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Pára-me de repente o pensamento

por Maria Joana Almeida, em 12.10.15

 

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“- Foi a Rosa que me curou.

- Pelo amor?

- Sim, pelo amor”

 

 

 

 

O texto de hoje estava destinado às medidas educativas que, no seguimento do texto anterior, considero serem fundamentais nas escolas. Mas sábado, logo pela manhã, lia um artigo alertando para a falta de investimento em saúde mental. Recordei então que estávamos no dia 10 de outubro, no dia Internacional da Saúde Mental.

 

Ao tomar consciência do dia pensei imediatamente no filme “Pára-me de repente o pensamento” a que assisti em Maio deste ano. Foi um filme que me marcou, não só pela qualidade que lhe atribuo, mas pelas reações a que assisti na sala de cinema: a estranheza a transformar-se em sorrisos. Quando estamos confinados a uma sala, por muito estranho ou incómodo seja aquilo a que estamos a assistir, não podemos fugir facilmente ou fechar os olhos completamente. Num breve paralelismo o mesmo acontece entre seres humanos. Se fugimos e fechamos os olhos nunca permitimos conhecer-nos ou conhecer os outros, mesmo que não encaixem naquilo que consideramos “normal” ou “regular”. Nunca daremos uma oportunidade.

 

“Pára-me de repente o pensamento” é um poema de Ângelo Lima que dá o nome a este filme - documentário. Intitulado de louco, Ângelo Lima passou os seus últimos anos de vida no manicómio (palavra mais usual na altura –séc XIX) onde escreveu a sua poesia. O documentário gira também em torno deste poema, tentando que ele ganhe significado e uma interpretação junto dos utentes do hospital psiquiátrico Conde Ferreira no Porto.

 

 

Deixo aqui o texto que escrevi logo após assistir ao filme:

 

 

Todos nós já passamos na rua e apelidamos alguém de “estranho” ou mesmo de “maluquinho” pelo seu jeito de andar, de falar ou de olhar. Já todos nos afastamos por nos sentirmos incomodados. Já rimos por algo que foi dito ou feito, como forma de atrapalhar o nosso pensamento e afastar o medo. Mas o que ainda não nos tinha sido mostrado, através do cinema em português, é o outro lado da saúde mental. Quem são estas pessoas? O que vivem? Como vivem? O que pensam?

 

No hospital psiquiátrico Conde Ferreira no Porto, o quotidiano dos doentes é retratado através desde documentário premiado de Jorge Pelicano. Ao longo de uma hora e quarenta de filme, o realizador leva-nos até ao mundo interior da esquizofrenia dando-nos a conhecer o âmago destas pessoas, o doce e o amargo. O filme atira-nos estas vidas para o colo, obriga-nos a mergulhar num mundo do qual podemos ter tanto medo porque nunca está completamente distante de cada um de nós.

 

Nos primeiros momentos do filme conhecemos as rotinas, os profissionais, os espaços e os utentes deste hospital. Lentamente os sorrisos vão tomando conta do incómodo inicial. Pelo meio das conversas entre os doentes sentimo-nos de repente conquistados, mais confortáveis olhamos sem medo e sorrimos. Sem esperar, começamos a compreender e de repente a ligação está criada. Na segunda parte do filme entra em cena um ator (Miguel Borges). Durante três semanas o ator submergiu nesta realidade, participando das rotinas e dormindo também na instituição, tendo como objetivo ajudar numa peça de teatro e encontrar o seu personagem.

 

Quando Miguel Borges entra em cena somos, de alguma forma, retirados abruptamente da envolvência criada com aquela população, que o realizador tão bem soube criar. Sentimo-nos de novo confusos e o filme passa a rodar em torno do ator. Ao contrário do que li em outras críticas, não considero um erro. É na envolvência com o Miguel, condescendente ou não, que muito da vida e pensamentos destes doentes se revela. O ator serve ao mesmo tempo de desbloqueador durante o seu processo de busca de personagem.

 

Sou particularmente sensível a este tema. A minha vida profissional passa e está ligada à saúde mental e aos desafios constantes que propõe. Não é um mundo para falsos moralismos, muito menos para certezas e ainda menos para caridade. É um mundo de constante reflexão, de olhar olhos nos olhos e, de por vezes, bater com a mão na mesa, mas intenso demais para nos permitir fechar os olhos ou virar as costas.

E é exatamente isto que este documentário faz. Traz um ponto de equilíbrio, entre o são e o menos são e dá-nos a conhecer o “outro lado”, de uma forma extremamente humana, mas acima de tudo, extremamente digna.

 

 

 

 

 

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publicado às 16:36



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