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É uma Medida Universal e umas quantas Adicionais se faz favor.

por Maria Joana Almeida, em 17.05.19

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Ouvi, recentemente, uma frase em pleno Conselho de Turma, daquelas que nos fazem soar toda uma orquestra, mas em mau (quando tudo desafina); daquelas que nos fazem juntar todo um vernáculo em ebulição; daquelas nos fazem esquecer a teoria da mente; daquelas que me fariam encher toda uma página de comparações deste género.

Falava eu sobre a importância (já eu própria me canso de tantas vezes repetir o óbvio) de estabelecer uma relação com os alunos e em especial com aquele aluno específico, para no final ouvir. “Mas era o que mais me faltava agora ter de estabelecer uma relação com os alunos”.

Se estivéssemos num sketch humorístico esta teria sido uma tirada de mestre. Chamaria “os novos rebeldes da Inclusão”, aqueles que já não suportando a palavra e o conceito inclusão se revoltam “agredindo” os arautos da defesa dos meninos, da defesa de todos juntos na mesma sala. Esses chatos pá!

 

Olhei por momentos à minha volta certificando-me de que todos teríamos ouvido o mesmo, não tivesse eu imaginado. Não. Todos ouvimos o mesmo. Mantive o tom calmo, embora tivesse algumas palavras e expressões que teimavam em saltar. Indaguei que, naturalmente, cada um é livre de fazer o que entender e que o meu papel é dar a conhecer o aluno, formas de interação que podem resultar e ajudar e que em última instância são os nossos limites e o nosso perfil que determinam o sucesso dos alunos, mesmo que muitos estratégias passem, por vezes, de dar um murro na mesa, de deixar cair, de sermos pontualmente indiferentes, mas demonstrando sempre investimento.

 

Confesso que eu própria estou cansada da palavra inclusão. De tão óbvio que é, que deve ser,  desgastamos e esgotamos a palavra às vezes com demasiado colo e com demasiado paternalismo enviesando o seu sentido. E de cada vez que não resulta da maneira que a entendemos, que soa em nós, revoltamo-nos contra o governo; contra a legislação; contra os professores que a apregoam; contra os alunos; contra os pais, mas no fundo apenas contra nós próprios. O colocarmo-nos em causa, a nossa honestidade intelectual ainda é uma ferida demasiado dolorosa para deixar exposta.

 

Quero saber pouco de Inclusão, daquela Inclusão decretada, quero saber mais de empatia, de relação, de boa gente, de gente que mede sensibilidades, que se coloca no papel do outro, bem resolvidas. Gente que sem decretos, sem esgotar palavras de forma regular, refletem, aprendem, constroem e constroem-se mutuamente, que não interpretam uma observação como um ataque pessoal, que não se perdem em conversas sobre pessoas, mas que se perdem em conversas sobre ideias (aquele frase que fica sempre bonita mas que é tão verdade).

 

Depois da tempestade, do choque da frase, depois de refletir e de relativizar só podemos, sem qualquer tipo de condescendência, perceber que, em todos os meios e também no meio educativo há gente doente. Há boa gente, muito boa gente, mas com medo, fragilizada, vulnerável, sozinhas, com desafios diários gigantes que lhes exigem ser super-mulheres e super-homens. E quando tudo é demais e com reflexos de exigência e obrigatoriedade, a nossa essência é contaminada e a "Inclusão" um peso.

 

Há medidas universais que ainda precisam de muitas medidas adicionais para serem um estado.

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publicado às 23:32

Aquela casa que é "A casa"

por Maria Joana Almeida, em 23.04.19

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Já não tenho avós. O avô Augusto foi o avô com o qual vivi, ainda alguns anos, como sendo o único. Faleceu em 2015. O avô "poeta" de olhar doce. Nunca vou esquecer o dia antes de falecer. Ouvi a sua voz ao telefone na véspera de apanhar o autocarro para o ver. Indescritível o que senti quando o ouvi e a mágoa por não ter conseguido vê-lo a tempo.

A minha avó Celisa era a matriarca. Os braços que abraçavam toda a aldeia onde vivia. Esta aldeia. Um pilar incontornável para todos. Justa, decidida, forte, mulher de não pedir licença para o trabalho. Uma Padeira de Aljubarrota, uma Joana d'Arc. A aldeia era a minha avó. 


A avó Emília e avô Manel (Vupa), avós paternos, faleceram quando eu era mais pequenina. Moravam ao lado de Barreiros, em Vila Nova, numa casa que para mim era no meio da floresta. Na altura queria muito brincar e sei que não passei o tempo que devia com ambos, nem lhes consegui dar o valor que mereciam. Hoje olho para trás e sei, consigo sentir aquele amor incondicional. Era a única neta menina da parte do pai.

