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De volta.

por Maria Joana Almeida, em 04.09.17

 

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De volta a mais um ano letivo e ao segundo ano da existência deste blog, são vários os temas que têm invadido os fóruns e redes sociais nos últimos dias com bastante potencial para serem lidos, revistos e esmiuçados. Desde a polémica instalada sobre os livros da Porto Editora passando pela publicação das listas de colocação de professores que conseguiu este ano ser mais atempada do que nos últimos anos.

 

Poderia querer pegar nestes temas mas não o farei. Já muito se escreveu e refletiu, entre vários argumentos, sobre discriminação de géneros e sobre colocações ou não de professores. Nada do que poderia escrever iria acrescentar algo de diferente à discussão.

 

Quero iniciar este ano letivo refletindo sobre um vídeo que vi recentemente intitulado “What if you treated teachers the same way we treated professional  athletes” (E se tratássemos os professores como tratamos atletas profissionais)

 

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 LInk do video: https://www.youtube.com/watch?v=IoUdnoLmQiM

 

 

Assemelhar professores a atletas é um lugar comum (sem deixar de ser verdadeiro) quer pela sua capacidade de adaptação, de persistência, de antecipação e de trabalho. São de facto, na sua maioria. O que este vídeo nos mostra de diferente é a visualização, humorada, de como seria uma escola se tratássemos os professores como se fossem (por exemplo) o Cristiano Ronaldo. Como se fossem os nossos ídolos.

 

Se pensarmos bem, fora estereótipos e preconceitos criados em torno da escola e professores, o trabalho realizado por um professor requer muito treino que se traduz em muito trabalho de investigação. Investigação sobre a sua profissão e investigação sobre os seus alunos  - quem são, como são, porque agem assim, o que posso fazer para corresponder aos seus perfis. Requer resiliência: o futuro é na maior partes das vezes incerto, saltar de escola em escola, adaptar-se de novo, lidar continuamente com a apelidos por vezes pouco abonatórios, ter de construir novos materiais e responder à mesmo burocracia que é todos os anos exigida, ter de engolir em seco provocações, manter a calma e discernimento suficiente para encontrar um equilíbrio. Requer força de vontade para que apesar de todos os contratempos, e às vezes vontade de desistir, não se encostar aos serviços mínimos e lidar ao mesmo tempo (muitas vezes) sem reconhecimento do seu trabalho.

 

Para mim, um professor é especialmente um ídolo e um exemplo a seguir, quando assume uma atitude ponderada mas firme, quando prepara os seus alunos não só com os conteúdos e conhecimentos da área que leciona mas para viver em comunidade sempre através da suas atitudes e não tanto pelas suas palavras. É ídolo quando (rebuscando um pouco dos temas atuais)  mostra que a todos é possível escolher e optar. Que existe liberdade e que o conhecimento traz-nos liberdade. Que homens e mulheres não se distinguem pelo género naquilo que podem escolher e alcançar. Que existe o bom e o lixo na nossa sociedade e que é importante que o saibamos distinguir. Que apesar das diversidades não pode ser opção não tentarmos. E que acima de tudo o sucesso requer treino, esforço, resiliência e força de vontade.

 

 

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publicado às 21:26

5 perguntas, 5 respostas com Isabel Mendes Lopes

por Maria Joana Almeida, em 27.07.17

 

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Antes de uma breve interrupção durante o mês de Agosto quis “fechar este ano letivo” com uma entrevista a uma amiga que muito admiro.

 

A Isabel é inteligente, atenta, terna, generosa, convicta. Possui uma visão do mundo e valores com os quais me identifico e que influenciam positivamente quem a rodeia. A calma e serenidade que transmite no seu discurso, muito assertivo e ao mesmo tempo consciente das limitações de muitas realidades, reflectem uma forte personalidade e um carisma contagiante

A Isabel assume atualmente diferentes papéis. Papéis exigentes que desafiam a realidade e são uma dificuldade sentida por muitos de nós, nesta sociedade.

 

Vale a pena ler e reler o seu testemunho inspirador.

 

 

 

1 - Isabel, és mãe de duas filhas, tens um emprego a tempo inteiro e fazes parte de um partido político (LIVRE) onde desempenhas um trabalho exigente e quase a tempo inteiro também. Esta é provavelmente uma pergunta que ouves muitas vezes, mas como geres esta organização?

 

É uma organização difícil. Mas tenho a sorte de estar integrada em boas equipas – tanto em casa como no LIVRE.

