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O que deixámos de valorizar.

por Maria Joana Almeida, em 25.09.15

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Um dos momentos formativos mais marcantes, ao longo do meu percurso, foi sem dúvida o discurso de Camila Batmanghelidjh numa conferência intitulada “Teenagers – Angry, Anxious and Hunting: How to help them heal” no Centre of Child Mental Health em Londres.

 

Decidi assistir a esta conferência por sentir necessidade de ouvir, da voz de quem trabalha com adolescentes em risco, as suas experiências e participar num espaço onde as questões e ansiedades de cada um pudessem encontrar um eco.

 

A Camila trabalha há mais de 30 anos com adolescentes e é uma apaixonada pelo seu trabalho revelando uma capacidade oratória invejável. Poderia discursar durante quatro horas seguidas e continuaríamos a beber das suas palavras com o mesmo entusiasmo inicial com que começámos. Idealizou e criou dois espaços em Londres, “Kid´s Company” e “Place 2 be” cujo objetivo é tentar dar resposta a jovens sem enquadramento familiar, social e escolar. São dois espaços assentes na premissa de que nenhuma criança nasce violenta ou criminosa, mas sim que esta conduta é o resultado e a evidência da exposição a este tipo de comportamentos.

 

As ideias que aqui apresento fizeram parte da minha intervenção no Instituto de Terapias Expressivas intitulada “Adolescentes em risco – Compreender e ajudar” onde tentei fazer um paralelismo entre as palavras de Camila e a realidade destes jovens na nossa sociedade, fruto da minha experiência e das conversas com profissionais da área.

 

Para um melhor enquadramento desta realidade é importante ficarmos a par de alguns dados bastante ilustrativos. Em Portugal no ano de 2014 as CPCJ (Comissão e Proteção de Crianças e Jovens) acompanharam 73.019 crianças e jovens. De entre as causas da necessidade deste acompanhamento são indicadas: negligência familiar; exposição a comportamentos que comprometem o bem-estar e desenvolvimento da criança/jovem e manifestação de comportamentos que afetam o seu próprio bem-estar. Estes dados demonstram uma percentagem significativa de crianças e jovens vulneráveis a revelar comportamentos de risco.

 

Sabemos que a necessidade de um ambiente familiar suficientemente seguro, protetor e afetivo é a base para um crescimento saudável. Por diversos motivos, esta base saudável não é vivida por muitas crianças. Um espaço familiar violento, onde as necessidades básicas de alimentação, segurança, conforto e amor não existem, dificilmente vão permitir o desenvolvimento de jovens com recursos internos para responder aos desafios da sociedade de uma forma calma, afetiva e segura. Para quem, felizmente, cresceu num ambiente com afeto, onde as suas necessidades foram supridas tem, muitas vezes, dificuldade em compreender os comportamentos disruptivos.

 

Um dos aspetos mencionados por Camila no seu discurso (e bastante revelador) foi a existência, por parte destes jovens, de um não sentimento de pertença à sociedade. Num mundo onde reinam os rótulos, estes jovens encontram-se em “terra de ninguém”. Não encontram um enquadramento nas escolas, nem nos serviços de saúde porque os problemas emocionais não se tratam com um comprimido, nem possuem resultados imediatos. É necessário um investimento grande exigindo recursos sociais e económicos.

 

Quando trabalhamos com adolescentes com histórias familiares difíceis, a desconfiança, a instabilidade emocional, a irrequietude e as respostas violentas são sentimentos constantes. Alterar este padrão exige um perfil específico, aquilo a que Camila intitula de “pensamento terapêutico”. É necessário uma grande disponibilidade emocional e uma atitude genuína para facilitar o desenvolvimento destes jovens. Estabilizar para poder criar espaço para aprendizagem. Sem falsos moralismos, sem caridade e sem infantilizar.

 

Ao realizarmos o exercício de nos imaginarmos num ambiente de grande hostilidade; constantemente ansiosos que algo de mal possa acontecer; sem sentirmos manifestações de apoio ou amor e tentar, neste ambiente, conseguir que a nossa atenção fique concentrada em alguém que nos está a tentar ensinar algo, percebemos que sem estabilidade é impossível aprender

 

Perante estas questões imperam grandes desafios ao sistema educativo. Nos moldes em que existe, a escola encontra muitas dificuldades em conseguir dar uma resposta adequada a estes casos. Os professores vêem-se rodeados de imposições constantes e encarregues de uma multiplicidade de papéis que lhes nega a disponibilidade para se dedicarem ao essencial, os seus alunos. Para frustração dos bons profissionais, os alunos reduzem-se a números deixando de ser o João, a Maria, a Sofia, o Manel. Ao retirar a humanidade, a escola acaba por compactuar na marginalização de muitos adolescentes.

