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"Até já" (1 da série ilustra)

por Maria Joana Almeida, em 04.03.21

 

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1 da série ilustra

 

Costumamos dizer um "até já" à morte. Um "até já" que se situa no espetro da evidência, da nossa senha de espera. Usamo-lo simultaneamente com medo e coragem. É projetado como certeza que queremos longínqua.
No jogo de xadrez que é a nossa vida tentamos adiar o "até já". Há peças que saltam e recuam, mas nós os peões seguimos em frente. Às vezes conseguimos o cheque-mate e o "até já" adia-se, outras vezes ficamos encurralados e a vida nem sempre é misericordiosa. Quem fica procura sempre aquele ponto no céu. O nosso peão amado que a vida não poupou, o "até já" que no jogo não se adiou.


Ilustração #martanunesilustra

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publicado às 11:58

Que não se repudie por completo o online.

por Maria Joana Almeida, em 01.03.21

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“Nas escolas ainda continuamos a pedir aos alunos para deixar o século XXI à porta” disse João Couvaneiro, o nomeado português para o “Nobel da Educação” (Global Teacher Prize) em 2017, relativamente à utilização de tecnologias. Em 2020, ironicamente, um vírus não inviabilizou computadores, mas transpôs portas inviabilizando relações humanas.

 

Desde março de 2020 que a expressão online invadiu as casas e as escolas como uma espécie de tábua de salvação. Neste novo paradigma existem vários lados da barricada: Os optimistas que encaram esta fase como uma necessidade ao mesmo tempo que refletem sobre as suas potencialidades; Os pessimistas que encontram apenas lados absolutamente negativos. Há espetros de cinzento que se encontram no espaço da razoabilidade e será sempre sobre estes cinzentos que fará sentido refletir.

 

“Nada substitui o presencial” é uma frase que se tornou num absoluto lugar comum. Esta premissa é, naturalmente, um facto. É também um facto que o presencial adotado desde maio de 2020 é um lugar muito distante do desejado. Não há espaço para toques nem reconhecer expressões faciais. É um presencial enviesado.

 

Neste confinamento parte II partimos com algumas vantagens. Já o vivemos, já identificamos os problemas, já nos preparámos. E há surpresas muito interessantes. Houve tempos de adaptações e este ensino à distância, atual, teve tempo de aprender com os erros do primeiro.

 

No universo da educação há alíneas de decretos que promovem a diversificação de instrumentos quer como medidas universais quer como medidas seletivas. São essenciais na categoria da diferenciação pedagógica. Mas por defeito de reflexão ou por memória muscular tendemos a reproduzir um modus operandi repetitivo e protocolar. O ensino à distância obrigou-nos a sermos esta alínea do decreto e a torná-la universal, todos os dias.

É estranho afirma-lo, e estranho escreve-lo, mas há efetivamente alunos que têm beneficiando com o ensino online. Conhecemos todos os constrangimentos desta metodologia. Conhecemos a desigualdade desta medida. Sim. São factos. Mas será, também, importante refletir sobre o que de interessante e benéfico tem trazido. Houve hiperatividades e dislexias que “desapareceram”. O défice de atenção baixou os níveis de dispersão e de repente usámos diversificação de instrumentos como se todo o ensino dependesse disso (tantas vezes depende). Tornou-se a norma. E quando se tornou a norma, alguns milagres têm, efetivamente, acontecido.

 

A falta de autonomia dos alunos é um dos aspetos mais mencionados ao longo de todos os ciclos de ensino e, mais flagrantemente, no ensino secundário. Nas avaliações descritivas realizadas é, provavelmente, a palavra mais vezes mencionada como um aspeto negativo e que dificulta tudo o resto. Poderíamos teorizar sobre de onde vem, ou onde começou esta falha, esta necessidade. “Os pais protegem e dão pouca autonomia”; “Os professores dizem exatamente o que é para fazer sem espaço para criar”; “Os professores seguram os alunos com notas para não ficarem retidos”; “A palavra inclusão, com objetivos nobres na sua essência, é demasiada vez deturpada como lógica de levar meninos ao colo”. São estas as hipóteses, ou todas as hipóteses juntas ou nenhuma delas. Cada um terá a sua crença.

