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Sobre Musicoterapia com João Laureano

por Maria Joana Almeida, em 18.06.16

 

JOão Laureano.png

 

 

Já há algum tempo que queria convidar o João não só para dar a conhecer a sua visão enquanto Musicoterapeuta, mas também pelo seu percurso rico em vivências tanto a nível da intervenção clínica como escolar com jovens e adultos.

Conheci o João nos meus primeiros anos de profissão no Colégio Eduardo Claparède, a sua visão e forma de lidar com os alunos foi  fundamental para construir um conceito e o modelo pedagógico com o qual me identifico. A relação estabelecida com os alunos e o entusiamo pelo seu trabalho facilitam a empatia e a vontade de querer fazer mais e melhor.

 

 

5 perguntas e 5 respostas com João Laureano.

 

 

1 – Poderia procurar na Internet uma definição de Musicoterapia, mas gostaria de te perguntar, com base no teu percurso e vivências, o que é para ti a Musicoterapia?

 

Não é fácil encontrar uma definição própria sem considerar as definições de uma disciplina, com rigor científico, e tão difundida por todo o mundo.

A Federação Mundial de Musicoterapia tem uma definição universal, também em autores como Bruscia ou Wigram poderemos encontrar, para além das definições, intervenções e investigações.

Em termos gerais, a Musicoterapia é uma disciplina que utiliza a música e os seus elementos (ritmo, harmonia e melodia), exercida por um musicoterapeuta acreditado no sentido de ajudar pessoas.

Não querendo fugir à tua pergunta, a musicoterapia é o que me ajuda a facilitar as relações e os processos. Os elementos necessários, na minha perspetiva, são: o som, a música, a relação, o terapeuta e a musicoterapia. Terão que estar todos presentes para poder esboçar uma definição própria mas, não saberia em que ordem os apresentar.

 

 

2 – Quais as principais motivações que te levaram a aprofundar esta área e tornares-te Musicoterapeuta?

 

Penso que foi a emergência da necessidade!

 Comecei a trabalhar com crianças e jovens, era pouco mais velho que eles e já nesse tempome fazia acompanhar pela Viola Irmã, nas colónias e centros de férias; a malta divertia-se bastante!

Bem mais tarde, quando vim para Lisboa tirar psicologia, quase simultaneamente, comecei a trabalhar no Ensino Especial (onde fomos colegas no Claparède Joana!),e fui reparando que aconteciam “coisas”, quando estava a tocar e a cantar com a miudagem, que não aconteciam na relação sem a música.

As crianças do Espetro do Autismo foram também muito importantes na fase inicial da aventura de querer ser musicoterapeuta e de procurar respostas e perguntas para os fenómenos relacionais e da comunicação que a música e o som, (com)partilhados, proporcionavam. Crianças, algumas delas, bastante isoladasmas que davam respostas com o som e a música enquanto mediadores da relação.

Sempre me fez sentido a musicoterapia na sua vertente clínica da saúde mental e do desenvolvimento das crianças e dos jovens, quer pela formação de base em psicologia clínica quer pela experiência no terreno com esta população.

Tive ainda a sorte de encontrar pessoas que me deram motivação para avançar com a Musicoterapia em Portugal, pois que nessa altura por volta de 1998 ainda estávamos a dar os primeiros passos em termos de intervenção. Por um lado as crianças e os jovens no feedback que iam transmitindo, por outro lado alguns amigos ligados à saúde mental e à educação foram deixando a semente por germinar.

A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) foi, e é, a entidade de referência, quer na divulgação da MT, quer na congregação dos profissionais desta área desde há 20 anos a esta parte. Em contraponto temos os Estados Unidos e Europa alta onde a Musicoterapia deu os primeiros passos na sequência da segunda guerra mundial…

Neste momento já existem alguns colegas certificados segundo as normas da Confederação Europeia de Musicoterapia, dos quais faço parte, mas que para aqui chegarmos tivemos que intervir com supervisão, efetuar o processo pessoal e apresentar o nosso trabalho nesta área.

Sei que sabes que por cá, nestas coisas das terapias, ainda vai acontecendo que um músico mais um doente, ou um psicólogo mais a música dão na sua soma musicoterapia. Está errado! O Bruscia, entre outros autores de referência salientam a questão da formação do musicoterapeuta. Caminho longo mas necessário e sempre inacabado. Temos ainda a outra versão, a do professor de musicoterapia para quem intervém nesta área. Os professores de Musicoterapia dão aulas de Musicoterapia a candidatos a musicoterapeutas. Quem intervém é apenas musicoterapeuta. Isto porque me estou a lembrar de um pedido para “professores de musicoterapia”, que saiu em Diário da Republica, para fazerem atividades extra curriculares numa escola que não me lembro o nome. De alguma forma ficamos a perceber que ainda há muito caminho a percorrer para a divulgação da Musicoterapia em Portugal.

