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A Maria leu hoje uma frase

por Maria Joana Almeida, em 10.12.18

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Já tinha escrito algo semelhante no primeiro texto que fiz no meu blogue. Há frases que aparecem na nossa vida que servem para validar uma convicção e sem nos apercebermos, condicionar a nossa ação e pensamento.

 

Acordei de manhã e enquanto fazia a viagem até um dos meus trabalhos li a seguinte frase que apareceu em pop-up nas redes sociais “Students don´t need a perfect teacher. Students need a happy teacher, who´s gonna make them excited to come to school and grow a love for learning” que é qualquer coisa como isto “Os alunos não precisam de um professor perfeito. Os alunos precisam de um professor feliz que os consiga entusiasmar para a aprendizagem”

 

Fazia todo o sentido. Conseguia rever-me no meu presente e no meu futuro.

 

Durante a manhã, na minha turma do curso de alfabetização, trabalhei com o mesmo entusiasmo de sempre. Aquele entusiasmo de quem trabalha para permitir ferramentas base do dia-a-dia. Dar liberdade, autonomia a adultos que ainda fazem parte do 5% de analfabetos que herdámos dos 26% em 1974. Mas também aquele entusiasmo de quem trabalha com uma equipa com o mesmo foco, com uma atitude construtiva, sensível e persistente. E acima de tudo uma equipa que encara cada indivíduo como singular com a sua história, fragilidades e comprometimentos que merecem, por respeito a cada perfil, um plano e um trabalho individual.

 

A Maria é nova nesta turma e à semelhança de muitos formandos nunca foi à escola e a sua vontade de aprender é inspiradora. Quer tanto aprender que quando erra por vezes quase chora porque a sua força de vontade contamina toda a racionalidade que nos diz que é a errar que aprendemos e que é passo a passo nunca imediato.

 

Hoje, passado dois meses de formação, a Maria leu uma frase. Não há palavras para a sua expressão perante os aplausos dos seus colegas e as palavras de motivação.

 

E a Maria, no seu modo ingénuo, dizia-me enquanto eu lhe dava, também, os parabéns: “Mas professora, não sei como hei-de explicar, mas a professora tem assim muito gosto em ensinar e assim é mais fácil”. E naquele momento regressei à frase. Condicionou, de uma forma muito positiva aquele dia.

 

A alfabetização de adultos tem sido encarado como um problema menor, muitas vezes com uma intervenção paliativa, pela rama, sem se permitir a conhecer as histórias de cada aluno. Há dois aspetos que determinam o sucesso desta intervenção: a consciência de que 5% é a percentagem mais elevada na Europa (ainda me recordo da expressão de admiração de um amigo alemão que não acreditava que ainda havia pessoas analfabetas) e que, em pleno século XXI, é inaceitável e tem de ser combatido; e de que ensinar um adulto a ler e a escrever tratando-o como mais um, fechando os olhos a um passando de vivências muito próprias e negando-lhes assim um futuro, é perpetuar a percentagem existente.

 

Num futuro, quando me perguntarem por um dos momentos mais significativos na minha vida profissional, este será, sem dúvida um desses momentos.

 

Estou longe de ser perfeita, mas convictamente certa de que sem amor, sem paixão ninguém ensina e ninguém aprende ponto.

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publicado às 22:07

5 perguntas, 5 respostas com Joana Sá Machado

por Maria Joana Almeida, em 18.11.18

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Há pessoas na vida que basta conhecer uma vez para criar uma empatia enorme. Há pessoas que ficamos anos sem ver e quando vemos nada mudou e mais se construiu. A Joana Sá Machado é assim.

Conhecemo-nos através do seu primo, meu colega na Faculdade, no cinema para ver o “Torre Bela”. Estivemos vários anos sem ter contacto até que há cinco anos atrás foi como se retomássemos a relação de amizade que ali tinha começado.

É difícil encontrar pessoas que são peças do nosso puzzle. Pessoas com o mesmo sentido de humor que nós: nonsense, acutilante e por vezes cáustico. Pessoas que numa sala, quando em pontas opostas, olhando uma para a outra sabemos exatamente o que estamos a pensar. É por isto e por muito mais que a Joana é das minhas pessoas, do meu círculo.

A Joana tem um percurso muito rico. Um exemplo de que o que escolhes como percurso na Universidade não tem que definir a tua vida mas pode servir de ferramenta para chegares ao teu lugar feliz.

 

 

1 – Joana Maria, minha querida capicua, ambas temos um blog, eu sobre Educação e tu sobre Lisboa aliada à fotografia. À partida parece que não existem pontos em comum mas este tema (educação), de tão vasto que é, alberga tantos outros. E as artes, como uma forma de Educação, estão muito presentes no teu dia-a-dia.

 Tendo em conta o teu percurso, desde a tua base académica, que acontecimentos na tua vida pessoal e profissional te trouxeram até este projeto (fotografia)?

 

Desde tenra idade que a sensibilidade para a Cultura e a Educação foram uma constante.

E isso veio de casa, veio dos meus pais, ou seja fui crescendo sempre com a noção que estudar era um privilégio mas que quando chegava à escola muita da minha bagagem vinha de casa.

