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Perturbação do Espetro do Autismo (PEA)

por Maria Joana Almeida, em 11.01.16

 

 

talk_about_autism.jpg

 

Já há algum tempo que quero escrever sobre este tema pelas experiências gratificantes que tive ao trabalhar nesta área. Não é minha pretensão fazer um levantamento exaustivo sobre a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) uma vez que atualmente o acesso à informação é fácil e rapidamente podemos encontrar definições, causas e formas de lidar. Difícil é fazer uma triagem adequada.

 

O autismo não é um diagnóstico fechado. Uma condição sem reversão onde nada há fazer. Não. Há evoluções muito importantes e significativas. Dentro do perfil de funcionalidade da criança é possível criar um futuro. Mas é muito importante também honestidade. Honestidade para equilibrar expectativas e ter a consciência do que pode ser feito e como deve ser feito.

 

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, as Perturbações do Autismo (PEA) “são um sindroma neuro-comportamental com origem em perturbações do sistema nervoso central que afeta o normal desenvolvimento da criança. Os sintomas ocorrem nos primeiros três anos de vida e incluem três grandes domínios de perturbação, social, comportamental e comunicacional.”

 

Pensa-se haver uma causa genética. O que causa realmente autismo ainda permanece uma incógnita. Como não existe um marcador biológico, é possível traçar um diagnóstico através de comportamentos observáveis. A DSM 5 - O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, usado para enquadrar manifestação de comportamentos por profissionais da saúde mental, aponta, atualmente, na mais recente versão, dois grupos de critérios:

  1. “Déficites persistentes na comunicação e interação social, em contexto múltiplos. Estão incluídos nestes critérios: a comunicação verbal e não verbal, a partilha de emoções. Este deficits podem manifestar-se com maior ou menor intensidade.
  2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.”


Considera-se um espetro porque depende do perfil de funcionalidade da criança/jovem que vai desde um perfil fortemente comprometido até à síndrome de Asperger que atualmente (2015) é denominado, também de PEA.

 

O trabalho desenvolvido com crianças com PEA pode ser feito através de diferentes abordagens. Algumas privadas outras financiadas pelo Estado existindo escolas de referência para tal.

 

ABA - Applied behavior analysis baseia-se numa abordagem comportamental que privilegia a recompensa de comportamentos positivos em deferimento de comportamentos negativos. É uma intervenção precoce e intensiva com o intuitivo de moldar os comportamentos estereotipados nas crianças em comportamentos mais adequados.

 

TEACHH – Recorre à utilização de uma sala estruturada, com espaços delimitados para cada aluno e da utilização de um sistema pictográfico que lhes permite facilitar a comunicação e autonomia. A organização é a palavra-chave privilegiando a antecipação de acontecimentos.

 

Son-Rise – Esta abordagem privilegia a relação, a brincadeira e foca intensamente a socialização num processo dinâmico em detrimento da excessiva repetição de tarefas por via a não formatar atividades e comportamentos.

 

DIR – Floortime – Este modelo tem como objectivo a formação dos alicerces para as competências sociais, emocionais e intelectuais das crianças, em vez de se focar nas competências e nos comportamentos isolados. Utiliza o “trabalho de chão” que permite ao terapeuta guiar a criança para comportamentos adequados e significativos através dos interesses emocionais da criança.

 

Quando questionada sobre qual a melhor abordagem digo que não existe. Existem modelos com os quais à partida concordo mais e outros com os quais concordo menos. A verdade é que gosto de encarar estas abordagens como possibilidades e ferramentas de trabalho disponíveis para serem usadas. Cada abordagem depende da criança e das suas dinâmicas.

 

À parte de definições, causas, rótulos e denominadores comuns, crianças e jovens com PEA não são todos iguais. Têm a sua personalidade e os seus interesses pessoais independentemente das suas limitações. Encontrar o canal para a interacção, para a relação e comunicação é o desafio.