A minha família é essencial, principalmente no apoio às minhas filhas. Nas alturas mais exigentes sei que tudo é assegurado sem mim. E quando é preciso, elas vão comigo às reuniões ou atividades do LIVRE (onde gostam muito de ir e onde são muito acarinhadas).

O meu trabalho no LIVRE é exigente porque faço parte do Grupo de Contacto do LIVRE, que é a direção partidária e que gere o dia-a-dia do partido. É um órgão colegial de 15 pessoas, onde a decisão e as tarefas são partilhada por todos. Isto faz com que a responsabilidade não seja um peso incomportável porque é partilhada, e permitiu que assumisse um mandato de dois anos. Sei que se não puder estar presente, as coisas são asseguradas. Por outro lado, no LIVRE trabalhamos muito online, o que permite uma gestão mais flexível. Consigo participar em todas as reuniões online e os documentos são redigidos conjuntamente durante a reunião. Isto faz com que consiga acompanhar as atividades e participar nas decisões a partir de casa, quando é necessário.

Mas há dias que são uma loucura, claro: trato de assuntos pessoais e do LIVRE à hora de almoço e quando saio vou a correr a casa tratar de tudo e à noite tenho reuniões ou outros assuntos.

O nosso tempo deve ser despendido num equilíbrio entre o tempo para nós, o tempo para a família e amigos, o tempo para o trabalho, o tempo para o lazer e também o tempo para a comunidade. Este equilíbrio é difícil, porque o tempo é um recurso escasso. Mas cada vez mais acredito que temos de conseguir ter tempo para a comunidade.

 

 

 

2 - A nossa geração atual é marcada por um constante adiar da maternidade e paternidade por inúmeros motivos sendo o trabalho um dos principais. Como olhas para este paradigma instalado?

 

A nossa geração é muito diferente da anterior. Se por um lado há mais oportunidades - todo um mundo para explorar - há também restrições importantes que nos condicionam em muitas escolhas, onde se inclui a parentalidade.

Os problemas da precariedade, dos salários baixos, das longas horas de trabalho influenciam muito a decisão de ter filhos, de quando os ter ou de quantos filhos temos. A estes problemas se junta a falta de estrutura de apoio. Muitos avós trabalham e/ou vivem longe, os laços de comunidade e vizinhança são menos fortes. O que anteriormente funcionava como estrutura de apoio às famílias não conseguiu ser substituído por uma resposta eficaz da comunidade.

Para conseguirmos mudar este condicionalismo nas escolhas na parentalidade temos de conseguir regrar o mercado de trabalho.  Temos de incorporar que a parentalidade faz parte da nossa vida enquanto sociedade e que todos temos obrigação de a acomodar, fazendo valer os direitos das famílias (mulheres e homens) face ao trabalho. Temos de criar estruturas de apoio: não apenas berçários, creches, jardins de infância e escolas públicas acessíveis a todos mas também transportes, atividades, cultura próximos e que tornem o dia-a-dia das famílias mais fácil.

 

 

3 - Quais foram as motivações que te levaram a envolver no mundo político?

 

O meu passado é muito apolítico. Mas há uns anos – um pouco antes de 2011 – comecei a estar mais atenta e senti que temos de nos envolver. Se queremos que a política seja mais transparente e mais democrática, temos de nos envolver. Comecei então a acompanhar várias iniciativas que foram acontecendo.

O nascimento da minha primeira filha tornou ainda mais forte o meu sentimento de urgência em me envolver, em fazer. E coincidiu com a constituição do LIVRE, que acompanhei desde o início ainda sem conhecer ninguém e que foi um processo que me impressionou, pela transparência, envolvimento e organização que teve. Tive a oportunidade – como todos os que lá estavam – de participar na redação dos documentos fundadores, na definição da organização do partido e dos seus processos, na definição dos seus pilares e ideias-chave. Por me rever nestas ideias e também nos processos, fui-me envolvendo no LIVRE. E há dois anos candidatei-me e tornei-me dirigente.

No fundo, a motivação para me envolver é – como diz uma amiga, o mais velho cliché de todos – contribuir para tornar o mundo melhor. E gostava de o fazer não apenas através do meu trabalho direto mas também através do exemplo – o facto de ser mulher e mãe não pode ser condicionante da participação política.

 


4 - A “política” é frequentemente atacada com palavras duras e marcada por uma nuvem de desconfiança constante. Na tua perspetiva como a entendes e de que forma pode esta imagem ser mudada?

 

Política é a forma como nos organizamos enquanto sociedade e como lidamos uns com os outros - é o nós.

A “política” de que falas é a que é associada a interesses próprios, jogos de poder obscuros - é o eles.