A minha mãe diz que a avó Emília e o avô Manel eram muito apaixonados um pelo outro e eu acho que sentia isso. Ele era alfaiate e um homem muito bonito. Na foto que tenho dele, quando era novo, gosto de acreditar que tenho semelhanças com ele. Envaidece-me.

 

A avó Emília era despachada e muito doce. Recordo-me dela a rir, com olhos azuis muito bonitos, figura alta e magra. Defendia-me sempre, sempre. Era a menina. E o meu avô, se a bondade tivesse um rosto, era o avô "Vupa".


Os meus pais ficaram com a casa dos meus avós maternos, mesmo no centro da aldeia em Barreiros. Está remodelada mas ainda cheira aos avós.
Esta aldeia, toda Viseu, é também a minha casa. As memórias de infância vêm dali, das casas dos avós, separadas por um quilómetro que fazia ora a pé, ora de bicicleta (mal porque tinha uma subida chata) ora de carro. Os primos que faziam de irmãos, o contacto com os animais, a matança do porco, as galinhas, os coelhos, aquelas coisas PAN – distantes, mas contextualizadas. Tive essa sorte. A menina da cidade que ia à aldeia nas férias e que me ajudou a um maior equilíbrio.

 

Subi às árvores, caí muitas vezes de bicicleta (irritava-me não saber andar tão bem como os meus primos) fugi dos porcos e levava a burra com o meu avô de Vila Nova a Barreiros e vice versa. Era mais medricas, era. Mas as férias de verão ajudavam a “enrijecer” especialmente a autoestima. O amor da família é daqueles que nos constrói muito.  A casa dos meus avós, em Barreiros, por ser mais central, tornava-se, para mim, o centro do mundo.

 

A minha avó obrigava-nos, da maneira mais impossível de negar, a ir à missa ao domingo de manhã. Situação à qual acedíamos para (às vezes) a meio fugir e ir ver o Dragon Ball. Eu sabia que Deus perdoava (embora às vezes tivesse dúvidas e por isso reforçava as orações à noite que repetia sem perceber muito bem o que dizia). A minha avó só cozinhava as coisas que os netos gostavam e não deixava os pais ralharem connosco embora nos chamasse também a atenção, daquela forma que os avós chamam. Era apaziguadoura, doce com os netos, assertiva e mulher de pontos nos “is”. Destemida.

 

O Miguel Esteves Cardoso escreveu numa crónica: Os nortenhos são honestos, sinceros, directos, bem humorados e generosos. Não se importam de ser desconcertantes. Dizem o que lhes vai na alma e incitam-nos a fazer como eles, a sermos livres.(...) No Norte são as pessoas do Norte que nos endireitam. Quando comecei uma longa descrição do vinho que eu queria o empregado exasperou-se: "já está a complicar muito, porra! Fique-se com esta garrafa e não me fale mais de vinho".  Sem qualquer soberba, ou presunção percebi-o perfeitamente. É o que sinto.

 

Tenho um orgulho enorme quando digo que a minha família é toda de Viseu. Tenho um orgulho enorme na minha família. Herdou (herdámos) valores que prezo. É uma família da verdade, dignidade e do correto. É também aquela que me consegue pôr a rir como mais ninguém.

 

Lisboa tornou-se a minha cidade. Gosto de ir ao Amélia, ao Choupana. Aos festivais de cinema francês, italiano e o diabo a sete. Gosto de músca indie, alternativa, gosto jazz e sinto-me bem nestes ambientes. Acabaram por ser uma casa, mas não há nada comparado ao sentimento de pertença na casa cheia dos meus avós com muita comida, abraços, histórias, e as descomplicações, o direto e o honesto. O focar no que é realmente importante.

 

Vou poucas vezes à minha outra casa, menos do que gostava, mas é lá que também me endireito e é lá que também foi construído "aquele" pilar que me faz sentir bem no resto.

 

PS: Foto tirada este domingo perto de casa dos meus avós agora nossa.

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publicado às 08:48

O Manicómio em 5 respostas.

por Maria Joana Almeida, em 18.04.19

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“- Foi a Rosa que me curou.

– Pelo amor?

– Sim, pelo amor”
 

(in Documentário “Pára-me de repente o pensamento” de Jorge Pelicano)

 

 

“Passeava” pelas redes sociais quando me deparei com um artigo do jornal Público que falava de um “Manicómio”. Prendeu-me, naturalmente, de imediato a atenção. O video que acompanhava este projeto ainda mais.

Sou particularmente sensível a este tema. A minha vida profissional passa e está ligada à saúde mental e aos desafios constantes que propõe. Não é um mundo para falsos moralismos, muito menos para certezas e ainda menos para caridade. É um mundo de constante reflexão, de olhar olhos nos olhos e, de por vezes, bater com a mão na mesa, mas intenso demais para nos permitir fechar os olhos ou virar as costas.

Este projeto é obrigatório conhecer. Parabéns aos seus criadores.

