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Há mundos de m…..

por Maria Joana Almeida, em 11.11.19

 

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Recordo-me dos testes psicotécnicos que fiz no 9ºano e recordo-me, mais claramente, do comentário da psicóloga no final, que entre a ironia e a seriedade disse: “A Joana quer ser a defensora dos pobres e oprimidos”. Sorri. Sabia que era qualquer coisa assim, talvez não exatamente.

 

Os caminhos que inicialmente quiseram seguir enfermagem, redefiniram-se para a área da educação, mais propriamente da educação especial. Quase não passei pela casa partida e o meu trabalho, foi desde o início, com crianças e jovens mais desafiantes.

 

Cresci à imagem do meu caminho e com quem me cruzei, que me definiu e continua a definir. Cada um tem o seu, e as críticas que rapidamemte lançamos às Joacines e Bourbons desta vida, têm em consideração sempre um percurso muito individual negando e “intolerando” gaiolas e redomas diferentes. O 25 de Abril também tem várias perspetivas dependendo de quem e como o viveu, e de quem o ouviu.

 

Há muitos mundos. Há mundos que estão do outro lado da barricada que, independentemente da nossa posição, situam-se numa espécie de mundo paralelo. Mas bem reais.

 

Ao longo do meu percurso o meu quadrado mental, assente em princípios sociais e legais, foi sofrendo alterações. Aquele mundo que no início ainda se situava única e exclusivamente numa espécie de gaiola dourada com níveis de conforto, amor e morais inquestionáveis foi ampliado. Vieram as histórias, as vividas e partilhadas, e o confronto com as morais confortáveis.

 

- O rapaz de 11 anos que conheci que tinha ficado abandonado em casa aos 4 anos à sua sorte. Aquilo a quem Nuno Lobo Antunes apelidou, no seu relatório, um rapaz com uma “hiperatividade extraordinária”. Não cedia a nada. Só ultra medicado.

- As casas que visitei que jurei a pés juntos não querer voltar.

- As visitas a que assisti de um pai que havia abusado sexualmente de um filho.

- O rapaz que foi para a escola depois do seu pai atacar a mãe com ácido e que nesse dia espancou um colega seu.

- Os bebés e crianças que foram batidos e espancados e que, mais tarde, enquanto jovens, a sociedade não sabia o que fazer com eles.

- O pequeno jovem que era maltratado e vivia em condições miseráveis, mas ainda assim queria ir para casa da sua mãe.

- As mães e os pais que sofreram de violência doméstica.

- O adulto que está a agora a aprender a ler e a escrever mas que, em criança foi obrigado a mendigar e a ficar fora de casa se não levasse dinheiro suficiente.

- A adulta que a meio da aula pára para chorar desalmadamente porque ontem esteve a arrumar as roupas da filha que morreu.

- O pai e filha que morrem abraçados quando ambos deviam estar a sorrir e a brincar.

 

Continuo?

 

Que códigos morais existem nestas vidas? Que humanidade conhecem ou sentiram?

Como podemos exigir uma estrutura psíquica de aço a alguém que, em última instância, pode não ter nada a perder?

 

São morais apenas assentes em códigos de sobrevivência primitivos. Muito longe, e ainda bem, dos nossos mundos. Aquele mundo em que às vezes, a nossa maior preocupação é saber que série ver na netflix à noite.

 

Reflitam.

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publicado às 15:55

As enxadas da Educação.

por Maria Joana Almeida, em 04.11.19

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Transcrevo o meu último artigo no Público.

https://www.publico.pt/2019/11/01/sociedade/opiniao/enxadas-educacao-1892083

 

"(A propósito do recente documentário exibido na RTP 2, “Outra Escola”)

O documentário Torre Bela, realizado em 1977 pelo alemão Thomas Harlan, que retrata a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril, tem uma cena deliciosa. Um dos colaboradores das chamadas (na altura) cooperativas tenta explicar a um agricultor que a enxada dele faz agora parte da cooperativa. O agricultor responde que não, a enxada é dele, que foi ele que a pagou. Numa época onde muitas pessoas, especialmente no interior do país desconheciam por completo o que se passava em Lisboa e comiam o pão que o diabo amassou, para terem o seu sustento, alguém os tentava convencer, omitindo o seu esquecimento em partes mais inóspitas do nosso país, que agora tinham de ter, de repente um pensamento avant-garde.

