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Uma reflexão sobre o Human(ismo)

por Maria Joana Almeida, em 22.11.16

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O Amor..bolas o Amor.. O Amor e tantos opostos, o ódio, a pobreza, a guerra, a violência. Os rostos de cada um deles e de todos eles.

 

Eu queria escrever sobre este magnífico trabalho, mas por muito que me esforce vou conseguir espelhar pouco. Porque as imagens valem mais que mil palavras (sim já sabemos, fartos de ler isto) e porque este filme vai para lá do anti cliché, do anti senso comum. É honesto, cru, cruel, corajoso, impetuoso, viciante, terno. É o mundo inteiro. São as palavras todas.

 

Human não é so um filme em jeito de documentário. É um murro no estômago. É sorrirmos e arrepiar-nos de seguida. Fechar os olhos e decidir entre o querer pensar ou criar uma barreira de segurança entre o que vejo e o que quero sentir. É falar frente a frente e olhos nos olhos com o Mundo. Receber os desconfortos que nos são atirados para o colo, que não queremos sentir, que sabemos que estão lá, mas estão lá não estão aqui. É conhecer e reconhecermo-nos em algumas histórias e o nunca querer sentir as outras. É ter fé na Humanidade e perde-la de seguida. Mas mais assustador do que isto é ter a consciência do que existe e a coragem necessária para me colocar no outro lado.

 

A simplicidade carregada de complexidade. Os rostos que não conhecemos por que estão lá..mas que ficam guardados. Histórias e palavras que ficam impregnadas.

 

Por todos nós, pela Humanidade, por o que quiserem, é para ver.

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publicado às 23:06

Sobre os (um) Colégio de Educação Especial.

por Maria Joana Almeida, em 08.11.16

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Assumo-me como suspeita sobre este tema. Absolutamente suspeita.


O meu percurso profissional iniciou-se num colégio de Educação Especial. Espaço que moldou o princípio da minha profissão e que me levou a descobrir as Necessidades Educativas Especiais, mas acima de tudo uma forma de relação com a escola com a qual me revejo totalmente – a compreensão em vez da mera punição, o ouvir e conhecer ao invés de rotular e enumerar.


O Colégio Eduardo Claparède foi o palco de muitas aprendizagens, mas principalmente de muitos desafios. Foi, e é, um espaço privilegiado para compreender a diferença e a possibilidade de criar um lugar de transição para alunos com comportamentos severos que não conseguiram, pelas suas características, um lugar na escola regular. Vamos ser diretos: a Escola tem de ser para todos, mas não há omeletes sem ovos e a mudança de mentalidades, por muita legislação que exista demora. E neste impasse os bodes expiatórios não podem ser as crianças e jovens.


Sei que este é um assunto sensível a todos os defensores acérrimos da inclusão. Mas para além de me assumir como suspeita neste assunto, assumo-me primeiramente como intransigente em relação à inclusão. Tem de ser óbvia. Mais do que óbvia. Como disse Isabel Tordo: “A inclusão não se decreta. Constrói-se com o envolvimento de todos e na luta pela melhor resposta para cada aluno.”


Os colégios de educação especial desempenham um papel fundamental. Fundamental porque assumem na sua essência um princípio de aceitação de todos e esta é mais do que óbvia (Inclusão). Porque muitos dos jovens, e com conhecimento de causa falo, que não encontraram o seu lugar numa escola regular, conseguiram-no encontrar neste espaço. Um espaço onde é respeitado e onde consegue encontrar uma abordagem mais individual pensada para o aluno e não sob a custódia de um currículo; onde existe tempo e lugar para compreender os comportamentos; compreender as problemáticas e estar dotado de um corpo de docentes, psicólogos e terapeutas que trabalham diariamente para o mesmo objetivo; um local onde as reuniões são um espaço sem grelhas, sem trabalho burocrático onde o centro e a principal preocupação é: Como chegar até este aluno? Como conseguir que corresponda ao que a sociedade lhe exige? Um espaço que não é escravo de um currículo, mas sim de um princípio fundamental - criar uma relação afetiva, uma auto-regulação que permita ao aluno um novo caminho e em muitos casos uma reintegração na escola regular. Este é o verdadeiro projeto e trabalho dos colégios de educação de especial e o verdadeiro projeto do Colégio Eduardo Claparède de onde guardo muito trabalho árduo, anos difíceis, mas muitas aprendizagens, muito boas recordações e amizades inabaláveis.