 

 

1 – Quando li sobre este projeto o primeiro pensamento que tive foi “É o melhor nome de sempre”. É uma metáfora direta, um nome provocador, destemido e desamarrado da expressão “andar com paninhos quentes” para não ferir suscetibilidades. Que manicómio é este?

 

É isso tudo, é provocador, destemido, irónico, desafiador e é um sitio de liberdade.

Onde se contam historias verdadeiras de vida, desafiando a arte, procurando a honestidade e autenticidade. 

 

 

2- Quem são as pessoas que “habitam” este Manicómio? Quem eram e quem são?

 

São pessoas, depois artistas e no fim com experiência de doença mental.

Alguém que produz arte pela necessidade. Sem conotação social ou económica.

A arte é honesta e autentica ( repito estas palavras, porque são a nossa razão de ser )

É a Claudia e a Anabela, O Pedro e Carlos, o Sandro e o Filipe, o José e a Joana, 

Braulio e o Ze, a Barbara e a Cataria, o Fernando e Joao.

Esta é a equipa Manicómio, somos todos, sem rótulos

 

 

3 – Há uma frase que me ficou na memória, quando ouvi parte da tua entrevista para o jornal Público, provavelmente pela marca que ficou do início do meu percurso profissional, que é “São 4 anos de dignidade não são 4 anos de folhas A4”. Consideras que ainda vivemos, nesta área, de muitos projectos e caixinhas mentais com limites bem definidos, como numa folha A4?

 

Completamente, não só na saúde mental ou arte, em praticamente todos os projectos de invocação social ou instituições publicas.

O investimento da pessoa, enquanto pessoa, é pouco ou nenhum. 

A Pessoa é o mais importante na nossa premissa e visão, no investimento social e artístico, na dignidade, e na igualdade ( ponto fulcral ).

Não usamos a pratica da caridade ou ajuda. Acreditamos num ponto de igualdade social, pessoal e laboral.

Quando uma marca nos procura para uma “ajuda” nos desafiamos sempre, repito sempre, em intervir nos seus produtos ou suportes que utilizam. De uma forma artística, trabalhos os seus suportes e se a nossa criatividade for coerente para a marca, então ai avançamos com um produto que ambos ganhemos. Só assim faz sentido. 

As folhas A4 são muita das vezes, bafientas, rígidas e controladoras. 

As instituições tem que perceber, que as pessoas que frequentam os seus serviços, não os pertencem. São pessoas livres, que escolhem frequentar aquele serviço. 

Por vezes, confunde-se a relação técnicos - doente.

 

 

4 – Quais as motivações que te levaram a lançar este projeto. Que sensibilidades existiram e quais os principais desafios que identificas?

 

Já devia ter sido a bem mais tempo, mas todos os projectos que trabalhamos,  ( Contentores, Billboard projecto, Pavilhão 31, Pavilhão 28, Manicómio e muitos mais ) a nossa equipa somos apenas duas pessoas. Eu e o Jose Azevedo.

Manicómio era uma grande necessidade nossa. Queríamos criar um espaço, onde se trabalhasse arte com a maior dignidade, honestidade e autenticidade ( la veem estas palavras ). Começamos a trabalhar, e rapidamente tínhamos as condições para abrir este projecto. Inicialmente num espaço apenas nosso, que seria um erro grande.

Pensamos que se estivemos isolados, poderia cair no erro de ser mais um Julio de matos ou miguel bombarda. O isolamento não seria correcto, então, falei com o Fernando Mendes, amigo de longa data, pessoas extremamente sensível e criativa.

Falamos e cá estamos. Inseridos no Now - Beato ( não lhe vou chamar cowork ) é bem mais do que isso. É uma família, um espaço em constante mutação, criatividade e respeito. Tem sido brilhante a ligação.

 

 

5 – A saúde mental continua, infelizmente, a ocupar um espaço menor na saúde. Os estereótipos e preconceitos ainda estão algo presos “numa folha A4”. O que falta, no teu ponto de vista, construir no nosso percurso educativo para que possamos finalmente trabalhar lado a lado, sem paternalismos ou condescendências com estas pessoas?

 

Falta muito coisa, como referi em cima, falta olhar para o doente como pessoa.

Equilibrar as relações paciente-medico, investir em conceitos de igualdade, promover empregabilidade. 

O paternalismos haverá sempre, assim como o estigma.

Criar bases as nossas crianças nas escolas, para uma melhor aprendizagem numa doença. ( estamos a trabalhar nisso )

Linhas de apoio para projectos que possam inovar nestas áreas, onde a experimentação não possa ser penalizada.

E, claro, tratar estas pessoas, como pessoas.

