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Conta-me uma história.

por Maria Joana Almeida, em 07.03.16

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Crescemos a ouvir histórias, passamos a nossa vida a contar histórias, quer seja através de livros, quer seja enquanto professor ou em qualquer outra profissão. As histórias ensinaram-nos a viver. De uma certa forma facilitaram muitos processos e noutras situações (continuam) dificultaram muitas certezas.

 

Sei reconhecer o valor e a importância das histórias, mas só verdadeiramente compreendi o seu poder depois de uma formação que tive o prazer de participar com Rodolfo Castro, professor, contador de histórias, ator, escritor.

 

Não me quero alongar muito no perfil de Rodolfo uma vez que pretendo realizar uma breve entrevista para melhor dar a conhecer o seu trabalho, nem me quero alongar em todos os conteúdos abordados. Quero sim transmitir as ideias principais acerca da importância das histórias.

 

Um dos primeiros desafios colocados foi tentar recordar-nos da nossa primeira memória e qual a nossa idade. Verificámos que praticamente todos temos a nossa primeira recordação aos 2, 3 anos. Antes disso muito dificilmente. Reflecti sobre a questão e adiantei um pensamento. É nesta idade que adquirimos linguagem e é a linguagem que nos permite ter pensamento e permite construir memória. Desta forma vamos entendendo o mundo.

 

Outro desafio foi responder à seguinte questão “As crianças têm imaginação?” É consensual dizermos que sim. A verdade, tal como apontou Rodolfo, é que as crianças não tem imaginação, elas repetem um comportamento, reproduzem o que vêm. Elas acreditam, não imaginam. Fantasia e realidade são, em tenras idades, a mesma coisa. O papel das histórias, aquilo que as histórias fazem é proporcionar às crianças experiências. Experiências reais que lhes permite a base da imaginação.

 

Em muitos momentos são as histórias que permitem aos adultos conseguir comunicar e perceber a forma como as crianças percepcionam o mundo. À medida que uma criança ouve uma história, ou constrói uma história está, na realidade, a falar sobre si.

 

Como exemplo, o Rodolfo partilhou um acontecimento sobre a sua própria filha. No infantário contaram-lhe pela primeira vez a história do Capuchinho Vermelho. Quando chegou a casa a filha chorava porque a avó do Capuchinho tinha desaparecido. Como pai, Rodolfo não gostou daquela situação, mas a verdade é que passado pouco tempo a filha perdeu a avó e através da vivência da história, já havia contactado com esta realidade e pôde ter uma referência no sentimento. As histórias ajudam a viver realidades que as crianças dificilmente poderão viver permitindo referências para acontecimentos futuros.

 

E o que acontece às histórias quando crescemos? Enquanto crianças gostamos que nos contem histórias, vivemos pelas histórias compreendendo assim o mundo. No entanto existe uma altura na nossa vida onde esse prazer parece desaparecer. A escola, de facto, compactua com esse desaparecimento. Existe um momento onde as histórias ganham uma carga curricular, deixam de ser livres e passam a ser obrigatórias, ora pelo plano nacional de leitura, ora pelo plano curricular, sempre com a premissa de estarmos muito sossegadinhos a ler, ou ouvir, como se uma história fosse estática. É comum a exigência de uma ficha de leitura, de uma análise da história, sublinhar adjetivos, sublinhar tempos verbais. Deixa-se de ler pelo prazer de ler.

 

O valor e a importância da história livre decresce à medida que a leitura obrigatória se impõe e este aspeto é exponencial em relação à motivação. Não quero diminuir a importância destes exercícios sobre a leitura, quero sim alertar para a importância de criar momentos mais livres. O que retiramos de uma leitura livre é por vezes mais importante do que uma leitura “orientada”.

 

A escolha das histórias para crianças e jovens (até adultos) é também importante. O que quero transmitir? Quem vai ouvir? Existem no mercado muito bons livros, não só com belíssimas ilustrações, mas com um conteúdo mais real, sem lugares comuns, que permite maior capacidade de reflexão. Não se extingue nas princesas de cor-de-rosa no castelo à espera do príncipe. Promovem novos horizontes, desbloqueiam morais cristalizadas e é este o seu grande poder.

 

À semelhança das palavras de Rodolfo, a moral não deverá ser um critério importante na escolha de uma história, simplesmente porque a moral não está nos livros mas sim em nós. É importante passar mensagens, é importante dar a conhecer e não condicionar. Se tivermos como público adolescentes, não nos devemos coibir de abordar situações violentas e contraditórias, elas existem. As histórias servem para criar imaginação, poder de reflexão, pensamento. Especialmente quando são livres.

 

Hoje, para mim, ouvir uma história tem-se traduzido no cinema. Vou ao cinema para ouvir uma história, sentar-me e deixar-me envolver. Assim como nos livros escolho aqueles que sei que me vão dizer algo. Aprendi que não interessa o que autor/ realizador quis dizer ou que mensagem pretende passar porque essa mensagem é sempre exclusivamente nossa.

 

Retiramos das histórias o que precisamos. Elas refletem as nossas vivências, a nossa sensibilidade, o nosso modo de encarar o mundo. E desta forma vão ajudando no nosso percurso.

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publicado às 21:27



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