Temos de tornar a política mais nossa. Não é apenas a imagem da política que deve ser mudada - é a própria política, que tem de ir perdendo aquelas aspas. E essa mudança faz-se com um maior envolvimento dos cidadãos: no acompanhamento dos assuntos, na participação das decisões, na pertença a partidos. E faz-se também com uma maior abertura dos partidos e das instituições, através de processos claros, transparentes e participados. 

 

5 - Como mãe e como política (se assim o podemos chamar) é inevitável perguntar como olhas para o estado da nossa Educação e quais consideras serem as transformações necessárias?

 

Podes-me chamar política, é preciso assumirmos aquilo que somos.

Os próximos anos trarão grandes revoluções à forma como vivemos, como trabalhamos e como nos organizamos. As tarefas serão progressivamente mais automatizadas, a inteligência artificial permitir-nos-á fazer coisas hoje inimagináveis, estaremos cada vez mais ligados digitalmente. Teremos desafios terríveis originados pelas alterações climáticas.

As crianças que estão agora no primeiro ano serão adultos em 2030 e serão ativas até 2060, 2070, 2080. O que devem aprender para estarem preparadas para enfrentar todas as mudanças deste século e para serem adultos felizes e realizados? Não sabemos bem que matérias serão necessárias mas há algumas características que serão essenciais e onde a escola deve ter um papel muito importante: Imaginação e criatividade. Espírito crítico e autonomia na procura de soluções. Conceitos fortes de comunidade, de democracia e de participação. Capacidade de construir relação. E para isso será necessário promover a curiosidade, dar ferramentas para potenciar a autonomia, dar ferramentas sociais e de trabalho em grupo e participação cívica, desdramatizar o erro e olhar para a realidade de forma multidisciplinar, mas integrada.

Há muitas alterações que me parecem necessárias na nossa Educação, para que se torne mais equitativa, mais justa, mais eficaz, mais abrangente. Mas destaco apenas uma medida que considero essencial para dar resposta a grande parte dos problemas e desafios: valorizar enormemente a profissão de professor. Temos de ter professores inspiradores, capazes de agarrar os alunos e que lhes passem a alegria de aprender. E para isso precisamos de professores muito bons e muito motivados. Ou seja, temos de ser muito exigentes com os professores mas também de lhes conseguir dar as condições que uma profissão tão nobre e necessária como esta necessita. Porque, novamente o cliché, os professores têm efetivamente a capacidade de mudar o mundo, criança a criança.

 

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publicado às 12:54

"O dia em que os lápis desistiram"

por Maria Joana Almeida, em 13.07.17

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Sou apaixonada por livros infanto-juvenis. Daqueles que quebram estereótipos, que trazem novas princesas e novos príncipes que não estão vestidos de cor de rosa nem azul, que erram, que cheiram mal, que quebram barreiras. Gosto dos livros que através de textos simples falam de coisas complexas.

 

A minha biblioteca já conta com muitos deles. São livros dos 0 aos 99 com ilustrações apelativas, com textos verdadeiros e sentidos. São verdadeiras oficinas de corações.

 

Existem poderes especiais nesta literatura que não se esgotam nas idades “infanto-juvenis”. Poderes que nos transportam para uma dimensão mais pura, que nos permitem desatar os nós de muita formalidade e esquecer as nossas “bagagens”. Ler as histórias que habitam estes livros é como parar e respirar no cimo de uma montanha e reencontrar sentimentos perdidos. 

 

Há outro poder muito especial que reside nestes livros: a capacidade de resgatar o prazer pela leitura, porque neste mundo, dos bons livros infanto-juvenis, há lugar para tudo. Lugar para falar de coisas complicadas descomplicando, fazer rir, surpreender, reaprender. Ler pelo prazer de ler sem mais obrigações.

 

Enquanto professora de Educação Especial, muito ligada às competências da leitura a escrita, a utilização destes livros tem permitindo estabelecer uma ponte de comunicação com muitas crianças. Crianças e jovens que tinham desistido de ler, que recusavam à partida qualquer ato de leitura.  A leitura partilhada, agora eu, agora tu, vai dando lugar, ao longo das sessões, a uma só leitura, a leitura do outro lado que entusiasmado com a história e com as ilustrações distraí-se na viagem e quer ler tudo.

 

Há alturas em que os lápis desistem, mas sempre voltam. Assim é com a leitura.

 

 

Deixo alguns exemplos e excertos de livros infanto-juvenis (para todos).

