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5 perguntas, 5 respostas sobre a relação "escola-família"

por Maria Joana Almeida, em 14.12.15

 

 

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Conheci a Inês há 6 anos quando trabalhámos juntas na Escola Vasco da Gama. Ambas acompanhámos de perto crianças com Necessidades Educativas Especiais, avaliando as suas potencialidades e áreas de maior dificuldade intervindo de acordo com as suas idiossincrasias. A Inês é psicóloga e uma amiga a quem recorro muitas vezes para partilhar e discutir algumas problemáticas que vou encontrando na escola. Faz hoje parte da equipa da Oficina de Psicologia, um espaço que pretende avaliar e intervir junto de crianças, jovens e família que necessitem de um acompanhamento especializado na área da Psicologia, quando surgem desafios no seu desenvolvimento. Um dos últimos artigos aqui publicados teve como enfoque a importância da relação escola-família. Os seus desafios e as suas particularidades. Decidi pedir à Inês que me ajudasse a refletir melhor em torno desta questão através das cinco perguntas que lhe coloquei e que aqui hoje apresento.

 

 

Obrigada Inês.

 

 

"Qual consideras ser o aspeto fundamental na relação “Escola-Família”?

O aspeto fundamental é poder haver uma articulação que proteja os mais elevados interesses da criança e jovem e que potenciem o seu harmonioso desenvolvimento. Claramente, são dois pilares no desenvolvimento global – nas dimensões cognitiva, emocional, social e motora -  da criança. Se os pilares não se equilibram, toda a estrutura fica enfraquecida, com impacto na criança e em toda a dinâmica criança-escola-família.

 

Quando os pais te procuram quais são as suas maiores ansiedades na dicotomia “filhos-escola”?

Em consulta, na maioria das situações, os pedidos relacionados com a dicotomia “filhos-escola” surgem como: desmotivação escolar e diminuição do rendimento escolar. Os pais não compreendem porque resistem os filhos a ir à escola, porque resistem a envolver-se nas tarefas e responsabilidades escolares, porque não demonstram prazer pela aprendizagem, porque surgem resultados escolares cada vez mais baixos, abaixo das capacidades da criança... Percebo, muitas vezes, a presença das questões da competitividade... Da luta pelo lugar no quadro de excelência, por ser o melhor da turma, da família... Em muitos casos por pressão da família mas, igualmente em muitos outros, por exigências auto-impostas. Descontruindo os pedidos de consulta e a sintomatologia inicial, numa grande percentagem dos casos percebemos na sua origem: dificuldades de aprendizagem específicas que até então foram “passando despercebidas” e quadros ansiosos (ansiedade de desempenho, ansiedade social, ansiedade de desempenho...).

 

Na tua opinião quais as maiores dificuldades (na família e escola) para a existência de um trabalho conjunto?

Invariavelmente, vivemos num mundo “acelerado”. De um modo geral os pais passam muitas horas a trabalhar e as crianças na escola. Nem sempre há flexibilidade das entidades empregadoras dos pais para facilitar uma ida a uma reunião nas escolas dos filhos, por exemplo, e nem sempre há flexibilidade dos professores para dar resposta às solicitações dos pais fora dos seus horários de atendimento. Em todo o caso, tenho assistido a uma maior esforço para ultrapassar as contingencias da disponibilidade. Há uma maior articulação por mails e, inclusivamente, já articulei com professores, pais e técnicos, por videoconferência.

Percebo que a ausência de uma linguagem comum entre pais e professores existe com frequência, assim como uma ausência de concordância quanto a objectivos/prioridades. Parece que cada um rema para seu lado, perdendo-se o foco na criança. A dicotomia de foco em desempenho vs processo de aprendizagem surge por vezes como outra dificuldade de comunicação entre família e escola. Percebo, também, muitas vezes, que os pais sentem alguma dificuldade quanto àquele que pode ser o seu papel na vida escolar dos filhos. Ajudo-o a fazer a mochila? Faço os TPC mais todas as fichas que não acabou na escola? Castigo-o pela bolinha vermelha do comportamento na escola? Devo ir falar com o professor sobre a nossa nova situação familiar? Por fim, e não menos importante, de acordo com o Relatório da Agência Europeia para Segurança e Saúde no Trabalho, publicado em 2014, na Europa 25% dos trabalhadores dizem sofrer de stress no trabalho durante a maior parte ou a totalidade do seu horário de trabalho, e uma percentagem semelhante relata que o trabalho afeta negativamente a sua saúde. Sabe-se que os professores são uma das profissões mais vulneráveis ao desenvolvimento de patologias associadas ao stress profissional – burnout. Nesse sentido, professores sobrecarregados entre burocracias e metas curriculares, acompanhados de desgaste emocional, acabam muitas vezes por não ter a disponibilidade que almejavam para realizar um trabalho conjunto escola-família que seja profícuo.

Ainda assim, e de um modo geral, assisto com agrado à tentativa de articulação entre pais e professores, nomeadamente em situações de crianças que se encontram em acompanhamento psicoterapêutico, independentemente do motivo deste.

 

Sentes que esta relação está a caminhar para maior proximidade, ou por outro lado ambos os protagonistas têm-se vindo a afastar?

Creio que de um modo geral, quando ambas as partes se mostram focadas nos interesses e necessidades da criança ou adolescente, a proximidade acontece de forma natural. E, nesses casos, a articulação funciona e beneficia o bem-estar de todos. As crianças sentem-se apoiadas e mais motivadas, os pais acompanhados e com maior capacidade de compreendar e orientar os filhos e os professores mais entusiasmados e focados nas idiossincrasias dos seus alunos.

 

Na tua perspetiva, como psicóloga e ao longo do trabalho que tens desenvolvido, quais os maiores desafios para a escola atualmente?

Acredito que um dos maiores desafios das escolas actualmente é proporcionar condições para que os diferentes intervenientes se envolvam de forma concertada para um objectivo comum, onde a satisfação global seja mais valorizada do que os resultados. Onde o envolvimento emocional permita dar cor à matriz das aprendizagens. Onde cada criança possa ser integrada de acordo com as suas idiossincradias, permitindo-lhe encarar a escola com curiosidade e vontade de aprender, sem que as metas e os rankings sejam os principais norteadores do quotidiano escolar. Onde cada criança se sinta única e especial. Onde o afecto seja o sustento da aprendizagem."

 

 

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publicado às 09:39


1 comentário

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De SAPO Blogs a 16.12.2015 às 11:49

Bom dia,
peço desculpa pelo comentário não estar relacionado com o post, mas fica o alerta que alguns links importantes do blog (ao nível da navegação e dos comentários) não aparecem, por estarem brancos (algo que pode rever na página Personalização, na área de gestão).

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