Numa analogia que reconheço não ser demasiada ou imediatamente óbvia faz-me lembrar os professores do secundário. Durante anos os ditos meninos “da” educação especial não chegavam ao secundário. Com a escolaridade obrigatória até ao 12ºano, a realidade é atualmente bem diferente. De repente, alguém lhes quer fazer ver (normalmente os professores de educação especial) que aqueles meninos têm todo o direito de ali estar. Que há uma espécie de cooperativa onde estes alunos deixaram de ser da educação especial e passaram a ser de todos. E aquela enxada, a enxada dos conteúdos e objetivo final de fazer um aluno brilhar num exame final deixou de ser o objetivo único. Têm agora de fazer adaptações, preencher mais papel e lidar com alunos que “não sabem estar no secundário”.

Mas será este o desígnio de ser professor? Preparar apenas para avaliações finais?

“Obrigar” (este obrigar leia-se, (re)sensibilizar) professores a serem professores não é, atualmente, um contrassenso. É uma necessidade. Há muito que nas escolas o ato de ser professor tem sido relegado para outra dimensão. Não é mito, é realidade. A perda de auxiliares de educação e de pessoal administrativo aumentou as responsabilidades dentro das escolas, colocando as competências dos professores espartilhadas em inúmeras atividades que extravasam claramente as suas funções.

Esta repartição de funções veio colocar como ponto fulcral e quase único no trabalho de aula do professor, o cumprimento de um currículo como fim de percurso anual e objetivo máximo. Este caminho é inúmeras vezes contaminado por alunos que dificultam este processo e que ajudam a criar guetos mentais. Alunos de primeira e alunos de segunda. Estes alunos de segunda recebem um guarda-chuva marcado com um rótulo que lhes sirva e são encaminhados para qualquer apoio “porque deixa de ser problema meu” afinal se não responde ao currículo, (o objetivo máximo) não serve para o meu propósito de professor. Não quero ser mal interpretada. Não falo em passagens administrativas, facilitismo ou insistir em ajudar quem não quer ser ajudado (às vezes a maior aprendizagem é cair para se reerguer de novo). Falo em encarar todos os alunos como “todos os meus alunos” com areias na engrenagem ou não. Com o objetivo máximo de levar ao bom porto de cada um. Não é um percurso solitário, não o deve ser, repercutir uma sociedade assim não faz sentido.

Quando ouvimos numa reunião “Mas o que eu quero saber é se ele faz exame a nível de escola ou exame a nível nacional para saber como trabalhar com ele” ou “Mas este menino então é para fazer avaliação adaptada, é isso?” percebemos duas coisas: A nova função do professor, comandada única e exclusivamente pelos resultados, e o pouco tempo a desperdiçar para ouvir falar e trabalhar com alunos de segunda esperando que alguém lhes diga o que fazer.

Não estou a censurar, estou a revelar uma realidade, uma forma de agir e de pensar perpetuada por anos. A verdade é que há fundamento para esta realidade instituída, mas por estar instituída não quer dizer que seja justa, honesta ou aquilo que um professor deve representar. E é muito fácil entrarmos num funcionamento em modo robot, o trabalho acumulado torna nebuloso o discernimento.

Como podemos modificar então uma realidade tão instituída e tão pouco refletida? A legislação atual, o Dec.Lei 54/2018 de 6 de julho deu um impulso (escrava também das diferentes interpretações realizadas porque há aspetos impossíveis de serem decretados). A nossa posição e afirmação é também uma delas. Recordo-me de uma escola onde trabalhei recentemente, onde numa reunião, o diretor disse sem qualquer pudor “Eu estou a marimbar-me para os exames. Eu quero que todos os alunos sejam ajudados dentro das suas possibilidades”. Foi o escândalo na sala.

Vamos lá clarificar um cliché recorrente mas necessário de ser aplicado mentalmente: Todos os caminhos são legítimos quando feitos com rigor, e rigor significa definir objetivos consoante os pontos fortes e menos fortes do aluno, as suas expectativas e os caminhos possíveis. Não é nivelar por baixo ou fazer o “teste do coitadinho”, é dar as ferramentas de apoio que lhe permita a caixa correta para conseguir ver para lá do muro sempre assente no compromisso mútuo, não há sucesso sem trabalho e ninguém ajuda quem não quer ser ajudado.