A educação para mim foi sempre vista desses dois lados Casa Versus Escola e Escola Versus Casa. A assunção que estudar era um privilégio e que deveria estudar e formar-me consolidou-se no secundário quando me percebi que eu era muito mais das palavras do que das componentes técnicas. Formei-me em Direito, e hoje quase 20 anos depois dessa tão tenra decisão, continuo a achar que foi a decisão mais certa da vida, pois o meu curso de Direito é a ferramenta maior que tenho para entender esta Sociedade e tudo o que me rodeia. Mas se o Direito era uma certeza, e como sou humana, muitas mais certezas se instalavam na minha vida, no meu trabalho e na minha formação. Aí entra o meu pai, Produtor na RTP, do início de uma estação pública e de um sonho. A Imagem existiu sempre. Sempre. Não me lembro da vida sem fotografias, sem câmaras à volta e sem a RTP de pano de fundo. O Direito é em certos aspectos um espartilho e é também uma forma de estar (com muitos carreirismos com os quais não concordo), e os últimos 20 anos desta nossa Humanidade já nos mostrou que somos muito mais do que apenas uma coisa. Corri para a Fotografia, lancei um projecto sobre fotografia em Lisboa e estou até hoje, passados 7 anos a trabalhar em imagem. A minha vida é sobre as imagens, sobre a criatividade e sobre o valor da palavra.

 

 

2 – A nossa educação é fruto dos exemplos e referências, primeiro com os pais como role model, depois amigos e um conjunto de espaços e vivências que nos vão moldando. Que bagagem (valores) trazes dos teus pais, da tua família, de casa?

 

Sem me dar conta já fui respondendo a esta segunda questão, na primeira.

Mas de facto todos os meus comportamentos e atitudes a nível escolar eram um espelho que tinha em casa.

Estudei até ao nono ano em colégios privados, era um universo sempre mais protegido, lembro-me que quando fui para o público era tudo muito mais barulhento. Nos colégios era tudo mais controlado e silencioso. Eu era uma menina sossegada, sempre com sagacidade e sem grandes conflitos à minha volta. Os meus pais deram-me educação através de vários prismas. Primeiro a Humana, isso de estar próxima do outro, de ser boa colega, e principalmente não chatear os outros com problemas que pudesse estar a viver. Depois a educação do Bom Dia, do cumprimentar toda a gente. Repito: toda a gente. E depois os valores, o da aceitação sem me resignar, o de não concordar sem fazer um conchavo e principalmente de entender desde criança que a educação traz valores e a Cultura é uma grande base de generosidade para olhar para o mundo à nossa volta.

Nunca fui fã da obra de Salvador Dali, mas sempre o achei genial. Sentava-me sempre na igreja do Colégio ( das Doroteias) em frente da Imagem da Nossa Senhora, não porque a entendia, já que eu era uma menina entre uma infância feliz, mas essa mesma Imagem era lindíssima, e isso de alguma forma moveu-me. Não fossem os meus pais e a sua simplificação da vida em relação a mim e ao meu irmão e a minha vida teria sido claramente muito diferente. Era feliz na minha infância, e sem me questionar, eu era feliz porque sim, porque a base e o colo estavam lá.

 

 

3 – De que forma é que a fotografia, que no teu caso são uma forma de relações humanas, te tem feito evoluir enquanto pessoa e profissional? E de que forma se insurge como uma arte educativa?

 

A fotografia é um belíssimo espelho da matéria humana, não só pela sua questão temporal e pelo que nos faz sentir na memória, mas pelo património que me trouxe.

Já fotografei, tanta, tanta, tanta gente. Já vi tanta coisa através da minha lente que muitas vezes me questiono onde vou guardar tudo isso. Trabalhar em fotografia, e eu essencialmente fotografo mais pessoas do que produto, faz-me antes de mais ter uma capacidade relacional efectiva porque preciso que as inseguranças, as reservas e por vezes desabafos não apareçam nas minhas fotografias. Aí o desafio é gigante, e eu dou por mim a ser um veículo de algo que apesar de ter a minha autoria, não me pertence.

A imagem de cada um de nós é o nosso primeiro cartão de cidadão. E a cidadania e a sua assunção é tão importante. Obviamente que tudo isto me fez evoluir bastante, em parte acalmou-me e fez-me traçar um caminho mais concreto e posicionar-me na fotografia a 100%. Como arte educativa e agora que o spectrum da fotografia está tão alargado sinto-me a viver um grande desafio da fotografia não ser banalizada e a reserva da vida privada não seja um motor veiculado por fotografias (e vídeos). Mas as fotografias são na sua base relações humanas, não me imagino a fotografar sem estabelecer de imediato uma sintonia com a pessoa que estou a fotografar.

 

4 – Quem te conhece sabe que és uma pessoa informada, consciente dos problemas do nosso pais e com um discurso estruturado e equilibrado acerca dos diversos temas quentes da nossa sociedade. Ambas, como forma de retirar o peso negativo das várias notícias que surgem diariamente, costumamos aligeirar o ambiente com algumas piadas, mas conscientes dos problemas sérios que assolam a nossa atualidade.

Enquanto cidadã e utilizadora diária das redes sociais, o que vês do outro lado da tua lente que te preocupa?