Creio que todos os intervenientes educativos pais, terapeutas, profissionais da saúde, professores, escolas e Ministério da Educação reconhecem o seu valor e o seu papel na sociedade. Creio também que compreendem a mais-valia destas instituições cujo encerramento não ajuda a promover um trabalho pedagógico e terapêutico basilar junto de muitas crianças e jovens.


Não creio que a defesa da coabitação destas instituições possa ser considerada um “ataque” à inclusão, pelo contrário, estas devem ser encaradas como um espaço complementar para que este conceito – Inclusão – tão usado verbalmente, mas tantas vezes pouco sentido, possa fazer parte da “nossa memória muscular”.

 

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publicado às 23:35

5 perguntas, 5 respostas com Isabel Moreira.

por Maria Joana Almeida, em 01.11.16

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Trabalhei com a Isabel Moreira nos meus primeiros quatro anos de vida profissional. Sempre admirei a sua assertividade, confiança, organização e relação que consegue estabelecer com crianças e jovens com que trabalha.

A Isabel tem desenvolvido o seu percurso com crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais trabalhando há muitos anos nesta área. Possui uma visão sobre Educação Especial com a qual me revejo tendo sido uma referência e uma ajuda preciosa na minha experiência com as Perturbações do Espetro do Autismo.

Atualmente, para além de vários projetos, é uma das colaboradoras do Special Olympics Portugal onde desempenha um papel fundamental com estes atletas.

 

Obrigada Isabel.

 

 

 

 

1 – Olá Isabel. Estive tentada a começar esta entrevista fazendo uma breve introdução aos objetivos e filosofia do Special Olympics, mas gostaria de te pedir que falasses tu um pouco sobre este enquadramento. Ler na Internet é diferente do que ouvir uma voz de quem tem um papel importante nesta estrutura.

 

O Special Olympics (SO) é um Movimento Internacional que visa incentivar, desenvolver e apoiar a prática desportiva para pessoas com deficiência intelectual. Este não tem fins lucrativos e não é exclusivo em nenhum fator. É essencialmente um movimento de inclusão desportiva e social. Todos podem participar independentemente da sua idade ou das suas capacidades respeitando sempre o princípio da equidade.

O seu principal objetivo não é a competição mas a prática de qualquer atividade desportiva de forma continuada e adaptada para as pessoas com deficiência inteletual.

O Movimento teve origem nos EUA por iniciativa da Fundação Joseph Kennedy (1946). Eunice Kennedy Shriver, quinta de entre nove filhos de Joseph e Rose Fitzgerald Kennedy e atleta olímpica, foi a fundadora (1968) e grande impulsionadora deste ideal. O primeiro evento realizou-se numa propriedade da família Kennedy e teve como finalidade proporcionar atividade desportiva a um elemento da família que sofria de deficiência intelectual.

O Special Olympics Portugal existe há já mais de uma década e os seus elementos fazem um trabalho diário no sentido de proporcionar atividades desportivas a cada vez mais pessoas e também no sentido da diversificação das modalidades desportivas.

O Special Olympics Portugal tem participado em inúmeras provas internacionais com excelentes resultados. A última foram os Jogos mundiais em Los Angeles, 2015, onde a comitivas Portuguesa contou com 70 elementos entre atletas, técnicos e dirigentes e conseguiu 44 medalhas.

O fundamental é que todos possam praticar desporto independentemente das suas limitações.

O grande lema do Special Olympics é: “Quero vencer. Mas se não conseguir, deixem-me enfrentar o desafio, corajosamente”

 

 

2 – Trabalhas há muitos anos com as Necessidades Educativas Especiais (NEE) estando atualmente a coordenar o Departamento de Educação Especial numa escola na Amadora, para além de outros projetos. O que tem o Special Olympics permitido a estes jovens?

 

Acima de tudo o acesso à prática desportiva que de outra forma seria praticamente impossível.

Desde a antiguidade que o desporto sempre esteve associado à beleza, à força e ao poder. Os desportistas tinham um papel importante na sociedade e eram adorados por todos. Ainda hoje este fenómeno se verifica. Existe uma estreita relação entre o desporto e o reconhecimento social.

Todos reconhecemos nos desportistas a imagem de alguém bem-sucedido pessoal e socialmente.

Nesta perspetiva todas as pessoas com deficiência estão excluídas deste “mundo”.