 

 

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"Olá Duarte, DETESTO que me uses para desenhar o contorno das coisas....coisas que sao coloridas por outras cores, todas convencidas de que são mais brilhantes do que eu"

 

 

 

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"O Henrique adorava livros. Mas não exatamente como nós adoramos livros. Não era bem a mesma coisa"

 

 

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"Todos estavam bem como estavam. Todos menos o Sr.Tigre. Ele queria estar à vontade. Ele queria divertir-se. Ele queria ser...selvagem."

 

 

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"Primeiro fui ver o dicionário. Tinha de olhar para dentro do medo, descobrir como funcionava."

 

 

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"O amor é esperar por ti mesmo que já não venhas"

 

 

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"Era uma vez uma árvore..que amava um menino"

 

 

 

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"Espero..um bebé. Espero o amor..."

 

 

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"Matias tem uma oficina de corações. Num fogão de lenha aquece corações gelados e, com a agulha de prata, cose corações rasgados"

 

 

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 "No prédio do lado vive uma senhora que sabe tudo, MESMO TUDO. Diz segredos tão baixinho que parece impossível que se façam ouvir a tão grandes distâncias."

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publicado às 21:32

Hoje é só isto.

por Maria Joana Almeida, em 20.06.17

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 http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/19-06-2017/caderno-1/temas-principais/gnr-tentou--mas-nao-conseguiu--travar-marcelo

 

Os abraços não resolvem tudo. Tudo o que aconteceu e acontece não cabe num abraço. Mas como Chefe máximo de Estado as suas ações têm um impacto gigante. Passámos de alguém que não saía do pedestal ensinando-nos uma lição de distância e desprendimento para alguém que, exagerado ou não, tem-nos vindo a transmitir uma lição de proximidade.


Estar onde é preciso, ser inspirador é, também, o que um Presidente deve ser.

 

 

 

 

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publicado às 01:37

Não sei como estudar!

por Maria Joana Almeida, em 06.06.17

 

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O ritmo acelerado da escola, dos conteúdos e a falta de tempo útil para pensar numa organização dificulta o processo de estudo. É essencial quebrar o ciclo de ansiedade que se pode desdobrar em atribuições de culpas, baixas expetativas e insucessos.

 

O primeiro passo é parar. Parar para refletir sobre a nossa forma de atuar definindo prioridades nos conteúdos a estudar, como estudar e quando estudar. É fundamental estabelecer um plano e cumpri-lo. Ao estabelecermos um plano de estudo com objetivos conseguimos uma organização que nos faz poupar tempo para as nossas outras atividades. 

 

Desta forma é essencial:

 

Criar um compromisso com a agenda escolar. Este compromisso deve traduzir-se na elaboração de um esquema semanal de estudo com base nos momentos de avaliação (numa perspetiva contínua) onde definimos os momentos de estudo. Este horário deve acompanhar o aluno nos vários locais :escola e no espaço de estudo em casa e deve definir os tempos direcionados para a preparação dos momentos de avaliação e os momentos de tempos livres, juntamente com outras atividades.

 

O aluno terá de se responsabilizar por essa “agenda”. Sendo ele quem deve construir juntamente com ou pais ou tutor, os momentos destinados ao estudo.

 

A gestão de tempo é fundamental. Saber gerir o tempo de estudo criando horários plausíveis e intervalos é a chave para permitir um equilíbrio entre os momentos de maior disponibilidade mental e concentração com os momentos de descontração. É importante defini-los tendo em conta o perfil de funcionalidade do aluno no que diz respeito aos seus tempos de concentração. São preferíveis mais intervalos (curtos) do que a exigência de um tempo muito prolongado.

 

O aluno deverá, também, compreender a diferença entre intensidade de estudo e qualidade de estudo. O sucesso não está nas horas que se passa a estudar, mas na forma como estudamos e é isso que faz a diferença. Este é um dos principais desafios neste trabalho de planeamento e os pais ou tutor são os principais aliados nesta competência. Deverá existir um compromisso entre os conteúdos e as competências associadas à matéria da disciplina tentando um maior nível de objetividade. Para isso o aluno, juntamente com pais e auxílio do professor, devem selecionar os materiais necessários de apoio ao estudo permitindo assim ao aluno uma maior proximidade da matéria o que se traduz numa maior segurança e sentido de responsabilidade.

 

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publicado às 23:38

Breves considerações sobre avaliações pedagógicas

por Maria Joana Almeida, em 01.06.17

 

 

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A internet dispõe de inúmeras páginas com exemplos de avaliações pedagógicas bem como teses que demonstram quais os pontos essenciais e de que forma deve ser construída.