 

Vivemos uma altura a meu ver mais complicada do que desafiante. As redes sociais, a exposição, a rapidez do “passa a palavra”, os hashtags, os grupos de whatsapp, tudo nos faz estar em contacto e nos faz passar informações. Comunicar passou a ser o lenitivo maior desta Humanidade, mas a pergunta que me coloco todos os dias é justamente essa: será que temos que comunicar tanto? Será que temos que nos expor tanto? Faz sentido fotografar o meu filho no banco da escola e “instagrar” o momento? A minha resposta é não. Uso redes sociais, Facebook e Instagram, sei que há mais, mas não tenho capacidade para mais, na minha conta que é pessoal de Instagram público fotos do meu dia-a-dia, para mim isso é pacífico, mas deixo o alerta: não sei fazer stories, não uso hashtags e tremo quando me dizem “vamos criar um grupo de whatsapp!”. No Facebook onde tenho páginas profissionais comunico o meu trabalho, e faço-o com todo o empenho. O Facebook permite-me ter acesso a muito do que se passa a nível de notícias no mundo, e isso é inspirador até para os posts que vou escrevendo sobre política e que tantas críticas merecem. Agora acho que devemos reavaliar muita coisa.. Se antigamente aparecer na televisão era algo quase impossível hoje no banho fazes um vídeo a dizer que usas um gel de banho fantástico, está demais, está efectivamente de mais. E no que toca à educação, não é isto que quero para os meus filhos. É necessário mais consciência e perceber que as fotos, os vídeos e as palavras que escrevemos nas redes sociais deixam de ser nossas a partir do momento em que são publicadas. E eu questiono: será que queremos entregar ao mundo esse património? Que a reserva das opiniões volte a estar na Moda, seja um statement. Democracia é ter Opinião e fazer uso dela para melhorar o mundo, não para fomentar exposições, juízos e até mesmo violência.

 

 

 

5 – Esta última questão tem sempre a sua tónica mais ligada à Educação na vertente “escola”. Pegando no final da pergunta anterior como encaras o futuro da Educação em Portugal?

 

O Futuro da Educação em Portugal!  Fica o desabafo que é e pergunta mais difícil desta entrevista. Antes de mais há duas coisas que têm que ser transversais numa sociedade. Um Governo quando constrói o seu Orçamento do Estado, e entra na baliza dos cortes tem que perceber que cortar na saúde e na escola pública, é cortar nas duas maiores importâncias da vida de um cidadão. Vivemos nos últimos anos (2011/2015) tempos muito difíceis com a estadia da Troika no nosso país, e sinceramente se as coisas tivessem continuado, a escola pública teria sido extinta, porque dentro deste liberalismos que em parte o mundo ocidental vive há a assunção que mais vale teres dinheiro para pagar um colégio, do que ter um ensino gratuito.

O futuro da Educação passa pela requalificação do papel da Escola na sociedade, passa pelos pais perceberem que o trabalho escolar começa aos 3 anos quando vamos por os nossos filhos na pré-primária. Passa pela assunção que um Professor não é “pau para toda a obra” e que o respeito começa na hora em que em concurso público, estes são colocados. Passa por entender que um professor ensina, não está ali a educar. Mas passa principalmente pelo poder Legislativo: de entender que acesso a uma escola seja ela pública ou privada deve ser um direito inabalável, e que estudar deve ser efectivamente a fase mais tranquila da vida de um cidadão. E fica a sugestão: preparem os nossos estudantes para o mercado de trabalho de forma consciente. A longo prazo esta ideia fará de nós, um país mais desenvolvido em todas as frentes de uma sociedade.

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publicado às 21:19

O dia em que abri o blog e estava nomeado

por Maria Joana Almeida, em 15.11.18

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Foi uma surpresa muito agradável abrir o blog e este ser um dos nomeados para o blog do ano, na plataforma blogs.sapo, na área da Educação.

 

Como ja tive oportunidade de dizer eu não lia blogs, nem nunca me tinha ocorrido fazer um blog. Mas gosto muito da minha profissão e gosto acima de tudo de pensar e refletir sobre Educação. Nunca numa perspetiva de saberes consolidados e dados adquiridos, mas sempre numa lógica construtivista. E só assim faz sentido.

 

Este é tambem um blog de partilha. Da partilha de práticas e saberes de várias personalidades ligadas, de uma forma direta ou indireta, à Educação e com os quais muito tenho aprendido.

 

Obrigada pela nomeação. É uma valorização muito importante.

 

SIte de votação:

https://saposdoano.blogs.sapo.pt/sapos-do-ano-2018-os-finalistas-e-a-15030?fbclid=IwAR3cYQk4gfZqBrYcOBaVPtVSEjSebI5Pqr8RIsvtMHNLcOX5w-5V7xuKpcE

 

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publicado às 19:03

Ainda precisamos de um Manual para a Inclusão

por Maria Joana Almeida, em 15.11.18

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Da minha rubrica no  blog ComRegras: http://www.comregras.com/ainda-precisamos-de-um-manual-para-a-inclusao/

 

 

"Estamos em pleno século XXI. Passámos paulatinamente de esconder e não olhar como parte integrante da nossa sociedade pessoas com deficiência, para perceber os seus direitos e deveres enquanto cidadãos. Mas à revelia do que a evolução nos poderia dar, ainda precisamos de um Manual para a Inclusão.

 

Trabalhei ainda com o Dec.Lei 319/91, com o Dec.Lei 3/2008 e com o agora Dec.Lei 54/2018. Participei na discussão das fragilidades do anterior decreto (Dec.Lei 3/2008) e, dez anos depois, olho com esperança para a mudança que esta nova legislação quer trazer. Um paradigma (retirem aspetos económicos, rótulos, teorias economicistas) e filosofia de base que é, no meu entender, intocável. Pelos menos em pleno séc. XXI é. Se é absolutamente exequível na realidade atual? Isso já é outra história..

 

Têm sido apontados muitos motivos para (e já tive a oportunidade de ler e ouvir várias críticas a este novo documento) boicotar, por princípio, esta nova forma de encarar a Educação e as “Necessidades Educativas Especiais”. “Porque os alunos deixam de ter necessidades educativas especiais”. “Porque o que é pedido não é exequível”. “Porque vêm os exames”. “Porque em termos de estrutura da escola não é possível aplicar as medidas universais que vêm no manual.” É do senso comum que qualquer nova mudança traz otimistas e arautos da desgraça. No nosso tempo, mais arautos da desgraça.