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publicado às 21:54

5 perguntas 5 respostas com o escritor José Riço Direitinho

por Maria Joana Almeida, em 15.04.19

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Conheci o José recentemente, através de amigos em comum. É inteligente, empático, bem resolvido e um bom escritor. É da ala dos mal comportados com um discurso bem humorado, acutilante e provocador, algo displicente em relação a si própio e por tudo isto um homem muito interessante.

 

É ler a entrevista.

 

(Obrigada Zé)

 

 

1 – Olá José. Estava aqui a tentar pensar qual seria a melhor pergunta para começar esta entrevista, mas honestamente, aquilo que me ocorre perguntar é: Zé, conta-me a tua história.

 

R: A história não é curta, mas vou tentar abreviar. Comecei a escrever ficção ainda na escola secundária. Na altura havia um suplemento literário no Diário de Notícias, o “DN Jovem”, e foi para lá que comecei a mandar histórias, que entretanto eram publicadas. Fi-lo durante anos, até à idade limite do suplemento, os 26 anos. Tempos depois publiquei o primeiro livro, os contos “A Casa do Fim”. Entretanto, tinha feito a licenciatura em Agronomia. Comecei a trabalhar como engenheiro agrónomo, e esse contacto com o campo fez-me continuar a escrever histórias rurais. Seguiu-se o romance “Breviário das Más Inclinações”. E depois vieram outros livros. Pelo meio fui escrevendo em jornais e revistas, desde a Visão, Grande Reportagem, O Independente. Actualmente, faço crítica literária no jornal Público. Depois de vários anos sem publicar, mas não sem escrever, em 2018 foi editado “O Escuro Que Te Ilumina”, um romance erótico suportado pela história de um amor incondicional e que acho ser um “amor feliz”, e que foi muito bem aceite pelos leitores.

 

2 – Quem te segue nas redes sociais percebe que a imagem tem um peso determinante. Brincas, inclusivamente dizendo, de forma sarcástica, que o “interior e ter saúde é o que interessa”. Esta importância é também um legado da tua história. Como olhas para o conceito beleza?

 

R: Isso tem muito a ver, como dizes, com a história da minha vida, e com a importância que damos à imagem. Para as mulheres é ponto assente que a imagem que passam é de grande importância. Mas penso que durante muito tempo os homens não quiseram aceitar, ou sequer pensar, que a imagem deles é também de grande importância para as mulheres, embora muitas delas ainda não o consigam assumir e se refugiem naquela justificação tonta da “beleza interior”. No entanto, passam a vida a actuar e a referirem-se entre elas aos “gajos giros” a propósito de tudo, e a primazia das suas escolhas em termos sociais, sublinho o “sociais”, recai sempre nesses, quer seja para ir beber um copo, um café, para uma noitada, para uma ida à praia, para aparecer socialmente em jantares. Os outros são de segunda linha, ou de segunda escolha (risos), para quando os primeiros mostram não ser assim tão bons como os imaginavam. Note-se que não me refiro aqui a relações amorosas, aí as coisas são diferentes, há outros factores que pesam. Este é um movimento quase inconsciente – os homens fazem obviamente o mesmo mas não têm a pressão social para não o assumirem. Se eu puder sair com uma mulher bonita não saio com uma feia, ponto final. No caso das mulheres, assumir sem mais nem menos o desejo físico – como os homens o fazem – não é ainda uma coisa muito comum, têm a necessidade de o justificar ou disfarçar com outros factores: amizade, inteligência, bondade. Mas todos sabemos que não é isso, que essas são apenas justificações criadas para um certo disfarce. Eu demorei um bocado a perceber isto porque ia acreditando no que me diziam sobre a primazia da “bondade do coração”, enquanto ao mesmo tempo elas se enrolavam com outros gajos mais giros (risos), dando-me justificações sem sentido para não “beberem um copo” comigo. O meu último romance é, assim, também uma espécie de catarse desses anos, uma espécie de tentativa de apaziguamento com a vida e com a minha anterior “ingenuidade” em acreditar no que me diziam. Depois tive que mudar a aparência, e as minhas novas ideias sobre isto confirmaram-se (risos). Era mesmo e apenas um problema de imagem.

 

3 – O teu recente livro “O escuro que te ilumina” é um dos candidatos ao Prémio Livro do Ano Bertrand 2018. É um livro que trouxe algum “desconforto” e que não foi consensual. O que te deu mais prazer na escrita deste livro? As críticas tiveram algum eco em ti?

 

R: Estou habituado à crítica, também a faço no jornal. Lido muito bem com ela, sempre lidei. Acho que o importante quando se publica livros é nunca tirar os pés do chão com os elogios nem nunca cair com as críticas. As opiniões são o que são, e por isso sempre relativas. Muitas vezes têm muito mais a ver com quem as faz do que com o objecto em si. Eu sabia que este livro não iria ser consensual, pelo tema e pela escrita. É um livro “mal-comportado” dentro do panorama da literatura portuguesa actual, que aborda coisas mais escuras, quase secretas, coisas que guardamos nas nossas fantasias, cenas que não se expõem. Mas esse foi um dos motores da minha escrita, iluminá-las um pouco. Não acho, longe disso, que seja um livro pornográfico, para mim é uma bonita história de amor. O desconforto que tenha provocado, sobretudo em alguns homens, e pensando agora nisso, acabo por o entender. O livro põe em causa uma certa ideia de masculinidade. As mulheres gostaram muito mais do livro porque têm muito mais poder de imaginação e de fantasia.