 

Na realização de uma Avaliação Pedagógica existem três pontos que considero fundamentais e que estão assentes na premissa de a tornar absolutamente individual. O objetivo será (sempre) realizar uma avaliação o mais completa e detalhada que nos permita obter uma imagem, o mais fidigna possível, do aluno. É muito fácil cairmos nas disposições gerais e nas áreas mais globais arriscando-nos a criar avaliações que poderiam tanto do Manuel como da Maria.

 

Quando entramos no campo das Necessidades Educativas Especiais e de forma a respeitar a lei em vigor é necessária a utilização da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) em que “(…)o objectivo geral da classificação é proporcionar uma linguagem unificada e padronizada assim como uma estrutura de trabalho para a descrição da saúde e de estados relacionados com a saúde. A classificação define os componentes da saúde e alguns componentes do bem-estar relacionados com a saúde (tais como educação e trabalho)” http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_port_%202004.pdf

No momento da avaliação através deste instrumento é, no meu entender, imprescindível uma descrição detalhada do comportamento da crianças em cada área referente a cada código.  A mera atribuição de códigos, como tenho vindo a referir em outros textos, desumaniza a avalição fechando alunos em números sem conteúdo.

 

Outro ponto a ter em atenção são os atos perlocutórios na avaliação. Observar e registar quais as reaçóes, expressões, verbalizações efetuadas pelo aluno avaliado. São estes detalhes que permitem compreender e espelhar de uma forma única aspectos importantes para uma posterior intervenção.

 

O terceiro ponto prende-se com a utilização não só de instrumentos formais, mas de exercícios, ou mesmo objetos familiares com relação afetiva para o aluno. Uma avaliação baseada apenas em documentos muito estruturados retira toda a espontaneidade e interesse de quem é avaliado o que torna a avaliação inócua.

 

A realização de uma anamnese – recolha de informação pessoal e escolar é, também, fundamental para poder compreender o background bem como algumas verbalizações e comportamentos observados. É através da recolha destes dados que se torna possível selecionar e construir instrumentos de avaliação mais adequados. Esta é, no entanto, uma metodologia ambígua. Existem professores apologistas de não conhecer a anamnese antes de avaliar uma criança com o argumento de que este conhecimento prévio vai “contaminar” as crenças em relação ao aluno no momento de avaliação e criar ideias preconcebidas, tornando assim a avaliação menos “natural”.

 

Refletindo sobre qual o procedimento mais correto, direi que não existe. Ambas metodologias são legítimas contendo argumentos pertinentes. Por um lado conhecer o passado pode ajudar na preparação de uma avaliação mais estruturada, por outro lado este conhecimento prévio retira alguma espontaneidade ao momento de avaliação.

 

Penso que são metodologias que podem coabitar e a escolha deve ser deixada ao critério de quem procede à avaliação. A premissa que deverá ser sempre essencial é a de encarar este momento de avaliação como um momento recíproco. Um momento onde devemos estabelecer uma relação de confiança, aquela que permite retirar alguma formalidade que (sim) pode contaminar todo o processo.

 

 

 

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publicado às 22:38

5 perguntas, 5 respostas com o Escultor Daniel Leite Mendes

por Maria Joana Almeida, em 24.05.17

 

 

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Conheci o escultor Daniel Leite Mendes recentemente. Não foi preciso muito de tempo de conversa para perceber a entrega que tem à vida, aos pequenos pormenores que observa e a leveza das palavras e dos gestos. Não sou a maior entendida em escultura, mas sei apreciar a beleza e a importância artística no nosso mundo e o quão fundamental é no desenvolvimento educacional. A expressão artística tem a capacidade de nos resgatar, de arranjar substitutos de vida e de nos permitir conhecer e dar a conhecer.

 

O Daniel é dotado de uma enorme sensibilidade estética e artística. Sonhador, terno, observador, intenso, pés na terra e alma enorme. Aprendeu com o pai a função de marceneiro, passou pela arquitetura, pelo desenho e descobriu a paixão na escultura. A sua primeira obra foi aos 21 anos anos, altura em que estava nos Açores. Passou de rostos, a linhas mais curvas, mais femininas, pueris mas intensas, são de pedra, mas são leves.

 

A sua próxima exposição será no Lx factory e deixo aqui uma breve entrevista.

 

 

 

1 - Daniel, entre as várias formas de expressão artística porquê a escultura em pedra? Que percurso ou vivências te levaram até aqui?

