por Maria Joana Almeida, em 29.11.17

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“Tempo perdido para casa”, a frase com a qual apelidávamos, carinhosamente, a sigla T.P.C no Secundário, já lá vão uns anos.

 

Uma recente discussão, numa formação que frequento atualmente sobre tutorias, veio relembrar-me este tema que reúne poucos e diferentes consensos.

 

Há quem, convictamente, coloque os trabalhos de casa na prateleira da aberração pela “violência para as crianças” que deixam de ter tempo em casa e obrigam os pais a delegar tempo para ajudar os filhos, ou a realizá-los em modo automático, sem reflexão em Centros de Estudo. Ouvi, inclusivamente, frases como; “Deve ser o Ministério da Educação a terminar com os trabalhos de casa”. Existe, por outro lado, outra perspetiva que defende a utilização dos T.P.C como uma absoluta necessidade de “reforçar os conteúdos dados em sala de aula”

 

Vejamos: Apelando à minha atitude, sempre muito pouco fundamentalista, não consigo, em primeiro lugar, entender esta perspetiva dos TPC como se de um saco se tratasse em que implica, sempre, exercícios já feitos na aula, leituras, e afins.

 

Não tenho absolutamente nada contra os TPC precisamente porque não os consigo conceber apenas num único estilo, formato e propósito.

 

Os TPC podem e devem ser variados num momento, ou em momentos específicos da semana. Podem sim, em muitos casos, servir como uma complemento de reforço e também como um momento de partilha de uma atividade a dois entre pares ou entre pais e filhos porque, na perspetiva que considero a mais correta, o trabalho de casa pode consistir em ver um filme; trazer algum objeto de casa, ler um pedaço de um livro. Não tem de ser apenas e sempre uma página, ou vários de exercícios formatados, todos os dias da semana. Nem muito menos tem de se tornar um bicho papão e fonte de stress para crianças e pais.

 

Encaro os TPC como uma atividade que pode, quando adequados, trazer benefícios a vários níveis que não se prendem apenas com o clássico “mais do mesmo”. A verdade é que a sigla TPC ganhou, ao longo dos anos um rótulo pesado, desmotivante, um pouco perpetuado por alguns professores ou escolas que, de antemão, colocavam (colocam) um peso muito formal e com uma componente “castigo” ainda que inconscientemente.

 

Uma das questões mais importantes a ter em consideração é perceber as possibilidades de tempo, disponibilidade dos alunos e respectivas famílias para assim conseguir adaptar o trabalho. Esta necessidade não se prende apenas com os trabalhos de casa mas com todo o trabalho desenvolvido. E é por esta razão, para mim das mais importantes, que a realização de TPC não se prende, nem se deve prender com diretrizes do Ministério da Educação. A escola tem de ter (é esse o objetivo futuro) flexibilidade curricular e mais autonomia que lhe permita uma organização mais individual e coerente com o meio onde está inserido podendo assim, cada professor, decidir o seu modus operandi, focado no aluno.

 

O Ministério da Educação tem outras responsabilidades que em nenhum momento deve passar, naturalmente, por este tipo de restrições.

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publicado às 19:59

Politicamente incorreto por favor.

por Maria Joana Almeida, em 15.11.17

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Não gosto do politicamente correto. As expressões desta “política correta” são provavelmente das poucas expressões que mais me incomodam e com as quais tenho extrema dificuldade em assimilar e acomodar, precisamente porque considero ser um desequilíbrio. Um desequilíbrio entre ação e pensamento. Somos politicamente corretos porque queremos pertencer a um determinado espaço dentro da sociedade, ou porque queremos assumir uma posição que pareça bem mesmo que não genuína, mesmo que não fazendo parte de nós. Ou porque simplesmente temos medo de represálias.

 

Existem atualmente e sempre existirão ações que pretendem não melindrar e entrar num círculo cómodo, diria, esterilizado. Comportar e guardar tudo em caixinhas que nos permitam viver e convencermo-nos de que é assim que deve ser. Porque de alguma forma esta forma de funcionar traz-nos uma capa protetora e passível de poder criticar os outros no alto dos nossos pensamentos “irrefutáveis” e ações “trabalhadas” e não sentidas.

 

O mundo da Educação também não escapa. Está igualmente inundado pelo politicamente correcto. Sindicatos que dizem o que os professores querem ouvir; professores que transitem uma mensagem que os pais anseiam escutar, mesmo que falsa, escolhendo todas as palavras e acabando por não transmitir a realidade; pais que se agarram a teorias de internet e repreendem tudo o que não compreendem ou não encaixe na poção mágica lida. O politicamente correto vagueia e inunda os discursos quer na educação, quer no mundo político, quer nas pequenas e grandes empresas. Aparece como uma tirania educada. É a ditadura dos ofendidos.

 

Um dos expoentes máximos desta “política” revela-se na forma como tratamos os deficientes físicos nas diversas dimensões da sua vida. Na escola escolhemos as palavras para não melindrar; munimo-nos de toda a condescendência para agir de uma forma que soa tanto a artificial quanto as nossas ações, lembrando-lhes sempre, desta maneira, das suas limitações.

 

No fundo não há nada mais constrangedor do que não ser genuíno e criar uma personagem. A Educação, especialmente no mundo da Educação Especial, precisa de humor, precisa de tratar as coisas pelos nomes, precisa de murros na mesa mesmo que o menino esteja numa cadeira de rodas, precisa de respeito e tratar o outro como capaz.

 

 Venha o politicamente incorreto para que possamos evoluir.

