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Les Choristes (Os Coristas)

por Maria Joana Almeida, em 29.06.16

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Um breve olhar sobre uma listagem daqueles que considero serem os melhores filmes a que assisti fez-me rever “Os Coristas”.

 

Assisti a este filme há dez anos e ficou rapidamente marcado como uma das mais comoventes reflexões sobre o caminho percorrido entre professor e alunos na procura de uma forma de comunicação entre ambos.

 

Pierre Morhange é um antigo aluno de uma escola intitulada” Fond de l'Etang - O fundo do pântano”, um internato para rapazes nos anos 40. Já adulto reencontra o diário do seu antigo professor e maestro Clement Mathieu e juntamente com Pépinot, outro ex-aluno revivem as histórias dessa altura.

 

A história de Clement Mathieu, o professor que começou a dar aulas no Fond de l'Etang – O fundo do pântano (uma metáfora por sim só pouco convidativa) e conhece um grupo de rapazes tristes, resignados, onde a rudeza do diretor e a enclausura retirou em parte os risos espontâneos e pueris das crianças e a esperança. Estes jovens olham para qualquer novo professor com receio, com altivez, com uma defesa imediata perante a possibilidade de “agressão”. Mas Clement é também maestro e pela música, gentileza e sentido de humor começa a construir uma turma, um grupo empenhado em torno de um objetivo. Um desses alunos era precisamente Morhange, um jovem com uma voz brilhante a que Clement se agarra para poder salvá-lo.

 

Mais tarde Morhange torna-se também maestro, numa escolha claramente marcada pela relação que estabeleceu com o seu professor Clement Mathieu e que lhe permitiu acreditar nele e lutar.

 

“Os Coristas” é um filme obrigatório. Provavelmente dos filmes mais comoventes de sempre que não passa despercebido principalmente a quem é professor. É uma importante lição sobre educação e sobre o amor, mas principalmente sobre querer comprometer-se com os outros e consigo próprio e é esta condição que define um mestre.

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publicado às 23:20

Sobre Musicoterapia com João Laureano

por Maria Joana Almeida, em 18.06.16

 

JOão Laureano.png

 

 

Já há algum tempo que queria convidar o João não só para dar a conhecer a sua visão enquanto Musicoterapeuta, mas também pelo seu percurso rico em vivências tanto a nível da intervenção clínica como escolar com jovens e adultos.

Conheci o João nos meus primeiros anos de profissão no Colégio Eduardo Claparède, a sua visão e forma de lidar com os alunos foi  fundamental para construir um conceito e o modelo pedagógico com o qual me identifico. A relação estabelecida com os alunos e o entusiamo pelo seu trabalho facilitam a empatia e a vontade de querer fazer mais e melhor.

 

 

5 perguntas e 5 respostas com João Laureano.

 

 

1 – Poderia procurar na Internet uma definição de Musicoterapia, mas gostaria de te perguntar, com base no teu percurso e vivências, o que é para ti a Musicoterapia?

 

Não é fácil encontrar uma definição própria sem considerar as definições de uma disciplina, com rigor científico, e tão difundida por todo o mundo.

A Federação Mundial de Musicoterapia tem uma definição universal, também em autores como Bruscia ou Wigram poderemos encontrar, para além das definições, intervenções e investigações.

Em termos gerais, a Musicoterapia é uma disciplina que utiliza a música e os seus elementos (ritmo, harmonia e melodia), exercida por um musicoterapeuta acreditado no sentido de ajudar pessoas.

Não querendo fugir à tua pergunta, a musicoterapia é o que me ajuda a facilitar as relações e os processos. Os elementos necessários, na minha perspetiva, são: o som, a música, a relação, o terapeuta e a musicoterapia. Terão que estar todos presentes para poder esboçar uma definição própria mas, não saberia em que ordem os apresentar.

 

 

2 – Quais as principais motivações que te levaram a aprofundar esta área e tornares-te Musicoterapeuta?