 

Sou favorável a esta nova legislação, com a salvaguarda de que devem continuar a existir, como solução possível e não descentralizadora, outras estruturas e instituições que possam continuar a responder a casos de fim de linha. Encará-los como desnecessários não é fechar os olhos à Inclusão mas sim fechar os olhos à realidade.

 

Sou favorável a um novo paradigma que responsabiliza toda a comunidade escolar por todos os alunos não se fechando em gabinetes, em salas e em departamentos. Favorável a que não seja necessário alguém ou um papel que indique o que deve um professor, que lida diariamente com um aluno na sua sala de aula e o conhece melhor do que ninguém (muitas vezes melhor do que os próprios encarregados de educação) fazer, como e quando avaliar. Que fique à espera de medidas seletivas ou adicionais sem antes ser professor.

 

Esta legislação vai resultar? Não sei. Tem erros? Muito provavelmente. É economicista? Não quero saber. É uma mudança extremamente significativa na forma como encaramos a Escola e a Educação? É. E é isso que me interessa.

 

Esta legislação tem um Manual…(no meu entender bem feito). Mas tem um Manual.. O que não deixa de ser uma metáfora muito interessante para a atualidade do conceito Inclusão.

 

Ainda estamos no século onde a Inclusão tem de ser decretada e ensinada. Mas esperemos que, à semelhança de tantas evoluções, paulatinamente venha a ser cada vez mais sentida e menos decretada."

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publicado às 18:21

5 perguntas, 5 respostas com Inês Afonso Marques

por Maria Joana Almeida, em 08.11.18

 

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A Inês Afonso Marques foi a primeira pessoa que entrevistei no meu blog há três anos. É uma amiga e uma referência na área de paretalidade e dos seus desafios.

A Inês lançou o seu primeiro livro a título individual "Crescemos Juntos 365+1 Inspirações Para Uma Parentalidade Feliz." e não podia estar mais orgulhosa do seu trabalho. Um trabalho que assenta na observação e interação diária com pais, crianças e escola. Um trabalho consciente dos reais problemas e desafios nesta tríade nem sempre fácil e clara: escola - alunos - pais.

 

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A entrevista fala por si.

 

Obrigada Inês:)

 

 

1 – Inês, foste a primeira pessoa que entrevistei no meu blog. Digamos que iniciaste esta rubrica. Três anos depois lanças o teu primeiro livro a solo. Como nasceu este projeto?

 

Escrever o Crescemos Juntos surge da vontade de “tocar” mais pessoas, além das que me procuram diariamente no consultório. Há temas transversais à maioria dos pais: dúvidas, medos, angústias que não os levam necessariamente a agendar uma consulta e que não faria grande nexo ficarem “só comigo”. Fui sentindo que algumas das reflexões feitas no contexto do consultório poderiam fazer sentido noutros formatos. Quis partilhá-los. Escrever este livro constitui uma forma de comunicar sobre temas da parentalidade com mais pais, mais famílias, mais educadores. É uma espécie de abraço contentor e uma enorme homenagem a todos pais que procuram dar o melhor de si todos os dias.

 

 

2 – Sou uma mãe recente e portanto, naturalmente mais desperta para esta viagem da parentalidade. Há dúvidas constantes que vão sendo ultrapassadas no momento pelo improviso, pelas nossas referências, pelo nosso “mapa emocional” (uma imagem muito ilustrativa mencionada por Catarina Beato). Quais são os maiores desafios da parentalidade?

 

Creio que o tema da “perfeição” é um desafio. Pais que procuram ser os melhores e que incitam os filhos a ser os melhores, por oposição a dar o melhor. Há uma espécie de competitividade latente, muitas vezes induzida pela própria sociedade, que gera imensa pressão sobre as famílias… Roubando-lhes espaço, tempo e genuinidade. Espaço para se relacionarem, sintonizarem e conhecerem verdadeiramente. Tempo de qualidade. Genuinidade para seguirem os seus corações, sem ceder a pressões exteriores.

Portanto, há muitas vezes a questão das pressões externas, fazendo as famílias andarem um pouco à deriva sem estarem conectadas com aquilo que valorizam e desejam verdadeiramente para elas. Há também a questão do tempo, dos horários e das rotinas. Mas eu coloco a tónica na qualidade do tempo. Ele pode muitas vezes não ser todo aquele que seria desejável. Mas o que existe é vivido em qualidade? Pais e filhos passam tempo conectados, em relação, em sintonia? Verdadeiramente, a qualidade do tempo que pais e filhos passam juntos é prioritária.

 

 

3 – Da tua experiência como têm andando os “nossos pais”, os pais desta atual sociedade? Há valores, inspirações que são transversais ou algumas muito específicas da realidade que habitamos?

 

Não quero, nem posso generalizar. Falo apenas daquilo que vou observando e refletindo com colegas, amigos e algumas famílias com quem trabalho. Acho que “os nossos pais” se sentem muitas vezes desorientados, sem forças, a precisar de “colo”, de encorajamento… Como tenho dito, de recalibrar as suas bussolas da parentalidade, de redescobrirem os seus valores enquanto pais, de voltarem a sintonizar com eles e de redescobrir as suas forças e qualidades.

Das 365+1 inspirações do “Crescemos Juntos” muito poucas serão específicas a algumas realidades. Elas são transversais à missão que é acompanhar o crescimento de um filho. Baseiam-se em partilhas que foram sendo feitas comigo, em reflexões pessoais e, obviamente, naquilo que a investigação na área da Psicologia e do Desenvolvimento Infantil no diz. Todas as inspirações estão formuladas numa linguagem simples, que convida à reflexão e à ação.

