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"Ler bem e bem escrever em casa e na escola"

por Maria Joana Almeida, em 10.03.17

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No passado dia 3 de março tive a oportunidade de dar um pequeno contributo sobre as competências de leitura e escrita num encontro intitulado “Ler bem e bem escrever em casa e na escola” na Biblioteca Municipal do Entroncamento.

 

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Link de acesso audio:

http://www.entroncamentoonline.pt/portal/artigo/joana-almeida-fala-sobre-%E2%80%9Cler-bem-e-bem-esc#.WL2PGwLJ72c.facebook

 

Sem me querer alongar sobre a exposição deixo três considerações que considero fundamentais:

 

 - Ler e escrever são ferramentas de liberdade e é função da escola, em conjunto com a família, permitir tornar-nos mais hábeis nestas competências. Aprender a ler e a escrever requer um ensino explícito e sistematizado existindo pré-competências que são essenciais neste processo: Criar uma ligação afectiva com a leitura; brincar com os sons para aprender a discrimina-los (consciência fonológica) e desenvolver a psicomotricidade (orientação espacial; jogo simbólico; organização perceptiva).

 

- Na entrada para o 1º ciclo é necessária uma leitura individual e flexibilidade por parte do professor de forma a perceber quais as representações sobre leitura e escrita dos seus alunos. É importante aferir os diferentes background para conseguir identificar e antecipar possíveis dificuldades de modo a planear um trabalho com sentido. O ênfase deverá ser formar bons leitores e escritores sendo esta a principal meta de aprendizagem.

 

- A escola tem um papel primordial de promover e nivelar as representações das crianças e de sinalizar, junto dos pais e intervenientes educativos, quais as dificuldades sentidas com o aluno de forma a encontrar a intervenção mais adequada a cada caso. Em complementaridade os pais podem, em casa, realizar atividades que promovam estas competências, nomeadamente: Ler com o seu filho todos os dias numa leitura partilhada; escrever as palavras novas que aprendeu; escrever juntamente textos criativos; fazer diferentes velocidades e tons de leitura; promover a memória fotográfica bem como promover diferentes vivências culturais (outras formas de linguagem).

 

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publicado às 09:43

Ainda não sou mãe, mas..

por Maria Joana Almeida, em 24.02.17

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Há experiências que me assustam, experiências fundamentalistas são as piores e experiências fundamentalistas com crianças são aterradoras.

 

Li há pouco tempo o seguinte artigo:

https://littlethings.com/free-range-kids/?utm_source=pulp&utm_medium=Facebook&utm_campaign=shocking

 

O título era revelador: “Mom Who Breastfeeds 5-Year-Old Son Raises Her Kids Without Any Discipline Or Rules” (Mãe que amamenta o seu filho de cinco anos sem quaisquer regras ou disciplina)

 

Primeiro pensamento: As reações contra o "sistema", seja o que queira isso dizer, levadas a um extremo raramente são positivas. Como dizia uma amiga minha: “fazer dos nossos filhos ratinhos de laboratório não”.

 

A internet está repleta de novas modas de parentalidade. Pessoas que descobriram a pólvora em pleno séc. XXI quando a pólvora há tanto tempo que foi descoberta (sim, há modelos de parentalidade e educação que apenas vestem uma nova roupagem, mais clean, mais cool). Cruzam estudos, cruzam ideias próprias e criam novos métodos de educação ajudando a criar negócios pouco sérios em que muitos se alimentam de alguns novos pais sedentos de filhos melhores e diferentes dos outros. 

 

Há efetivamente, não diria teorias, mas linhas de intervenção e educação que fazem todo o sentido, mas há premissas que são importantes reter: estas linhas orientadoras não são fundamentalistas, nem deverão ser. Estas devem ser adaptativas ao contexto em que se vive, à personalidade da criança, à realidade envolvente. Estou convicta que nada pode ser mais frustrante e sofredor do que ser criado numa redoma, numa qualquer redoma, que não tem laços com a realidade. Tornamo-nos assim uns ratos de laboratório, a habitar um mundo estranho. Ou nos assumimos como eremitas, ou então há aprendizagens que têm de ser feitas pelos nossos filhos para existir uma integração saudável e isso não quer dizer que não estejamos a desenvolver a parte artística ou intelectual, bem pelo contrário.