 

Pensar a educação num modelo misto (presencial e online) como forma de cruzar e fortalecer competências, principalmente a autonomia, tornou-se, neste momento, absolutamente imperativo.

As plataformas digitais saíram dos armários da escola, das utopias de alguns pensadores, dos papéis e protocolos bafientos. Pensar num modelo presencial direto e um modelo online indireto poderia aproximar mais do que afastar. Poderia responder mais às necessidades individuais e menos a estatísticas e percentagens. No entanto a conta teria de ser bem certa. Para que todos os ingredientes resultassem, em nenhum momento, quase como um nível, um se deveria sobrepor ao outro nas intencionalidades.

 

O mundo é, neste momento (arrisco o sempre) um tabuleiro de xadrez. As jogadas são feitas consoante os números. É um jogo longo, com adiamentos, raramente com empates, onde se tenta encurralar o vírus que é rei. Após o cheque mate, o jogo deverá ser analisado, estudado. Deitar fora os erros depois de os compreender e resgatar as jogadas certeiras para que as portas não se voltem a fechar.

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publicado às 16:06

Uma carta ao Hospital de Santa Marta (Aos hospitais).

por Maria Joana Almeida, em 02.02.21

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Esta carta tardou. Mas é provavelmente a carta mais obrigatória que já escrevi.

 

Aqui não sei bem como começar. Há sensações às quais não sei dar um nome, um único nome, ou um único texto.

De maio a dezembro conheci três hospitais. Um trio que cercou a minha vida, a vida da minha mãe, a vida de uma família e amigos que não podendo estar presentes conheciam os seus cantos quase graficamente, telefonicamente.

Em São José a minha mãe ficou durante dois dias numa fila de camas à espera de exames e diagnósticos. Em Santa Marta a minha mãe ficou internada e soube o diagnóstico. Em Santa Marta a nossa vida parou.

Nos Capuchos teve as consultas de quimioterapia, poucas. Em Santa Marta a minha mãe partiu, minutos depois de eu sair. Mas segurei-lhe a mão, até ao fim, como havia prometido para mim mesma, porque nunca haveria outra hipótese.

 

Há uma espécie de construção que nasce depois dos cacos espalhados, uma espécie de normalidade paralela, inevitável, vital para seguir em frente, uma assunção de trocar as voltas à morte.

 

A minha mãe passou a maior parte do seu tempo doente no Hospital de Santa Marta, numa altura absolutamente ingrata, dentro da maior ingratidão da vida. Era difícil visitá-la, era difícil ficar o tempo que desejaríamos. Mas este hospital é dotado de uma humanidade inspiradora.

Lembro-me da minha mãe dizer como é que era possível as pessoas criticarem o Sistema Nacional de Saúde. Existia (existe) um carinho, um cuidado, um empenho, um entusiasmo (possível) permanente, constante.  

Há um segredo que desvendo aqui: Houve uma enfermeira muito especial, uma enfermeira que se tornou amiga da minha mãe, que se tornou minha amiga, que conseguiu um impossível. Uma enfermeira e uma médica que, num cenário de proibições, num momento de dúvida se a minha mãe sairia ou não daquele hospital, acederam a que as netas pudessem visitar a avó. Esta ato de humanidade permanecerá intacto na memória para sempre.

 

Em Santa Marta houve um médico que eu não conhecia que se sentou horas comigo para explicar tudo, para definir tudo. O médico que me disse que a minha mãe era muito querida por todos, a quem recorri quando a minha mãe foi para as urgências de São José. Um médico que me ligou quando saiu do hospital, fora do seu expediente. Um médico que a abraçou. As auxiliares que paravam o trabalho para se despedir da minha mãe quando saia. Uma médica que, no momento em que já não havia nada a fazer se emocionou comigo e partilhou também a história da sua mãe. A enfermeira que no final do seu turno, pelas 00h, naquela que viria a ser a última noite, não me deixou sair sozinha. Levou-me no seu carro para casa. Eu não conhecia estas pessoas. Estas pessoas não conheciam a minha mãe. Estas pessoas trataram a minha mãe com uma dedicação que vai para além do protocolo, que vai para além da função, da simpatia. Foram a nossa família de apoio direto durante meses.