 

É muito importante compreendermos que só podemos esperar sucessos académicos quando encontramos tranquilidade e quando as crianças sentem que encontraram um lugar seguro no qual confiam. Compreender também que estes sucessos demoram tempo, não são imediatos, nem podem ser somente quantitativos. Estes sucessos revelam-se lentamente, nos pequenos gestos e por vezes em frases simbólicas como “pedimos gomas como resgate”.

 

Esta é a questão inquietante: Que tipo de serviços estamos nós a desenvolver? Ao sermos guiados apenas pelo ideal económico deixamos de estar atentos e incapazes de responder às necessidades dos mais vulneráveis.

 

Este é um tema sensível, de difícil resolução e um grande desafio. Mas a realidade é que ao continuarmos a falhar enquanto sociedade, deixamos de ter a legitimidade para poder criticar os resultados a que assistimos.

 

Termino com um excerto de um dos livros de Camila Batmanghelidjh que traduzo agora para português.

“Vários programas de regeneração têm investido dinheiro em reabilitar edifícios, pintando-os, transformando os ghettos em espaços mais agradáveis. Mas a reabilitação que falhou e tem vindo a falhar é a reabilitação emocional: Cuidar de crianças que escondem por detrás de uma máscara forte um apelo para serem ouvidas e sentirem que existem. A reabilitação emocional é difícil de medir, mas é o requisito necessário para o sucesso de uma nação. Neste tempo de austeridade uma grande quantidade de dinheiro tem vindo a ser gasto para punir jovens que participam em manifestações violentas e motins. Imaginem esse dinheiro a ser investido na intervenção precoce com jovens que gritam por ajuda silenciosamente e pedem amor. Muitas crianças escolhem a rua porque acaba por ser um espaço mais seguro do que a própria casa.(In “Mind the Child” de Camila Batmanghelidjh, 2013)

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publicado às 11:42

Gomas?

por Maria Joana Almeida, em 21.09.15

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Não sou grande apologista de frases feitas mas é inegável que em muitos momentos da nossa vida elas fazem sentido assentando que nem uma luva. Surgem de repente, com o objetivo de nos fazer lembrar que essa afirmação sempre existiu e que finalmente ganhou peso naquele preciso momento.

Ouvir é um ato de amor, é o mote para esta história sobre gomas.

 

Quem já espreitou este espaço com certeza que já se questionou (e já me questionaram) sobre o significado do nome atribuído a este blog. “Pedimos gomas como resgate” é uma frase curiosa e das melhores frases que ouvi nos últimos tempos servindo como uma imagem perfeita daquilo que entendo ser um clima saudável de aprendizagem.

 

Há dois anos fui responsável por uma turma PIEF, um programa criado para dar resposta a alunos adolescentes que se encontram em situação de abandono ou absentismo escolar. O projeto passa por desenvolver uma resposta educativa mais ligada à prática certificando o 6ºano e 9ºano de escolaridade.

 

O Centro de Educação e Formação era composto por quatro turmas, duas de 2ºciclo e duas de 3ºciclo com jovens entre os 15 e 18 anos oriundos de diversos estratos sociais e culturais e com grande variedade de interesses e vulnerabilidades, o que exigia uma maior diferenciação pedagógica e um acompanhamento estreito entre escola, família e ação social.

 

Apesar das diferenças relatadas existiam vários pontos em comum nestes jovens. O rótulo negativo em relação à escola; a dificuldade em estabelecer relações saudáveis; a facilidade em responder de uma forma violenta (verbalmente e fisicamente) e a dificuldade em definir limites, fruto de um percurso de vida que lhes dificultou o desenvolvimento destas competências. Chegar a estes jovens não é fácil. Motivá-los para a aprendizagem e conteúdos programáticos, mesmo ligados à prática, é um desafio.

 

É fácil prever que o início do relacionamento foi muito difícil, cheio de recuos e avanços, num jogo do confia – desconfia. A frustração existia e o regresso a casa nem sempre significava calma ou descanso, mas sim o pensamento permanente numa questão inquietante: “Como é que vai ser amanhã?”.

 

Quem já lidou com esta população sabe que o impacto inicial é duro. O caminho até nos conhecermos e estabelecer uma relação de confiança é de grande cansaço físico e mental. A nossa atitude aliada a colegas de trabalho com o mesmo foco é aquilo que pode fazer a diferença.