 

 

4 – E como andam os “nossos filhos” que inspirações necessitam? Por quê e por quem “gritam” eles?

 

Esta é mais fácil. J Os “nossos filhos” gritam por atenção, nas mais variadas formas. As crianças querem sentir-se especiais na relação que têm com os seus pais, querem brincar com eles, falar dos seus temas (que vão muito além do estudo), conhecer o mundo dos pais, passar tempo de qualidade com eles. Tantas e tantas crianças e adolescentes no consultório deixam cair frases como… “Os meus pais não sabem o que faço nos intervalos. Só querem saber o que almocei e quando é o próximo teste.” “De certeza que queres ouvir a minha música preferida? Os meus pais nunca a ouviram.” “Quem me dera que os meus pais se sentassem assim no chão comigo a fazer um jogo.” “Que bom sentir que me queres conhecer e que tens em consideração as minhas opiniões.” “Acho que os meus pais nunca foram falar com a minha Diretora de Turma.”

 

 

5 – Esta última pergunta tem sempre uma ligação mais estreita e direta com a Educação e Escola e sendo tu muito consciente das nossas escolas, de que inspirações precisa o nosso sistema educativo? E enquanto pais como podemos ajudar nesta construção?

 

Pegando na última frase, da resposta à pergunta anterior, pais e escola precisam de se inspirar mutuamente, de se valorizarem mutuamente, de comunicar mais. Havendo maior interligação entre escola e família, todos “crescem”. Todos poderão sentir-se mais confiantes, mais seguros, mais motivados nos seus múltiplos papéis. Infelizmente a escola é muitas vezes tema de conflito em casa e não faz sentido que assim seja. De parte a parte, famílias e escolas, respeitando os papéis únicos e especiais de cada sistema, devem procurar comunicar mais em prol dos mais novos.

Não sei se será uma visão demasiado utópica mas brincando um pouco e pegando nalgumas inspirações do “Crescemos Juntos” o sistema educativo…

“Poderia” valorizar mais os processos e menos os resultados.

“Poderia” abraçar mais os interesses das crianças.

“Poderia” respeitar mais os ritmos diferenciadores das crianças.

“Poderia” valorizar mais o ser, em vez do ter.

“Poderia” apostar mais no elogio e menos nos “resmungos”.

 

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publicado às 17:53

Hoje é o meu pai, o Zeca, que faz anos.

por Maria Joana Almeida, em 07.11.18

 

 

 

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Tinha de mudar a minha morada no cartão de cidadão o que implicava levantar-me cedo para tentar não apanhar uma fila considerável. Acordei cedo e pus-me a caminho sabendo que muito provavelmente, como tinha apanhado trânsito, teria de esperar bastante. Quase a chegar o meu pai envia-me uma mensagem a dizer: “Ainda demoras? Já cá estou e tenho uma senha para ti e está quase a chegar a tua vez”

 

Este é o meu pai.

 

O meu pai é a rede constante que tenho a amparar-me sempre. Não me deixa cair, não me deixa esquecer, se puder, não me deixa errar ou magoar nunca. Sem exigir, sem impor, sem cobrar. É amor incondicional.

 

O meu pai é de poucas palavras mas de sentimentos grandes e genuínos.

 

O meu pai é de família, é agregador. Gosta de pessoas, gosta de conviver, gosta de todos a rir e sorrir ao seu lado.

 

O meu pai não é de se zangar, nem de desavenças. É um homem sério, correto e justo e por isso muito sensível a injustiças, única altura em que se desilude e se zanga.

 

O meu pai é das melhores pessoas que conheço. Bondade é a melhor palavra que o define. À semelhança da minha mãe, onde ele estiver a ninguém nada faltará.

 

O meu pai gosta de casa, do sossego, de jantares de família, da filha a rir e da sua neta que já o conhece tão bem e sorri sempre que o vê.

 

Acho que nunca me zanguei com o meu pai. Não me lembro também do meu pai se zangar comigo, apenas nos disparates que fazia em pequenina.

 

O meu pai pode não concordar muitas vezes comigo, ter muitas vezes medo, mas guarda para si. Expõe, de forma a que eu não me melindre, nem me magoe o que acha, na esperança que eu o oiça. E eu oiço. Oiço sempre e explico-lhe as minhas razões. As razões que a cabeça entende, mas que o coração (o coração de pai) não consegue deixar de se afligir.

 

O meu pai é amado por todos. É impossível não gostar dele. Há poucos como ele.

 

O meu pai ainda hoje me manda mensagens todos os dias para saber se cheguei bem. Ele sabe que eu às vezes não tenho paciência para responder. O meu pai secretamente sabe e diz-me “Desculpa estar sempre a perguntar mas como vais de carro fico sempre um pouco aflito”. O meu pai não precisa de me pedir desculpa por nada. Eu talvez sim. Por às vezes não conseguir dar toda a atenção que merece.

 

Não querendo usar lugares comuns, mas porque me comovo sempre quando falo do meu pai, sei que não poderia ter pai mais dedicado que à sua maneira, tão maravilhosa, faz-me sentir todos os dias o quanto sou importante para ele. E sim, sou um pouco (talvez muito) menina do papá. Com muito orgulho.

 

Parabéns meu pai.