Não há espaço mental regular que consiga encaixar a resiliência, o empenho, a vontade de estar presente, holisticamente, de médicos e enfermeiros. Quer num cenário quase de guerra nos claustros de São José, um espaço graficamente pesado, desolador, mas que puxa pela vida, quer nos canais de comunicação que rapidamente se abriam em Santa Marta, houve pequenos milagres que aconteceram.

 

A minha filha de 3 anos disse-me que tinha saudades da avó “Fama”. Pediu-me para ir ao céu buscá-la.

O Hospital de Santa Marta, todo o corpo humano deste Hospital, foi muitas vezes ao céu buscar a minha mãe. Aquele era o céu no meio dos hospitais.

 

Obrigada. Obrigada à equipa deste hospital.

 

Uso poucas vezes a palavra gratidão por ser muitas vezes um lugar comum. Em nenhum outro momento ela encontra o sítio certo e ecoa como aqui.

 

 

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publicado às 20:21

Ainda não há estudos que expliquem isto.

por Maria Joana Almeida, em 30.01.21

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"A expressão “Os estudos indicam que” fazem, recorrentemente, parte do léxico dos ambientes informativos e podem ter tanto de científico como de entediante e bacoco. A sua utilização massiva permite, também, enviesar ideias e fundamentar todos os argumentos. Na mercearia da Ciência existirá sempre um estudo que serve o meu propósito. Será sempre o mais viável e o correto.

 

Um estudo é uma carta na manga, um passe vip para a obtenção de credulidade e de continência. Dependendo de quem o usa fica no mesmo patamar das miss que querem paz no mundo e das pessoas que apregoam “Porque eu sou uma pessoa que...”. É frequentemente esquecido que é preciso analisar o estudo para o envergar.

 

Há estudos para todos os gostos nesta dicotomia “Escola aberta vs escola fechada”, e dentro da minha gaveta da moralidade, que dança ao som dos casos diários, seleciono o estudo que melhor serve o estado emocional daquele dia. É assim que nos encontramos.
As opiniões mais equilibradas são bombardeadas com estudos até que os estudos entrem pela nossa gaveta e nos convertam.

 

Em momento de assunção das falsas promessas de um arco iris antigo, todos sabemos que não vai ficar tudo bem. Ninguém sairá incólume no processo. Ninguém sairá triunfante.

 

Não tenho opinião formada sobre se as escolas se deveriam manter abertas ou não. E não tenho porque não detenho os estudos sérios, as variáveis, o que tirar e pôr para melhor equilibrar, todo um conjunto ideal que me possa levar a tomar decisões o mais acertadas possível. E o que pode ser uma decisão acertada no meio do caos? Não só aquele que reina nos hospitais, mas também o caos espartilhado nas diferentes emoções à flor da pele, nas diferentes histórias de cada um que nos fazem aventar disparates e crenças individuais, de contextos tão específicos, que não podem ser o único exemplo e resposta correta. Ainda não há estudo certeiro para minimizar e acabar com a intolerância.


Como mãe facilitaria que a escola estivesse aberta, mas aceito e compreendo. Como professora sei as lacunas e as fragilidades que ficaram do ensino à distância e por isso não é de ânimo leve que encaro o fecho das escolas. Mas é fácil compreender esta inevitabilidade. Não sou especialista e por isso parece-me ser necessário, mais do que atirar, de uma forma cega, opiniões e estudos do meu quintal, ouvir e perceber as razões.  
Não colocar o ensino à distância nestes quinze dias parece me sensato, nada se perde. Baixam-se os níveis de ansiedade e aproveita-se para refletir sobre a necessidade de criar competências para a autonomia, mais do que massacrar, pelo medo de falhar e deixar para trás algo bombardeado os alunos com fichas, fichas e atividades “para ser o primeiro a entrar na faculdade.”


Há muito ruído. Um ruído que tem toldado o discernimento, a calma e a inteligência. Sem qualquer referência católica, os vazios descritos recentemente por Tolentino Mendonça são a base deste ruído. Disparos constantes que não são mais do que gritos de revolta e pedidos de ajuda. Tudo é quase percetível, mas nem tudo pode ser acatado.

 

“Os estudos indicam que” é uma frase perigosa porque tanto é usada pelos preguiçosos e impostores como pelos que estudam. Pelos que se informam de facto. E por detrás de muita assertividade e segurança residem perigosos chacais que se alimentam da ignorância alheia."

