Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



5 perguntas, 5 respostas com Ana Gralheiro

por Maria Joana Almeida, em 10.05.17

Ana G.png

 


A Ana é assertiva, bem-humorada e pró ativa. Conheci-a como diretora na escola onde ainda leciono.

Partilhamos gostos semelhantes. Gostamos dos mesmos filmes e de linguagens artísticas idênticas que nos proporcionam conversas interessantes e uma boa empatia.

 

Como diretora a Ana sempre se mostrou presente, atenta, perspicaz e uma boa ouvinte. É carinhosa com a comunidade educativa e reconhece, com muito orgulho e de forma extremamente motivante, o bom trabalho desempenhado pelos membros da escola.

 

O papel de diretora é exigente e feito de escolhas e decisões por vezes difíceis onde existem equilíbrios que não são fáceis de encontrar. 

 

Obrigada Ana pelo teu testemunho.

 

 

 

1- Existem poucos espaços mais desafiantes do que o espaço escola, quer no papel de auxiliar de educação, professor ou diretor. Na tua opinião, e com a experiência que tens como directora de uma escola, quais os principais desafios deste cargo?

 

Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico. 

(António Nóvoa)


Os principais desafios a enfrentar prendem-se com as múltiplas exigências que recaem na figura no diretor, nomeadamente todos os normativos e burocracias emanados pelos diferentes organismos do MEC, autarquia, famílias…, nem sempre compatíveis entre eles e, muitas vezes contraditórios.

 

Tentar conciliar estas exigências com a missão da escola e o projeto educativo, nem sempre é uma tarefa fácil.

 

A escola é um local privilegiado de aprendizagens académicas, mas também de valores humanistas, democráticos e de cidadania responsável.

Professores felizes têm vontade de vir para a escola e de fazer o seu melhor. O mesmo se passa com os alunos e pessoal não docente.

 

Mas, hoje em dia, deparamo-nos com perspetivas absurdas sobre as responsabilidades da escola (a escola passou a ser responsável por tudo…), principalmente por parte dos meios de comunicação social e de algumas famílias, que colocam em causa o que é veiculado em ambiente escolar.

Dou como exemplo o acesso às redes sociais e internet, de um modo geral, sem supervisão parental, que podem acarretar consequências terríveis e irreversíveis.Na perspetiva de muitos isso é responsabilidade da escola.

A crescente desresponsabilização dos pais em relação à educação dos filhos, é assustadora.

Educar exige muito trabalho, resiliência e tempo por parte das famílias…

 

"Imagine que a escola é um pote." "Porém as crianças precisam ter noções de meio ambiente, certo?", "E aulas de cidadania e higiene". "Alguém precisa preveni-los também contra a Sida, a violência sexual..."( o pote está mais do que cheio). Tudo isso é importante, mas não deve ser responsabilidade da escola". 

(António Nóvoa)


 

2 - A função de Diretora traz consigo muitas responsabilidades e uma articulação forte, quer com a comunidade educativa, quer com o Ministério da Educação. Como se conseguem gerir ambos?

 

Como diretora, professora e cidadã, sempre defendi que a escola deve ser uma instituição humanista, motivadora, reconhecedora, solidária, empática e integradora, de modo a envolver os profissionais de educação, alunos e famílias na promoção das aprendizagens e do sucesso educativo e pessoal.

É muito importante ouvir as pessoas, aferir as suas sensibilidades, projetos, receios… de modo a sentirem-se felizes no seu local de trabalho.

Assim, na operacionalização com a comunidade educativa, autarquia e MEC, o diretor nunca deve desviar o foco dos seus princípios de vida, centrados nos valores do humanismo democrático e e conciliá-los com os procedimentos exigidos.

 

Ser diretor é também correr riscos.

 

 

3 - Qual consideras ser o perfil e as competências necessárias para a função de diretora de uma escola?

 

- Pessoas que se esforçam por desenvolver boas relações humanas colocando ênfase nas acções de envolvimento, partilha e delegação de competências, pois só assim os profissionais de educação e alunos se sentirão apoiados e gostarão do trabalho que desenvolvem;

- Pessoas que promovem e valorizam a comunicação e alicerçam a sua conduta em valores como a autonomia, determinação, humanismo e justiça;

- Pessoas que promovam a criação de visões de futuro para as suas escolas, apontando caminhos para alcançar os objetivos de forma motivadora e inovadora.

- Promovam a elevação da qualidade das aprendizagens, orientadas para o sucesso académico, pessoal e profissional.

 

 

 

4 - Olhando e refletindo para o espaço escola, quais as principais mudanças que consideras fundamentais existirem?

 

A escola atual continua a ter muitas semelhanças com a do Séc. XIX, na medida em que se pressupõe que os professores são os detentores do conhecimento, espartilhado em disciplinas/ áreas curriculares, horários e que os alunos são os seres que devem aprender o que lhes é transmitido, nas horas estipuladas.

Este tipo de escola não valoriza as aprendizagens e competências que cada indivíduo já transporta previamente.

Nos dias que correm isto é inqualificável, até porque os alunos têm à sua disposição uma série variadíssima de informação através da internet.

 As escolas necessitam de turmas mais pequenas (20 alunos, no máximo) e formação prática dos docentes em área projeto/ ensino transdisciplinar e novas pedagogias, de modo a ser possível uma aprendizagem mais individualizada e uma consolidação de práticas inovadoras, projetadas no futuro.

 

 

 5 - Escrevi há pouco tempo um texto sobre liberdade. Um pouco sobre “as más e boas” liberdades. Como se consegue gerir, com alunos, dentro do espaço escola a liberdade e os seus, inevitáveis, limites?

 

Respondo cintando o meu pedagogo preferido:

 

(…)na escola (…) O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.


(António Nóvoa)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:36



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D