 

Penso que foi a emergência da necessidade!

 Comecei a trabalhar com crianças e jovens, era pouco mais velho que eles e já nesse tempome fazia acompanhar pela Viola Irmã, nas colónias e centros de férias; a malta divertia-se bastante!

Bem mais tarde, quando vim para Lisboa tirar psicologia, quase simultaneamente, comecei a trabalhar no Ensino Especial (onde fomos colegas no Claparède Joana!),e fui reparando que aconteciam “coisas”, quando estava a tocar e a cantar com a miudagem, que não aconteciam na relação sem a música.

As crianças do Espetro do Autismo foram também muito importantes na fase inicial da aventura de querer ser musicoterapeuta e de procurar respostas e perguntas para os fenómenos relacionais e da comunicação que a música e o som, (com)partilhados, proporcionavam. Crianças, algumas delas, bastante isoladasmas que davam respostas com o som e a música enquanto mediadores da relação.

Sempre me fez sentido a musicoterapia na sua vertente clínica da saúde mental e do desenvolvimento das crianças e dos jovens, quer pela formação de base em psicologia clínica quer pela experiência no terreno com esta população.

Tive ainda a sorte de encontrar pessoas que me deram motivação para avançar com a Musicoterapia em Portugal, pois que nessa altura por volta de 1998 ainda estávamos a dar os primeiros passos em termos de intervenção. Por um lado as crianças e os jovens no feedback que iam transmitindo, por outro lado alguns amigos ligados à saúde mental e à educação foram deixando a semente por germinar.

A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) foi, e é, a entidade de referência, quer na divulgação da MT, quer na congregação dos profissionais desta área desde há 20 anos a esta parte. Em contraponto temos os Estados Unidos e Europa alta onde a Musicoterapia deu os primeiros passos na sequência da segunda guerra mundial…

Neste momento já existem alguns colegas certificados segundo as normas da Confederação Europeia de Musicoterapia, dos quais faço parte, mas que para aqui chegarmos tivemos que intervir com supervisão, efetuar o processo pessoal e apresentar o nosso trabalho nesta área.

Sei que sabes que por cá, nestas coisas das terapias, ainda vai acontecendo que um músico mais um doente, ou um psicólogo mais a música dão na sua soma musicoterapia. Está errado! O Bruscia, entre outros autores de referência salientam a questão da formação do musicoterapeuta. Caminho longo mas necessário e sempre inacabado. Temos ainda a outra versão, a do professor de musicoterapia para quem intervém nesta área. Os professores de Musicoterapia dão aulas de Musicoterapia a candidatos a musicoterapeutas. Quem intervém é apenas musicoterapeuta. Isto porque me estou a lembrar de um pedido para “professores de musicoterapia”, que saiu em Diário da Republica, para fazerem atividades extra curriculares numa escola que não me lembro o nome. De alguma forma ficamos a perceber que ainda há muito caminho a percorrer para a divulgação da Musicoterapia em Portugal.

Importantes e motivadores foram também alguns obstáculos, que fazem parte das correntes de oposição, mais conservadoras, mas ainda bem que existem.

 

 

 

3 – Dentro da terapia pela Arte podemos encontrar várias formas de comunicação, o teatro, a expressão plástica, entre várias. Qual o papel fundamental da música no processo de terapia?

 

Na musicoterapia a música tem o papel fundamental de ser o mediador, o intermediário da relação terapêutica entre o musicoterapeuta e a pessoa ou pessoas. Seja a música escutada ou agida,quando se trata de musicoterapia, implica sempre um pressuposto terapêutico, com sistematização e objetivos concretos,dirigidos às necessidades de um utente ou utentes e, um musicoterapeuta.

Também enquanto fenómeno holístico, a música mobiliza o corpo, o pensamento e as emoções, o que facilita os movimentos internos das pessoas e que o terapeuta ajuda a reorganizar.