 

in Público 27/01/2021

https://www.publico.pt/2021/01/27/opiniao/opiniao/nao-ha-estudos-expliquem-1948046

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publicado às 22:55

Primeiro live no Instagram

por Maria Joana Almeida, em 30.01.21

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Em momentos de assunção das falsas promessas de um arco-irís antigo, todos sabemos que não vai ficar tudo bem. Ninguém sairá incólume no processo. Ninguém sairá triunfante.

Mas há construções, há oportunidades, há outros arco-íris. mais honestos e sensatos.

 

(Acesso)

 

https://www.instagram.com/tv/CKpBMtbDwJo/?utm_source=ig_web_copy_link

 

 

Obrigada Inês Afonso Marques por este desafio.

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publicado às 22:51

Ainda não sei fazer croquetes

por Maria Joana Almeida, em 22.12.20

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A minha mãe fazia croquetes. Os melhores que alguma vez comi, e sem qualquer medo de errar, os melhores que alguma vez alguém comeu. Tudo o que cozinhava era muito bom. Cozinhar era amor. Não era apenas um ato de amor. Era amor.

 

Ontem comi rissóis num restaurante (croquetes nunca me atreverei) e não eram maus. Perguntei se eram caseiros, se era a senhora da cozinha que os fazia (acho que procurava amor) e o senhor respondeu-me que não, que já ninguém fazia isso. Ele não conheceu a minha mãe. Que sacrilégio seria comprar croquetes, rissóis ou empadas. Só se fosse apenas para comprovar o óbvio: a minha mãe fazia melhor.

 

A cronista Ruth Manus, escreveu certa vez no Observador, a propósito de um texto que agitou os ânimos há uns tempos  “Minha querida, se você tem uma carreira consolidada e espaço para se manifestar, você está usufruindo de conquistas feministas. Caso contrário você ainda estaria fritando croquetes em casa.”

 

A minha mãe fazia croquetes, mas não sabia apenas fazer croquetes. A minha mãe sabia ensinar e sabia o que queria e não queria. O meu pai aprendeu a fazer croquetes. Ambos os faziam e fritavam. O meu pai sabe fazer tudo em casa, não por imposição, mas porque não era opção alguém em casa “ajudar”. A minha mãe sempre quis ambos com trabalho e ambos como parte integrante de tudo o que uma casa exige. Mas nunca exigiu só para um.

 

A minha mãe disse-me que queria que eu fosse uma grande mãe e uma grande mulher. Penso que sei qual a sua crença sobre isso, porque são várias as crenças sobre isto.

 

Quando era mais nova a minha mãe queria que eu aprendesse a cozinhar com ela (ela sabe que eu aprendi várias coisas), queria que eu soubesse bordar, fazer ponto de cruz, fazer cachecóis (também fiz alguns), dizia-me também ao mesmo tempo para endireitar as costas e ler, ler muito. Eu não gostava de bordar e não gostava de ponto cruz. Os cachecóis também demoravam muito tempo e não tinha paciência. Também não percebia porque tinha de ler muito e chateava-me ter de pensar sempre se tinha as costas direitas. Deixei as tentativas de ponto de cruz, mas li compulsivamente entre os 12 e os 18 anos e deixava bilhetes debaixo das almofadas de toda gente, assim quase como um balanço daquele dia.

 

A minha mãe tinha medo que eu viajasse, mas uma vez, numa altura em que me sentia muito triste, disse-me para eu fazer uma viagem. A minha mãe queria que eu fosse à missa e falasse com Deus, mas tinha, especialmente comigo, inúmeras vezes, um sentido de humor acutilante, sarcástico e negro. Às vezes, em grupo,  apenas nós nos ríamos, de lágrimas, só porque olhava para ela no momento certo. A minha mãe era, também, uma antítese completa. E era, porque ela me conhecia como ninguém. Aprimorava-se nas críticas, ao mesmo tempo que me dava asas. Fui percebendo isso. Deu-me muita escolha, sem primazia em nenhuma. Eu escolhi escrever, porque achava que me sentia melhor do que a fazer outras coisas. E escrevi-lhe muito em vida. E quando lia os meus textos, os olhos brilhavam igualmente como se eu tivesse feito o cachecol mais bonito ou os croquetes mais deliciosos. Ela queria-me feliz e só isso lhe importava.

