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5 perguntas, 5 respostas com o Escultor Daniel Leite Mendes

por Maria Joana Almeida, em 24.05.17

 

 

imagem Daniel.JPG

 

 

Conheci o escultor Daniel Leite Mendes recentemente. Não foi preciso muito de tempo de conversa para perceber a entrega que tem à vida, aos pequenos pormenores que observa e a leveza das palavras e dos gestos. Não sou a maior entendida em escultura, mas sei apreciar a beleza e a importância artística no nosso mundo e o quão fundamental é no desenvolvimento educacional. A expressão artística tem a capacidade de nos resgatar, de arranjar substitutos de vida e de nos permitir conhecer e dar a conhecer.

 

O Daniel é dotado de uma enorme sensibilidade estética e artística. Sonhador, terno, observador, intenso, pés na terra e alma enorme. Aprendeu com o pai a função de marceneiro, passou pela arquitetura, pelo desenho e descobriu a paixão na escultura. A sua primeira obra foi aos 21 anos anos, altura em que estava nos Açores. Passou de rostos, a linhas mais curvas, mais femininas, pueris mas intensas, são de pedra, mas são leves.

 

A sua próxima exposição será no Lx factory e deixo aqui uma breve entrevista.

 

 

 

1 - Daniel, entre as várias formas de expressão artística porquê a escultura em pedra? Que percurso ou vivências te levaram até aqui?

 

Apaixonei-me pela “personalidade” da pedra nos açores, onde comecei com curiosidade de a esculpir. A sua textura, volume, dureza... Ao trabalha-la gostei de sentir que ela, com os seus veios e características puramente naturais, ajudava-me na criação mostrando formas, “comunicando” no que se quer tornar. Fiquei encantado.

 

2 -  Deves ouvir muitas vezes esta pergunta, mas interessa-me o processo e não o como. A inspiração nasce de onde? A peça que idealizas ao inicio é a mesma que constróis no final?

 

A inspiração nasce de algo no fundo muito pessoal que muitas vezes passa por algo que precisa ser trabalhado, cuidado, assumido, materializado, contemplado, venerado.

Depois no processo criativo, materializar a ideia, muitas vezes vai alterando pelo que referi na pergunta anterior, e com a viagem no “tema” flui sempre algo mais belo, libertador e mais de encontro ao que em verdade se constata que se desejava fazer. É lindo!

 

3 -  A família pode ser um facilitador ou uma barreira nas escolhas que fazemos para a nossa vida. Como foi a resposta da tua família ao caminho que escolheste?

 

Tenho uma gratidão enorme para com o meu pai que me encaminhou e passou a sua sabedoria de como trabalhar com as mãos e a madeira.

A Arte/Escultura a ideia não foi recebida de braços abertos no seio da família. Devido a demasiada humildade não aprovou muito bem a ideia de “artista”.

 

4 -  Tens exposto o teu trabalho em vários espaços onde a aceitação tem sido muito boa. Como vês o mundo da arte em Portugal?

 

Vejo que muitas pessoas apreciam arte mas poucos a adquirem.

Vejo também que quem adquire não abre muito “oportunidade” para novas pessoas com dom preferindo investir em artistas de renome.

 

5 -  Qual o impacto que esta expressão artística teve e tem na tua vida? De que forma te descobres com ela?

 

O mais precioso, perceber, sentir, porque o meu pai ficava tanto tempo a contemplar os móveis que fazia…  

Dá-me quietude. Quando crio simplesmente existe isso..é uma entrega ao momento que necessito para me encontrar e sentir que realmente estou a criar algo muito meu. O que me realiza enquanto ser humano. Aquilo que não encontro no dia a dia na sociedade.

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publicado às 00:56

5 perguntas, 5 respostas com Ana Gralheiro

por Maria Joana Almeida, em 10.05.17

Ana G.png

 


A Ana é assertiva, bem-humorada e pró ativa. Conheci-a como diretora na escola onde ainda leciono.

