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Dis(z)lexia? E digo outras coisas.

por Maria Joana Almeida, em 01.11.15

1ª PARTE.jpg

 

No passado dia 30 de outubro tive a oportunidade de falar sobre dislexia e outras perturbações associadas à aprendizagem da leitura e da escrita no Instituto de Terapias Expressivas.

 

 

 

 

 

As várias especificidades envolvidas em torno deste tema não me permitem expô-las num único texto. Decidi por isso dividir o tema em duas partes. A 1ª parte que apresento hoje, intitulada – “Causas e perturbações na aprendizagem da leitura e escrita” e a 2ª parte – “Leitura e escrita: Desafios ao sistema educativo atual” que será revelado no próximo texto.

 

 

Causas e perturbações na aprendizagem da leitura e escrita.

 

Ao longo dos meus anos de experiência nas escolas foram e são inúmeros os relatórios que me chegam com diagnósticos de dislexia. A utilização deste conceito é relativamente recente, mas tem inundando o vocabulário dos núcleos de educação e saúde monopolizando quase todas as dificuldades em torno da leitura e escrita. É um diagnóstico muito utilizado e não consensual entre os diversos profissionais.

 

Existem várias perspetivas de abordar este conceito: Através de uma perspetiva neurobiológica, encarando os aspetos neurobiológicos associados a esta perturbação; a perspetiva de assumir a dislexia como todo e qualquer problema de leitura e a perspetiva (com a qual me identifico) que pretende encarar as especificidades das dificuldades relacionadas com a leitura e escrita antes de as encerrar num diagnóstico.

 

Num rápido inquérito feito a várias pessoas podemos facilmente perceber vários mitos associados a esta perturbação específica da leitura (como está intitulada na DSM-V): existência de um défice cognitivo, má articulação de palavras, erros ortográficos, entre outros.

 

Esta disfunção/perturbação está unicamente associada à leitura e surge como uma dificuldade inesperada quando todos os diagnósticos noutras áreas se encontram regulares. No entanto é extremamente comum dificuldades associadas à escrita (disortografia).

 

É importante esclarecer que há fatores de exclusão. Um diagnóstico de dislexia não é compatível com um diagnóstico de défice cognitivo; não podem existir alterações sensoriais (despiste de audição/visão); a criança tem de ter estado exposta a um ambiente educativo suficientemente bom para o seu desenvolvimento e não podem existir alterações na linguagem, apresentando uma linguagem oral sem alterações. Um diagnóstico de dislexia só pode ser considerado como um diagnóstico possível quando já foram avaliados o domínio cognitivo; o domínio sensorial, as áreas da linguagem e foi avaliado o percurso escolar da criança. Se não existirem alterações nestes aspetos e a criança, que independentemente de ter um bom vocabulário e não apresentar alterações na linguagem oral, manifestar troca de fonemas na leitura e uma fluência de leitura muito baixa, associado a erros fonológicos, aí poderemos estar perante um quadro de dislexia.

 

Estes aspetos de exclusão relacionados com diversas áreas revelam a evidência da necessidade de existir uma avaliação cuidada nas diferentes valências; terapeutas da fala; psicólogos e professores. É nesta tríade, através dos conhecimentos de cada especialidade, que se poderá chegar a um diagnóstico mais rigoroso.

 

Num breve enquadramento neurobiológico e não me querendo demorar nesta área por não ser uma área que domino, é interessante conhecer alguns aspetos.  

 

Nos anos 80, Paula Tallal apontou o défice no processamento da informação que algumas crianças apresentavam para explicar, não só a dislexia, mas também dificuldades em todas as áreas que necessitam de um processamento rápido. No seu entender parecia existir uma “falha” num circuito específico do cérebro que acusava perdas da informação retida, embora todos os outros aspetos do cérebro estivessem regulares. Esta teoria foi muito criticada e posta de parte porque estudos posteriores indicaram uma dificuldade fonológica e não de processamento temporal que se refletia numa má prestação na leitura de um disléxico.

Nos anos 90, com a possibilidade de observar o cérebro em ação em atividades diferentes, foi possível verificar uma desconexão entre áreas envolvidas na linguagem (área de broca e área de wernicke) nas crianças/adultos com diagnósticos de dislexia. (É importante salientar que o conceito de dislexia encontra-se em aberto e em estudo.)

 

Mas que outras perturbações estão associadas à dificuldade de leitura e escrita?

O avanço da ciência, especialmente nas áreas relacionadas com a linguagem, tem vindo a boicotar algumas certezas. Os terapeutas da fala são os profissionais por excelência que podem fazer um diagnóstico correto e completo nesta área (linguagem).

Relativamente às perturbações na área da linguagem, existem perturbações que influenciam naturalmente uma boa aquisição da leitura e escrita e que excluem um diagnóstico de dislexia.

 Os atrasos no desenvolvimento da linguagem (ADL) acontecem quando todas as áreas da linguagem se encontram afetadas, quer na compreensão, quer na expressão da linguagem (semântica, morfosintaxe, fonologia e pragmática) mesmo que existam áreas em que se verifiquem mais dificuldades do que noutras. Uma intervenção atempada e consistente pode regularizar este atraso.

Nas perturbações específicas da linguagem (PEL) há apenas uma ou duas áreas da linguagem afetadas, e nestas área ou áreas tem de existir dois desvios padrões abaixo do que seria esperado para a faixa etária, através da aplicação de testes “standartizados” utilizados pelos terapeutas da fala sendo também muito importante uma análise do discurso espontâneo para complementar.

 

A PEL mais comum é a léxico - sintática em que estão afetadas as sub àreas semântica e morfossintática. Neste caso a criança escreve e lê sem erros, mas como tem dificuldade em associar os significados  irá certamente ter dificuldades apenas na interpretação de textos.

No entanto se a perturbação específica da linguagem (PEL) for ao nível da fonologia (sons da palavra) a criança vai comportar-se como um disléxico na leitura e escrita. Nestes casos é difícil distinguir a PEL da dislexia.

À semelhança da dislexia os fatores de exclusão numa PEL são idênticos. Um aspeto de diferenciação entre as duas problemáticas é a inexistência de alterações na linguagem oral de um disléxico, tendo inclusivamente um bom vocabulário. Numa criança com uma PEL é usual, em discurso espontâneo perceber alterações da linguagem.

 

Após esta apresentação, ainda que sucinta, de ideias e clarificação de alguns conceitos, deixo uma questão que servirá como mote para a 2ª parte deste tema:

 

De que forma o conhecimento do percurso escolar (frequência no pré-escolar; dificuldades sentidas no 1ºciclo; métodos utilizados) de um aluno pode ajudar na identificação mais rigorosa de uma problemática relacionada com a leitura e escrita?

 

 

 

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publicado às 22:16



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