 

A véspera de natal será esta quinta-feira. Não estaremos juntas desta vez. Não vou comer a tua comida. Mas continuo de costas direitas mãe, desta vez a ler receitas. Tenho muita vontade de fazer croquetes. Quero acrescentar mais à minha carreira. E era isso que tu gostarias, o que puder alcançar, mais e melhor. E eu vou sentir os teus olhos a brilhar.

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publicado às 23:00

Voltaremos a dar a mão mãe.

por Maria Joana Almeida, em 04.12.20

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MÃE

 

Fechou-se hoje uma porta. A do amor incondicional de uma mãe, o sítio de onde vim e nunca mais poderei voltar.

 

Durante todo o tempo que possamos viver nunca entenderemos a lógica da vida e a lógica da morte. Não houve lógica na tua partida mãe.

 

Pergunto-me o que quer a vida ensinar-me com isto a não ser que estamos todos em fila de espera para a morte. Nua e cruamente, é apenas isto.

 

Passámos os teus anos, os meus e os do pai. Falhámos o Natal mãe, o nosso Natal.

 

Deixaste-me um legado difícil de acompanhar, ser Fátima, Mata, Fatucha, Fatinha, Avó Fama, e a mãe que foste não é para qualquer pessoa. A singularidade simples, generosa, genuína algumas vezes te prejudicou mas tantas vezes te compensou. O farol e pilar que foste e continuarás sempre a ser iluminou e segurou tantos pesares e tanta gente. Ninguém te ficava indiferente, tarefa impossível. Mesmo no hospital cativaste corações como só tu o sabias fazer. Como escrevi numa homenagem que te fiz enquanto estavas entre nós “A minha mãe é parecida com a minha avó. Não faltará nada a ninguém enquanto estiver por perto.” Mas a vida falhou-te mãe. Traíu-te, traiu-nos.

 

Se arrependimento matasse eu teria morrido mil vezes, por todos os momentos que nos aborrecemos por pequenas coisas, por todas as vezes que me queixei do teu sufocar de amor, por todas as vezes que não soube dar o valor, por todas as vezes que não olhei para os teus olhos como olhei nos teus últimos dias. E que bonitos que eram.. Mas sabes, no fundo, o que eu sempre quis foi que te orgulhasses de mim. Nos momentos de reconhecimento que tive foste sempre a primeira pessoa a quem liguei, não hesitava. Precisava de ouvir, “Parabéns filha, isso é muito bom, fico muito feliz” e esta frase ganhava mais peso e preenchia-me mais, do que qualquer outra declaração ou louvor. E eu sei que te orgulhas. Falamos disso mãe. Disseste-me.

 

Todos os que conversaram comigo neste período de inferno, que apenas agora começou, diziam recorrentemente: “Eu não tenho palavras” e não existem mesmo palavras para este caratér aleatório da vida. Mas eu tenho muitas mãe. E a primeira é esta cruel ironia: Sempre me sufocaste de amor e eu queixava-me. Nos últimos dias não havia amor suficiente que te pudesse dar. Passava as noites em claro para te ligar logo pela manhã apenas para me certificar que estavas ali, que ainda estavas ali. Inundava-te de mensagens às quais não davas vazão para responder pois o cansaço ganhava terreno. Eu sufocava-te de amor ao mesmo tempo que finalmente compreendia o que era esse amor que não cabe dentro de nós e que quer roubar todo o espaço antes que seja tarde demais.

 

Mantiveste-te fiel à tua essência até ao final dos teus dias. Nem nesta doença, a destruir-te por dentro, deixaste de pensar mais nos outros do que em ti própria.

 

O Tó, alguém que gosta muito de ti e de quem gostavas muito também, disse, quando escreveu sobre ti: “O problema das pessoas muito boas, é que nos dão tanto e parecem precisar de tão pouco que não nos preocupamos para saber se lhes podemos dar mais ou melhor.”

 

A tua preocupação constante com a Luisinha e Madalena, a mágoa de não as veres crescer, de não poderes cozinhar para elas, de não as poderes ir buscar à escola e cantares todas as músicas para as adormecer. A tua preocupação constante com o pai, comigo, com todos os que estavam perto de ti. Foste e és amada por todos.

