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5 perguntas, 5 respostas com Mário Balsa

por Maria Joana Almeida, em 25.10.16

Mário Regaleira.jpg

 

Determinação, perspicácia e uma personalidade forte são algumas das caraterísticas mais evidentes e que melhor ajudam a retratar o Mário, o meu entrevistado desta semana.

Ao longo do seu percurso, pelo mundo da Educação e através da sua participação política, tem passado por várias experiências e desafios que lhe têm permitido construir uma reflexão interessante e muito estruturada sobre o nosso sistema educativo. 

 

Nesta breve entrevista revelamos um pouco do caminho que tem percorrido e do seu entender sobre questões tão pertinentes e sempre atuais como a Indisciplina, perfis de professor e estrutura de Escola.

 

Obrigada Mário:)

 

 

 1- Começaste o teu percurso educativo numa escola privada de ensino regular, mas a determinada altura o teu caminho cruzou-se com uma escola para necessidades educativas especiais. Gostava que falasses um pouco acerca desta mudança.

 

Sim, a primeira escola onde dei aulas, plenamente, enquanto professor, foi o Colégio Almeida Garrett, no Cartaxo. Uma escola para alunos de famílias diferenciadas. Pais com rendimentos financeiros acima da média e níveis de escolarização elevados. Mas aquela que considero a minha primeira experiência como professor, que marcou o início da minha carreira e o contacto direto com uma realidade completamente diferente da nossa e da qual mais tarde voltei a encontrar um pouco – embora numa realidade diametralmente oposta, foi o ano que estive a fazer estágio no Reino Unido, em Belfast, St. Teresas Primary School. A diferença começa logo por ter dado aulas a um 6º ano, num regime de monodocência e que é considerado 1º ciclo.

Depois destas duas aventuras completamente diferentes embarquei na terceira. Aquela que mudaria a minha maneira de olhar para a escola, de olhar para os edifícios, para os alunos, para os pais, para os encarregados de educação, para as metodologias de ensino, para o que significa a relação no contexto escolar. A frase que a diretora me disse no dia em que pela primeira vez entrei no Colégio Eduardo Claparède ainda hoje me acompanha, “Mário é natural os professores nos primeiros dois ou três meses saírem daqui a chorar, depois ou não aguentam e vão embora ou habituam-se”. Eu que sou bastante distraído, até mesmo bastante esquecido, guardo a frase como a prova que só se conhecem as dificuldades quando passamos por elas. Devo dizer que não me lembro de ter saído de lá a chorar. No entanto, se aconteceu, foi perfeitamente justificável e natural. Mas uma coisa é certa, a frustração foi minha companheira de viagem muitas vezes. Enquanto isso, o primeiro mês passou, os seguintes também e rapidamente o ano letivo estava concluído assim como os seguintes… e passaram seis anos de educação especial.

 

 

 2- Já no Colégio de Educação Especial onde lecionaste durante 6 anos quais foram as primeiras reações e o perfil que sentias que era necessário ter?

 

Lidar com os alunos do colégio é completamente diferente de lidar com qualquer outra realidade escolar ou humana. Todas as realidades que não são controláveis, mas que marcam minuto a minuto as dinâmicas da sala de aula tornam o dia-a-dia imprevisível, destruindo o espartilho curricular de orientações, metas, objetivos e outros que tal em 5 segundos. Lançando o professor num mundo de desorganização profissional e mental que facilmente dita a sua desistência, tal como me foi dito pela diretora no meu primeiro dia. Assim sendo considero que serenidade, honestidade emocional e organização são três de quatro características essenciais para trabalhar com estes jovens (no meu caso) ou meninos no caso de outros colegas.

A saúde mental é algo de assustador, especialmente para alguém que não tem formação ou conhecimento desta realidade (era o meu caso quando cheguei ao colégio). Não existe forma de prever o que um aluno num surto bipolar ou numa crise de agressividade desencadeada por um qualquer trigger completamente esterno (como o barulho de uma mota a passar na rua, ou o apito agudo do alarme de incêndio) pode fazer. A actuação do professor fica reduzida a duas premissas salvaguardar a integridade física tanto dos seus alunos como a sua e procurar trazer de volta a normalidade à sala de aula. É aqui que acredito que se encontra a característica mais importante, ou se tem e se faz chegar o barco a bom porto ou se abandona a meio do caminho, determinação. O técnico de uma unidade de retaguarda para o sistema de ensino, como é o Colégio Eduardo Claparède, tem de ter as características humanas que lhe permitam compreender, abraçar e moldar realidades que parece impossíveis e alunos que parecem completamente perdidos. É preciso ser o porto seguro para onde os alunos voltam quando tudo falha e, ao mesmo tempo, a parede intransponível que os impede de irem além dos limites, no fundo é desenvolver uma relação pura e saudável. Como diz Carl Rogers “é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa.”