 

 

4 – Os “escuros”, os nossos “escuros, são no teu entender o balanço inevitável para o nosso dia-a-dia rotineiro e aquilo que tornam a pessoa mais interessante, mais completa?

 

R: Os nossos “escuros” são os lugares de onde vem a nossa vida. Eles moldam-nos, condicionam ou provocam as nossas acções, a maneira como olhamos para a vida. Esse escuro, muitas vezes sobre a forma de inconsciente, por vezes parece muito mais inteligente do que nós porque nos vai dirigindo, dando sinais da direcção que devemos tomar. Torna-se um problema quando não o conseguimos ler, quando nem sabemos que ele existe. A tarefa da psicanálise, por exemplo, é tornar esse escuro consciente para que possa ser pensado, lido, arrumado. De uma certa maneira, mas obviamente em menor grau, a escrita faz o mesmo. Escrever ficção é também enfiar os dedos nessa matéria escura e trazer alguma coisa para a luz, para que ilumine mais um pouco.

 

5 – A literatura faz parte do processo educativo de todos nós. Sendo este um blog em que o tema central é a Educação é inevitável colocar esta questão, uma vez que também foste professor. Como vês a Educação do nosso país? Onde estamos e para onde caminhamos aos teus olhos?

 

Fui professor durante muito pouco tempo, de matemática e de ciências naturais, acho que era assim que se chamava. Depois também dei aulas, mas a um outro nível, coisas mais científicas, mas a adultos. Ando um pouco afastado dos temas da educação, mas tenho notado em como a escrita, o modo de escrever, se tem deteriorado. Não me refiro apenas a como se escrever mas ao léxico usado. Em pouco mais de vinte anos parece-me que o nosso vocabulário comum diminuiu bastante. Isso nota-se não apenas na vida do dia-a-dia mas também na literatura que se escreve hoje, nos autores mais novos. A escola deveria ter também um importante papel nisso, e só há uma maneira de fazer isso: incentivar muito a leitura, e não apenas de livros mais recentes, mas sobretudo dos clássicos da nossa língua. Acho que esse retorno é imprescindível.

 

 

 

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publicado às 17:33

A escola educa e/ou ensina?

por Maria Joana Almeida, em 07.04.19

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A propósito de um texto de uma amiga minha (que partilho aqui no final deste texto) tive uma discussão/reflexão sobre a dicotomia entre a escola que educa e a escola que ensina. Se há algum tempo atrás considerava que existia uma linha clara de separação entre ambas atualmente acho muito pouco provável ou se não impossível colocar ambas em caixas absolutamente separadas.

 

Há atividades que são da escola e não da família? Há. Há atividades que são da família e não da escola? Também. Mas também há um espaço onde inevitavelmente ambas se tocam e não há nenhum problema com isso.

 

Um dos projetos mais interessantes implementados nas escolas é o Desporto Escolar. Este projeto permite a todos os alunos a possibilidade de poder experimentar vários tipos de desporto. Modalidades que, em muitas situações, milhares de alunos não poderiam experimentar. Não seria bom serem experiências em família? Sim. Mas se por um lado permitem vivências que poderiam não ter espaço no seio familiar  permite, por outro lado, criar o gosto por determinada modalidade e continuar através da família.

 

Aprender a andar de bicicleta faz parte das memórias infantis de muitas crianças. Eu aprendi a andar de bicicleta com o meu pai. O meu tio tinha-me oferecido uma BMX encarnada e cansava o pai rua abaixo, rua acima. Não foi fácil, ainda tive de usar quatro rodas por algum tempo, até que duas finalmente bastaram. Recordo-me destes momentos e recordo-os em família. Mas eu tive a sorte de me terem oferecido uma bicicleta, dos meus pais o poderem fazer e de saberem a importância de promover esta aprendizagem e de outras sem ser preciso o empurrão da escola.

Na escola lêem-se histórias e isto não retira os momentos de ler histórias em família, complementa, e em muitos casos promove esta atividade. Recordo-me bem da reciclagem, a escola foi o principal meio de educar para uma utilização mais responsável e trouxe para casa de muitas famílias esta consciencialização.

 

A escola é responsável, por inerência, de educar para uma sociedade mais responsável devendo ser cada vez mais um espaço de reflexão e pensamento crítico (tenho dificuldade em pensar a escola num espaço que apenas transmite conhecimentos). Não pretende, nem deve pretender sobrepor-se a momentos que devem ser de família mas sim a potenciar e a complementar aprendizagens que também são em família.