Partilhamos gostos semelhantes. Gostamos dos mesmos filmes e de linguagens artísticas idênticas que nos proporcionam conversas interessantes e uma boa empatia.

 

Como diretora a Ana sempre se mostrou presente, atenta, perspicaz e uma boa ouvinte. É carinhosa com a comunidade educativa e reconhece, com muito orgulho e de forma extremamente motivante, o bom trabalho desempenhado pelos membros da escola.

 

O papel de diretora é exigente e feito de escolhas e decisões por vezes difíceis onde existem equilíbrios que não são fáceis de encontrar. 

 

Obrigada Ana pelo teu testemunho.

 

 

 

1- Existem poucos espaços mais desafiantes do que o espaço escola, quer no papel de auxiliar de educação, professor ou diretor. Na tua opinião, e com a experiência que tens como directora de uma escola, quais os principais desafios deste cargo?

 

Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico. 

(António Nóvoa)


Os principais desafios a enfrentar prendem-se com as múltiplas exigências que recaem na figura no diretor, nomeadamente todos os normativos e burocracias emanados pelos diferentes organismos do MEC, autarquia, famílias…, nem sempre compatíveis entre eles e, muitas vezes contraditórios.

 

Tentar conciliar estas exigências com a missão da escola e o projeto educativo, nem sempre é uma tarefa fácil.

 

A escola é um local privilegiado de aprendizagens académicas, mas também de valores humanistas, democráticos e de cidadania responsável.

Professores felizes têm vontade de vir para a escola e de fazer o seu melhor. O mesmo se passa com os alunos e pessoal não docente.

 

Mas, hoje em dia, deparamo-nos com perspetivas absurdas sobre as responsabilidades da escola (a escola passou a ser responsável por tudo…), principalmente por parte dos meios de comunicação social e de algumas famílias, que colocam em causa o que é veiculado em ambiente escolar.

Dou como exemplo o acesso às redes sociais e internet, de um modo geral, sem supervisão parental, que podem acarretar consequências terríveis e irreversíveis.Na perspetiva de muitos isso é responsabilidade da escola.

A crescente desresponsabilização dos pais em relação à educação dos filhos, é assustadora.

Educar exige muito trabalho, resiliência e tempo por parte das famílias…

 

"Imagine que a escola é um pote." "Porém as crianças precisam ter noções de meio ambiente, certo?", "E aulas de cidadania e higiene". "Alguém precisa preveni-los também contra a Sida, a violência sexual..."( o pote está mais do que cheio). Tudo isso é importante, mas não deve ser responsabilidade da escola". 

(António Nóvoa)


 

2 - A função de Diretora traz consigo muitas responsabilidades e uma articulação forte, quer com a comunidade educativa, quer com o Ministério da Educação. Como se conseguem gerir ambos?

 

Como diretora, professora e cidadã, sempre defendi que a escola deve ser uma instituição humanista, motivadora, reconhecedora, solidária, empática e integradora, de modo a envolver os profissionais de educação, alunos e famílias na promoção das aprendizagens e do sucesso educativo e pessoal.

É muito importante ouvir as pessoas, aferir as suas sensibilidades, projetos, receios… de modo a sentirem-se felizes no seu local de trabalho.

Assim, na operacionalização com a comunidade educativa, autarquia e MEC, o diretor nunca deve desviar o foco dos seus princípios de vida, centrados nos valores do humanismo democrático e e conciliá-los com os procedimentos exigidos.

 

Ser diretor é também correr riscos.

 

 

3 - Qual consideras ser o perfil e as competências necessárias para a função de diretora de uma escola?

 

- Pessoas que se esforçam por desenvolver boas relações humanas colocando ênfase nas acções de envolvimento, partilha e delegação de competências, pois só assim os profissionais de educação e alunos se sentirão apoiados e gostarão do trabalho que desenvolvem;

- Pessoas que promovem e valorizam a comunicação e alicerçam a sua conduta em valores como a autonomia, determinação, humanismo e justiça;

- Pessoas que promovam a criação de visões de futuro para as suas escolas, apontando caminhos para alcançar os objetivos de forma motivadora e inovadora.