 

Apaixonei-me pela “personalidade” da pedra nos açores, onde comecei com curiosidade de a esculpir. A sua textura, volume, dureza... Ao trabalha-la gostei de sentir que ela, com os seus veios e características puramente naturais, ajudava-me na criação mostrando formas, “comunicando” no que se quer tornar. Fiquei encantado.

 

2 -  Deves ouvir muitas vezes esta pergunta, mas interessa-me o processo e não o como. A inspiração nasce de onde? A peça que idealizas ao inicio é a mesma que constróis no final?

 

A inspiração nasce de algo no fundo muito pessoal que muitas vezes passa por algo que precisa ser trabalhado, cuidado, assumido, materializado, contemplado, venerado.

Depois no processo criativo, materializar a ideia, muitas vezes vai alterando pelo que referi na pergunta anterior, e com a viagem no “tema” flui sempre algo mais belo, libertador e mais de encontro ao que em verdade se constata que se desejava fazer. É lindo!

 

3 -  A família pode ser um facilitador ou uma barreira nas escolhas que fazemos para a nossa vida. Como foi a resposta da tua família ao caminho que escolheste?

 

Tenho uma gratidão enorme para com o meu pai que me encaminhou e passou a sua sabedoria de como trabalhar com as mãos e a madeira.

A Arte/Escultura a ideia não foi recebida de braços abertos no seio da família. Devido a demasiada humildade não aprovou muito bem a ideia de “artista”.

 

4 -  Tens exposto o teu trabalho em vários espaços onde a aceitação tem sido muito boa. Como vês o mundo da arte em Portugal?

 

Vejo que muitas pessoas apreciam arte mas poucos a adquirem.

Vejo também que quem adquire não abre muito “oportunidade” para novas pessoas com dom preferindo investir em artistas de renome.

 

5 -  Qual o impacto que esta expressão artística teve e tem na tua vida? De que forma te descobres com ela?

 

O mais precioso, perceber, sentir, porque o meu pai ficava tanto tempo a contemplar os móveis que fazia…  

Dá-me quietude. Quando crio simplesmente existe isso..é uma entrega ao momento que necessito para me encontrar e sentir que realmente estou a criar algo muito meu. O que me realiza enquanto ser humano. Aquilo que não encontro no dia a dia na sociedade.

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publicado às 00:56

5 perguntas, 5 respostas com Ana Gralheiro

por Maria Joana Almeida, em 10.05.17

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A Ana é assertiva, bem-humorada e pró ativa. Conheci-a como diretora na escola onde ainda leciono.

Partilhamos gostos semelhantes. Gostamos dos mesmos filmes e de linguagens artísticas idênticas que nos proporcionam conversas interessantes e uma boa empatia.

 

Como diretora a Ana sempre se mostrou presente, atenta, perspicaz e uma boa ouvinte. É carinhosa com a comunidade educativa e reconhece, com muito orgulho e de forma extremamente motivante, o bom trabalho desempenhado pelos membros da escola.

 

O papel de diretora é exigente e feito de escolhas e decisões por vezes difíceis onde existem equilíbrios que não são fáceis de encontrar. 

 

Obrigada Ana pelo teu testemunho.

 

 

 

1- Existem poucos espaços mais desafiantes do que o espaço escola, quer no papel de auxiliar de educação, professor ou diretor. Na tua opinião, e com a experiência que tens como directora de uma escola, quais os principais desafios deste cargo?

 

Acredito que é decidir o que é essencial ensinar aos alunos e garantir que as disciplinas elementares não sejam prejudicadas pela avalanche de conteúdos que são propostos atualmente. Hoje, a equipe docente se ocupa da Educação Ambiental, alimentar e comportamental e com programas de prevenção a aids, acidentes de trânsito e violência sexual. Todos muito importantes, mas que não são responsabilidade da escola. Ao tentar colocar tudo no mesmo pote, falta espaço para o básico. 

(António Nóvoa)


Os principais desafios a enfrentar prendem-se com as múltiplas exigências que recaem na figura no diretor, nomeadamente todos os normativos e burocracias emanados pelos diferentes organismos do MEC, autarquia, famílias…, nem sempre compatíveis entre eles e, muitas vezes contraditórios.

 

Tentar conciliar estas exigências com a missão da escola e o projeto educativo, nem sempre é uma tarefa fácil.

 

A escola é um local privilegiado de aprendizagens académicas, mas também de valores humanistas, democráticos e de cidadania responsável.

Professores felizes têm vontade de vir para a escola e de fazer o seu melhor. O mesmo se passa com os alunos e pessoal não docente.

