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Pedimos gomas como resgate

Este blog surge da vontade de partilhar o meu trabalho e uma visão da Educação. A minha visão.

Pedimos gomas como resgate

Este blog surge da vontade de partilhar o meu trabalho e uma visão da Educação. A minha visão.

Um ano de gomas.

 

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Há precisamente um ano atrás escrevia o primeiro texto deste blog. Um texto de apresentação sobre o que seria o Pedimos Gomas Como Resgate.

 

À mesma hora de um ano atrás publicava-o no Facebook com alguma ansiedade espreitando volta e meia os “gostos”. Esta nova forma de aprovação já está impregnada. Com os “gostos” vieram também muitos comentários e cada comentário era no fundo uma palavra de apreço e um acenar com um sim “É isso, continua”.

 

Ao longo deste ano regrei-me (inicialmente) a escrever pelo menos um texto por semana. Acho sempre que tenho muito para dizer. Como dizia a uma amiga minha, quando lhe falava de algumas reuniões onde teimava em ser muito assertiva “Eu se calhar tenho a mania que sei muito acerca disto”. Mas sei ainda muito pouco. Sei o que partilhei com os outros e acima de tudo o que aprendi nessa interação. E gosto muito de escrever. Acho que é a maneira onde me expresso um pouco melhor. Imagino-me muitas vezes a ser uma escritora que todos gostam de ler e várias vezes citada. Talvez um dia. É um longo caminho a percorrer e onde talvez nunca chegue. Mas dá-me prazer faze-lo como sei e consigo.

 

Neste blog surgiu também o modelo das “ 5 perguntas, 5 respostas” em formato de breves entrevistas. Foi criado para dar a conhecer pessoas que muito admiro e nas quais reconheço um grande valor pessoal e profissional. Guiaram-me e guiam muitas vezes no meu percurso e há uma lista grande de mais profissionais indispensáveis neste caminho. Mas ainda só lá vai um ano. Com o tempo vieram outros convites para escrever noutras plataformas. O Blog ComRegras foi um deles. Um projeto que me dá, igualmente, muito prazer, especialmente porque somos muitos, cada um com a sua experiência e usando um lugar comum, isso enriquece-nos.

 

 

Como forma de assinalar este primeiro ano decidi juntá-lo a uma outra data comemorativa, o meu aniversário a 4 de Outubro, e fazer um pequeno evento/tertúlia onde, juntamente os profissionais que convidei, falar um pouco sobre várias temáticas dentro deste mundo gigante da Educação. É que o Gomas faz um ano, mas a autora faz mais uns quantos.

 

A frase emblemática “Pedimos Gomas Como Resgate” sem saber criou em si própria uma metáfora. A metáfora para descrever o meu entendimento sobre Educação que só faz sentido com amor e afeto que, como já escrevi, não se traduz em palmadinhas nas costas, nem em condescendência. Revela-se quando decidimos olhar e compreender as dificuldades do aluno; quando lutamos e decidimos por valorizar a escola, os professores; quando discutimos a importância da redução dos alunos por turma; quando não estereotipamos os cursos profissionais em detrimento dos outros cursos e acima de tudo quando não nos escravizamos perante o currículo.

 

É que há poucas coisas mais bonitas do que derrubar barreiras, depois de tanto tentar e de repente fazer sorrir quem não sorria e fazer ouvir quem não ouvia. Trabalhar com crianças e jovens é muitas vezes assim. Quantas vezes precisam de ser resgatadas para se poderem revelar.

 

Quero festejar este dia com muitas gomas que na essência deste blog são um sinal de afeto. No dia 4 vai ser assim.

Setembro e o recomeçar.

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Setembro. O mês que marca o início do ano letivo e um mês especial para este blog que está a poucos dias de comemorar o seu primeiro ano de existência. Um ano de um projeto pessoal que me tem dado a oportunidade de partilhar a minha visão; o trabalho de pessoas de áreas específicas que muito admiro e o reconhecimento através de um feedback muito positivo que se tem mostrado fundamental para continuar.

 

É inevitável abordar como primeiro tema a colocação de professores, porque este é também o mês onde os professores conhecem as escolas onde ficaram colocados e onde muitos ainda aguardam colocação.

 

No último texto de final de Julho apontei como um dos aspetos positivos, a indicação, por parte do Ministério da Educação, de uma atempada colocação de professores. O novo grupo à frente do Ministério da Educação tem vindo a demonstrar uma postura mais próxima da realidade das escolas e mais próxima dos professores tendo conseguido, numa total oposição aos últimos anos, uma postura mais agregadora. Acreditei, juntamente como muitos professores, na celeridade da publicação das listas de colocação. Quando saíram, apenas a dia 30 de Agosto, não pude deixar de ficar surpreendida pelo conhecimento tardio. Por um lado feliz pois mantive a colocação na mesma escola o que muito me agrada, mas por outro lado algo desiludida por considerar que a publicação das listas continua a ser tardia o que não coincide com o discurso e percurso até aqui demonstrado por este "novo" Ministério da Educação.