Com a perspetiva do desporto `”adaptado” de e para todos poderemos alterar este fenómeno. O desporto pode e deve funcionar como um instrumento para o reconhecimento social, interação social, autoestima, condição física, imagem corporal e qualidade de vida de pessoas com deficiência.

Também através deste poderemos alterar as atitudes de exclusão e o acentuar das limitações.

Ao adaptarmos a atividade desportiva temos como grande objetivo a inclusão desportiva e social.

Neste tipo de atividade, dentro da sua diferença, são todos atletas. É fundamental envolver todos e adaptar as atividades às características, competências, interesses e necessidades de todos. Atualmente já existem muitas modalidades em que se pratica o “unified”, ou seja, jogam na mesma equipa pessoas com e sem deficiência inteletual. Há alturas em que não se notam as diferenças pois em atividade são todos atletas

Os responsáveis pelo SO Portugal trabalham diariamente para promover o desporto para todos e estão a tentar que as federações aceitem este desafio para que cada vez mais pessoas com deficiência intelectual tenham acesso à prática desportiva. Felizmente já existem muitas a envolver-se neste projeto.

 

 

3 – Quais os principais desafios no trabalho com estes atletas?

 

O principal desafio é fazermos com que eles próprios acreditem nas suas capacidades.

Eles são atletas.

Infelizmente vivemos numa sociedade muito exclusiva e a maioria destas crianças, jovens e adultos vivem com o estigma que são “deficientes” e por essa razão tem de ser excluídos de determinadas atividades. Isso não é correto nem inteligente. Todos temos as nossas limitações e competências e temos de acreditar em nós próprios para nos superarmos. Tenho atletas que jogam muito melhor futebol que eu, que correm muito mais que eu, etc.

Eles são deficientes? Nesta perspetiva se calhar sou eu mais deficiente.

Depois de conseguirmos que eles percebam que são muito mais capazes do que achavam é tudo uma questão de treino e trabalho de equipa.

 

 

4 – Ainda vivemos numa sociedade que tem dificuldade em “abraçar” a diferença. Quem trabalha nas escolas, e não só, apercebe-se deste facto. Estruturas como o Special Olympics tem permitido desmistificar esta imagem. Mas qual achas que é o caminho que ainda temos de percorrer?

 

O nosso grande objetivo tem mesmo de ser o de dar visibilidade a este tipo de projetos. Infelizmente as questões financeiras são uma grande preocupação. A maioria dos que estão envolvidos no special olympics o faz de forma voluntária e por vezes não é fácil conciliar com a atividade profissional. Eram precisos mais apoios e a mobilização de mais gente para o movimento. Por vezes as pessoas perguntam-me mas acham que não podem colaborar porque não são da área desportiva. Essa ideia não é incorreta. Podem existir voluntários de todas as áreas.

Se tivéssemos mais apoios conseguíamos realizar muito mais atividades e depois: - “O que se vê com frequência torna-se normal”.

 

 

5 - É inevitável falarmos da estrutura Escola, uma vez que é o espaço onde passamos maior parte da nossa vida. Qual consideras ser o maior desafio atual para a Inclusão de alunos com NEE?

 

Penso que ainda nos falta percorrer um longo caminho. Na minha opinião estamos sempre a cometer os mesmos erros. Achamos que incluir passa por colocar todos na escola e isso não tem de ser necessariamente assim. Há que começar por aceitar as diferenças e perceber quais as necessidades de cada um. Não chega fazer leis que digam que todos vão para a escola e não proporcionar condições para que isso aconteça de forma eficaz e construtiva para todos.

Claro que não nos podemos esquecer daqueles problemas amplamente conhecidos como o elevado número de alunos por turma e a falta de equipas multidisciplinares mas não será só por aí.

Sei que o que vou dizer pode não ser bem visto por todos mas penso que também era muito importante habilitar mais os professores em geral e os professores de educação especial em particular. Estes são a linha da frente no sucesso da escola e dos alunos e sem eles a inclusão não será possível. Ainda existem muitas falhas neste setor.

Pessoalmente custa-me ouvir falar em sensibilizar os professores para a deficiência. Não temos de sensibilizar, temos de promover condições de trabalho, de habilitar, de perceber as diferenças e trabalhar em articulação na construção de estratégias adequadas a cada um. Temos de aceitar todos como alunos e proporcionar as melhores condições de aprendizagem para cada um.

 

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publicado às 20:50


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