 

Tiveste uma coragem inabalável, mas tão inglória. Foste a primeira a saber do teu estado, quando te encontravas sozinha, foste tu quem informaste a tua família, os teus irmãos que ouviram pela tua voz, da matriarca, as palavras mais horríveis que poderiam ouvir. E foste tu que me consolaste ao telefone.

Foi nesse dia, quando o pai me disse, que soube o que era ter o corpo a querer colapsar, a voz a desaparecer, a repetição inquebrável da frase “ não pode, não pode, não pode” de olhar para os mesmos objetos de sempre como se estivesse noutra dimensão, do buraco e do vazio repentino no peito, de ter de dar colo à Madalena e ter de tentar acalmar o impossível de acalmar. Senti uma desumanidade perante a vida e a verdadeira assunção da palavra crueldade e ingratidão. E foi, também, nesse dia que a minha fé morreu.

 

Encaixámos a dor e seguimos em frente, de cabeça levantada e de armadura. Estive contigo na linha da frente, não haveria outra maneira. E se dúvidas houvesse sei hoje de onde vem o meu sentido de humor. O que ainda nos rimos no meio do inferno mãe. As fintas que tantas vezes fizemos à morte, a rir, a dar as voltas ao jogo, a sermos nós a dar as cartas. Disseste que não dava jeito nenhum morreres agora, que tinhas mais que fazer, o quão desleixados e a precisar de restauração estavam os hospitais para dizeres imediatamente a seguir, estou lá eu ralada com isto, restaurem-me mas é a mim. Ou mandares o médico tomar morfina que tu não a tomarias. O que nos rimos mãe. O que restava fazer? Sempre foste das pessoas com quem mais me ria. Vinha da nossa cumplicidade. Havia, ao mesmo tempo, um caráter pragmático e direto perante a vida.

 

A verdade é que os sinais estiveram lá, tantas vezes e com tanta intensidade, mas tu eras a Fátima, a minha mãe, a imortal. Uma força da natureza nas tuas convicções enquanto mãe, mulher e matriarca.

 

E que tempo tão carrasco para se poder estar doente...Pedem-nos racionalidade. Como se houvesse alguma racionalidade em perder uma mãe.

 

Num dia, sem esperar, estive sozinha contigo numa visita ao hospital que de alguma forma consegui impor sem esperar, e conversamos. Olhamo-nos mutuamente e demoradamente e, naquele olhar, sem esperármos, fizemos uma viagem de 38 anos em silêncio. Senti que ficámos em paz.

 

Ontem ainda te dei a mão mãe, ainda te falei ao ouvido, quero acreditar que sentiste, que ouviste. Fiquei até não me ser permitido mais, porque estar em casa quando estavas sozinha no hospital naquele que parecia ser o último dia não era opção. Foi.. Teria ficado até ao fim.

 

Tenho tanta coisa para te dizer, mas eu sei, que tu sabes tudo o que poderia escrever nesta nossa ligação visceral que é eterna.

 

Fizeste-me três pedidos, que honrarei até ao final dos meus dias, um deles , para ser “uma grande mãe e uma grande mulher.” Ainda, numa das nossas últimas conversas ao telefone, daquelas das 06h30, a hora em que o meu coração sossegava minimamente porque ainda estavas ali, disseste-me: "Olha, tu agora já não és Joaninha, tu agora tens de ser Joana." Uma frase tão simples e tão certa. Assim era, assim é a minha mãe.

 

Mãe, serei sempre a tua Joaninha, mas prometo que serei, certamente, Joana perante a vida para sempre. Sinto que este poderá ter sido o teu último grande ato de amor. Fazer crescer uma força e resiliência que apenas julguei ser quase sobrenatural.

 

Adeus Mãe, foste e serás sempre, o meu primeiro grande amor.