 

Numa sociedade que apregoa mais sustentabilidade, uma forma de vida cada vez mais saudável e onde em cada vez mais locais se fomenta a utilização de bicicletas como meio de transporte diário, inclui-la no currículo não nos deverá chocar ou fazer achar que rouba aprendizagens que devem ser no seio familiar. Por essa ordem de ideias quantas atividades e experiências teria a escola de se negar a fazer diariamente por poderem ser consideradas atividades de família. E quem traça o limite? Não existe porque há, naturalmente, um espaço comum. Aquele espaço que coloca escola e família de mãos dadas pois são ambas, no seu equilíbrio e complementaridade que educam uma criança.

 

(https://www.publico.pt/2019/03/31/sociedade/opiniao/criancas-bicicletas-escola-liberdade-1867458)

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publicado às 23:31

Mulheres do meu país no cinema, na SIC e na TVI

por Maria Joana Almeida, em 13.03.19

 

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A minha professora de EVT – Educação Visual e Tecnológica (na altura em que ainda era só uma disciplina) de 5º e 6ºano dizia-nos com frequência a seguinte frase “A nossa liberdade termina quando a dos outros começa”. A frase intrigava-me sempre. Lembro-me que não conseguia perceber bem o que queria dizer e lembro-me que a devo ter usado, nessa altura, em algumas ocasiões porque soava bem e porque fazia-me parecer mais entendida acerca de tudo em geral.

 

Demorou algum tempo (não sei precisar) até que ela fizesse sentido. Foi preciso algumas vivências e conversas para que percebesse o seu verdadeiro significado.

 

Recordei-me desta frase a propósito de uma das maiores antíteses que vivi nos útlimos tempos: assistir ao documentário Mulheres do meu pais de Raquel Freire e no domingo ter tropeçado num verdadeiro lixo televisivo, daqueles que de tão boquiaberto que nos encontramos, mal temos forças para carregar noutro botão do comando esquecendo-nos, por momentos, que temos um incontável número de canais.

 

O documentário Mulheres do meu país faz um retrato contado na primeira pessoa sobre várias mulheres que lutaram contra o preconceito e contra uma definição de mulher que tem vindo a ser desconstruída (e bem) ao longo dos anos. Como tive oportunidade de já ter escrito assistir a este documentário é um dever cívico e partilha-lo um ato de cidadania. Está muitíssimo bem feito. Recompõe-nos e atira-nos com uma total dignidade e com um conceito de amor-próprio que se sente na pele. Senti tudo isto talvez por ser mulher pensei, mas não, não é filme só sobre mulheres para mulheres, é um filme sobre liberdade. Uma prisão que termina quando a nossa liberdade começa.

 

E depois temos a SIC e temos a TVI e temos todo a antítese do que é a liberdade pela qual tanto se luta e se apregoa. Ao mesmo tempo que queremos educar para uma sociedade mais equitativa através da desconstrução de crenças e hábitos ainda enraizados na nossa sociedade em relação à mulher, surgem, em horário nobre, programas que perpetuam o que tanto se tenta repudiar.

Assiste quem quer, é um facto, mas mexeu com a minha liberdade. E só posso desejar e esperar que a única e unânime reação que possa ter é essa mesma, a constatação que mexe, contorce e aperta liberdades.

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publicado às 23:31

A mulher é para estar onde mesmo?

por Maria Joana Almeida, em 05.03.19

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"A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar de poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte." Disse Joana Bento Rodrigues num artigo para o Observador.

 

Sem qualquer exagero li o texto na íntegra três vezes na esperança de encontrar o momento em que Joana Bento Rodrigues ia, no meu entender, começar a falar a sério.

 

Começar por dizer “o que mais me chocou” num texto que a todo o momento só nos deve chocar é estar a ser simpática. Mas no meio de um manancial digno do livro dos anos 50 “A perfeita dona de casa”, chocou-me verdadeiramente o discurso repleto de assunções absolutas num relato quase semelhante ao National Geographic. A autora descreve a mulher como um exemplar único, unilateral, de costumes e rotinas bem definidas.

 

O texto avança com um contínuo de incredulidade (da minha parte) para finalizar com uma opinião relativamente à lei da paridade que implica, por exemplo, a utilização de quotas para facilitar a existência de uma maior representatividade dos “dois géneros” em cargos políticos.

 

Aqui chegamos a um ponto onde conseguimos encontrar algum consenso, não que ache que a Lei da Paridade seja disparatada, mas pela excelente descrição do escritor Nelson Nunos (Público) “(…) tenho as minhas reservas em relação à Lei da Paridade, apenas por achar que pode ser pouco meritória. Mero exemplo: se uma equipa tiver dez mulheres talentosíssimas e dez homens que ficam a dever fortunas à inteligência, temos de despedir cinco mulheres apenas para que os sexos fiquem igualmente representados? Estaremos a abdicar de talento em prol de representividade.”