A Universidade é legítima, os cursos profissionais são legítimos, todos os percursos são legítimos desde que haja rigor. E adaptar o currículo e a avaliação quando é necessário não é facilitismo, é justiça."

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publicado às 11:05

“Acalmemo-nos” todos um bocadinho.

por Maria Joana Almeida, em 31.10.19

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Tinha ido jantar com uma amiga ao café Austríaco no Chiado e, como habitual nas nossas conversas, falámos sobre relações, o panorama político atual com a eleição de novos deputados, as políticas sociais (no nosso caso por defeito de profissão) que estão em vigor e qual o impacto na nossa sociedade. Falámos dos perigos dos extremismos, dos últimos gritos da vida política, dos rótulos, dos statements, de políticas. Indignámo-nos com algumas situações e rimos com outras.

 

Recordo-me que em alguns momentos da nossa conversa, sempre que nos queríamos soltar de preocupações com as palavras e amarras, olhávamos primeiro em redor para ver quem estava ao nosso lado (numa quarta feira à noite havia pouca gente) e esgueirávamo-nos ligeiramente para falar baixinho como se uma determinada espécie de PIDE estivesse à espreita. Tinha de dar mil voltas à cabeça para fintar os nomes e as expressões que podia utilizar, porque não posso chamar pelo nome, mesmo que chamando pelo nome na minha cabeça não soe a desrespeito ou intolerância. Palavras que são hoje rapidamente e facilmente passíveis de serem julgadas em praça pública. Rótulos que são imediatamente associados a xenofobia, intolerância, radicalismo, conservadorismo, machismo, feminismo, extreminsmo, fundamentalismo e todos os "ismos" que se tornaram os bodes expiatórios (sempre os outros, nunca eu) deste tempo. Nunca se colecionou tantos rótulos e gavetas como a atualidade que vivemos.  Assemelha-se por vezes a uma caça às bruxas como no tempo da Inquisição, usando por vezes, raciocínios pobres non sense equiparáveis aos usados no icónico filme dos Monty Python “The quest for the holy grail”. 

 

Sinto igualmente o cuidado de escolher a quem mando piadas, que é apenas isso mesmo, uma piada, por poder colocar algo em causa e ser julgada com uma moral que parece pretender ser superior. Mesmo que nos conheçam, mesmo que o nosso percurso tenha sido marcado por tudo menos os "ismos" -  os rótulos que nos querem colocar (bem pelo contrário). De repente parece que o peso da atualidade e de normas que se mostram apertadas, escrutinadas e redundantes colocam em causa pessoas e percursos. Parece ter-se instalado uma determinada moda de estar e pensar que não permite uma autorreflexão.

 

São os arautos da moral, os ditadores dos bons costumes, deste e de outros séculos. Os mártires de ideologias que nunca se colocam em causa e mais grave, que não possuem um background que lhes permita fundamentar e refletir o seu pensamento. E assim se afastam do cerne das questões basilares com fogos de artíficios, palavras gastas e vazias de pensamento.

 

Na procura incessante de um "eu" no mundo, parece ser inevitável sufocarmo-nos num coletivo repleto de areias movediças. 

 

Remodele-se este tempo por favor.

 

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publicado às 15:51

Viram o Joker? Está lá tudo.

por Maria Joana Almeida, em 22.10.19

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Escrevo este texto sem saber, até ao momento, os factos exatos (provavelmente nunca saberemos) do que se passou numa sala de aula de TIC no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, mas caí no erro (não sei se um erro) de ler os inúmeros comentários de outros professores, colegas meus de carreira, que quase o intitulavam de um herói utilizando expressões coniventes com a violência verbalizada nas manchetes dos jornais.

 

Nota geral: Sendo verdade a violência verbal e física retratada nos media por parte do professor é absolutamente inadmissível que tal tenha acontecido. É absolutamente inadmissível punir em praça pública sem conhecimento de todo o contexto, assim como é absolutamente inadmissível a agressão por parte de alunos para com professores, bem como constantes oposições à autoridade de um professor dentro de uma sala de aula. Isto não é uma opinião, isto é um facto.