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publicado às 10:23

Isto assustou-me muito.

por Maria Joana Almeida, em 30.10.18

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Há um crescente movimento perigoso a ascender em vários países. Basta olhar para o Brasil, para os E.U.A onde Bolsonaro e Trump conseguem dar vida a sketchs de humor negro que só achava possível em ficção. Como escrevi há pouco tempo: “Ou percebemos e resolvemos rapidamente onde é que a democracia tem falhado e onde deveria ter, inevitavelmente, mão forte ou, à semelhança da célebre frase de Manuela Ferreira Leite "Mais vale suspender por uns meses a democracia para se poder fazer todas as reformas necessárias". Poderá não ser só uns meses..”

 

É verdade que por vários momentos não quis acreditar que um candidato a presidente de um país e em pleno século XXI se insurgisse com um discurso de ódio direto e especificado. Achava que só podiam ser fake news, montagens. Mas não. Em democracia isto é possível e é a distância de um voto que permite a sua continuidade.  Pior. Num país com o um passado ainda recente de ditadura militar a maior parte dos seus cidadãos foram complacentes e legitimaram um discurso que põe em causa a sua própria liberdade.

 

No dia seguinte acordei com a imagem de uma informação que supostamente incentiva à denúncia, por parte dos alunos de uma escola, de professores que se insurjam com comentários e ideias contrárias ao recente presidente eleito. (Encontram em algum momento da história semelhanças?)

Esperei, mais uma vez, que esta notícia fosse falsa. Nada indicou que fosse.

 

Sou, por natureza, muito pouco alarmista no geral. Recordo uma conversa com um amigo, há sensivelmente 5 anos, onde ele, algo alarmado, falava das grandes possibilidades de regimes de extrema-direita poderem chegar de novo ao poder. Disse-lhe para acabar o gin e não dizer disparates, qual arauto da desgraça. Cinco anos depois movimentos que foram primeiro subtis, depois declaradamente inquisitórios, discursos de “tótos” fundamentalistas, mas inofensivos, ganharam terreno. Muito terreno.

 

Como professora espero nunca chegar a um tempo onde tenha medo de partilhar as minhas ideias, onde tenha de me calar com medo de represálias, onde a tolerância e o equilíbrio deixe de ser o que nivela a nossa existência.  

 

A democracia pode ser por vezes muito assustadora, mas isto..isto é muito mais..

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publicado às 15:44

5 perguntas, 5 respostas com Catarina Beato (dias de uma princesa)

por Maria Joana Almeida, em 12.10.18

 

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Sigo o blogue da Catarina Beato desde 2014. Sempre admirei a sua força de vontade, determinação e organização. Comecei a ler por curiosidade, na altura andava de dieta e uma amiga minha tinha-me falado do blogue “dias de uma princesa". Fui ler e rapidamente criei uma empatia com a sua escrita. É muito bem escrito. Não era floreada, não era “perfeita”, era real . E é isso que me interessa.

 

Há uma expressão muito boa de Winnicott, “uma mãe suficientemente boa”. Como recente mãe, nunca uma expressão me fez tanto sentido. A Catarina Beato tem, diretamente ou subtilmente, ajudado a desmistificar um ainda presente e pesado preconceito de que uma mãe pode ou não pode algo e que deve ser perfeita. Ser mãe não é a única coisa que nos define, embora seja a melhor viagem de sempre. E são nas várias coisas que nos definem que reside o melhor que podemos dar aos nossos filhos.

 

Obrigada Catarina.

 

 

1  - Assim como a Catarina, também tenho uma filha Maria Luísa e também tinha uma particular preferência por um rapaz. A Catarina chega a verbalizar várias vezes que tinha muito medo de ter uma menina. Este medo vem de algo mais pessoal, particular do seu espaço familiar, ou da sociedade atual?

 

Como escrevi no meu blog e é exactamente a resposta a esta questão:

“Durante a gravidez  afirmei muitas vezes: “é-me indiferente desde que tenha saúde”. E sentia exactamente isso mas esperava que – como das outras vezes – encontrassem um pilinha na ecografia. “Sou mãe de rapazes.”  Essa era a minha certeza.

Eu não queria ser mãe de uma menina. E eu explico-te porquê. Porque tinha medo de não ser menina suficiente para ser a tua referência. Não sei maquilhar-me, não pinto as unhas, sou demasiado despreocupada com aquilo que visto. Não fui a menina que recebia elogios, era demasiado “rapaz” para isso. Era maior do que as minhas amigas, mais bruta que as minhas amigas, menos “menina”. Cresci com a amizade dos rapazes, com o “és cá dos nossos”, “és mesmo fixe”. “Sou mãe de rapazes”, pensei sempre, como se isso me protegesse de todas as questões que ficaram por resolver na minha adolescência.

Duas ecografias e nada de pilinha, “quase de certeza que é uma menina”, garantiu a médica. O meu marido e o meu filho adolescente comoveram-se. E eu fiquei muito quieta, em pânico.  “Uma menina.” “E agora? Uma menina? Mas eu sou mãe de rapazes!”

O Afonso, o meu rapaz de cinco anos, teve um período de negação. Ajudou a esconder a minha. Depois aceitou: “eu afinal gosto de meninas e quero a mana”. Eu ainda demorei.

Tenho medo de ser mãe de uma menina apenas porque sou mulher e sei que isto do género ainda significa que muitas coisas são diferentes. Porque este mundo ainda assiste a situações gravíssimas em que as mulheres são maltratadas apenas porque são mulheres, porque ainda confundimos defender os diretos das mulheres com não poderem ser vaidosas ou mostrar o corpo. As mulheres não querem ser iguais aos homens, somos fisicamente diferentes, mas querem poder ser mulheres, da forma livre que o decidirem ser – suaves ou brutas, mães ou não, trabalhadoras em casa ou sem conseguirem ir a casa pelo cargo importante que têm, discretas ou despidas, cheias de pudor ou vergonha nenhuma, princesas ou camionistas.