 

Mais preocupante do que este discurso de Joana Bento Rodrigues é o momento em que surge. Não bastava estar com 50 anos de atraso como também evoca a exclusividade de uma única definição de mulher numa atualidade marcada por inúmeras denúncias de violência doméstica na maior parte dos casos contra as mulheres. Não Joana. Não há problema nenhum em a mulher estar em casa, ser só mãe, viver dependente do marido se essa for sua escolha, consciente, assim como não há problema nenhum em a mulher não querer ser mãe, querer ter uma carreira e ser uma mulher independente. Neste nosso reino, quando a decisão é consciente, há espaço para tudo.

 

Concluo este texto com a contra resposta, também no Observador de Ruth Manus. Este sim. Este vale a pena ser partilhado. “Acho realmente inacreditável que haja mulheres que estudam, que trabalham, que votam, que se filiam a partidos, que escrevem em jornais, que podem se divorciar quando quiserem e que, ainda assim, se digam “anti-feministas”. Quem conquistou todos esses direitos para vocês? O Mickey Mouse? Minha querida, se você tem uma carreira consolidada e espaço para se manifestar, você está usufruindo de conquistas feministas. Caso contrário você ainda estaria fritando croquetes em casa.”

 

 

PS: A foto escolhida não tem qualquer aspiração a nada, nem qualquer tipo de presunção. Nada. É apenas uma óptima imagem do título deste texto.

 

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publicado às 13:50

Eu também quero dizer o que acho de Conan Osíris

por Maria Joana Almeida, em 22.02.19

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Assim como a Escola é um espaço para todas as crianças, o universo musical, tem de ter espaço para Conan Osíris. Este blog tem.

 

Simpatizei de imediato com o nome da música “Eu adoro bolos”, por razões óbvias para quem me conhece. Já não posso dizer que simpatizei com o estilo. Aliás não era uma questão de simpatizar ou não. Simplesmente não percebia o que estava a acontecer.

 

Assisti, em modo piloto automático, ao apuramento dos primeiros finalistas para o Festival da canção. Estive verdadeiramente entediada nas primeiras cinco canções, até que apareceu Conan Osiris. Olhei para a televisão com o sobrolho meio carregado a rodar ligeiramente a cabeça (aqueles esgares semelhantes quando numa galeria de arte vemos algo tão abstrato achando que se calhar não estamos a olhar na rotação correta). Fiquei meio sem saber o que dizer, mas a verdade é que quis ouvir mais vezes, por vários motivos: para perceber a letra (qual cubo de Rubik, qual música de Rui Reininho) e para ver o espectáculo cénico. Depois li várias entrevistas. O rapaz deixou-me de facto curiosa.

 

Conan Osíris é como uma ilusão de óptica, nunca sabemos bem o que estamos a ver e quando o queremos rotular já o rótulo é outro. E eu acho isto fantástico.

 

Disse, numa das suas entrevistas, que não percebia o conceito “guilty pleasures” verbalizando: “Se eu gosto porque é que tem de ser guilty? Porque não o assumo?”. Eu bato palmas de pé perante esta afirmação e quase (quase) me apetece dizer publicamente todos os meus “guilty pleasures” (só que não).

 

Devo dizer que o rapaz foi uma lufada de ar fresco no meio daquelas músicas tão bem comportadas e iguais. E a letra parece ser mais complexa do que à partida pode fazer crer não fazendo assim do rapaz um bluff

 

Seinfeld também era um programa sobre nada e sobre tudo do nosso dia-a-dia e foi a melhor série de comédia de sempre.

 

Como dizia a uma amiga minha “Ele parece aquelas desconstruções da comida típica portuguesa num restaurante gourmet”. Um misto de António Variações, passando por Paulo Bragança com kizomba e batida electrónica à mistura falando sobre coisas corriqueiras que são momentaneamente elevadas a arte abstrata. Tudo “guilty”, tudo legítimo.

 

Ainda estou meio confusa, mas não ponho na borda do prato.

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publicado às 16:10

1 ano.

por Maria Joana Almeida, em 12.02.19

maria luisa 1.jpg

 

 

Aconteceste e foi muito bom. Uma notícia muito feliz.

A mãe assustou-se um pouco. O pai muito.

A mãe não disse nada durante três dias. Estava a pensar.

Estava a pensar naquilo que parecia um milagre e que vinha como um tremor de terra, daqueles que abanam o nosso corpo, especialmente a nossa cabeça.

O pai foi fazer surf no dia em que soube. O mar sempre foi para ele um amigo. Num determinado sítio mais distante da terra, sempre ajudou a encaixar peças mais devagarinho.

