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5 perguntas, 5 respostas com Isabel Mendes Lopes

por Maria Joana Almeida, em 27.07.17

 

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Antes de uma breve interrupção durante o mês de Agosto quis “fechar este ano letivo” com uma entrevista a uma amiga que muito admiro.

 

A Isabel é inteligente, atenta, terna, generosa, convicta. Possui uma visão do mundo e valores com os quais me identifico e que influenciam positivamente quem a rodeia. A calma e serenidade que transmite no seu discurso, muito assertivo e ao mesmo tempo consciente das limitações de muitas realidades, reflectem uma forte personalidade e um carisma contagiante

A Isabel assume atualmente diferentes papéis. Papéis exigentes que desafiam a realidade e são uma dificuldade sentida por muitos de nós, nesta sociedade.

 

Vale a pena ler e reler o seu testemunho inspirador.

 

 

 

1 - Isabel, és mãe de duas filhas, tens um emprego a tempo inteiro e fazes parte de um partido político (LIVRE) onde desempenhas um trabalho exigente e quase a tempo inteiro também. Esta é provavelmente uma pergunta que ouves muitas vezes, mas como geres esta organização?

 

É uma organização difícil. Mas tenho a sorte de estar integrada em boas equipas – tanto em casa como no LIVRE.

A minha família é essencial, principalmente no apoio às minhas filhas. Nas alturas mais exigentes sei que tudo é assegurado sem mim. E quando é preciso, elas vão comigo às reuniões ou atividades do LIVRE (onde gostam muito de ir e onde são muito acarinhadas).

O meu trabalho no LIVRE é exigente porque faço parte do Grupo de Contacto do LIVRE, que é a direção partidária e que gere o dia-a-dia do partido. É um órgão colegial de 15 pessoas, onde a decisão e as tarefas são partilhada por todos. Isto faz com que a responsabilidade não seja um peso incomportável porque é partilhada, e permitiu que assumisse um mandato de dois anos. Sei que se não puder estar presente, as coisas são asseguradas. Por outro lado, no LIVRE trabalhamos muito online, o que permite uma gestão mais flexível. Consigo participar em todas as reuniões online e os documentos são redigidos conjuntamente durante a reunião. Isto faz com que consiga acompanhar as atividades e participar nas decisões a partir de casa, quando é necessário.

Mas há dias que são uma loucura, claro: trato de assuntos pessoais e do LIVRE à hora de almoço e quando saio vou a correr a casa tratar de tudo e à noite tenho reuniões ou outros assuntos.

O nosso tempo deve ser despendido num equilíbrio entre o tempo para nós, o tempo para a família e amigos, o tempo para o trabalho, o tempo para o lazer e também o tempo para a comunidade. Este equilíbrio é difícil, porque o tempo é um recurso escasso. Mas cada vez mais acredito que temos de conseguir ter tempo para a comunidade.

 

 

 

2 - A nossa geração atual é marcada por um constante adiar da maternidade e paternidade por inúmeros motivos sendo o trabalho um dos principais. Como olhas para este paradigma instalado?

 

A nossa geração é muito diferente da anterior. Se por um lado há mais oportunidades - todo um mundo para explorar - há também restrições importantes que nos condicionam em muitas escolhas, onde se inclui a parentalidade.

Os problemas da precariedade, dos salários baixos, das longas horas de trabalho influenciam muito a decisão de ter filhos, de quando os ter ou de quantos filhos temos. A estes problemas se junta a falta de estrutura de apoio. Muitos avós trabalham e/ou vivem longe, os laços de comunidade e vizinhança são menos fortes. O que anteriormente funcionava como estrutura de apoio às famílias não conseguiu ser substituído por uma resposta eficaz da comunidade.

Para conseguirmos mudar este condicionalismo nas escolhas na parentalidade temos de conseguir regrar o mercado de trabalho.  Temos de incorporar que a parentalidade faz parte da nossa vida enquanto sociedade e que todos temos obrigação de a acomodar, fazendo valer os direitos das famílias (mulheres e homens) face ao trabalho. Temos de criar estruturas de apoio: não apenas berçários, creches, jardins de infância e escolas públicas acessíveis a todos mas também transportes, atividades, cultura próximos e que tornem o dia-a-dia das famílias mais fácil.