 

No entanto, a verdade é que a extinção da Bolsa de Contratação de Escola e a utilização de uma lista única acabou por trazer resultados positivos. A lista foi somente conhecida a 30 de Agosto mas, tal como avançou o jornal Diário de Notícias “Em 2015, por esta altura, estavam colocados 3782 professores. Este ano, sobretudo devido à extinção das Bolsas de Contratação de Escola, estão preenchidas 7306 vagas antes do início do ano letivo” http://www.dn.pt/portugal/interior/concurso-dos-professores-quase-duplica-colocados-antes-do-arranque-das-aulas-5364131.html .

E isto é um bom presságio.

 

Relativamente à Bolsa de Contratação de Escola fui favorável à sua existência porque entendia ser uma forma de promover mais autonomia nas escolas e a possibilidade de lançar um perfil necessário tendo em conta as especificidades de cada espaço educativo. A verdade é que esta plataforma acabou por apresentar erros; ser pouco célere e duplicar colocações nos professores em várias escolas simultaneamente adiando o início de um ano escolar a tempo e horas. Desta forma a sua extinção, tal como estava concebida, acabou por se tornar menos uma barreira a um início de ano com menos sobressaltos.

 

Esperemos que seja um quebrar de um ciclo que trouxe inúmeros problemas a muitas escolas, muitos professores e especialmente a muitos alunos que em muitos casos privou turmas inteiras de professores até meio do ano letivo.

 

 

 

Final do ano letivo - Entre reticências e lufadas de ar fresco.

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O ano letivo terminou e entramos agora num momento de pausa para recarregar energias e preparar o reinício de uma nova etapa que esperamos sempre trazer boas reflexões e vontade de concretizar ideias. Assim como este espaço que retomará em Setembro comemorando nessa altura o seu primeiro ano de existência.

 

Neste último texto, antes das férias, quero salientar as medidas anunciadas ao longo deste ano letivo que despertaram algumas reticências e aquelas que considero serem, finalmente, uma lufada de ar fresco em relação aos últimos quatro anos no mundo da Educação.

 

 

Na categoria das (….)

 

- A suspensão dos exames do 4º e 6º ano, substituídos pelas provas de aferição em anos intermédios no 2º, 5º e 8ºano gerou alguma inquietação por parte das escolas que olharam desconfiadas para esta medida alterando, já em processo de arranque do ano escolar, rotinas sem tempo suficiente para uma maior maturação da ideia. Perante a situação o Ministério da Educação decidiu reformular e optou por delegar nas escolas a decisão de realizar as provas de aferição no presente ano ou no próximo ano letivo. Fui e sou favorável a esta medida se as provas servirem efetivamente para perceber, com critério, as áreas que carecem de uma intervenção estruturada e atempada sem a habitual resolução “chapa 5” igual para todos.

 

- A ideia de um professor tutor como forma de criar uma proximidade mais individual com o aluno. Esta medida tem como objetivo a existência de uma referência, em contexto escolar, que permita um percurso mais sustentado.

Este é um aspeto que considero ser fundamental, mas que coloca algumas reticências no que diz respeito a quem e como vai desempenhar esta função. Tal como defendi n Blogue Comregras ” Esta medida não pode ser vista como mais um encargo escolar, mais um “trabalho” atribuído “arbitrariamente”. Desempenhar esta função é o que pode permitir fazer a diferença num sistema educativo ainda muito escravo do currículo."

 

- As reuniões de avaliação no final do ano letivo foram marcadas por uma diretriz do Ministério da Educação que apontava a retenção como última medida a aplicar, especialmente em anos de transição. Este ponto suscitou diferentes reações e entendimentos criando inúmeras situações de voto a menções negativas que haviam sido atribuídas aos alunos de modo a evitar a retenção a todo o custo.

 

De todos os pontos aqui mencionados este foi, provavelmente, dos mais sensíveis. Desencadeou situações, em muitos casos, incoerentes premiando algumas atitudes pouco adequadas e uma alguma arbitrariedade aleatória na atribuição de notas. Este é mais um exemplo de como uma legislação à partida bem concebida pode trazer diferentes entendimentos ou tomada demasiado “à letra”.

Recordo aqui o texto que escrevi sobre as retenções.

http://pedimosgomascomoresgate.blogs.sapo.pt/na-giria-do-chumbar-ou-passar-5441

 

 

Na categoria de “lufada de ar fresco”

 

- O despacho normativo 1H – 2016 que vem salientar a necessidade de os alunos com Necessidades Educativas Especiais, nomeadamente dos alunos abrangidos pela alínea e) Currículo Específico Individual, poderem estar integrados em mais disciplinas sem ser somente as áreas de expressão (como é comum). Esta medida vem no sentido de tentar quebrar um ciclo, que existe em muitas escolas, de que estes meninos com Necessidades Educativas Especiais pertencem apenas ao Departamento de Educação Especial.

 

- A necessidade de reavaliar os alunos que são abrangidos pelo Dec.Lei 3/2008 no sentido de analisar com rigor as excessivas referenciações. Temos assistido a aumento crescente de crianças com o rótulo do "especial"  que em algumas situações são resultado de avaliações pouco precisas devido a diferentes formas de interpretar a lei (muitas escolas têm entendimentos diferentes relativamente ao estipulado na legislação).