 

Uma das minhas experiências foi através da abordagem com o modelo TEACHH - sala de ensino estruturado para 2ºciclo numa escola de referência para as PEA. O facto de existirem espaços individuais e uma estrutura que potencia a organização e antecipação de acontecimentos (que na maior parte dos casos são desencadeantes de situações de ansiedade por parte das crianças com PEA) são aspetos que considero muito positivos. Em muitas destas crianças é preciso um ambiente organizado e contentor para poder estabilizar e ajudar no seu processo de auto-regulação. Saber como se vai processar o seu dia e potenciar a comunicação criando momentos em que a criança obrigatoriamente necessite de comunicar e guiá-la nesse processo. É importante que as suas atividades sejam pertinentes, curtas e com suportes visuais através de temas e objetos do seu interesse de modo a manter o seu nível de empenho e motivação. Recordo-me de uma aluna que adorava os bonecos da Disney e mexer no computador. Uma das formas de potenciar a sua comunicação e aumentar o seu vocabulário era através da visualização de filmes no computador. Através do seu sistema de comunicação integrado no IPAD a aluna ia respondendo a perguntas sobre o que via.

 

A comunicação é um dos aspetos fundamentais a trabalhar. Não facilitar a “comunicação imediata” é também fundamental. Mesmo que o professor/terapeuta que trabalha com a criança com PEA perceba o que a criança quer (pelo movimento da cabeça, por ter apontado) deve tentar que comunique através do seu sistema de comunicação, quer seja pelo IPAD/PC (com palavras ou sistema pictográfico) quer seja por um caderno de comunicação organizando e adequando assim a linguagem oral. Desta forma estamos a potenciar o seu uso podendo assim expandir o seu vocabulário e autonomia.

 

Um dos aspetos menos positivos apontado a este modelo prende-se com o facto de ser muito “standartizado” deixando pouco espaço para a surpresa, para o inesperado. No meu ponto de vista, os modelos não têm de ser herméticos. Existe sempre a possibilidade de adaptar. O enfoque não é o modelo, mas sim a criança

 

É importante também ter a consciência que os sucessos demoram e por vezes não são os que esperamos. Existem professores formatados para o currículo e resultados rápidos que manifestam dificuldade em esperar exigindo tarefas mais complexas com o argumento de “avançar”. O currículo deve ser uma base de trabalho, mas não um ultimato.

 

 

As estratégias aqui apontadas estão escritas em vários livros sobre o tema. Podemos lê-las e tentar desenvolve-las em contexto de sala, mas é preciso que percebamos que é a atitude e relação estabelecida que pode fazer a diferença. Este “pensamento terapêutico” não vem em livros técnicos e por isso este é um trabalho para quem está disposto a deitar alguma teoria para trás das costas. Consciente da necessidade de por vezes improvisar, refundar paradigmas instituídos e entregar-se.

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publicado às 16:37


3 comentários

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De Margarida Raposo a 08.04.2016 às 21:17

Parabéns!
Finalmente alguém que escreve bem sobre educação! Bem do ponto de vista das regras da língua portuguesa, com fluência e criatividade na escrita, com rigor e informação científica, com capacidade de análise e reflexão.
Por favor, continue!
Precisamos, todos, de profissionais assim.
Bem-haja
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De Anónimo a 07.07.2016 às 12:43

Sigo o seu blog discretamente e soube que há agora um livro sobre autismo que é uma ideia que me parece ser uma abordagem diferente. É uma tradução do livro americano e está aqui: http://www.papa-letras.pt/livro.php?id=240
Já o encomendei e estou com uma grande expectativa.
Cpts. D. Gomes
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De Maria Joana Almeida a 18.07.2016 às 22:48

O Son-Rise é de facto uma abordagem muito interessante. Tive a oportunidade de ouvir o seu "fundador" numa conferência na Gulbenkian e fiquei muito curiosa. Vou espreitar o livro também.

Obrigada pela partilha.

Cumprimentos

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