 

 

3 - Quais foram as motivações que te levaram a envolver no mundo político?

 

O meu passado é muito apolítico. Mas há uns anos – um pouco antes de 2011 – comecei a estar mais atenta e senti que temos de nos envolver. Se queremos que a política seja mais transparente e mais democrática, temos de nos envolver. Comecei então a acompanhar várias iniciativas que foram acontecendo.

O nascimento da minha primeira filha tornou ainda mais forte o meu sentimento de urgência em me envolver, em fazer. E coincidiu com a constituição do LIVRE, que acompanhei desde o início ainda sem conhecer ninguém e que foi um processo que me impressionou, pela transparência, envolvimento e organização que teve. Tive a oportunidade – como todos os que lá estavam – de participar na redação dos documentos fundadores, na definição da organização do partido e dos seus processos, na definição dos seus pilares e ideias-chave. Por me rever nestas ideias e também nos processos, fui-me envolvendo no LIVRE. E há dois anos candidatei-me e tornei-me dirigente.

No fundo, a motivação para me envolver é – como diz uma amiga, o mais velho cliché de todos – contribuir para tornar o mundo melhor. E gostava de o fazer não apenas através do meu trabalho direto mas também através do exemplo – o facto de ser mulher e mãe não pode ser condicionante da participação política.

 


4 - A “política” é frequentemente atacada com palavras duras e marcada por uma nuvem de desconfiança constante. Na tua perspetiva como a entendes e de que forma pode esta imagem ser mudada?

 

Política é a forma como nos organizamos enquanto sociedade e como lidamos uns com os outros - é o nós.

A “política” de que falas é a que é associada a interesses próprios, jogos de poder obscuros - é o eles.

Temos de tornar a política mais nossa. Não é apenas a imagem da política que deve ser mudada - é a própria política, que tem de ir perdendo aquelas aspas. E essa mudança faz-se com um maior envolvimento dos cidadãos: no acompanhamento dos assuntos, na participação das decisões, na pertença a partidos. E faz-se também com uma maior abertura dos partidos e das instituições, através de processos claros, transparentes e participados. 

 

5 - Como mãe e como política (se assim o podemos chamar) é inevitável perguntar como olhas para o estado da nossa Educação e quais consideras serem as transformações necessárias?

 

Podes-me chamar política, é preciso assumirmos aquilo que somos.

Os próximos anos trarão grandes revoluções à forma como vivemos, como trabalhamos e como nos organizamos. As tarefas serão progressivamente mais automatizadas, a inteligência artificial permitir-nos-á fazer coisas hoje inimagináveis, estaremos cada vez mais ligados digitalmente. Teremos desafios terríveis originados pelas alterações climáticas.

As crianças que estão agora no primeiro ano serão adultos em 2030 e serão ativas até 2060, 2070, 2080. O que devem aprender para estarem preparadas para enfrentar todas as mudanças deste século e para serem adultos felizes e realizados? Não sabemos bem que matérias serão necessárias mas há algumas características que serão essenciais e onde a escola deve ter um papel muito importante: Imaginação e criatividade. Espírito crítico e autonomia na procura de soluções. Conceitos fortes de comunidade, de democracia e de participação. Capacidade de construir relação. E para isso será necessário promover a curiosidade, dar ferramentas para potenciar a autonomia, dar ferramentas sociais e de trabalho em grupo e participação cívica, desdramatizar o erro e olhar para a realidade de forma multidisciplinar, mas integrada.

Há muitas alterações que me parecem necessárias na nossa Educação, para que se torne mais equitativa, mais justa, mais eficaz, mais abrangente. Mas destaco apenas uma medida que considero essencial para dar resposta a grande parte dos problemas e desafios: valorizar enormemente a profissão de professor. Temos de ter professores inspiradores, capazes de agarrar os alunos e que lhes passem a alegria de aprender. E para isso precisamos de professores muito bons e muito motivados. Ou seja, temos de ser muito exigentes com os professores mas também de lhes conseguir dar as condições que uma profissão tão nobre e necessária como esta necessita. Porque, novamente o cliché, os professores têm efetivamente a capacidade de mudar o mundo, criança a criança.

 

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publicado às 12:54



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