Importantes e motivadores foram também alguns obstáculos, que fazem parte das correntes de oposição, mais conservadoras, mas ainda bem que existem.

 

 

 

3 – Dentro da terapia pela Arte podemos encontrar várias formas de comunicação, o teatro, a expressão plástica, entre várias. Qual o papel fundamental da música no processo de terapia?

 

Na musicoterapia a música tem o papel fundamental de ser o mediador, o intermediário da relação terapêutica entre o musicoterapeuta e a pessoa ou pessoas. Seja a música escutada ou agida,quando se trata de musicoterapia, implica sempre um pressuposto terapêutico, com sistematização e objetivos concretos,dirigidos às necessidades de um utente ou utentes e, um musicoterapeuta.

Também enquanto fenómeno holístico, a música mobiliza o corpo, o pensamento e as emoções, o que facilita os movimentos internos das pessoas e que o terapeuta ajuda a reorganizar.

Por vezes a palavra não é suficiente para nos expressarmos,e neste contexto, a música faz “milagres”!

Por isso existem outras disciplinas reconhecidas tais como a dançoterapia, a arte terapia o psicodrama, entre outras, que também utilizam a música ainda que com metodologias e técnicas diferentes da musicoterapia.

Se pensássemos que o teatro, a dança ou a música são terapêuticos, no sentido clínico, todos os artistas seriam saudáveis!

 

 

4 – Ao longo dos teus anos de experiência como tens sentido que a Musicoterapia tem ajudado crianças e jovens no seu percurso pessoal e social?

 

A musicoterapia deve ser tida como uma disciplina complementar que funcione multidisciplinarmente ou seja, não só diretamente com as crianças ou jovens, mas também em inter-relação com as outras disciplinas e com a ecologia dessa população. Isto para que se possam alcançar objetivos de ordem social ou pessoal, em termos de um futuro a longo prazo.

Definitivamente a musicoterapia tem sido um instrumento de trabalho fundamental na intervenção clínica: saúde mental, reeducação e desenvolvimento.

Tive a oportunidade de participar em algumas investigações, nas áreas do desenvolvimento e das problemáticas do comportamento em que os resultados foram bastante evidentes.Neste momento estamos a investigar uma intervenção que está a ser desenvolvida, na área da saúde mental infanto-juvenil no internamento pedopsiquiátrico do Hospital Dª Estefânea, com população adolescente com psicopatologia aguda.Os indicadores têm sido bastante favoráveis.

Na Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, entre outros, a MT está instalada cientificamente e institucionalmente, existindo bastante trabalho e investigação que com estas novas tecnologias, em que podemos estar todos em todo o lado e ao mesmo tempo, a informação é mais célere.

 

 

5 – Quais consideras ser os principais desafios atuais na educação e de que forma pode a Musicoterapia ajudar?

 

O principal desafio na educação talvez seja o de desafiar a própria Educação, (penso que te referes à Escola). Ter a capacidade de se renovar e de se adaptar às novas realidades da sua população, pondo-se também em causa e questionando-se para que se desenvolva saudavelmente e acompanhe o outro, neste caso o Aluno.

A Musicoterapia tem diversas abordagens: contexto hospitalar (diferente de música nos hospitais), na reeducação, comunitária, nos idosos e nas demências, na saúde mental, no desenvolvimento, etc… Se houver necessidade de intervenções terapêuticas nas escolas a musicoterapia é uma excelente disciplina pois na sua essência está a abertura de novos canais de comunicação.

João do Santos referia que é na Escola que a psicopatologia se desenrola, não poderia estar mais de acordo. Ele referia-se aos alunos mas tomaria a liberdade de estender isto a todos os agentes educativos que parecem não ser um problema no funcionamento desta instituição. Ou seja, o que está mal é culpa do outro porque nós somos intocáveis e imutáveis.

Se a Educação não sentir necessidades de índole terapêutica não me faz sentido a musicoterapia na Escola.

Há já alguns anos que acompanho, em musicoterapia, crianças de unidades de ensino estruturado dentro da Escola, ao abrigo de projetos pontuais. Os pais, os professores e os educadores têm vindo a valorizar muito este tipo de intervenção.

 

Talvez se em vez da Educação Musical na Escola, se cultivasse mais a Expressão Musical propriamente dita, não existiria a necessidade da musicoterapia estar também na escola!

 

 

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