 

- Um outro aspeto a salientar, que todos os anos faz correr muita tinta, alvo de críticas constantes e pesadelos junto do Ministério da Educação - o Concurso de professores. Este ano existe a indicação de que os professores serão notificados mais atempadamente das suas colocações existindo assim indícios de um processo mais humanizado. O facto de todos os docentes que perto do prazo final para a candidatura ainda não tinham submetido a manifestação de preferências terem sido contactados telefonicamente ou notificados por mail para não se esquecerem de o fazer, revela uma atitude menos mecanizada e mais humanista.

 

 

A sensação de não sermos mais um número permite um olhar e ligação diferente para com um Ministério que nos últimos anos tem sido o bicho papão, confuso e cinzento mas que começa agora a surgir com uma atitude mais apaziguadora.

 

 

Les Choristes (Os Coristas)

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Um breve olhar sobre uma listagem daqueles que considero serem os melhores filmes a que assisti fez-me rever “Os Coristas”.

 

Assisti a este filme há dez anos e ficou rapidamente marcado como uma das mais comoventes reflexões sobre o caminho percorrido entre professor e alunos na procura de uma forma de comunicação entre ambos.

 

Pierre Morhange é um antigo aluno de uma escola intitulada” Fond de l'Etang - O fundo do pântano”, um internato para rapazes nos anos 40. Já adulto reencontra o diário do seu antigo professor e maestro Clement Mathieu e juntamente com Pépinot, outro ex-aluno revivem as histórias dessa altura.

 

A história de Clement Mathieu, o professor que começou a dar aulas no Fond de l'Etang – O fundo do pântano (uma metáfora por sim só pouco convidativa) e conhece um grupo de rapazes tristes, resignados, onde a rudeza do diretor e a enclausura retirou em parte os risos espontâneos e pueris das crianças e a esperança. Estes jovens olham para qualquer novo professor com receio, com altivez, com uma defesa imediata perante a possibilidade de “agressão”. Mas Clement é também maestro e pela música, gentileza e sentido de humor começa a construir uma turma, um grupo empenhado em torno de um objetivo. Um desses alunos era precisamente Morhange, um jovem com uma voz brilhante a que Clement se agarra para poder salvá-lo.

 

Mais tarde Morhange torna-se também maestro, numa escolha claramente marcada pela relação que estabeleceu com o seu professor Clement Mathieu e que lhe permitiu acreditar nele e lutar.

 

“Os Coristas” é um filme obrigatório. Provavelmente dos filmes mais comoventes de sempre que não passa despercebido principalmente a quem é professor. É uma importante lição sobre educação e sobre o amor, mas principalmente sobre querer comprometer-se com os outros e consigo próprio e é esta condição que define um mestre.

Sobre Musicoterapia com João Laureano

 

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Já há algum tempo que queria convidar o João não só para dar a conhecer a sua visão enquanto Musicoterapeuta, mas também pelo seu percurso rico em vivências tanto a nível da intervenção clínica como escolar com jovens e adultos.

Conheci o João nos meus primeiros anos de profissão no Colégio Eduardo Claparède, a sua visão e forma de lidar com os alunos foi  fundamental para construir um conceito e o modelo pedagógico com o qual me identifico. A relação estabelecida com os alunos e o entusiamo pelo seu trabalho facilitam a empatia e a vontade de querer fazer mais e melhor.

 

 

5 perguntas e 5 respostas com João Laureano.

 

 

1 – Poderia procurar na Internet uma definição de Musicoterapia, mas gostaria de te perguntar, com base no teu percurso e vivências, o que é para ti a Musicoterapia?

 

Não é fácil encontrar uma definição própria sem considerar as definições de uma disciplina, com rigor científico, e tão difundida por todo o mundo.

A Federação Mundial de Musicoterapia tem uma definição universal, também em autores como Bruscia ou Wigram poderemos encontrar, para além das definições, intervenções e investigações.

Em termos gerais, a Musicoterapia é uma disciplina que utiliza a música e os seus elementos (ritmo, harmonia e melodia), exercida por um musicoterapeuta acreditado no sentido de ajudar pessoas.

Não querendo fugir à tua pergunta, a musicoterapia é o que me ajuda a facilitar as relações e os processos. Os elementos necessários, na minha perspetiva, são: o som, a música, a relação, o terapeuta e a musicoterapia. Terão que estar todos presentes para poder esboçar uma definição própria mas, não saberia em que ordem os apresentar.

 

 

2 – Quais as principais motivações que te levaram a aprofundar esta área e tornares-te Musicoterapeuta?

 

Penso que foi a emergência da necessidade!

 Comecei a trabalhar com crianças e jovens, era pouco mais velho que eles e já nesse tempome fazia acompanhar pela Viola Irmã, nas colónias e centros de férias; a malta divertia-se bastante!

Bem mais tarde, quando vim para Lisboa tirar psicologia, quase simultaneamente, comecei a trabalhar no Ensino Especial (onde fomos colegas no Claparède Joana!),e fui reparando que aconteciam “coisas”, quando estava a tocar e a cantar com a miudagem, que não aconteciam na relação sem a música.

