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Alfabetização de adultos.

por Maria Joana Almeida, em 07.12.16

analfabetismo.jpg

 

Ao iniciar este texto não posso deixar de me recordar da reação de Claudius, um amigo alemão de Berlim, quando lhe contei que, a par do meu trabalho como professora de educação especial numa escola regular, tenho colaborado no projeto de Alfabetização para adultos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Ficou surpreendido quando lhe falei em “alfabetização de adultos” verbalizando: “Mas ainda existem adultos analfabetos?” Reação comum de quem é oriundo de um país onde tal percentagem não existe.

 

A taxa de analfabetização no nosso país não chega a 5%, mas Portugal continua ainda no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo.

 

Foi há três anos que iniciei a minha primeira experiência como formadora na área de leitura e escrita para adultos. Só agora, com mais propriedade, me permiti a escrever sobre o tema que se tem revelado um caminho acima de tudo terno.

 

As expetativas que fazemos, embora em muitos casos semelhantes aquelas que idealizamos com um grupo de crianças/jovens, são naturalmente diferentes. Trabalhar com crianças e jovens é assumir que trabalhamos com uma personalidade que está a ser moldada. Existe uma certa plasticidade e flexibilidade, naturais do início de uma vida, que permitem uma aprendizagem a uma determinada velocidade. Nós, os adultos, já carregamos muitas histórias, já colecionámos mais sentimentos, já revivemos muitas situações e sedimentamos o nosso caráter. Os percursos de vida de cada um destes adultos já lhes fez perder, em muitos casos, a flexibilidade e plasticidade que permitem acelerar o processo de aprendizagem. Muitos já tiveram na escola há muitos anos, naqueles anos em que colocar orelhas de burro quando não se aprendia era legítimo (sim, história verídica) e outros não chegaram a frequenta-la. Muitos não sabem manusear um lápis e a simples organização de um dossier não é intuitivo nem fácil. O ritmo é marcado pelas suas histórias.

 

Ensinar a ler e escrever, como dizia um antigo professor meu da faculdade, “Não é só saber o “B; A; BA”. Não é um método fechado, hermético, como um pacote que se vende a um grupo. É fundamental conhecer a história e os passados de cada um e conhecer as competências base que nos permite traçar um plano. Há muita tendência de assumirmos pressupostos que não podem ser assumidos, porque nós não vivemos as suas vidas e só através deste conhecimento é que se torna possível trabalhar com respeito e dignidade.

 

Os sonhos e esperanças da maior parte destes adultos é conseguir ler o nome de uma rua; conseguir escrever e ler uma lista de supermercado; ler o percurso de um autocarro. O analfabetismo é uma prisão. Um sentimento que tem de ser várias vezes desconstruído porque é fácil sentirem que não são capazes, que nunca vão ser capazes.

 

Não é um caminho fácil, naturalmente, leva tempo, paciência, muita persistência e é necessário encarar muitas situações com humor. (Sou assumidamente fã do humor como processo de construção e desconstrução). Mas saber ler e escrever é uma ferramenta de liberdade. E para mim, enquanto parceira neste projeto, sinto-me muito grata por fazer parte deste caminho e de estar rodeada de excelentes profissionais com os quais muito tenho aprendido.

 

 

 

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publicado às 19:38



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