 

Mas, hoje em dia, deparamo-nos com perspetivas absurdas sobre as responsabilidades da escola (a escola passou a ser responsável por tudo…), principalmente por parte dos meios de comunicação social e de algumas famílias, que colocam em causa o que é veiculado em ambiente escolar.

Dou como exemplo o acesso às redes sociais e internet, de um modo geral, sem supervisão parental, que podem acarretar consequências terríveis e irreversíveis.Na perspetiva de muitos isso é responsabilidade da escola.

A crescente desresponsabilização dos pais em relação à educação dos filhos, é assustadora.

Educar exige muito trabalho, resiliência e tempo por parte das famílias…

 

"Imagine que a escola é um pote." "Porém as crianças precisam ter noções de meio ambiente, certo?", "E aulas de cidadania e higiene". "Alguém precisa preveni-los também contra a Sida, a violência sexual..."( o pote está mais do que cheio). Tudo isso é importante, mas não deve ser responsabilidade da escola". 

(António Nóvoa)


 

2 - A função de Diretora traz consigo muitas responsabilidades e uma articulação forte, quer com a comunidade educativa, quer com o Ministério da Educação. Como se conseguem gerir ambos?

 

Como diretora, professora e cidadã, sempre defendi que a escola deve ser uma instituição humanista, motivadora, reconhecedora, solidária, empática e integradora, de modo a envolver os profissionais de educação, alunos e famílias na promoção das aprendizagens e do sucesso educativo e pessoal.

É muito importante ouvir as pessoas, aferir as suas sensibilidades, projetos, receios… de modo a sentirem-se felizes no seu local de trabalho.

Assim, na operacionalização com a comunidade educativa, autarquia e MEC, o diretor nunca deve desviar o foco dos seus princípios de vida, centrados nos valores do humanismo democrático e e conciliá-los com os procedimentos exigidos.

 

Ser diretor é também correr riscos.

 

 

3 - Qual consideras ser o perfil e as competências necessárias para a função de diretora de uma escola?

 

- Pessoas que se esforçam por desenvolver boas relações humanas colocando ênfase nas acções de envolvimento, partilha e delegação de competências, pois só assim os profissionais de educação e alunos se sentirão apoiados e gostarão do trabalho que desenvolvem;

- Pessoas que promovem e valorizam a comunicação e alicerçam a sua conduta em valores como a autonomia, determinação, humanismo e justiça;

- Pessoas que promovam a criação de visões de futuro para as suas escolas, apontando caminhos para alcançar os objetivos de forma motivadora e inovadora.

- Promovam a elevação da qualidade das aprendizagens, orientadas para o sucesso académico, pessoal e profissional.

 

 

 

4 - Olhando e refletindo para o espaço escola, quais as principais mudanças que consideras fundamentais existirem?

 

A escola atual continua a ter muitas semelhanças com a do Séc. XIX, na medida em que se pressupõe que os professores são os detentores do conhecimento, espartilhado em disciplinas/ áreas curriculares, horários e que os alunos são os seres que devem aprender o que lhes é transmitido, nas horas estipuladas.

Este tipo de escola não valoriza as aprendizagens e competências que cada indivíduo já transporta previamente.

Nos dias que correm isto é inqualificável, até porque os alunos têm à sua disposição uma série variadíssima de informação através da internet.

 As escolas necessitam de turmas mais pequenas (20 alunos, no máximo) e formação prática dos docentes em área projeto/ ensino transdisciplinar e novas pedagogias, de modo a ser possível uma aprendizagem mais individualizada e uma consolidação de práticas inovadoras, projetadas no futuro.

 

 

 5 - Escrevi há pouco tempo um texto sobre liberdade. Um pouco sobre “as más e boas” liberdades. Como se consegue gerir, com alunos, dentro do espaço escola a liberdade e os seus, inevitáveis, limites?

 

Respondo cintando o meu pedagogo preferido:

 

(…)na escola (…) O que une é aquilo que integra cada indivíduo num espaço de cultura, em determinada comunidade: a Língua, as Artes Plásticas, a Música, a História etc. Já o que liberta é o que promove a aquisição do conhecimento, o despertar do espírito científico, a capacidade de julgamento próprio. Estão nessa categoria a Matemática, as Ciências, a Filosofia etc. Com base nesse princípio, podemos selecionar o que é mais importante e o que é acessório na Educação das crianças.


(António Nóvoa)

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publicado às 21:36

Isto da liberdade

por Maria Joana Almeida, em 03.05.17

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Não, não é um texto sobre o 25 de Abril. Primeiro porque já passou e depois porque não me reconheço com propriedade suficiente para escrever acerca deste dia. O meu entendimento vem de memórias de outros, das memórias da minha mãe, de livros que li e filmes que vi. Construi sentidos e imagens muito bonitas desse dia.