As crianças do Espetro do Autismo foram também muito importantes na fase inicial da aventura de querer ser musicoterapeuta e de procurar respostas e perguntas para os fenómenos relacionais e da comunicação que a música e o som, (com)partilhados, proporcionavam. Crianças, algumas delas, bastante isoladasmas que davam respostas com o som e a música enquanto mediadores da relação.

Sempre me fez sentido a musicoterapia na sua vertente clínica da saúde mental e do desenvolvimento das crianças e dos jovens, quer pela formação de base em psicologia clínica quer pela experiência no terreno com esta população.

Tive ainda a sorte de encontrar pessoas que me deram motivação para avançar com a Musicoterapia em Portugal, pois que nessa altura por volta de 1998 ainda estávamos a dar os primeiros passos em termos de intervenção. Por um lado as crianças e os jovens no feedback que iam transmitindo, por outro lado alguns amigos ligados à saúde mental e à educação foram deixando a semente por germinar.

A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) foi, e é, a entidade de referência, quer na divulgação da MT, quer na congregação dos profissionais desta área desde há 20 anos a esta parte. Em contraponto temos os Estados Unidos e Europa alta onde a Musicoterapia deu os primeiros passos na sequência da segunda guerra mundial…

Neste momento já existem alguns colegas certificados segundo as normas da Confederação Europeia de Musicoterapia, dos quais faço parte, mas que para aqui chegarmos tivemos que intervir com supervisão, efetuar o processo pessoal e apresentar o nosso trabalho nesta área.

Sei que sabes que por cá, nestas coisas das terapias, ainda vai acontecendo que um músico mais um doente, ou um psicólogo mais a música dão na sua soma musicoterapia. Está errado! O Bruscia, entre outros autores de referência salientam a questão da formação do musicoterapeuta. Caminho longo mas necessário e sempre inacabado. Temos ainda a outra versão, a do professor de musicoterapia para quem intervém nesta área. Os professores de Musicoterapia dão aulas de Musicoterapia a candidatos a musicoterapeutas. Quem intervém é apenas musicoterapeuta. Isto porque me estou a lembrar de um pedido para “professores de musicoterapia”, que saiu em Diário da Republica, para fazerem atividades extra curriculares numa escola que não me lembro o nome. De alguma forma ficamos a perceber que ainda há muito caminho a percorrer para a divulgação da Musicoterapia em Portugal.

Importantes e motivadores foram também alguns obstáculos, que fazem parte das correntes de oposição, mais conservadoras, mas ainda bem que existem.

 

 

 

3 – Dentro da terapia pela Arte podemos encontrar várias formas de comunicação, o teatro, a expressão plástica, entre várias. Qual o papel fundamental da música no processo de terapia?

 

Na musicoterapia a música tem o papel fundamental de ser o mediador, o intermediário da relação terapêutica entre o musicoterapeuta e a pessoa ou pessoas. Seja a música escutada ou agida,quando se trata de musicoterapia, implica sempre um pressuposto terapêutico, com sistematização e objetivos concretos,dirigidos às necessidades de um utente ou utentes e, um musicoterapeuta.

Também enquanto fenómeno holístico, a música mobiliza o corpo, o pensamento e as emoções, o que facilita os movimentos internos das pessoas e que o terapeuta ajuda a reorganizar.

Por vezes a palavra não é suficiente para nos expressarmos,e neste contexto, a música faz “milagres”!

Por isso existem outras disciplinas reconhecidas tais como a dançoterapia, a arte terapia o psicodrama, entre outras, que também utilizam a música ainda que com metodologias e técnicas diferentes da musicoterapia.

Se pensássemos que o teatro, a dança ou a música são terapêuticos, no sentido clínico, todos os artistas seriam saudáveis!

 

 

4 – Ao longo dos teus anos de experiência como tens sentido que a Musicoterapia tem ajudado crianças e jovens no seu percurso pessoal e social?

 

A musicoterapia deve ser tida como uma disciplina complementar que funcione multidisciplinarmente ou seja, não só diretamente com as crianças ou jovens, mas também em inter-relação com as outras disciplinas e com a ecologia dessa população. Isto para que se possam alcançar objetivos de ordem social ou pessoal, em termos de um futuro a longo prazo.

Definitivamente a musicoterapia tem sido um instrumento de trabalho fundamental na intervenção clínica: saúde mental, reeducação e desenvolvimento.

Tive a oportunidade de participar em algumas investigações, nas áreas do desenvolvimento e das problemáticas do comportamento em que os resultados foram bastante evidentes.Neste momento estamos a investigar uma intervenção que está a ser desenvolvida, na área da saúde mental infanto-juvenil no internamento pedopsiquiátrico do Hospital Dª Estefânea, com população adolescente com psicopatologia aguda.Os indicadores têm sido bastante favoráveis.

Na Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, entre outros, a MT está instalada cientificamente e institucionalmente, existindo bastante trabalho e investigação que com estas novas tecnologias, em que podemos estar todos em todo o lado e ao mesmo tempo, a informação é mais célere.