 

 

 3- Recordo-me de teres turmas muito desafiantes no que diz respeito a problemas essencialmente comportamentais. Quais eram os principais desafios diariamente?

 

O principal problema que identifico não se prende com os alunos ou a sua “indisciplina”. O principal problema sempre foi a gestão emocional que nós professores temos de fazer do nosso eu, das nossas emoções, dos nossos equilíbrios. Não é possível estarmos bem com os alunos se não estivermos bem connosco e não estando bem com os alunos não estamos lá a fazer nada. Aliás, o que é isso da indisciplina? De acordo com o dicionário a indisciplina é: falta de disciplina, desobediência, rebelião. E a disciplina é: o conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades, obediência a um conjunto de regras explícitas ou implícitas, submissão e obediência à autoridade. Com pessoas que sempre funcionaram nos padrões de sociedade considerados normais e que não apresentam comprometimentos significativos, as discrições de indisciplina/ disciplina presentes no dicionário poderão fazer sentido. Já com pessoas que apresentam quadros clínicos ou comprometimentos sociais complexos, tentar enquadrá-los naquilo que é a nossa disciplina (normalidade) poderá ser um erro crasso que nos levará invariavelmente ao falhanço. O padrão/ disciplina é um aluno é estar sentado na sua cadeira, concentrado e a trabalhar, mas aqui, no colégio, também pode ser estar deitado debaixo da mesa a cortar uma folha de papel e pedaços mais pequenos que um triturador de papel.

 

 

 4- A indisciplina é uma palavra que se tornou muito habitual e corriqueira no nosso sistema de ensino. Como é que vês os nossos alunos e a nossa escola neste panorama atual?

 

Penso que vivemos tempos de mudança profunda na educação. Uma mudança que não se faz por decreto ou lei. Embora também aí haja um grande caminho a percorrer e muito para trabalhar, mas penso não ser esse o objetivo desta pergunta. A escola de hoje reflete aquilo que é a ambição de qualquer sistema… a estabilidade para poder funcionar de forma quase automática. O problema é que este sistema foi criado no Séc. XIX (mantendo-se inalterado na sua essência desde essa altura) e trabalha otimamente bem para os padrões para que foi criado, mas nós estamos no Séc. XXI. A escola de hoje foi desenhada para responder a uma sociedade pós revolução industrial e nós vivemos na sociedade pós revolução comunicacional. É o mesmo que pedir a uma locomotiva movida a carvão que cumpra a mesma função do TGV com a mesma velocidade, conforto e qualidade. Mas a verdade é que temos conseguido… No entanto temos de ter consciência que uma criança de 4 ou 5 anos manipula um Tablet sem constrangimentos e na sua mão existe mais informação do que qualquer professor tem na sua cabeça. Mas nada de catastrofismo, só será necessária uma mudança de mentalidade profunda. Os professores são o corpo profissional mais qualificado do país e portanto se existe alguma profissão com os conhecimentos para efetuar esta mudança somos nós, assim o queiramos. Os alunos… se a escola responder às questões que colocam não haverá indisciplina.

 

 

 5- Ter um determinado perfil pode muitas vezes fazer a diferença numa sala de aula. Concordas com esta ideia? Como deve ser o professor do século XXI?

 

Totalmente de acordo. O perfil de um professor faz toda a diferença. Facilmente se compreende que existem escolas com perfis de alunos completamente diferentes e que exigem respostas também elas diferentes. No entanto esta parte do perfil do professor tem muito de inato, dificilmente se sabe se um professor tem o perfil adequado para uma escola sem que experimente lecionar nesse contexto. Torna-se portanto fundamental que os agrupamentos possam ter a autonomia de manter os professores que considerem ter o perfil adequado, caso estes o desejem. A outra parte do perfil corresponde às aprendizagens técnicas que o professor deve adquirir durante o seu percurso académico. E essas devem ser plenas para o exercício de funções. Competências técnicas plenamente desenvolvidas e competências humanas fortes são características centrais para o exercício de uma prática docente competente assente na vocação, tanto hoje como no futuro.

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publicado às 22:58



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