 

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publicado às 21:00

Diferentes currículos na mesma turma (estratégias)

por Maria Joana Almeida, em 30.10.17

Queridos Professores j5.png

 

 

Todas as turmas têm, naturalmente, alunos em diferentes níveis de aprendizagem e sendo esta uma realidade o professor tem um enorme desafio pela frente. Um duplo desafio que se traduz em: cumprir o currículo e corresponder às necessidades de cada um. É, certamente, compreensível de que é um papel difícil para um professor sozinho em sala de aula porque embora considere que não podemos ser escravos do currículo, a verdade é que ainda é difícil retirar todo o seu peso.

 

A existência de alunos a “cumprir um programa” de 2ºano em turmas de 3ºano ou de 3ºano, em turmas de 4ºano e outras realidades são comuns em várias escolas. De forma a ser possível conseguir um trabalho com sucesso deixo algumas sugestões e estratégias que podem facilitar este processo:

 

 

- Realizar, juntamente com o aluno, um horário tendo em conta das dinâmicas da sala e que seja colocado num lugar sempre visível e de fácil acesso (dentro do dossier, colado na mesa). Esta estratégia permite ao aluno organizar mentalmente o seu dia e perceber cada “etapa”.

 

- Criar um caderno/dossier com trabalho individual, mais adpatado ao perfil de funcionalidade do aluno e que contenha todas as áreas trabalhadas na aula. O aluno deve poder escolher autonomamente a atividade que quer realizar das que estão contempladas no caderno/dossier e consoante o horário estipulado na sala de aula.

 

- Reforçar a necessidade do aluno terminar a atividade num determinado período de tempo para que não se prolongue para o dia seguinte e possa ser corrigida no momento da conclusão. O feedback  rápido é importante para organizar tanto o aluno como o professor.

 

- Para alunos com maior dificuldade de concentração e organização temporal,  recortar as atividades e apresentar os exercícios um por um permite estruturar o foco e um melhor desempenho.

 

- Existir o apoio de um professor sócio educativo ou professor de apoio que permita auxiliar o professor titular de turma em ajudar o aluno a consolidar conhecimentos.

 

- A utilização do trabalho autónomo não substitui ou elimina (bem pelo contrário) o trabalho que é realizado em conjunto com os outros colegas em sala de aula. O trabalho individual deverá ser utilizado como forma de adaptar os conteúdos ao perfil de funcionalidade do aluno.

 

- Colocar o aluno (ou alunos) no local de mais fácil acesso ao professor para ir monitorizando o trabalho e motivando o aluno.

 

-Valorizar sempre com palavras e atutudes positivas os sucessos do aluno porque como já tive oportunidade de escrever neste espaço: A verdade é que ganhamos muito mais do que podemos imaginar quando “perdemos” 10 minutos do nosso tempo à procurar do talento em vez das dificuldades, ao elogiar (com o equilíbrio necessário) em vez de criticar e ao fazer sentir que aquela pessoa é importante em vez de desistir.”

 

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publicado às 21:35

Hoje quero falar sobre a Fátima.

por Maria Joana Almeida, em 11.10.17

 

Fátima.jpg

 

É também o nome da minha mãe, mas hoje o texto é sobre outra Fátima. A que conheci em 2014.

 

A Fátima foi (é) a auxiliar de ação educativa numa sala de ensino estruturado para autismo onde trabalhei. Foi a minha primeira experiência como professora de educação especial neste contexto. Embora segura da minha capacidade adaptativa, as dúvidas e inseguranças eram, naturalmente, bastantes no início.

 

O apoio e a rede de segurança numa escola é fundamental para quem chega de novo e dá os primeiros passos numa nova realidade. Os anos vão trazendo conhecimento, resiliência e mais estabilidade, aquela que nos permite olhar para os novos desafios com mais certezas e menos inseguranças.

 

Os auxiliares de ação educativa, também conhecidos por assistentes operacionais (termo que não gosto) são pessoas fundamentais numa escola. A sua função pode ser a que permite, em muitos casos, estabelecer uma relação de maior proximidade entre escola, pais e alunos. São um elo de ligação e um braço direito incontornáveis e absolutamente indispensáveis. A prova disto é a instabilidade criada em muitas escolas quando há falta de auxiliares de ação educativa.

 

A Fátima é, de longe, a melhor auxiliar de ação educativa que conheci. Desempenha um papel que vai para além das suas funções porque a Fátima é mesmo assim: extremamente profissional, extremamente dedicada. A Fátima já conhecia estes adolescentes desde que frequentaram o 1ºciclo. Já havia iniciado o trabalho com eles. Sabia o que tinha de ser feito e não cruzava braços em momento algum. O respeito e admiração destes jovens pela Fátima era inabalável. Uma relação de confiança há muito tempo criada, principalmente porque eles sabiam o quanto a Fátima gostava deles e o quanto se preocupava com eles. Os encarregados de educação confiavam plenamente na Fátima. Professores iam e vinham, mas a Fátima ficava. Fica. E esta é uma segurança impagável para pais e familiares que inúmeras vezes têm de se deparar com dificuldades, inseguranças e decisões constantes.

 

Repito, a Fátima é (foi) muito mais do que se pode pedir de uma auxiliar de educação. É um ser humano extraordinário, dotada de grande sensibilidade, caráter e uma força da natureza. Correta, atenta, pronta para ouvir e aprender. Aquele braço direito que antes de falarmos ou pedirmos algo já tudo está a acontecer.

 

Foi, sem dúvida, pelas mãos  da Fátima que também muito aprendi sobre a relação e onde construi seguranças.

 

Obrigada

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publicado às 18:16


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