 

Assistimos e vamos tendo conhecimento, quase quotidianamente, de agressões verbais e, inclusivamente físicas, à classe docente por parte dos alunos e embora condenemos de imediato estes atos, parece existir uma certa condescendência latente que se refletem nas expressões: “mais do mesmo”; “são os alunos que temos”, “é o país que temos”. No dia em que um professor, por não sabemos ainda bem o quê, se humanizou, não conseguindo controlar os seus impulsos perante algo que terá à partida sido interpretado como um questionar da autoridade foi o escândalo social. Vejamos, é um escândalo sim, os professores são os adultos e são a referência, devem ser a referência, mas é igualmente escandaloso e retrato de uma sociedade doente, existir a violência inversa. Não pode, não deve, haver condescendência unilateral.

 

Algo vai muito mal “no reino de Portugal” quando o apelo à violência vem de todos os lados. Alunos contra professores, professores contra alunos, professores contra o resto da sociedade, pais contra professores e professores contra pais. É apenas contra a violência que se deve estar contra. Venha de  onde vier.

 

O que se torna mais preocupante num “reino” como este é o terreno fértil para a entrada de fundamentalismos igualmente inadmissíveis por fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. Quando o Chega chegou ao Parlamento é porque já se infiltrou em todas as áreas. Não, no tempo do Salazar não era bom, mas este tempo também não o está a ser.

 

Tudo começa a ser preocupante e a pergunta que devemos fazer é como chegámos até aqui? Qual a metáfora do arquiduque Franz Ferdinand que fará despoletar o gatilho para que se acabe de vez com uma cultura de despenalização e desculpabilização de atos que não podem, em nenhum momento, numa sociedade atual ser livre de consequências?

 

Lembram-se do filme Joker? Vejam e revejam. Está tudo lá.

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publicado às 17:31

Tu

por Maria Joana Almeida, em 30.09.19

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Quando me abraças é como se fechassem todas as caixas de Pandora. Quando sorris para mim é como se derretesse internamente e tomasse todas as doses de oxitocina do mundo. Quando não te vejo por dois segundos no exterior é como se caísse em queda livre para debaixo do chão. Quando te volto a ver é como se me deitasse na areia quente depois de um banho de mar. Quando fazes beicinho é como se te quisesse engolir num abraço. Quando estou mais de um dia sem te ver é como se o meu corpo fosse a definição viva da palavra inquietação como a música de José Mário Branco.

 

Quando ralho contigo de manhã por estar atrasada e logo após te deixar na escola sinto remorsos. É como se ficassem em falta todos os beijos que te quero sempre dar. Quando te imponho limites e não te deixo fazer tudo o que queres não sinto remorsos porque sei que não vou estar sempre perto de ti e mais convictamente sei que um dia não estarei mesmo.

 

Quando desarrumas tudo por um ainda pouco auto controlo motor ou só porque tem piada, meço a minha reação pelo meu cansaço. Ou ralho ou junto-me a ti no chão criando um pequeno caos. Quando chamas ininterruptamente "Mamã" por 30 segundos, que para mim são longos minutos, é como se acabasse um treino de ginásio. Quando não chamas, sinto falta do meu outro nome.

 

Quando apregoo, também convictamente, que ser mãe não é claramente a única coisa que me define e que o meu trabalho e carreira é o que fazem o equilíbrio saudável digo-o enquanto penso em ti. Este equilíbrio é o que me faz feliz, o que te faz feliz, mas em caso de dúvida, corro para ti. Sempre.

 

Quando não era mãe era como se vivesse numa bolha muito racional com pouco espaço para dissertações emotivas, agora que sou assumo esta “irracionalidade” e gosto.

 

(Este blog faz quatro anos. É um blog sobre Educação, não sobre maternidade, mas como forma de comemorar nada melhor do que um texto sobre um dos maiores momentos educativos de uma vida: Ser mãe da Maria Luísa).

 

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publicado às 23:05

A extenuante palavra Inclusão.

por Maria Joana Almeida, em 26.09.19

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Transcrevo o meu último artigo no Público.

https://www.publico.pt/2019/09/23/sociedade/opiniao/extenuante-palavra-inclusao-1887596

 

"Assisti recentemente a um vídeo curioso. Alguém filmava um baile nas ruas de Maastricht. Ouvia-se André Rieu e dançava-se valsa. No meio havia um par que também dançava, ela em cadeira de rodas, ele em pé. Esta seria uma daquelas imagens bonitas que se colocam facilmente em qualquer abertura de um colóquio ou congresso sobre Inclusão. As cadeiras de roda são maioritariamente o símbolo de uma sociedade inclusiva, da inclusão, da boa vontade, daquela máxima “Fomos buscar uma senhora de cadeira de rodas porque estamos muito atentos, somos muito modernos, somos muito inclusivos”.