Não queria ser mãe de uma menina. Agora sou mãe de uma menina. E espero conseguir que sintas essa liberdade e esse mundo de possibilidades.”

 

 

 

2 – Sente que, como mãe e na sua educação, há diferenças na forma como lida com a Maria Luíza por ser rapariga em relação aos seus filhos rapazes?

 

Não, não há qualquer diferença. Quase nem na forma de vestir porque a Maria Luiza herdou muitas coisas dos irmãos. Tal como nos brinquedos. Sou exactamente a mesma mãe.

 

 

3 – A Catarina tem um percurso muito interessante e é sem dúvida a referência de uma mulher forte, resiliente, corajosa e muito estruturada no sentido em que está ciente das suas potencialidades e fragilidades. Como mãe, qual a mensagem mais importante que quer passar aos seus filhos?

 

Quero apenas que sejam felizes como a noção de liberdade e responsabilidade. Acho que a maioria das coisas que tomamos como certas a vida encarrega-se de nos trocar as voltas por isso o melhor é ir deixando acontecer e reagir de acordo com as necessidades de cada momento (também nas mensagens que queremos passar). Acredito que somos um exemplo na vida dos nossos filhos. Não pela imitação mas pelo valores que transmitimos.

 

 

 

4 – A mãe da Catarina é professora e vivemos hoje, fruto de muitas guerras, alguma certas outras menos, um escrutínio público das várias dimensões do professor passando uma imagem maioritariamente negativa. Como encara estas notícias?

 

Naturalmente encaro de forma negativa porque acredito que os professores são uma parte fundamental da formação de um povo e de um país. Remetemos um professores para um lugar menor o que trás consequências a médio e longo prazo.

“Arrisco dizer que me lembro de todos os meus professores: os chatos, os fixes, os intelectuais, os divertidos, os que nunca se enganavam e os distraídos, os que faziam parte da mobília e os estagiários. Foram, todos eles, uns mais que outros, fundamentais na minha vida.”

 

 

5 – Este é um blog sobre Educação e as suas várias dimensões e por isso finalizo esta entrevista com a seguinte pergunta: Qual a sua visão sobre o mundo da Educação em Portugal? Quais os nossos pontos fortes e o caminho que ainda temos de percorrer?

 

Os pontos fortes são as pessoas as também um sistema exigente e com excelentes bases. Os pontos fracos, para além de alguma falta de actualização é o constante desinvestimento do Estado que se traduz numa falta de prestigio para a classe profissional. A Educação é o pilar de um país. E quando construímos uma casa com pilares fracos, a casa cai.

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publicado às 22:53

A minha mãe, a Fátima, faz anos hoje.

por Maria Joana Almeida, em 30.09.18

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O escritor Luís Osório escreveu recentemente um livro chamado “mãe, promete-me que lês”. Achei muito bonito. E acho também que, se possível, as homenagens devem ser feitas enquanto estamos juntos. E que as pessoas não têm naturalmente apenas lados maravilhosos e na maior parte dos casos não faz mal.

 

 

A minha mãe é muita coisa e são muitas as coisas que sinto com ela. É possível num momento ambas chorarmos a rir com algo que fazemos ou dizemos, como noutros momentos discordarmos convictamente de pequenas coisas. Há ainda outros momentos onde sentimos uma enorme preocupação, maior do que nós e que nos leva de novo a juntar tudo o que há de bom e esquecer aquilo que efetivamente são: pequenas coisas.   

 

A minha mãe chateia-me muitas vezes e eu a ela. Só que eu acho sempre que é unilateral, que eu nunca a chateio.

Às vezes zangamo-nos. E às vezes não me apetece atender-lhe o telefone. Mas se a minha mãe não me ligar um dia, eu ligo a pedir satisfações porque o dia já não é igual. No fundo ligo porque se tornou, inconscientemente impossível, não sabermos diariamente uma da outra, mesmo que a conversa seja 10 segundos porque estou a tratar da Maria Luísa.

 

A minha mãe tem muita gente que gosta dela. Muita mesmo. E isso deixa-me feliz. Porque a minha mãe, apesar de muitas contradições que temos (naturais), tem um coração do tamanho do mundo. Também tem o coração muito perto da boca o que por vezes causa alguns dissabores. Às vezes tem de se lembrar de o pôr no lugar dele.

 

A minha mãe é vaidosa e era uma mulher muito bonita. Para mim ainda é.

 

A minha mãe é parecida com a minha avó. Não faltará nada a ninguém enquanto estiver por perto. E a quem vem por bem ainda menos.

 

A minha mãe é muito engraçada a contar histórias. Especialmente a mim e ao meu pai e com quem se sente à vontade. Sente-se confiante e consegue fazer-nos rir muito. Ao ponto de eu ter de partilhar as mesmas histórias com as minhas amigas que conhecem bem a D. Fátima e a sua habilidade na cozinha. Rimos muito. E eu fico orgulhosa, de coração cheio.

 

A minha mãe preocupa-se muitas vezes, demais. Mas eu sei que é porque ama demais. Uma vez perguntei-lhe. “Como é ser avó?” ao qual me respondeu “É maravilhoso, mas sinto sempre duas coisas que não sei separar, uma enorme felicidade e ao mesmo tempo uma enorme preocupação”.

 

Às vezes acho (muitas vezes) que a minha mãe devia valorizar-se mais e não ter medos. Tem muito de bom para dar e todos nós sabemos. Às vezes demasiado bem.

