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Gomas?

por Maria Joana Almeida, em 21.09.15

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Não sou grande apologista de frases feitas mas é inegável que em muitos momentos da nossa vida elas fazem sentido assentando que nem uma luva. Surgem de repente, com o objetivo de nos fazer lembrar que essa afirmação sempre existiu e que finalmente ganhou peso naquele preciso momento.

Ouvir é um ato de amor, é o mote para esta história sobre gomas.

 

Quem já espreitou este espaço com certeza que já se questionou (e já me questionaram) sobre o significado do nome atribuído a este blog. “Pedimos gomas como resgate” é uma frase curiosa e das melhores frases que ouvi nos últimos tempos servindo como uma imagem perfeita daquilo que entendo ser um clima saudável de aprendizagem.

 

Há dois anos fui responsável por uma turma PIEF, um programa criado para dar resposta a alunos adolescentes que se encontram em situação de abandono ou absentismo escolar. O projeto passa por desenvolver uma resposta educativa mais ligada à prática certificando o 6ºano e 9ºano de escolaridade.

 

O Centro de Educação e Formação era composto por quatro turmas, duas de 2ºciclo e duas de 3ºciclo com jovens entre os 15 e 18 anos oriundos de diversos estratos sociais e culturais e com grande variedade de interesses e vulnerabilidades, o que exigia uma maior diferenciação pedagógica e um acompanhamento estreito entre escola, família e ação social.

 

Apesar das diferenças relatadas existiam vários pontos em comum nestes jovens. O rótulo negativo em relação à escola; a dificuldade em estabelecer relações saudáveis; a facilidade em responder de uma forma violenta (verbalmente e fisicamente) e a dificuldade em definir limites, fruto de um percurso de vida que lhes dificultou o desenvolvimento destas competências. Chegar a estes jovens não é fácil. Motivá-los para a aprendizagem e conteúdos programáticos, mesmo ligados à prática, é um desafio.

 

É fácil prever que o início do relacionamento foi muito difícil, cheio de recuos e avanços, num jogo do confia – desconfia. A frustração existia e o regresso a casa nem sempre significava calma ou descanso, mas sim o pensamento permanente numa questão inquietante: “Como é que vai ser amanhã?”.

 

Quem já lidou com esta população sabe que o impacto inicial é duro. O caminho até nos conhecermos e estabelecer uma relação de confiança é de grande cansaço físico e mental. A nossa atitude aliada a colegas de trabalho com o mesmo foco é aquilo que pode fazer a diferença.

 

Mais do que insistir num conteúdo programático é preciso primeiro organizar. Saber ouvir, não desistir, conversar, esmiuçar, voltar a conversar, esmiuçar outra vez, mas principalmente saber ouvir até que os alunos sintam que eu me importo e que quero que eles se importem também. Não sou defensora de que nos devemos desfazer em táticas e floreados nas aulas para que os alunos possam ficar atentos e interessados no tema que estamos a trabalhar, sou apologista de definir limites, de encontrar uma forma real e relevante do tema fazer sentido, de uma boa dose de sentido de humor e principalmente, de transmitir uma mensagem de que contam comigo para trabalhar com eles e tentar alcançar sucessos quer sejam académicos ou pessoais, mas que esse caminho não é unilateral. É feito a dois, professor – aluno, sempre assente numa premissa de respeito e envolvimento mútuo mas nunca de condescendência. E isto, para mim, é trabalhar com afeto.

 

A meio do projeto posso dizer que era um prazer poder conversar com estes jovens, rir-me conjuntamente e desenvolver conversas com sentido. É óbvio que não conseguimos chegar a todos e penso que é importante ter essa consciência. Não podemos no entanto não tentar.

 

Durante o ano letivo fiquei conhecida como a professora simpática que gostava de lhes “roubar” uma goma cada vez que as traziam para o Centro. “Fogo, a professora é uma gulosa!”. “Eu bem que mereço!” Respondia eu, sorriam eles.

 

Numa das tardes boicotei um pequeno jogo de futebol tirando a bola que incomodava as pessoas que passavam na rua e a própria estrutura do edifício que não iria durar muito tempo. A bola foi levada, naturalmente sob protestos, e escondida no meu gabinete. Refilavam querendo-a de volta, mas não ousaram insistir mais porque sabiam que eu tinha razão. No dia anterior a um passeio que iriamos fazer perto de Monsanto, em conversa, um dos jovens disse: “Já sei! Por causa da bola, quando formos ao passeio, raptamos a professora Joana e pedimos gomas como resgate”  (sorrisos)

 

“Pedimos gomas como resgate”, parafraseando uma amiga minha, “tem muito que se lhe diga.” Tem efetivamente. As gomas são o símbolo do afeto. Foi a forma de dizer:

- Eu envolvo-me quando eu sinto que tu te importas comigo.

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publicado às 12:05



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