 

No entanto há cravos nas fotos porque foram tiradas no dia 25 de Abril e porque este é um texto sobre liberdade.

 

Quando era pequena ouvi vezes sem conta a frase “A nossa liberdade acaba quando a dos outros começa”. Soou durante muito tempo na minha cabeça até que fizesse sentido. Era demasiado abstrata para poder perceber o seu significado.

 

O conceito de liberdade é provavelmente dos mais difíceis de “ensinar”. Eu já cresci num tempo de liberdades óbvias, conquistadas. O meu mind set nunca conheceu outra forma de ser (sentir na pele é outra coisa). Por ser tão difícil de explicar e de uniformizar, dilui-se em várias conceções. Aqueles cujo a liberdade não se limita no outro: digo por ter a liberdade de o dizer, mesmo que tenha repercussões negativas no outro. Aqueles cuja a liberdade é condicionada pelo grau de confortabilidade do outro: sujeito-me sempre à liberdade do outro. Aqueles que escolhem a liberdade empática: saber escolher o que dizer e a maneira como dizer porque sei ler o outro e reconhecer quando é que a sua liberdade começa e a minha termina.

 

As liberdades esbarram em diferentes entendimentos, em diferentes formas de educação. Nunca será consensual, porque nenhum contexto é igual. Se passo nos corredores de uma escola há liberdades a serem usadas mesmo que a minha esteja a ser posta em causa. E já sem pensarmos, todos acabamos por compactuar com esta liberdade unilateral. Porque aceitamos que são os (uns) novos tempos. Tempos assim que trazem boas e más liberdades. E há liberdades que dão trabalho. (Até 25 de Abril de 1974 bem sabiam o trabalho que deu)

 

E ainda assim, pode a liberdade ter limites? Tem inevitavelmente.

 

Há liberdades sentadas à espera de poderem ser usadas; liberdades que estão bem seguras pela mão e liberdades a preto e branco - aquelas que já se desvaneceram. E nestas liberdades, está aquela (necessária) de escolher alertar para todas as liberdades, que vão para além das individuais. A de quem diz e faz e de quem ouve e sente.

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publicado às 10:28

Distâncias

por Maria Joana Almeida, em 26.04.17

miradouro.jpg

 

 

É um texto sobre amor. O amor também educa.

 

Gosto de miradouros. Gosto muito de miradouros. Aprecia-se a distância, à distância num lugar fixo, onde se pode sempre voltar, como um lugar reconfortante.

 

É um lugar de abraços. Abraçar pessoas, abraçar ideias, abraçar causas. É um lugar de despedidas e de reencontros. De resgates emocionais.

 

Lembro-me da imagem de muitos professores, do alto dos seus miradouros, já na reforma, que permanecem de olhos brilhantes quando recordam nomes, locais, abraços a pessoas, abraços a causas. Não só aqueles com e onde foram felizes, mas também os momentos de decisões difíceis, porque, numa analogia pueril ao filme Inside out, a tristeza é uma das chaves fundamentais para que possamos evoluir.

 

A distância permite o início do processo de relativização, aquele que cria uma certa nostalgia, que embala ideias e pensamentos. Ajuda a quebrar ciclos. Nos miradouros das nossas vidas permitem recomeços.

Enche-nos de mais bagagem ao mesmo tempo que limpa a mente separando e eliminando o que não interessa. Arruma a casa e reorganiza os nossos diferentes palcos: escola, trabalho, relações.

As distâncias são às vezes desejadas (as férias, uma interrupção) mas muitas vezes não são pedidas. Aparecem como a única hipótese para evitar um acumular de emoções que baralham a máquina e que nos conduzem aos "over" (estrangeirismos) do século XXI: overload, overthinking, overcoming burn out.

Deparei-me hoje com a frase de um filme After the reality -  "There's a loss of all that was, and then there´s a loss of all that wasn´t. It´s the "wasn't" that seems to drive folks a little nutty." (Há uma perda em tudo o que foi e uma perda em tudo o podia ter sido. E é “o que poderia ter sido" que nos desorienta.)

 

No miradouro a apreciar Lisboa os "over" dão lugar aos "under". Lisboa torna-se ainda mais bonita quando olhamos de outro ponto, do ponto onde não estamos e onde sonhamos com o que ainda pode ser.

 

 

Às vezes é preciso parar, contemplar, para continuar a ter caminho para andar.

 

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publicado às 14:21


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