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publicado às 23:21

Na escola não se pode ser de esquerda nem de direita

por Maria Joana Almeida, em 19.11.20

 

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A minha crónica no jornal Público

 

"O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "São 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados”. E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independentemente dos seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

Erramos muito ainda quando falamos de inclusão, aliás, todos os textos sobre Inclusão falham redondamente quando assim se auto-intitulam, e falham redondamente porque o princípio deve ser sempre o da diversidade o da assunção da diversidade. Falar de inclusão é a antítese do que queremos. Mas lá chegaremos, ao dia em que não seja preciso um holofote perante a inclusão. Quando não for preciso reforçar que é homem ou mulher, que é imigrante, que de ascendência x, quando qualquer fator externo não é mais relevante do que sua competência. O momento chegará quando erradicamos, inconscientemente, do nosso discurso,”(…) e ela é mulher” e “foi o marido que ficou em casa a tomar conta do bebé”, “É africano e está na faculdade”, “Sim, temos muitos alunos de cadeira de rodas, temos um historial de inclusão”, “Sim os teus meninos, os alunos NEE”; “É para fazer os testes para os NEE?”

Não sei se irá lá por cotas, por discriminação positiva, por obrigação (não será de certeza). Creio que as mudanças profundas vêm acima de tudo por inspiração. As grandes mudanças vêm por contrapontos, por informação, por ouvir os dois lados da barricada, por correr o espetro. Porque de outra forma serão sempre assunções pouco sólidas. Facilmente manipuladas.

É por isso que áreas como a Cidadania não podem ser opcionais, por algo tão simples como o facto de que à escola não cabe ensinar verdades absolutas, nem destituir verdades familiares. À escola compete mostrar outras realidades. Mostrar a diversidade, viver a diversidade. Não existe para chamar a si toda a razão, existe como veículo de outras visões que são reais na nossa vida. A escola não quer, não tem de doutrinar, mas tem de educar para a diversidade.

 

Quando a escola mostra outras realidades respeitando a diversidade dos seus alunos está a fazer o seu trabalho. E bem. Quando alguém não tolera e age barbaramente está a exigir que a sua casa seja a única verdade. Quando a escola ceder, estamos perdidos."

 

https://www.publico.pt/2020/11/18/impar/opiniao/escola-nao-esquerda-direita-1939423

 

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publicado às 23:48

Isto não é sobre esquerda nem direita.

por Maria Joana Almeida, em 11.11.20

 

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Este texto não tem cor partidária. Não é de esquerda, nem de direita. É sobre o que para mim é óbvio.

 

O João Quadros escreveu recentemente, no seu Twitter, algo como: "Sâo 19h30 no Continente, menos 47 anos nos Açores".  Penso que no meio do que se escreveu sobre este momento, no mínimo, insólito, esta terá sido a frase (humorística) mais exemplificativa do momento. Os argumentos de defesa têm-se nivelado pelo termo comparativo `coligação PS, BE e PCP. Talvez o mais imediato e visível no espetro de justificações.

 

Há uma imagem no universo da educação que é muito ilustrativa destas diferenças. No cerne da, já exasperante, palavra inclusão, ainda há dois lados da barricada. Aqueles que olham para a deficiência e para as necessidades educativas especiais como problemas que devem ser retirados da escola e colocados em instituições específicas para serem “tratados” . E aqueles que defendem que as instituições deviam ser extintas e todos os alunos, independetemente do seus comprometimentos, em prol do máximo interesse do aluno, devem estar na escola. Pessoalmente, não me situo, de forma absolutamente gráfica, em nenhum destes lados e, claramente, muito menos no lado de erradicar crianças e jovens com necessidades educativas especiais das escolas. Como também reconheço a importância de existirem instituições para casos excecionais.

A título pessoal, moldado naturalmente pela minha experiência própria, continuo a considerar que há mais canais de comunicação possíveis com quem aceite a diferença do que quem a quer esconder e repudiar.

É disto que falamos.

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publicado às 21:44

5 perguntas, 5 respostas com David Santos (Noiserv)

por Maria Joana Almeida, em 06.11.20

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Ouve Radiohead todos os dias. Dire Straits e Pink Floyd em momentos de maior ansiedade para aligeirar os tempos pandémicos. É muito comunicativo nos concertos e ainda bem. É pragmático, mas emotivo, tem em conta a volatilidade do seu meio. Responde a todos os mails e mensagens que recebe. Faz questão. Três cidades na Turquia fazem parte das lista das cidades que mais ouve Noiserv, facto curioso para o qual não tem explicação . Há sempre um certo nervosismo e insegurança (normal) que o ajuda a equilibrar a sua carreira. Sente mais responsabilidade do que qualquer vaidade. Não projeta sonhos nem o futuro mas vai atrás da vida a acontecer. Tem uma sonoridade melancólica, bonita, cativante, profissional e já amplamente conhecida.

