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Ainda não sou mãe, mas..

por Maria Joana Almeida, em 24.02.17

Parenthood.jpg

 

Há experiências que me assustam, experiências fundamentalistas são as piores e experiências fundamentalistas com crianças são aterradoras.

 

Li há pouco tempo o seguinte artigo:

https://littlethings.com/free-range-kids/?utm_source=pulp&utm_medium=Facebook&utm_campaign=shocking

 

O título era revelador: “Mom Who Breastfeeds 5-Year-Old Son Raises Her Kids Without Any Discipline Or Rules” (Mãe que amamenta o seu filho de cinco anos sem quaisquer regras ou disciplina)

 

Primeiro pensamento: As reações contra o "sistema", seja o que queira isso dizer, levadas a um extremo raramente são positivas. Como dizia uma amiga minha: “fazer dos nossos filhos ratinhos de laboratório não”.

 

A internet está repleta de novas modas de parentalidade. Pessoas que descobriram a pólvora em pleno séc. XXI quando a pólvora há tanto tempo que foi descoberta (sim, há modelos de parentalidade e educação que apenas vestem uma nova roupagem, mais clean, mais cool). Cruzam estudos, cruzam ideias próprias e criam novos métodos de educação ajudando a criar negócios pouco sérios em que muitos se alimentam de alguns novos pais sedentos de filhos melhores e diferentes dos outros. 

 

Há efetivamente, não diria teorias, mas linhas de intervenção e educação que fazem todo o sentido, mas há premissas que são importantes reter: estas linhas orientadoras não são fundamentalistas, nem deverão ser. Estas devem ser adaptativas ao contexto em que se vive, à personalidade da criança, à realidade envolvente. Estou convicta que nada pode ser mais frustrante e sofredor do que ser criado numa redoma, numa qualquer redoma, que não tem laços com a realidade. Tornamo-nos assim uns ratos de laboratório, a habitar um mundo estranho. Ou nos assumimos como eremitas, ou então há aprendizagens que têm de ser feitas pelos nossos filhos para existir uma integração saudável e isso não quer dizer que não estejamos a desenvolver a parte artística ou intelectual, bem pelo contrário.

 

Temos também tendência (natural) de olhar para trás e facilmente verbalizar com um certo tom de desdém; “mas eu também fiz assim e não morri por isso ou não me tornei pior pessoa por isso”. Será verdade, como também é verdade, que a sociedade evolui para contextos que não são semelhantes a tempos passados ainda que hoje vivamos um revivalismo do tempo da avó.

 

Gostaria de não esgotar o argumento de que o bom senso deve imperar sempre - um pleonasmo assumido na vida. Penso que o comprometimento, em educar os nossos filhos, terá de ser sempre entre a nossa realidade e aquilo que lhes pretendemos dar, conscientes de que é uma realidade absolutamente individual e onde as crenças são em última instância legítimas, mas não podemos negar o nosso meio envolvente.

 

É importante perceber que há na nossa sociedade respostas diferentes (e ainda bem), caminhos diferentes que conseguem coabitar entre sim, de uma forma saudável, acima de tudo porque não são fundamentalistas. Estão abertas à diferença, à multiplicidade de papéis e não recusam ou negam a realidade.

 

Mais do que isso, ou para além disso, é puro egocentrismo.

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publicado às 12:14

Honestidade Intelectual

por Maria Joana Almeida, em 01.02.17

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És professora e não sabes isso?” ou “És advogado e não sabes isso?” A lista é interminável..

 

Existe uma assunção generalizada de que “aquele” conhecimento é absolutamente unânime a partir do momento em que “vestimos aquela” profissão.

 

Recordo-me de ouvir muitas vezes: “Nunca digas que não sabes” porque o não saber no imediato parece ter-se transformado numa imagem de fracasso. A teoria de que o conhecimento é uma construção e que não fica retido num determinado tempo ou espaço nem numa determinada profissão é recorrentemente deitada por terra quando queremos respostas imediatas.

 

Existem, obviamente, um conjunto de conhecimentos que devem ser a base para o funcionamento de uma profissão, de um trabalho. O crescimento e ampliação destes conhecimentos são determinados pelas vivências de cada um e pelo seu processo individual de pesquisa e vontade de aprender.

 

Naturalmente não é legítimo que (por exemplo) um professor de História ao abordar um determinado tema não tenha conhecimentos consolidados. No entanto, é natural que não conheça todos os detalhes de todos os temas que eventualmente os alunos possam questionar. A diferença reside entre o redirecionar essa pergunta porque não sabe e não quer demonstrar, ou assumir que não tem a certeza e por isso pesquisar juntamente com os alunos (partindo assim dos seus interesses).

 

Há uns anos atrás o meu Coordenador (quando falávamos da idade como sinónimo de mais ou menos experiência) dizia: “Depende. Se ter mais experiência quiser dizer que andou toda a vida a perpetuar um erro, essa experiência não é tão válida”. E sem dúvida é neste aspeto que difere o processo de aprendizagem: A vontade de evoluir e responder aos desafios diários ao invés de fechar os olhos e viver numa pequena redoma de conhecimento, porque foi assim que fez toda a vida, negando o processo de evolução.

 

Existe um certo poder em não assumir fragilidades, erros, falhas ou incertezas. A máscara da parede inabalável protege-nos e cria distâncias de segurança. No entanto, embora por vezes necessárias, não nos tornam reais nem humanos. Tenho a forte convicção de que a verdadeira segurança e auto-conhecimento reside em ser genuíno. É esta genuinidade (não confundir com ingenuidade) que nos permite criar empatia, porque é real. E é na empatia que se inicia o processo de relação e de conhecimento.

 

É na nossa honestidade intelectual que reside o poder. O poder de ser livre e de, como qualquer outro ser humano, agarrar e trabalhar as suas fragilidades. De se soltar de uma redoma de conforto e dizer um redondo e seguro “Não sei” Mas quero saber. 

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publicado às 21:50


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