 

O mais interessante ao assistir a este vídeo, não foi a senhora a dançar de cadeira de rodas, foi o olhar de quem filmou, foi o “olhar” de quem ali estava. Não houve um único momento onde fosse sentido que aquela situação fosse diferente de todos os outros pares que dançavam. E porque deveria ser?

 

Porque falamos em Inclusão? Por que é que a Inclusão é quase como uma matéria dada à parte num determinando gabinete a uma determinada hora decretada por pontos e exemplificada num Manual? Por que é que quando uma escola tem muitos alunos de cadeira de rodas físicas ou intelectuais se aplaude chamando como exemplo de uma escola inclusiva? Realizam-se passeios, encontros, verbalizam-se palavras de apoio, palmadas nas costas, um leve brilhozinho nos olhos e um certo altruísmo do que está a ser feito, numa certa superioridade ingénua. Numa breve analogia é como se olhássemos aquele vídeo com setas de néon e câmara sempre assente na senhora de cadeira de rodas. Presa numa determinada jaula transparente.

 

António Nóvoa escreveu isto em 2005: “As coisas da educação discutem-se, quase sempre, a partir das mesmas dicotomias, das mesmas oposições, dos mesmos argumentos. Anos e anos a fio, banalidades. Palavras gastas. Irritantemente óbvias, mas sempre repetidas como se fossem novidade. Uns anunciam o paraíso, outros o caos – a educação das novas gerações é sempre pior que a nossa. Será?! (…) A certeza de conhecer e possuir “a solução” é o caminho mais curto para a ignorância. E não se pode acabar com isto?”

 

Uma dessas palavras “Irritantemente óbvias” é exatamente esta palavra: Inclusão. Partindo desta posição pressupõe-se que existe uma entidade nesta sociedade que “tem o poder” de incluir alguém que está à margem da sociedade. Se a sociedade são “todos” então voltamos a pressupor que há um “nós” e “os outros”. Uma sociedade de primeira e uma de segunda.

 

O Secretário de Estado da Educação, João Costa, costuma referir, em alguns encontros, uma imagem bastante reveladora desta mentalidade: Em duas turmas diferentes havia dois meninos em cadeira de rodas, um em cada turma. Numa simulação de prevenção no caso de um sismo que assistiu numa das turmas um dos colegas agarrava no menino de cadeira de rodas e colocava-o debaixo de uma mesa e ali ficava juntamente com ele. Na outra sala o aluno de cadeira de rodas ficava num espaço distante dos outros a observar os seus colegas enquanto faziam a simulação. O Secretário de Estado da Educação perguntou porque estava ele ali, que assim ele podia morrer, ao qual um aluno respondeu. “Não, mas ele não conta”. “Ele não conta… (Há espaços onde não há óbvios, nem por decreto).

 

Os argumentos do modus operandi de cada escola relativamente “aos outros” multiplicam-se entre: “A inclusão é impossível”; “Há falta de recursos nas escolas”.  Estas são as expressões eternamente repetidas. Havia falta de recursos há 10 anos, há falta de recursos hoje, e haverá, certamente, falta de recursos daqui a 10 anos. Arrisco dizer que a falta de recursos são maioritariamente humanos e menos materiais. Não adianta ter armazenado em armários fechados inúmeros materiais se não formos capazes de tratar todos com dignidade aceitando a diversidade dentro de nós e não porque um decreto a impõe. As barreiras são efetivamente muito mais ideológicas do que físicas. Este conceito (Inclusão) é frequentemente enviesado e hermeticamente fechado em politicamente corretos. Esbarra em leituras muito próprias e que deturpam o seu sentido, porque parafraseando Rodolfo Castro, um extraordinário contador de histórias, “Quando lemos uma história a moral não está na história, a moral está em nós. 