É o David Santos. Tem 38 anos, estudou no Técnico em no Curso de Eletrotécnica e computadores mas este entusiasmo pela música e por compor paralelo foi ganhando mais terreno e importância e é hoje Noiserv.

 

Obrigada David

 

1 – Não te vou perguntar porquê Noiserv, já o deves ter explicado várias vezes noutros espaços (eu depois procuro). Mas interessa-me que fales deste projeto. A música, foi-se desdobrando e acontecendo em paralelo na tua vida de estudante na faculdade. Neste caminho paralelo houve um momento onde decides seguir só a música. Quando foi o click?

 

Existiram vários momentos na verdade. A vida vai acontecendo, e dia-a-dia vamos tomando pequenas decisões que anos mais tarde parecem enormes. Talvez essas pequenas decisões tenham tomado um peso mais sério quando algures em 2007 pedi à minha “chefe” na Siemens, onde trabalhava, para ficar apenas em part-time porque precisava de tempo para gravar um disco, queria ter um disco nas lojas, pelo menos tentar. Na altura, ela disse-me que isso era contra as regras da empresa e que não seria possível, optei por me despedir. Voltei à faculdade, fiz o mestrado, segui na faculdade com uma bolsa de investigação. Algures em 2012, não renovei a bolsa e fiquei apenas com a música.

 

 

2 – Tu sentes-te artista? Ou sentes-te artista numa definição muito própria tua? Como é que te defines?

 

Não te sei responder em concreto. Acho que sou uma pessoa que gosta de fazer coisas, e de lutar por elas. Gosto de estar sempre a pensar e inventar qualquer coisa. Gosto de me entusiasmar e concretizar. Gosto muito de música e de me emocionar com ela.

 

 

3 – Disseste-me uma coisa muito interessante durante o tempo que conversamos, qualquer coisa como “uma pessoa que tira tempo da sua vida para me escrever merece que eu responda” Quando ouvi lembrei-me de pensar que tu tens os pés bem assentes na terra. É uma afirmação importante e revela muito sobre ti. A música mudou-te ou, pelo contrário, o que tu levaste para este projeto é o que faz dele o que é?

 

A única coisa, e que grande coisa, que a música me mudou foi um sentimento de concretização, até de algum orgulho maior em mim próprio e naquilo que as pessoas dizem gostar que faço. De resto, sou igual, nunca deixaremos de ser humanos, não voamos, não somos maiores que ninguém, podemos, ou não, ter a sorte de nos darmos mais às pessoas, mas só depende de nós.

 

 

4 – Não te pergunto sobre o futuro, sonhos e ambições, pois tal como eu, afirmaste não o conseguir fazer. Como está o teu presente? Estás onde queres estar?

 

Musicalmente falando, cada disco novo é um enorme “teste” para quem o fez, por todo o feedback que tenho tido, acho que este disco passou o teste e isso deixa-me inevitavelmente muito feliz. O futuro será sempre o mesmo, continuar a fazer o que mais gosto enquanto faça sentido para mim e para quem me ouve. E mais importante que tudo, nunca deixar de tomar as pequenas decisões que daqui os anos parecerão gigantes.

 

 

5 – Esta última pergunta é inevitavelmente ligada à Educação. Confesso que andei aqui um pouco às voltas para fazer um cruzamento entre a música, como arte educativa e o estado da Educação, mas não o vou fazer. Pergunto-te diretamente: da tua experiência e do que observas, o que achas da Educação em Portugal? Qual a tua sensibilidade sobre o assunto?

 

Teria de estar mais por dentro do assunto para te dar uma opinião objectiva. Apenas te consigo dizer, que ainda hoje me lembro dos “melhores” professores que tive enquanto adolescente, e acho que foram cruciais para tudo aquilo que sou hoje. Sou contra os modelos fechados de educação, o que torna cada professor especial é a sua forma única de chegar a cada aluno. Sobre a cultura na educação, acho que peca por pouco, não é suficiente uma peça de teatro por ano, a cultura são emoções e é isso que todos precisamos de valorizar para sermos mais dedicados a nós e a todos os que nos rodeiam.

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publicado às 22:16


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