 

A minha mãe é muito importante para mim, e ela sabe. Podia nunca dizer nada disto (do que escrevi) e no entanto eu sei que ela sabe que é verdade.

 

Um dia, depois de estarmos alguns dias chateadas (demora pouco tempo sempre) escrevi-lhe uma mensagem “Se um dia a Maria Luísa gostar tanto de mim como eu gosto de ti ficarei muito feliz”.

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publicado às 13:00

"Indisciplinai-vos" (sempre)

por Maria Joana Almeida, em 16.09.18

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O início deste ano letivo trouxe um grande e bom desafio.

 

 

No passado dia 7 de Setembro, em conjunto com a Psicóloga Clínica Inês Marques, fui falar sobre Indisciplina no Colégio Vasco da Gama apresentando algumas sugestões e modus operandi fundamentais quando lidamos com alunos mais desafiantes dentro do contexto de sala de aula.

 

 

Quero salientar alguns aspectos essenciais como conclusões desta formação e mais especificamente deste tema:

 

 

Mesma linguagem: Há uma frase muito boa que é, no meu entender, a pedra basilar nas questões relacionadas com indisciplina: “If you aren´t in the arena also getting your ass kicked, i´m not interested in your feedback” e que quer dizer alguma coisa como isto: “A não ser que estejas também no terreno a ser bombardeado eu não estou interessado na tua opinião".

Os professores que lidam diariamente com alunos mais desafiantes e desafiadores sabem bem o desgaste físico e mental que lhes é diariamente exigido e a dificuldade empática de ouvir intervenções de quem não conhece o terreno e simultaneamente as exigências curriculares que são feitas. Já passei, durante muitos anos, por turmas muito exigentes do ponto de vista comportamental (de fim de linha) e sei qual o sentimento quando numa conferência alguém verbaliza muitos lugares comuns, como se da última descoberta mágica se tratasse e com a leveza de quem ouve casos, mas não os sente.

 

 

Equilíbrio funcional – As relações, qualquer relação precisa de investimento. Lidar com alunos desginados “mais difíceis” pode ser encarado como uma qualquer outra relação afetiva. É preciso amassar muito massa, muito “pára arranca” e “avança e recua” até encontrar um equilibro. Mais do que uma turma disciplinada, ou relação perfeita (um conceito que é absolutamente relativo, tal e qual como o conceito Indisciplina) é mais importante falar em equilíbrios funcionais. Aquele equilíbrio encontrado quando um professor se mostra disponível emocionalmente para ser líder daquele grupo, seguro dos desafios a que está exposto e do seu papel social fundamental.

 

 

Empatia: Nós somos muito mais do que só professores, somos modelos sociais. Se eu encarar uma turma apenas como um conjunto de alunos a quem me pagam para debitar matéria e estarem calados, eu vou passar uma imagem de que todos são só mais um e que não tenho mais nenhuma responsabilidade para com aquele grupo de pessoas. Negando assim os vários papéis sociais que inevitavelmente desempenho. Sem empatia, ou sem qualquer preocupação de conhecer a história e os background dos meus alunos eu não vou ter sucesso na minha profissão. Sem amor, sem paixão, ninguém ensina e ninguém aprende ponto.

 

 

Rasgar protocolos – “Pedagogia é aquilo que resulta”. Ficar preso apenas a uma forma de ensinar; às mesmas ferramentas e forma de encarar o ensino é manifestamente pouco para as exigências atuais. Flexibilidade é necessário. Não considero que “fazer pinos” e comportamentos floreados sejam a resposta para lidar com turmas difíceis, (atitudes não sentidas são automaticamente sentidas pelos alunos). O professor tem de estar ciente, dentro da sua “mala de ferramentas” e sem desvirtuar a sua própria personalidade, da sua turma e daquilo que resulta mostrando quem é e o que pretende. Qual o seu “regulamento interno” independentemente de existir um regulamento interno na escola. Um murro na mesa e uma liderança forte que não nivele por baixo, cumplicidade bem como uma boa dose de sentido de humor podem fazer milagres.

 

 

Quadrados, círculos, rectângulos… - Ter a consciência que quando planeamos uma aula e imaginamos o “quadrado” perfeito que é essa aula (porque os alunos não são os que imaginamos mas aqueles que temos) esquecemo-nos que, numa metáfora “cubista” à nossa sala, há várias formas de assimilar informação. Há círculos, triângulos, quadrados, rectângulos e outras formas muito próprias. Encaixar quadrados em todos não é possível.

É importante perceber que, por exemplo, quando um aluno se recusa a fazer um trabalho ou vai para debaixo da mesa, ou arranja uma forma “indisciplinar” de boicotar esse trabalho não tem como objetivo atingir o professor, o aluno pode, não saber fazer esse trabalho e sendo-lhe difícil verbalizar publicamente, um comportamento disruptivo é para si uma solução. 

 

 

Conversa de bastidores: Os minutos que um professor fica no final da aula ou nos corredores, recreio (bastidores), uma vez, duas vezes, as vezes que forem precisas está, ao invés de perder tempo (como já ouvi alguns professores verbalizarem),  a ganhar tempo na relação afetiva que é necessária nos alunos mais desafiantes. E está, claramente a passar uma mensagem de que aquele aluno não é mais um. Que não estão em equipas opostas. E que conhece-lo e conhecer as suas motivações interessa-lhe.

 

 

Isto dá trabalho. Dá. Dá muito trabalho. Qualquer relação para ser boa, suficientemente boa dá.

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publicado às 14:15


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