 

“(…) quando conseguirmos perceber a diversidade humana não mais haverá lugar à Inclusão, à exclusão, à discriminação. A Escola será um lugar de todos e para todos.” (Rui Proença Garcia)"

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publicado às 10:25

Os amigos aturam-nos muito.

por Maria Joana Almeida, em 20.09.19

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Não tinha sido um dia fácil. Daqueles inundados de inseguranças. Como quase todas as sextas, naquela idade, íamos sair ao nosso bar de eleição no Bairro Alto. Sentia-me triste. Liguei a um dos amigos que mais me “aturava” nesta altura e que se encontrava no outro lado do bairro. Ele, preocupado vem ter comigo, e digo-lhe as seguintes palavras: “Ó Mike, eu sou gira?” Não há palavras para a reação dele e para as gargalhadas que demos a seguir. “Mas venho eu do outro lado do bairro para tu me fazeres uma pergunta destas?” Escusado será dizer que quando estamos juntos, ainda hoje, entre amigos é inevitável falarmos deste episódio, o qual, eu ainda nego sempre dizendo que ele está exagerar.

 

Exagera sempre um pouco, mas não deixou de ser verdade.

Há inseguranças determinadas em cada idade, há inseguranças intemporais e há inseguranças pontuais.

 

Já escrevi uma vez sobre os meus amigos. Para mim são os melhores do mundo. É impagável ter amigos que nos aturam com carinho em situações que podem ser facilmente apelidadas de ridículas (sim, mereci alguns insultos – queridos – por parte do Mike depois dessa noite). Não fossem os amigos, ou as relações que estabelecemos e se calhar ainda duvidava hoje se era gira ou não (o que quer que isso queira dizer). São o nosso espelho, o nosso ombro e o nosso wake up call para nos chamarem à razão ou para simplesmente nos ouvirem nas nossas inseguranças pontuais ou intemporais.

 

Devo muito aos meus amigos. Quer dizer não devo, eles sabem o quanto eu gosto deles e o quanto sempre estive, e estou presente, também, para ouvir se eram giros(as) ou não.

 

E sim, a incredulidade dele foi também perante a pergunta descabida e descontextualizada, porque para ele era óbvio que sim. E às vezes bastam perguntas descabidas e respostas positivas para seguir noite dentro a rir.

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publicado às 21:40

O equilíbrio da felicidade

por Maria Joana Almeida, em 09.09.19

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Já escrevi para o jornal Observador a convite. Não leio todos os seus cronistas, nem sempre me identifico, mas leio sempre os artigos de Ruth Manus. No seu último texto escreveu isto: “As crianças não têm que ser boas no que fazem. Elas têm que gostar do que fazem. Têm que ser felizes dentro das possibilidades. Filhos não são instrumentos de competição, nem de realização pessoal. Filhos são indivíduos em busca de felicidade. E era para isso que os pais deveriam servir, para facilitar esse caminho. Não para exigir as melhores notas na escola, boas avaliações nos cursos de língua estrangeira, roupas limpinhas no final de um domingo e brincadeiras serenas e silenciosas. Porque isso, definitivamente, não é coisa de criança. Pelo menos não de criança feliz.”

 

Elementar não é? Às vezes, muitas vezes não.

 

Não há nada profundamente mais tocante e irresistível do que ver a Maria Luísa sorrir ou ouvi-la rir. Às vezes não porque arrumou os livros no cesto, ou porque não se sujou a comer a sopa. A maior parte das vezes porque pôs sopa no cabelo ou porque foi apanhada a atirar brinquedos para a banheira. Os meus sorrisos, nestes casos, são proporcionais ao nível de cansaço. Se a mente estiver limpa, estes são momentos que proporcionam sorrisos iguais aos momentos em que usa adequadamente a colher e quando arruma os brinquedos corretamente.

 

O tempo e o trabalho nivelam o nosso humor e são muitas as vezes (vezes demais) que ficamos incapazes de filtrar os excessos e discernir de uma forma equilibrada perante as mais variadas situações. E muitas vezes, demasiadas vezes, nesta ligação incontrolável aos nossos filhos, queremos negar que são (serão) seres independentes de nós e exigimos, ingenuamente, que caminhem num percurso desenvolvido e arquitetado por nós, aquele que consideramos o certo, ou porque o somos ou porque não o chegamos a ser. Às vezes confundimos e chamamos também a isto de amor.

 

Nesta teia complicada em tentar encontrar papéis definidos e apaziguamento nesta relação podemos cair facilmente em fundamentalismos. Por medo, por desconhecimento, por egoísmo, por amor. E nestes encontros e desencontros perdemo-nos no que é realmente a felicidade e ouvimos frases como: “Se o meu filho ficar mais um ano no pré-escolar, perde um ano na faculdade”. Ou, em antítese, “Eu não me interessa se o meu filho aprende a ler ou a escrever, interessa-me que ele seja feliz” E se numa frase me questiono como podemos definir um futuro tão certo e sem espaço para erros ou imprevistos, noutra questiono como se pode ser feliz sem os maiores instrumentos de liberdade?