Por vezes a palavra não é suficiente para nos expressarmos,e neste contexto, a música faz “milagres”!

Por isso existem outras disciplinas reconhecidas tais como a dançoterapia, a arte terapia o psicodrama, entre outras, que também utilizam a música ainda que com metodologias e técnicas diferentes da musicoterapia.

Se pensássemos que o teatro, a dança ou a música são terapêuticos, no sentido clínico, todos os artistas seriam saudáveis!

 

 

4 – Ao longo dos teus anos de experiência como tens sentido que a Musicoterapia tem ajudado crianças e jovens no seu percurso pessoal e social?

 

A musicoterapia deve ser tida como uma disciplina complementar que funcione multidisciplinarmente ou seja, não só diretamente com as crianças ou jovens, mas também em inter-relação com as outras disciplinas e com a ecologia dessa população. Isto para que se possam alcançar objetivos de ordem social ou pessoal, em termos de um futuro a longo prazo.

Definitivamente a musicoterapia tem sido um instrumento de trabalho fundamental na intervenção clínica: saúde mental, reeducação e desenvolvimento.

Tive a oportunidade de participar em algumas investigações, nas áreas do desenvolvimento e das problemáticas do comportamento em que os resultados foram bastante evidentes.Neste momento estamos a investigar uma intervenção que está a ser desenvolvida, na área da saúde mental infanto-juvenil no internamento pedopsiquiátrico do Hospital Dª Estefânea, com população adolescente com psicopatologia aguda.Os indicadores têm sido bastante favoráveis.

Na Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, entre outros, a MT está instalada cientificamente e institucionalmente, existindo bastante trabalho e investigação que com estas novas tecnologias, em que podemos estar todos em todo o lado e ao mesmo tempo, a informação é mais célere.

 

 

5 – Quais consideras ser os principais desafios atuais na educação e de que forma pode a Musicoterapia ajudar?

 

O principal desafio na educação talvez seja o de desafiar a própria Educação, (penso que te referes à Escola). Ter a capacidade de se renovar e de se adaptar às novas realidades da sua população, pondo-se também em causa e questionando-se para que se desenvolva saudavelmente e acompanhe o outro, neste caso o Aluno.

A Musicoterapia tem diversas abordagens: contexto hospitalar (diferente de música nos hospitais), na reeducação, comunitária, nos idosos e nas demências, na saúde mental, no desenvolvimento, etc… Se houver necessidade de intervenções terapêuticas nas escolas a musicoterapia é uma excelente disciplina pois na sua essência está a abertura de novos canais de comunicação.

João do Santos referia que é na Escola que a psicopatologia se desenrola, não poderia estar mais de acordo. Ele referia-se aos alunos mas tomaria a liberdade de estender isto a todos os agentes educativos que parecem não ser um problema no funcionamento desta instituição. Ou seja, o que está mal é culpa do outro porque nós somos intocáveis e imutáveis.

Se a Educação não sentir necessidades de índole terapêutica não me faz sentido a musicoterapia na Escola.

Há já alguns anos que acompanho, em musicoterapia, crianças de unidades de ensino estruturado dentro da Escola, ao abrigo de projetos pontuais. Os pais, os professores e os educadores têm vindo a valorizar muito este tipo de intervenção.

 

Talvez se em vez da Educação Musical na Escola, se cultivasse mais a Expressão Musical propriamente dita, não existiria a necessidade da musicoterapia estar também na escola!

 

 

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publicado às 00:02

Em nome da minha expressão individual.

por Maria Joana Almeida, em 01.06.16

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 "Eu só sei desenhar aquilo que vejo" - Luís

 

 

“ Desenhos estereotipados são um entrave no desenvolvimento da criatividade de crianças de educação infantil. Inibem a possibilidade de expressão subjetiva; tiram, muitas vezes, a única oportunidade que a criança tem de expressar o que sente e percebe de si e do seu entorno. E estes desenhos existem aos milhares na internet, ou seja, uma situação cada vez mais difícil de “fugir”. Se não é a escola quem oferece estas imagens estereotipadas, é a família que nem percebe que isso é desaconselhável.” EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires - Año 19 - Nº 193 - Junio de 2014

 

 

Tenho escrito sobre Educação alertando para situações que carecem de mudança; congratulando medidas e profissionais que admiro e que devem ser divulgadas(os). Hoje decidi escrever sobre um tema, ao qual muitas vezes não é dada a devida importância e que traz, no meu ponto de vista, consequências muito negativas.

