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É na escola e é na família e às vezes não é fácil.

por Maria Joana Almeida, em 16.11.15

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Decidi hoje abordar um tema central, diariamente falado e sentido na dinâmica de todos os professores, a relação escola-família. É difícil falar deste tema sem tocar outras áreas, como a área da psicologia. Não sendo a minha área e de modo a evitar algumas redundâncias vou tentar cingir-me à minha experiência pessoal e profissional e aos conhecimentos que fui adquirindo ao longo da minha experiência na escola com profissionais e amigos da área.

 

É inegável a importância da qualidade da relação entre escola e família para o desenvolvimento do percurso escolar dos alunos. A família, que não tem de ser necessariamente os pais, conhece melhor do que ninguém as fragilidades e os comportamentos dos seus filhos conseguindo antecipá-los e reconhecendo, por experiência própria, as formas de lidar com determinadas situações. São também os principais aliados da escola porque fornecem informações preciosas para uma avaliação mais cuidada do aluno permitindo estabelecer assim um ponto de partida para agir. Esta transmissão de informações permite também que família e escola possam trabalhar em parceria reproduzindo o trabalho, numa dinâmica casa – escola – sociedade, onde pais e professores se ouvem mutuamente aferindo crenças, expetativas e objetivos, ao mesmo tempo que esclarecem os limites de ambos.

 

Este trabalho conjunto nem sempre é fácil. É assente em crenças individuais de parte a parte cujo maior desafio é encontrar um ponto de equilíbrio sendo esta a chave para o sucesso.

 

Recordo-me de uma frase que ouvi vezes sem conta: “Pois, ele aqui faz, mas em casa não consigo que ele faça.”

Respondo sempre o mesmo “É normal, a relação entre pais e filhos; professor e aluno são diferentes e o envolvimento, embora ambos com afeto, é outro” A distância emocional (natural) permite trabalhar algumas competências mais difíceis de serem trabalhadas pelos pais. Basta fazer uma pequena viagem ao passado e lembrar que muitas vezes portava-me melhor com alguns professores do que com os meus pais. (Embora essa realidade tenha vindo a sofrer algumas alterações).

 

Um dos grandes desafios, que faço sempre questão de mencionar, por acreditar que é esse também o papel de um professor é abrir um canal de comunicação com a família que transmita segurança e acima de tudo compreensão. Relativamente à área da educação especial nem sempre é fácil, para a família, lidar com algumas problemáticas. É muito comum cair numa espiral de ansiedade e receios. O papel do professor é essencial neste aspeto. Primeiro porque conhece as dinâmicas do aluno na sala de aula, na escola, sabe avaliar as suas áreas fortes e as suas fragilidades nas diversas áreas e está munido com as ferramentas pedagógicas para poder orientar os pais nesta relação. É importante também que o professor tenha a sensibilidade para perceber qual o momento para falar com a família e as palavras a usar. Em famílias muito ansiosas e desesperadas é fácil criar situações de rutura. É preciso transmitir calma, ouvir, ouvir muito, para depois poder, de uma forma muito fundamentada, tentar esclarecer sobre a conduta essencial para agir em conjunto porque só assim é possível trabalhar, numa base de confiança e respeito.

 

Um dos maiores desafios atuais nesta relação tem sido a falta de confiança entre os protagonistas, corroída muitas vezes pela comunicação social e políticas instituídas. A falta de tempo na família e na escola tem sido também o maior inimigo, por um lado porque os desígnios profissionais da família assim o obrigam e por outro lado porque o sistema tem entupido os professores com assuntos burocráticos constantes que em nada tem fortalecido a carreira e a motivação, delegando um espaço mínimo para a partilha, discussão e trabalho efetivo com os alunos.

 

Recordo – me de uma reflexão que tive a oportunidade de verbalizar num debate a que assisti sobre a "Relação Escola-Família" e que traduz, na minha opinião, o modelo seguido atualmente e aquela que acredito ser o princípio da solução:

 

Padecemos, atualmente, de um "mal" onde todos achamos que sabemos um bocadinho acerca de tudo. Fruto do acesso rápido à informação, todos temos uma opinião a dar, na maior parte das vezes sem uma triagem adequada. Resultado: pais que acham que sabem muito sobre métodos de aprendizagem e pedagogia; professores que acham que sabem muito sobre dinâmicas familiares (quando todas elas são tão individuais e tão específicas). A diversidade de "caixinhas" e "pacotes" no armário dos métodos de ensino baralham os menos entendidos e dificultam a confiança nas instituições. Achar o ponto de equilíbrio é o maior desafio atual. Aquele ponto em que a partilha de ideias não toca o ego do pai/mãe e professor e em que cada um sente que a sua competência não está a ser posta em causa. Só a partir desse ponto de equilíbrio se torna possível trabalhar.

 

Li há pouco tempo o texto “Os ocupados” (que recomendo vivamente) de um blog chamado seismaisdois. Identifiquei-me e identifiquei muitos dos que me rodeiam, mas acima de tudo identifiquei o clima de muitas escolas e de muitas famílias.

 

“E assim lá vamos andando nós, muito depressa, desatentos e desfocados sem certezas de nada, mas com a certeza absoluta que somos mesmo muito ocupados” 

In http://seismaisdois.com/2015/11/12/os-ocupados/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:25



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