 

Ser feliz não é competição nem desleixe. Não são regras rígidas e absolutamente inflexíveis, nem um laissez faire. Não é destruir sonhos nem colocar na beira de um abismo por um sonho absolutamente improvável. É qualquer coisa no meio, próprio de cada criança e contexto.

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publicado às 21:20

O João Bandarra.

por Maria Joana Almeida, em 24.06.19

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O João Bandarra foi quem me veio substituir no colégio onde iniciei o meu percurso profissional.

 

Percebi rapidamente que a passagem iria correr bem quando o vi entrar, de capacete na mão, com toda a genuinidade que o carateriza, sem querer, pela varanda do Colégio a perguntar se era ali o sítio certo. Percebi ainda mais claramente quando, em sala de aula comigo, acabou em dois tempos, através de uma argumentação simples e direta, com as provocações de alguns alunos.

 

Eu e o Mário brincamos muitas vezes com o João a dizer que se algo acontece na Mongólia, não pode haver a mais pequena dúvida que começou, sem ele saber como, em algo que tenha feito aqui. Há uma inacreditável conjugação do Cosmos para que o João esteja envolvido nas mais hilariantes cenas de comédia do quotidiano.

 

O Joáo faz rir pessoas que jurei a pés juntos serem as pessoas mais antipáticas de sempre. Consegue nivelar todos pela média, quer seja o Doutor do gabinete, quer seja a empregada do Bairro Social. É fácil rendermo-nos à sua espontaneidade, falta de filtro (nem sempre corre bem mas ele gosta de viver no fio da navalha) e à sua capacidade de ser prestável e o ombro solidário e imediato quando é preciso.

 

O João pode ser muito desconcertante, antagónico, irritante a adorável, seco a cómico, agregador a acutilante, sarcástico a terno. Mas há uma genuinidade com um misto de ingenuidade que o torna único.

 

O João faz o que quer dos miúdos mais problemáticos, não há miúdo que não o adore e na relação que consegue estabelecer, há poucos como ele.

 

O João escreveu um texto há pouco tempo e quase a medo disse que ficaria muito honrado se eu o colocasse no meu blog.

 

É um texto muito bom. Parabéns João.

 

 

 

 

“O que se perdeu.

Era um jovem com bom aspecto, de trato fácil desde que não contrariado. Na sua vida já várias tropelias o tinham moldado, nascido num bairro social e cedo retirado à família lutava com os argumentos que tinha para sobreviver.

 

Encaminhado para “o ensino especial” porque já não havia repostas , e foi assim que o encontrei.

 

Mostrava um charme inigualável quando tinha algum interesse, já pelo contrário mostrava desdém pelo que não o motivava.

 

Muitas foram as estratégias, noites perdidas deixadas à ânsia de não conseguir ajudar, apoiar ou encaminhar. Até ter surgido o projeto de vida…que tamanho nome pomposo para desistir.

 

O encarregado de educação insistiu e por muito que me insurgisse nada podia fazer, o discurso não mudava, “temos de profissionalizar este jovem para que aos 18 anos ele possa ser inserido na vida activa.", vezes demais foi dito que o jovem não detinha ainda as capacidades necessárias para cumprir com o projeto de vida que lhe propunham…mas de nada serviu.

 

Lá foi ele…lá foi…lá foi o que se perdeu…deixando para trás um amargo trago…o trago do que se perdeu e nada consegui fazer...

 

Entre boatos e notícias de vizinhos fui ouvindo notícias que não conseguia determinar a veracidade…e sempre aquele trago amargo…

E naquela segunda-feira pelo canto do olho vi-o…era ele…tinha voltado…só para visitar e dar notícias…ansioso por saber e sem nada temer perguntei se tudo o que tinha ouvido era verdade…e…sim era…o projeto de vida nem dois meses se manteve, o retorno ao ambiente de criação levou a um ano de reinserção mas três anos mais tarde ele voltou…veio agradecer…as estratégias, as noites perdidas e até os ralhetes…e não mais me vou esquecer das palavras dele…”Não nos esquecemos de quem nos trata bem

 

Afinal…afinal…afinal não se perdeu…. Que grande sorriso me deu e vontade ainda maior de perder noites e suor a motivar e semear os jovens de amanhã…afinal não se perdeu…”

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publicado às 14:57

Sobre o ciclo "30 portugueses, um país" com Luís Osório

por Maria Joana Almeida, em 04.06.19

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O Luís Osório é um dos escritores que mais gosto de ler e de ouvir. 