- Promovam a elevação da qualidade das aprendizagens, orientadas para o sucesso académico, pessoal e profissional.

 

 

 

4 - Olhando e refletindo para o espaço escola, quais as principais mudanças que consideras fundamentais existirem?

 

A escola atual continua a ter muitas semelhanças com a do Séc. XIX, na medida em que se pressupõe que os professores são os detentores do conhecimento, espartilhado em disciplinas/ áreas curriculares, horários e que os alunos são os seres que devem aprender o que lhes é transmitido, nas horas estipuladas.

Este tipo de escola não valoriza as aprendizagens e competências que cada indivíduo já transporta previamente.

Nos dias que correm isto é inqualificável, até porque os alunos têm à sua disposição uma série variadíssima de informação através da internet.

 As escolas necessitam de turmas mais pequenas (20 alunos, no máximo) e formação prática dos docentes em área projeto/ ensino transdisciplinar e novas pedagogias, de modo a ser possível uma aprendizagem mais individualizada e uma consolidação de práticas inovadoras, projetadas no futuro.

 

 

 5 - Escrevi há pouco tempo um texto sobre liberdade. Um pouco sobre “as más e boas” liberdades. Como se consegue gerir, com alunos, dentro do espaço escola a liberdade e os seus, inevitáveis, limites?

 

Respondo cintando o meu pedagogo preferido:

 

(…)na escola (…) O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.


(António Nóvoa)

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publicado às 21:36

Isto da liberdade

por Maria Joana Almeida, em 03.05.17

liberdade.jpg

 

Não, não é um texto sobre o 25 de Abril. Primeiro porque já passou e depois porque não me reconheço com propriedade suficiente para escrever acerca deste dia. O meu entendimento vem de memórias de outros, das memórias da minha mãe, de livros que li e filmes que vi. Construi sentidos e imagens muito bonitas desse dia.

 

No entanto há cravos nas fotos porque foram tiradas no dia 25 de Abril e porque este é um texto sobre liberdade.

 

Quando era pequena ouvi vezes sem conta a frase “A nossa liberdade acaba quando a dos outros começa”. Soou durante muito tempo na minha cabeça até que fizesse sentido. Era demasiado abstrata para poder perceber o seu significado.

 

O conceito de liberdade é provavelmente dos mais difíceis de “ensinar”. Eu já cresci num tempo de liberdades óbvias, conquistadas. O meu mind set nunca conheceu outra forma de ser (sentir na pele é outra coisa). Por ser tão difícil de explicar e de uniformizar, dilui-se em várias conceções. Aqueles cujo a liberdade não se limita no outro: digo por ter a liberdade de o dizer, mesmo que tenha repercussões negativas no outro. Aqueles cuja a liberdade é condicionada pelo grau de confortabilidade do outro: sujeito-me sempre à liberdade do outro. Aqueles que escolhem a liberdade empática: saber escolher o que dizer e a maneira como dizer porque sei ler o outro e reconhecer quando é que a sua liberdade começa e a minha termina.

 

As liberdades esbarram em diferentes entendimentos, em diferentes formas de educação. Nunca será consensual, porque nenhum contexto é igual. Se passo nos corredores de uma escola há liberdades a serem usadas mesmo que a minha esteja a ser posta em causa. E já sem pensarmos, todos acabamos por compactuar com esta liberdade unilateral. Porque aceitamos que são os (uns) novos tempos. Tempos assim que trazem boas e más liberdades. E há liberdades que dão trabalho. (Até 25 de Abril de 1974 bem sabiam o trabalho que deu)

 

E ainda assim, pode a liberdade ter limites? Tem inevitavelmente.

 

Há liberdades sentadas à espera de poderem ser usadas; liberdades que estão bem seguras pela mão e liberdades a preto e branco - aquelas que já se desvaneceram. E nestas liberdades, está aquela (necessária) de escolher alertar para todas as liberdades, que vão para além das individuais. A de quem diz e faz e de quem ouve e sente.

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publicado às 10:28


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