 

 

5 – Quais consideras ser os principais desafios atuais na educação e de que forma pode a Musicoterapia ajudar?

 

O principal desafio na educação talvez seja o de desafiar a própria Educação, (penso que te referes à Escola). Ter a capacidade de se renovar e de se adaptar às novas realidades da sua população, pondo-se também em causa e questionando-se para que se desenvolva saudavelmente e acompanhe o outro, neste caso o Aluno.

A Musicoterapia tem diversas abordagens: contexto hospitalar (diferente de música nos hospitais), na reeducação, comunitária, nos idosos e nas demências, na saúde mental, no desenvolvimento, etc… Se houver necessidade de intervenções terapêuticas nas escolas a musicoterapia é uma excelente disciplina pois na sua essência está a abertura de novos canais de comunicação.

João do Santos referia que é na Escola que a psicopatologia se desenrola, não poderia estar mais de acordo. Ele referia-se aos alunos mas tomaria a liberdade de estender isto a todos os agentes educativos que parecem não ser um problema no funcionamento desta instituição. Ou seja, o que está mal é culpa do outro porque nós somos intocáveis e imutáveis.

Se a Educação não sentir necessidades de índole terapêutica não me faz sentido a musicoterapia na Escola.

Há já alguns anos que acompanho, em musicoterapia, crianças de unidades de ensino estruturado dentro da Escola, ao abrigo de projetos pontuais. Os pais, os professores e os educadores têm vindo a valorizar muito este tipo de intervenção.

 

Talvez se em vez da Educação Musical na Escola, se cultivasse mais a Expressão Musical propriamente dita, não existiria a necessidade da musicoterapia estar também na escola!

 

 

Em nome da minha expressão individual.

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 "Eu só sei desenhar aquilo que vejo" - Luís

 

 

“ Desenhos estereotipados são um entrave no desenvolvimento da criatividade de crianças de educação infantil. Inibem a possibilidade de expressão subjetiva; tiram, muitas vezes, a única oportunidade que a criança tem de expressar o que sente e percebe de si e do seu entorno. E estes desenhos existem aos milhares na internet, ou seja, uma situação cada vez mais difícil de “fugir”. Se não é a escola quem oferece estas imagens estereotipadas, é a família que nem percebe que isso é desaconselhável.” EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires - Año 19 - Nº 193 - Junio de 2014

 

 

Tenho escrito sobre Educação alertando para situações que carecem de mudança; congratulando medidas e profissionais que admiro e que devem ser divulgadas(os). Hoje decidi escrever sobre um tema, ao qual muitas vezes não é dada a devida importância e que traz, no meu ponto de vista, consequências muito negativas.

 

É comum entrarmos numa escola, especialmente no Pré-escolar e 1ºciclo, e vermos espalhados, em fila, nas paredes das escolas, desenhos ora sobre a primavera, ora sobre o são Martinho, ora sobre outro tema que faça sentido fazer um desenho. Criar um desenho é provavelmente dos trabalhos mais pedidos em sala de aula e os mais imediatos. O desenho, como forma de expressão subjetiva, faz parte do crescimento físico e, principalmente, do desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. O seu poder e capacidade de desenvolvimento pessoal e social vai muito para além do que é hoje, no meu entender, valorizado pela escola.

 

Sou uma defensora da utilização de processos de expressão através de vários canais de comunicação: artes plásticas, música, expressão dramática, entre outros. Tive a oportunidade de realizar formações na área e perceber o impacto positivo que têm nos indivíduos e especialmente em crianças com ou sem NEE que encontram, através de outros canais de comunicação, uma forma de expressão e de diálogo que nos permite chegar até si.

 

Não sou apologista e considero antipedagógico o uso excessivo de bonecos e desenhos estereotipados onde o único ato expressivo da criança é pintar dentro de contornos desenhos iguais, todos iguais, para personalidades e vivências diferentes.

Quando entregamos a uma criança o contorno de uma boneca, ou um boneco com caraterísticas muito “perfeitas” com um determinado tipo de pele, determinado tipo de roupa e feições, estamos, subliminarmente, a passar mensagens perigosas. Estamos a criar ou a cristalizar estereótipos sociais passando a imagem de que a menina e o menino deverão ser assim. Da mesma forma quando pedimos para desenhar uma nuvem entregando uma forma pré estabelecida e usando a cor azul, estamos a assumir um único formato e cor possível para representar uma nuvem. Ao encararmos assim este processo estamos a condicionar a expressão individual obrigando a criança a corresponder a uma imagem criada que não é a sua. Em última instância não estamos a responder a um dos papéis fundamentais do professor/educador que deve ser, também, a quebra de estereótipos ajudando os seus alunos a olhar o mundo através dos seus próprios olhos criando um espaço na sociedade onde possa agir e comunicar com a sua própria identidade sem o fechar em contornos.

 

Em muitas ocasiões, sem quase nos darmos conta, entramos no jogo das competições entre os trabalhos desenvolvidos pelos alunos. Os pais, muitas vezes massacrados com o pedido de desenhos e trabalhos manuais, não querendo defraudar as expetativas do professor ou até mesmo do filho, acabam por realizar quase todo o trabalho. Apressam o processo pela falta de tempo colocando elementos que o possam valorizar ainda mais boicotando, ingenuamente, um momento de comunicação, de partilha de ideias e estimulação da criatividade onde reside o verdadeiro valor destas atividades.