Foi moderador de um Ciclo intitulado "30 portugueses, um país" um momento de conversa com várias personalidades do nosso país que contou com presença de nomes como António Barreto,  Bruno Nogueira, Ana Moura, Mário Centeno, Teodora Cardoso, Assunção Cristas e António Costa, entre outros.

Obrigada Luís por me concederes de novo o privilégio de uma nova entrevista.

 

 

 

1 – Terminaste recentemente um ciclo intitulado “30 portugueses, um país” do qual foste moderador. Qual foi o seu principal objetivo?

- O espaço das grandes entrevistas, de uma maneira ou de outra, deixou de fazer sentido. A força da atualidade, do que é notícia ou é capaz de influenciar, tornou-se predominante e ultrapassou as boas conversas, as conversas sem propósito. Gosto de conversar por conversar, de conhecer, viajar para dentro da outra pessoa, ter curiosidade, conhecer sem a ditadura do que interessa às agendas mediáticas. Diria que o principal objetivo foi esse. Desafiar as agendas com uma outra agenda onde pudéssemos estar por estar e aprender. 

 

 

2 – Na maior parte dos casos já conhecias pessoalmente os convidados? Como foi o processo de preparação e quais respostas que te marcaram ou que mais te surpreenderam?

- Não fiz as contas, mas diria que sim. Na maior parte dos casos já conhecia os convidados. O processo de preparação foi muito livre, limitei-me a ler sobre cada umas das vidas e a conversar com cada um deles. Não me marcou nenhuma resposta em concreto, já sou velho o suficiente para não me encantar com uma árvore por mais frondosa que pareça.

 

 

3 – Trinta portugueses que detém um espaço dentro do nosso país e trouxeram, no geral, uma ou várias visões e posições inovadoras e, dos quais, naturalmente, não é possível escolher um como “o” mais influente, mas a pergunta é esta: De que influências e de que visões precisa o nosso país?

- O mundo precisa de uma visão que seja construída a partir de uma ideia de futuro. Precisa de resgatar um espaço de intervenção e pensamento das elites – não subordinado à soberania do consumidor e aos desejos do povo. Precisa de encontrar um novo sentido para a democracia e para a representatividade dos que são eleitos. Precisa de uma comunicação social que não dependa exclusivamente do dinheiro dos que compram jornais ou veem os canais de informação. Precisa de não ter medo, de erradicar novos fascismos. Precisa de um modelo que proteja o trabalho num tempo de automação em que milhões de postos de trabalho serão extintos. Perguntas-me pelo país, respondo-te com o mundo. Porque dependeremos sempre em primeiro lugar do que acontecerá lá fora. E eu tenho tendência para acreditar, citando Bertrand Russell, uma espécie de desejo de federalismo.  

 

 

4 – Como jornalista, como escritor, muito ativo nas redes sociais, especialmente no facebook (no fundo como Português), qual sentes ser, digamos, a tua missão neste espaço que ocupas? Qual a tua influência real ou desejada?

- A influência do Facebook é mais expressiva noutros países, como provam os escândalos dos últimos anos. Não tenho nenhuma missão, não sinto que a tenha. Estou no FB com o mesmo espírito com que escrevo livros ou tudo o resto, fazer o melhor possível e construir um caminho. Que no final das contas será reconhecido (ou não) pelos outros. Não tenho influência nenhuma. Apenas pessoas que gostam do que escrevo. Mas isso vale pouco no sentido que dás à palavra influência. Se para mim isso fosse um desejo estaria noutros lugares, teria aceitado um convite para dirigir um jornal ou um lugar numa lista de deputados. Recusei uma e outra coisa. 

 

 

5 – Que perguntas faltam fazer e que portugueses faltam entrevistar?

- As perguntas que ainda não foram feitas o tempo encarregar-se-á de as mostrar. Há sempre perguntas a nascer na medida em que novas respostas surgem. Cada nova resposta a uma pergunta desencadeia 10 novas questões que não existiam. E claro permanecem as de sempre, as irresolúveis, a começar pela “onde vamos quando nos vamos?”

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publicado às 20:34


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