 

Mais do que insistir num conteúdo programático é preciso primeiro organizar. Saber ouvir, não desistir, conversar, esmiuçar, voltar a conversar, esmiuçar outra vez, mas principalmente saber ouvir até que os alunos sintam que eu me importo e que quero que eles se importem também. Não sou defensora de que nos devemos desfazer em táticas e floreados nas aulas para que os alunos possam ficar atentos e interessados no tema que estamos a trabalhar, sou apologista de definir limites, de encontrar uma forma real e relevante do tema fazer sentido, de uma boa dose de sentido de humor e principalmente, de transmitir uma mensagem de que contam comigo para trabalhar com eles e tentar alcançar sucessos quer sejam académicos ou pessoais, mas que esse caminho não é unilateral. É feito a dois, professor – aluno, sempre assente numa premissa de respeito e envolvimento mútuo mas nunca de condescendência. E isto, para mim, é trabalhar com afeto.

 

A meio do projeto posso dizer que era um prazer poder conversar com estes jovens, rir-me conjuntamente e desenvolver conversas com sentido. É óbvio que não conseguimos chegar a todos e penso que é importante ter essa consciência. Não podemos no entanto não tentar.

 

Durante o ano letivo fiquei conhecida como a professora simpática que gostava de lhes “roubar” uma goma cada vez que as traziam para o Centro. “Fogo, a professora é uma gulosa!”. “Eu bem que mereço!” Respondia eu, sorriam eles.

 

Numa das tardes boicotei um pequeno jogo de futebol tirando a bola que incomodava as pessoas que passavam na rua e a própria estrutura do edifício que não iria durar muito tempo. A bola foi levada, naturalmente sob protestos, e escondida no meu gabinete. Refilavam querendo-a de volta, mas não ousaram insistir mais porque sabiam que eu tinha razão. No dia anterior a um passeio que iriamos fazer perto de Monsanto, em conversa, um dos jovens disse: “Já sei! Por causa da bola, quando formos ao passeio, raptamos a professora Joana e pedimos gomas como resgate”  (sorrisos)

 

“Pedimos gomas como resgate”, parafraseando uma amiga minha, “tem muito que se lhe diga.” Tem efetivamente. As gomas são o símbolo do afeto. Foi a forma de dizer:

- Eu envolvo-me quando eu sinto que tu te importas comigo.

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publicado às 12:05

Educação sem rótulos

por Maria Joana Almeida, em 18.09.15

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 No grande tema da Educação, principalmente nas dificuldades que são vividas por vários jovens e, por conseguinte, por várias famílias, é importante atribuir um nome a uma dificuldade específica ou perturbação ao nível do desenvolvimento/aprendizagem. Permite pegar na “ponta do novelo”, encaixar num conceito e administrar um “tratamento”. Mas é essencial fazê-lo sem rótulos.

 

Sem rótulos porque, quando classificamos uma dificuldade sentida por uma criança em idade escolar, quando atribuímos um rótulo (vejamos os mais conhecidos no universo da educação especial: hiperativo, disléxico, síndrome de oposição, déficit de atenção) estamos, por um lado a organizar comportamentos, mas por outro, quase inconscientemente, a quebrar a individualidade de cada um. O Mário e a Maria poderão ambos ser apelidados de disléxicos, mas a Maria não é igual ao Mário e a intervenção não é, nem deverá ser, unitária e unilateral.

 

Ao longo dos anos como professora de Educação Especial tenho tido, a par de alguma instabilidade regular sobejamente conhecida nesta área, a sorte de ter passado por várias experiências tanto no ensino público como no ensino privado. Trabalhei com crianças com comprometimentos cognitivos; problemas comportamentais e sociais, dificuldades de aprendizagem e perturbações do desenvolvimento.

 

Apesar de toda a diversidade por onde passei e continuarei a passar, existe um denominador comum essencial e, esse sim, verdadeiramente fundamental para o desenvolvimento de todos: a capacidade de investimento do professor e o poder da relação afetiva. Mais do que a identificação de um problema e aplicação de uma solução muitas vezes massificada e generalizada, é a qualidade da relação, respeitando sempre a identidade, que permite a evolução.

 

Este é um blog sem rótulos. Tem o intuito de partilhar, com uma cadência semanal, à segunda feira, um conceito, um artigo que permita a reflexão e dar a conhecer o meu trabalho de intervenção nesta área.

 

 

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publicado às 01:36


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