 

É importante não esquecer que o nosso posicionamento em sociedade revela as ideias e princípios de que nos vamos apropriando ao longo do nosso crescimento. Se nos é vedada a possibilidade de também crescermos através da nossa expressão individual, dificultamos o desenvolvimento de um pensamento divergente, essencial para a nossa capacidade de inovar.

 

 

 

 

PS: Quero agradecer a Aurora Torrodão e Maria Socas por me terem ensinado, através de maravilhosos exemplos, esta necessidade de permitir que a criança se expresse por si. “Não faças tu o modelo único para a criança, deixa-a criar” Obrigada 

5 perguntas, 5 respostas com Rodolfo Castro - "O pior contador de histórias do mundo"

 

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“Quando comprovei que não podia ser o melhor decidi ser o pior..”

 

Tive o privilégio de ter uma  formação com o Rodolfo e não podia deixar de lhe pedir um breve contributo sobre a importância das histórias.

 

 

Rodolfo Castro nasceu em Buenos Aires e formou-se no México. Intitulou-se como “O pior contador de histórias do mundo”, uma designação que revela uma interessante antítese. Aos primeiros cinco minutos de ouvir Rodolfo, qualquer pessoa se apercebe que estamos perante um dos melhores contadores de histórias de sempre.

Começou a contar histórias profissionalmente em 1993, antes disso passou por várias atividades. Trabalhou como pedreiro, carteiro, sapateiro, vendedor ambulante. Passou pela atuação, pelo futebol, pela música e foi professor do Ensino Básico.

É escritor e formador creditado na área de literatura e contos vivendo atualmente me Portugal. Faz parte da editora GATAfunho e conta já com várias obras da sua autoria.

Podemos encontrar o Rodolfo aos domingos de manhã na Livraria GATAfunho em Oeiras para ouvir uma das suas histórias.

 

 

1- Crescemos a ouvir histórias continuamos a ouvir e contar histórias ao longo da nossa vida. Qual é o seu grande impacto no nosso crescimento?

 

Somos as nossas histórias. Contar e ser contados é essencial para o ser humano. As histórias são a nossa intuição do outro e a nossa memória do que nunca aconteceu e do que ainda acontecerá. Um ser humano em qualquer etapa da sua vida constrói o seu mundo através de histórias que se conta a sim próprio e aos outros.

 

 

2- Como se tornou contador de histórias, qual foi a principal motivação?

 

 A supervivência. Sempre fui um busca-vida sem profissão estável e com muitas ganas de mudar. Os contos me deram essa possibilidade de estar em muitas partes, não só de forma fictícia, mesmo na realidade os contos me levam de um lugar a outro.

 

 

3- Olhando para o nosso sistema educativo e numa perspetiva de anos letivos, como vê a abordagem que é feita das histórias?

 

De forma geral vejo que a escola faz das histórias e contos “ferramentas didáticas” e esquece ou põe de lado a componente estética, literária, recreativa, lúdica, emocional e sensorial da leitura. Só se lê para aprender, para retirar ensinamentos e regras de conduta, e para cumprir com objetivos programáticos. Não há suficientes momentos de leitura livre. Isto esmaga o prazer leitor e em poucos anos forma ex-leitores aborrecidos com os livros. 

 

 

4- No momento de escolher uma história para contar, quais os principais requisitos que deveremos ter em consideração?

 

Gostar dela. Evitar o didatismo. Procurar os livros que além da beleza das ilustrações contem uma história que não seja óbvia.

 

 

5- O Rodolfo tem muita experiência em contar histórias em escolas. De que modo as histórias podem ajudar no percurso educativo e ser uma boa aliança com a escola?

 

Atualmente a leitura não é uma aliada da escola… é a sua escrava. Se queremos que a leitura seja uma aliada e uma fonte de aprendizagem e experiências temos que abrir o leque: mais livros, bibliotecas escolares com acervos atualizados, leituras que não estejam sempre sujeitas aos objetivos curriculares. Professores e professoras que gostem de ler e se preocupem por ler bem em voz alta, e que os que já o fazem parem de moralizar continuamente cada vez que lêem um livro as crianças. Ninguém merece que o estejam a educar todas as horas de todos os dias de toda a sua vida. É um martírio! Penso que para a escola seria bom liberar-se de tantas obrigações e ligaduras e dar mais espaço à espontaneidade e à alegria. Assim a relação com a leitura, vida das crianças e a saúde mental da sociedade melhoraria.

 

Sobre a Audição Parlamentar "Necessidades Educativas Especiais: Deficiência e Escolaridade Obrigatória"

 

 

 

 

No passado dia 26 de Abril foi realizada uma Audição Parlamentar intitulada "Necessidades Educativas Especiais: Deficiência e Escolaridade Obrigatória" onde Instituições, Professores, Pais e Alunos tiveram a oportunidade de partilhar a sua visão sobre este tema e contribuir com ideias e ações para melhorar a intervenção nas Necessidades Educativas Especiais.