 

É comum entrarmos numa escola, especialmente no Pré-escolar e 1ºciclo, e vermos espalhados, em fila, nas paredes das escolas, desenhos ora sobre a primavera, ora sobre o são Martinho, ora sobre outro tema que faça sentido fazer um desenho. Criar um desenho é provavelmente dos trabalhos mais pedidos em sala de aula e os mais imediatos. O desenho, como forma de expressão subjetiva, faz parte do crescimento físico e, principalmente, do desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. O seu poder e capacidade de desenvolvimento pessoal e social vai muito para além do que é hoje, no meu entender, valorizado pela escola.

 

Sou uma defensora da utilização de processos de expressão através de vários canais de comunicação: artes plásticas, música, expressão dramática, entre outros. Tive a oportunidade de realizar formações na área e perceber o impacto positivo que têm nos indivíduos e especialmente em crianças com ou sem NEE que encontram, através de outros canais de comunicação, uma forma de expressão e de diálogo que nos permite chegar até si.

 

Não sou apologista e considero antipedagógico o uso excessivo de bonecos e desenhos estereotipados onde o único ato expressivo da criança é pintar dentro de contornos desenhos iguais, todos iguais, para personalidades e vivências diferentes.

Quando entregamos a uma criança o contorno de uma boneca, ou um boneco com caraterísticas muito “perfeitas” com um determinado tipo de pele, determinado tipo de roupa e feições, estamos, subliminarmente, a passar mensagens perigosas. Estamos a criar ou a cristalizar estereótipos sociais passando a imagem de que a menina e o menino deverão ser assim. Da mesma forma quando pedimos para desenhar uma nuvem entregando uma forma pré estabelecida e usando a cor azul, estamos a assumir um único formato e cor possível para representar uma nuvem. Ao encararmos assim este processo estamos a condicionar a expressão individual obrigando a criança a corresponder a uma imagem criada que não é a sua. Em última instância não estamos a responder a um dos papéis fundamentais do professor/educador que deve ser, também, a quebra de estereótipos ajudando os seus alunos a olhar o mundo através dos seus próprios olhos criando um espaço na sociedade onde possa agir e comunicar com a sua própria identidade sem o fechar em contornos.

 

Em muitas ocasiões, sem quase nos darmos conta, entramos no jogo das competições entre os trabalhos desenvolvidos pelos alunos. Os pais, muitas vezes massacrados com o pedido de desenhos e trabalhos manuais, não querendo defraudar as expetativas do professor ou até mesmo do filho, acabam por realizar quase todo o trabalho. Apressam o processo pela falta de tempo colocando elementos que o possam valorizar ainda mais boicotando, ingenuamente, um momento de comunicação, de partilha de ideias e estimulação da criatividade onde reside o verdadeiro valor destas atividades.

 

É importante não esquecer que o nosso posicionamento em sociedade revela as ideias e princípios de que nos vamos apropriando ao longo do nosso crescimento. Se nos é vedada a possibilidade de também crescermos através da nossa expressão individual, dificultamos o desenvolvimento de um pensamento divergente, essencial para a nossa capacidade de inovar.

 

 

 

 

PS: Quero agradecer a Aurora Torrodão e Maria Socas por me terem ensinado, através de maravilhosos exemplos, esta necessidade de permitir que a criança se expresse por si. “Não faças tu o modelo único para a criança, deixa-a criar” Obrigada 

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publicado às 20:43


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