A mãe ficou na areia a olhar o mar. O sol também ajuda a encaixar peças.

A barriga foi crescendo assim como o coração que ora aumentava ora encolhia. Estava confuso.

O pai também. O coração dele andava acelerado e a cabeça também.

 

 

A mãe estava bonita diziam. Cabelo forte, pele brilhante, barriga bonita e sorriso gigante.

O pai continuava confuso. A mãe estava diferente.

 

Mexeste pela primeira vez. Era Setembro. A mãe estava sozinha num mês em que o coração estava pequenino. Mas esse dia foi o dia de Setembro em que o coração ficou grande, muito grande. O pai tinha de saber. A mãe gostava de dizer ao pai quando o coração estava muito grande porque ficávamos felizes.

 

Os meses foram passando. Era quase Fevereiro. E tu, estranha criatura (estranha porque não nos conhecíamos ainda) arrancavas muitos sorrisos e algumas noites sem dormir (a barriga já era muito grande).

Ainda na barriga sentiste tudo isto e sentiste muitas peripécias. Sentiste o coração ora grande ora pequeno da mãe. Muitas vozes. Muitos silêncios também…

 

 

No final de janeiro começaste a dar sinal.

 

Dia 11 de Fevereiro a mãe ligou ao pai. O pai era do surf mas também do BTT. O pai arrancou a grande velocidade. Caiu e tudo (está filmado na GoPro) e fomos ao hospital.

Ainda não era. “Vai ser no dia de Carnaval” dizia a enfermeira.

E foi.

 

 

Houve duas Joanas que te ajudaram a nascer e uma médica, a Graça, com antenas de joaninha (porque era Carnaval) que te tirou.

E tu pequena-estranha-criatura-muito-bonita-desde-o-momento-zero, vinhas de olhos bem abertos com a inevitável expressão esbugalhada “O que é isto?”.

Eras uma pequena estranha criatura bonita (estranha porque nos íamos agora finalmente conhecer), muito bonita de cabelo farto e olhos grandes.

E começou a aí outra história. O samba de Maria Luísa.

O coração que passava de grande a pequeno (mas sempre grande) muitas vezes ao dia, durante vários dias, encontrou uma nova forma.

 

 

 És a Maria Luísa a cabeluda, que já tem um ano. Que faz beicinho quando dizemos “não”, que diz “gato” com uma uma total convicção nas duas sílabas, que não aguenta ver o outros comer e ela não, que mais houvesse e comeria. A que não passa sem a fralda no rosto para dormir, que já dorme a noite toda (graças a Deus!) a que abana o corpo e a cabeça ao som da galinha põe o ovo, a que durante meses foi igual ao  velhote do filme UP quando começava a chorar, a que faz as delicias dos avós e a que fez a mãe gostar de cor de rosa e escrever textos como este.

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publicado às 15:16

Às vezes é de loucos.

por Maria Joana Almeida, em 10.02.19

 

teacher yes.jpg

Dificilmente poderia encontrar imagem que melhor ilustra o “forrobodó” (eu sabia que iria conseguir usar pelo menos uma vez esta expressão que tanto estimo num texto) que pode ser uma escola, especialmente uma sala de aula. Não falo de indisciplina que já se tornou um lugar comum em todas as escolas e inunda textos da especialidade onde habitam já vários receituários. Falo das situações caricatas, das situações que colocam episódios do Seinfeld ou do Gato Fedorento a um canto.

 

As coisas que aprendemos nos livros são meramente orientadoras, gerais e tendem, naturalmente, a responder a padrões específicos. Tentam ser cientificas em algo que é, na maior parte das vezes, um caos aleatório. A quantidade de vezes que visitamos sítios novos dentro de nós para tentar no imediato responder com sentido ao que está a acontecer torna-se quase a norma. É como quando estamos habituados a ver filmes com um caráter intelectual muito elevado que só nós é que percebemos. Habituados a compreender a linguagem de Manuel de Oliveira deparamo-nos de repente com o universo do Bucha e Estica e dos filmes de série Z que confundem mais o cérebro do que um filme de Emir Kusturica ou David Lynch.

 

A primeira vez que se pisa uma sala de aula é equiparado a tapar a cara num filme de terror, mas a espreitamos curiosos por entre os dedos. É exactamente isto. A exposição, as inseguranças, o processo do pára-arranca, equilíbrio-desequilíbrio até encontrar o começo leva-nos a lugares desconfortáveis e a interpretar papéis que não queremos e com os quais não estamos familiarizados. É tudo normal. É mesmo assim.

 

É neste ponto de equilibiro que começa o ponto de partida, quando as defesas baixam e quando começamos a desempenhar o papel que nos carateriza. É também neste momento que começamos a ser todos atores do mesmo filme. E cada final de ano é um novo livro que poderia ser trabalhado na Universidade.

 

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publicado às 00:22


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