 

Fica aqui o meu pequeno contributo enquanto Professora de Educação Especial.

 

Quero em primeiro lugar saudar o Despacho normativo 1H-2016 que reforça o período de permanência de crianças com Necessidades educativas especiais nas turmas juntamente com os seus pares e que vem assim ajudar a quebrar um ciclo existente em muitas escolas de que estes meninos pertencem apenas ao Departamento de Educação Especial. Estes meninos não pertencem a um Departamento, pertencem à Escola.

 

O Observatório da Deficiência e Direitos Humanos deu a conhecer recentemente um estudo sobre Portugal e as suas políticas educativas para a deficiência onde alerta para problemas existentes na legislação 3/2008, especialmente, ao nível de interpretação onde encontramos em diferentes escolas diferentes formas de encarar a legislação e medidas educativas. No meu ponto de vista carece também de medidas educativas intermédias entre as Adequações Curriculares Individuais e o Currículo Específico Individual. Existindo meninos do meio, meninos da terra de ninguém, que não se enquadram nem nas Adequações Curriculares Individuais, nem num Currículo Específico Individual e desta forma não têm uma resposta adequada.

 

Alerta também e entrando no meu segundo ponto, para a subjectividade da Classificação Internacional de funcionalidade (CIF) que tem como principal objectivo uniformizar uma linguagem, mas veio fechar num código alunos. Atribuir um código a um aluno, não acompanhado de uma avaliação descritiva é assumir que todos são o Manuel e a Maria sem o serem desumanizando e despersonalizando assim a educação.

 

É preciso também alertar para a perversidade existente em muitos casos na Educação especial onde por 100 euros conseguimos um relatório com um nome pomposo que encerra o aluno num rótulo como se de uma inevitabilidade se tratasse e mais nada houvesse a fazer apenas medidas paliativas. Ignorando muitas vezes a história do seu percurso educativo e percurso familiar não o tratando pelo nome, mas sim pelo rótulo.

 

E por fim alertar para a necessidade de reformular o nosso currículo, reformular as metas de aprendizagem excessivas que não respondem às necessidades dos alunos criando ansiedades e falta de tempo para consolidar competências essenciais, especialmente no 1ºciclo.

 

O currículo não pode ser um ultimato, nem podemos ser escravos de Metas de Aprendizagem. Temos de nos deixar de comprometer a 100% com o currículo e começar a comprometermo-nos a 100% com os nossos alunos porque é para isso que a Escola serve e esse é o verdadeiro paradigma da Escola. Trabalhar para os alunos que temos e não aqueles que idealizamos ter.”

O que o Público não sabe.

 

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Na passada quinta-feira, o Público veio incendiar as redes socias, mais especificamente, os grupos ligados educação, com a seguinte notícia:

 

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/alunos-com-necessidades-especiais-vao-ficar-em-turmas-maiores-no-proximo-ano-lectivo-1729206

 

Tenho dito que poupamos alguns ataques cardíacos quando deixamos de ligar tanto às notícias que pretendem lançar ódios imediatos e irreflexivos, por vezes gratuitamente num total desconhecimento da realidade, e perdemos (ganhamos) algum tempo a tentar desconstruir o que nos tentam “vender”.

 

Ao ler o despacho que deu origem a esta notícia, bem como o esclarecimento do Ministério da Educação, conseguimos perceber a sua perversidade.

 

No esclarecimento do Ministério da Educação podemos ler que: “Tem-se constatado, e isso tem sido sinalizado por vários responsáveis do setor da Educação Especial, que há alunos com NEE que são sistematicamente excluídos da sala de aula, passando a maior parte do seu tempo em unidades de apoio e não em contacto com os seus colegas e professores." e de facto é esta a realidade. Em nenhum momento está expresso que turmas com alunos NEE vão ser maiores. Por ter alunos com NEE as turmas já são, por si só, reduzidas (ou deveriam ser até 20) para permitir aos professores de turma uma melhor gestão da aula. Não vejo qualquer problema em que alunos NEE (sempre que o seu perfil de funcionalidade permita) passem 60% do tempo escolar dentro da sala de aula existindo, atualmente, casos em que passam até mais por assim se entender ser o mais correto. Isto tem muito mais de inclusão do que segregação. Em nenhum momento também li que estes alunos, não poderão estar acompanhados, mesmo em sala de aula, por Professores de Educação Especial ou Professores Sócio Educativo (se assim se entender). Também não refere que não continuarão a ser acompanhados individualmente (como bem necessitam).

 

O despacho vem, sim, salientar a necessidade de os alunos com Necessidades Educativas Especiais poderem estar integrados em mais disciplinas sem ser somente as áreas de expressão (como é comum). Na tentativa de quebrar um ciclo que existe em muitas escolas de que estes meninos com Necessidades Educativas Especiais pertencem apenas ao Departamento de Educação Especial (o que é também perverso). Estes meninos pertencem à escola e a sua evolução depende de todos os protagonistas educativos. Cabe à escola, ter sim, a autonomia necessária para avaliar o perfil de funcionalidade de cada aluno NEE e definir, em conjunto, as melhores respostas. E uma das melhores repostas, pode ser sim, uma maior permanência junto dos seus colegas de turma.

