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Por que vou a um Congresso?

por Maria Joana Almeida, em 08.01.17

 

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Entre festejos de natal e passagem para um novo ano, o blog esteve também de férias retomando hoje para relembrar um evento realizado no final de 2016.

 

Em dezembro realizou-se o Congresso Internacional – Escola Inclusiva, Educar e Formar para a vida independente na Casa das Histórias Paula Rego em Cascais. Vários rostos da Escola Inclusiva estiveram presentes; David Rodrigues, Gordon Porter; Teresa Leite bem como representantes do grupo de trabalho para a Escola Inclusiva: Luísa Ucha e Jerónimo Sousa, assim como o Secretário de Estado da Educação João Costa.

 

Não é meu intuito fazer um levantamento exaustivo sobre as diferentes reflexões feitas, mas quero deixar imagens importantes que foram transmitidas pelos diferentes convidados deste Congresso.

 

Gordon Porter, Diretor da Inclusive Education Canada, abordou este tema relembrando que o desafio da Escola é hoje maior devido à diversidade e que um dos obstáculos à Inclusão é a falta de uma liderança competente (pais, professores, diretores, lideres políticos). Relembrou também que a Escola não se tem comprometido com todos, mas sim só com alguns. Neste paradigma David Rodrigues acrescentou que a Escola regular é aquela que ensina a todos. Teresa Leite veio chamar a atenção para a necessidade de formar professores para todos ao invés de ter apenas uma cadeira na faculdade que aborda como uma categoria as Necessidades Educativas Especiais. Este é um aspeto fundamental que reflete princípios subjacentes a uma política e modelo educativo que defende uma maior individualidade de cada aluno apresentado por Luisa Ucha.

 

João Costa encerrou o Congresso e é sobre a sua intervenção e sobre o papel que desempenha atualmente que quero centrar este texto. Não só porque como Secretário de Estado da Educação tem um lugar de destaque nas políticas educativas, mas também por me identificar com as suas ideias e princípios pelos quais rege o seu pensamento em relação à Educação. Começo com duas imagens mencionadas no seu discurso que refletem, no meu entender, a base fundamental de uma Escola para todos, como só assim deverá ser. Em muitos momentos a escola tem verbalizado não estar preparada para receber determinados alunos tendo em conta o seu perfil de funcionalidade. O que pergunto é: os pais estiveram preparados para ter um filho com deficiência? Não, mas tiveram de se adaptar. Um pai não pode dizer: Agora não, agora espere que ainda não estou preparado. A escola não se pode prestar a este papel. Não podemos, sistematicamente, dizer que só estamos preparados para receber os que não precisam de nós e que aqueles que mais precisam do sistema educativo ficam fora até termos todas as condições. Não é justo” e “A inclusão é um processo evolutivo. Há muitos anos atrás ninguém diria que os negros seriam livres, que as mulheres poderiam votar e que pessoas do mesmo sexo poderiam casar. O processo evolutivo leva-nos a crer que todos têm um lugar.”

 

As fortes afirmações de João Costa não deixam lugar para dúvidas de que o processo educativo não pode ser escravo de um currículo, nem a Escola um lugar que mede apenas quantitativamente os seus alunos, abraçando uns e renegando outros. As suas intervenções têm demonstrado uma sábia capacidade de análise sobre os verdadeiros problemas da escola conferindo uma lufada de ar fresco ao mundo da Educação.    

 

Tem reforçado a visão que assume a Escola não como um espaço só para alguns onde o verdadeiro desafio, não são os bons alunos, mas a forma como a Escola responde aos alunos com dificuldades.”O que é verdadeiramente exigente e difícil é conseguir levar a aprendizagem àqueles que não têm condições para aprender e aos que não querem aprender.” Os professores que trabalham em contextos socioeconomicamente desfavorecidos, em alguns casos excelentes professores, sabem a exigência que está associada a essa tarefa. E isto não pode ser encarado como facilitismo.” Em relação aos rankings (novamente conhecidos há pouco tempo) a sua posição tem sido clara quando diz: “Conhecer a qualidade de uma escola implica um olhar muito mais abrangente, pelo que são precisos mais indicadores e é necessário um olhar sistémico. Mas há muito mais no trabalho das escolas que não tem sido valorizado e que os rankings não mostram. Trabalho que é essencial para o cumprimento da missão da educação.”

 

Podemos, muito facilmente, acenar afirmativamente a todas estas imagens porque são invariavelmente verdadeiras. Podemos, por outro lado, criticar muitas delas por considerar que a prática está muitas vezes a anos de luz do que escrevemos e verbalizamos. Na verdade estamos ainda refém de ideias e modus operandi cristalizados. Não basta ouvir coisas bonitas e moralmente corretas e por isso há Congressos que, pela qualidade não só técnica dos oradores, mas pela postura mais humanista nos ajudam a criar o mindset que nos permitirá num futuro, que desejo próximo, desenvolver uma memória muscular mais livre de preconceitos e mais comprometida com o seu trabalho.  

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publicado às 22:36


3 comentários

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De Pedro Miguel a 13.01.2017 às 20:11

Boa tarde, primeiramente gostaria de a felicitar por este seu espaço e fazendo votos que continue durante muitos bons anos.

Relativamente as notas aqui lançadas sobre o congresso, no qual também estive presente, acrescentaria ainda as seguintes.

O professor Gordon Porter ainda tocou num assunto bastante polémico , nem sempre na área da educação especial (como noutras) tudo se resolve com mais recursos humanos (professores) mais dinheiro, nem sempre essa é a solução, mas é a mais fácil.

A professora Teresa Leite referiu que a desculpa usada "não tenho preparação especifica em educação especial " para a não leccionação de alunos com nee´s é uma falácia, pois todos os cursos de educação abordam (ou deveriam abordar) a diferenciação pedagógica, e que a mesma procura responder as necessidades individuais de cada aluno (com e sem deficiências).

Quanto ao grupo de trabalho, Luisa Ucha e Jerónimo Sousa, o que dizer da nova roupagem para os curriculos especificos individuais que se passará a designar-se por adequações curriculares significativas (pelo menos de acordo com a minha interpretação), e do estudo sobre os CRI´s que revela elevados graus de satisfação pelos intervenientes (escolas, cri´s, encarregados de educação,e tc) ao mesmo que apontam para baixos resultados em termos de eficácia, eficiência na prosecução do atual modelo CRI.

Por outras palavras, os participantes no estudo consideram que o atual modelo dos cri´s não responde às necessidades dos alunos, mas no entanto, estão satisfeitos com o mesmo???

Um bem haja
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De Anónimo a 16.01.2017 às 16:57

Olá Pedro,

Muito obrigada pelas suas palavras e pela partilha destes pontos importantíssimos. Gordon Porter foi, também, sem dúvida, uma lufada de ar fresco que ajudou a tornar este encontro ainda mais interessante e com menos lugares comuns.

:)
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De Anónimo a 16.01.2017 às 20:04

A mais valia dos oradores internacionais é essa mesmo, o afastamento dos lugares comuns, onde os nossos conferencistas nacionais tendem a cair (nem todos mas grande parte), recitando lugares comuns e algumas vacuidades.

Esperando que os lugares comuns estejam afastados nestes proximos colóquios organizados pela Pró Inclusão, as expetativas estão altas, vamos ver.

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