 

Quero também salientar que este meu entender é absolutamente apartidário. E que o Ministério da Educação tem revelado, sim, muitas falhas e processos difíceis que criam muita instabilidade nas escolas e que têm de ser resolvidos, mas este aspeto não é um deles.

 

Penso que é nosso papel contrariar uma comunicação social que insiste em enviesar ideias e deixarmos de estar reféns de opiniões de jornalistas que se assumem como conhecedores de todas as áreas.

 

Na gíria do "chumbar" ou "passar"

 

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Quero iniciar este texto admitindo, atualmente, a minha dificuldade em conseguir posicionar-me neste tema, independentemente das óbvias relativizações a ter em consideração nesta decisão sensível. E sei que não consigo posicionar-me porque o foco não deverá ser o “chumbar” ou “passar”, mas sim, o que fazer para tentar ultrapassar as dificuldades sentidas.

 

Admito ter passado de um posicionamento bastante rígido em relação à não transição para um modelo que considero hoje “mais equilibrado”. Não vou novamente esgotar este texto na ineficiência do nosso sistema educativo em responder muitas vezes às reais necessidades dos alunos, mas um recente estudo revela que Portugal está na categoria de países onde os alunos mais “chumbam.” E também está na categoria dos países que mais associa o chumbar ao baixo estatuto socioeconómico.

 

Portugal é de todos os países da Europa aquele que mais associa chumbar com um baixo estatuto socioeconómico e cultural da família. Na Holanda, sendo um país onde chumbar é uma prática corrente, existe praticamente paridade de chumbo entre classes sociais mais e menos abastadas. As escolas portuguesas parecem estar a ser incapazes de fazer um trabalho de nivelamento de oportunidades, principalmente se nos lembrarmos que é até ao 6º ano que a maioria dos chumbos acontece.” http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-01-30-Chumbar-melhora-as-aprendizagens-

 

Se a escola serve para diminuir diferenças entre estratos socioeconómicos e permitir as mesmas oportunidades, percebemos que muitas vezes falha nesse objetivo.

 

Existem muitos aspetos que se devem ter em consideração na decisão de transitar ou não transitar um aluno: as aquisições, o perfil psicológico do aluno; o acompanhamento da família e o ano de escolaridade em que se encontra. Considero que quando estamos perante uma situação onde claramente o aluno demonstra ter competências mas em casa não consegue um apoio suficientemente bom, não deverá pagar o preço pelas condições em que e onde nasceu e pelas respostas deficitárias.

 

O estudo indica também como exemplo a Holanda, país também inserido na categoria com maior índice de retenções, como aquele que tem demonstrado uma grande preocupação em colmatar as dificuldades dos alunos quando são retidos sendo assim um país que demonstra bastante sucesso no trabalho de recuperação.

 

"A Holanda sendo um país com uma forte prática de retenção de alunos está a ajudá-los a recuperar o atraso (cerca de 50% destes alunos atinge pelo menos o nível 3" http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-01-30-Chumbar-melhora-as-aprendizagens-

 

Recordo-me de uma “discussão” que tive há pouco tempo onde me verbalizaram: “O(a) aluno(a) não pode pagar por aquilo que a escola não é capaz de dar. A não ser que o aluno seja completamente irresponsável no seu processo de aprendizagem. Quem se esforça mesmo com limitações não deve ver o seu caminho cortado.”

 

A marca de uma retenção não é facilmente contornável, depende de vários fatores e por isso devemos questionarmo-nos em que medida é que esta visão pode promover o sucesso do aluno?

 

Recordo-me do caso de um aluno que revelava ainda muita imaturidade e agitação psicomotora e este seu perfil reflectia-se, naturalmente, no seu desempenho escolar. A preocupação dos pais e professores traduzia-se no alheamento aos conteúdos abordados. Foi retido no mesmo ano (7ºano). No final do ano em que esteve retido, o aluno conseguiu ultrapassar as suas dificuldades principalmente pela grande sensibilidade dos pais que compreenderam que o mais importante era encontrar uma estabilidade emocional que não estava a ser conseguida e dos professores que (importante salvaguardar que se mantiveram) desempenharam uma função motivadora e nunca castradora. As notas passaram, sem qualquer “água benta” para níveis positivos e muito positivos. Este caminho foi possível pelo projeto em conjunto do aluno, pais e escola.

 

Da mesma forma que olhamos para o não transitar como um rótulo negativo e um peso psicológico para o aluno, também o devemos olhar para uma transição desmedida sempre assente na premissa de não “ficar para trás” a todo o custo. Cada caso é um caso e se tenho dificuldade em ter uma visão taxativa na decisão de transitar ou não, também a tenho em rotular a retenção taxativamente como algo extremamente negativo e sempre dramático.

 

A questão que se deve colocar é: Não transitando o aluno haverá condições para trabalhar as competências e potenciar as vivências necessárias para progredir com mais segurança? A decisão tem de ser sempre a longo prazo e nunca de um ano para outro avaliando naturalmente todas as variáveis.

 

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