 

Temos também tendência (natural) de olhar para trás e facilmente verbalizar com um certo tom de desdém; “mas eu também fiz assim e não morri por isso ou não me tornei pior pessoa por isso”. Será verdade, como também é verdade, que a sociedade evolui para contextos que não são semelhantes a tempos passados ainda que hoje vivamos um revivalismo do tempo da avó.

 

Gostaria de não esgotar o argumento de que o bom senso deve imperar sempre - um pleonasmo assumido na vida. Penso que o comprometimento, em educar os nossos filhos, terá de ser sempre entre a nossa realidade e aquilo que lhes pretendemos dar, conscientes de que é uma realidade absolutamente individual e onde as crenças são em última instância legítimas, mas não podemos negar o nosso meio envolvente.

 

É importante perceber que há na nossa sociedade respostas diferentes (e ainda bem), caminhos diferentes que conseguem coabitar entre sim, de uma forma saudável, acima de tudo porque não são fundamentalistas. Estão abertas à diferença, à multiplicidade de papéis e não recusam ou negam a realidade.

 

Mais do que isso, ou para além disso, é puro egocentrismo.

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publicado às 12:14

Honestidade Intelectual

por Maria Joana Almeida, em 01.02.17

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És professora e não sabes isso?” ou “És advogado e não sabes isso?” A lista é interminável..

 

Existe uma assunção generalizada de que “aquele” conhecimento é absolutamente unânime a partir do momento em que “vestimos aquela” profissão.

 

Recordo-me de ouvir muitas vezes: “Nunca digas que não sabes” porque o não saber no imediato parece ter-se transformado numa imagem de fracasso. A teoria de que o conhecimento é uma construção e que não fica retido num determinado tempo ou espaço nem numa determinada profissão é recorrentemente deitada por terra quando queremos respostas imediatas.

 

Existem, obviamente, um conjunto de conhecimentos que devem ser a base para o funcionamento de uma profissão, de um trabalho. O crescimento e ampliação destes conhecimentos são determinados pelas vivências de cada um e pelo seu processo individual de pesquisa e vontade de aprender.

 

Naturalmente não é legítimo que (por exemplo) um professor de História ao abordar um determinado tema não tenha conhecimentos consolidados. No entanto, é natural que não conheça todos os detalhes de todos os temas que eventualmente os alunos possam questionar. A diferença reside entre o redirecionar essa pergunta porque não sabe e não quer demonstrar, ou assumir que não tem a certeza e por isso pesquisar juntamente com os alunos (partindo assim dos seus interesses).

 

Há uns anos atrás o meu Coordenador (quando falávamos da idade como sinónimo de mais ou menos experiência) dizia: “Depende. Se ter mais experiência quiser dizer que andou toda a vida a perpetuar um erro, essa experiência não é tão válida”. E sem dúvida é neste aspeto que difere o processo de aprendizagem: A vontade de evoluir e responder aos desafios diários ao invés de fechar os olhos e viver numa pequena redoma de conhecimento, porque foi assim que fez toda a vida, negando o processo de evolução.

 

Existe um certo poder em não assumir fragilidades, erros, falhas ou incertezas. A máscara da parede inabalável protege-nos e cria distâncias de segurança. No entanto, embora por vezes necessárias, não nos tornam reais nem humanos. Tenho a forte convicção de que a verdadeira segurança e auto-conhecimento reside em ser genuíno. É esta genuinidade (não confundir com ingenuidade) que nos permite criar empatia, porque é real. E é na empatia que se inicia o processo de relação e de conhecimento.

 

É na nossa honestidade intelectual que reside o poder. O poder de ser livre e de, como qualquer outro ser humano, agarrar e trabalhar as suas fragilidades. De se soltar de uma redoma de conforto e dizer um redondo e seguro “Não sei” Mas quero saber. 

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publicado às 21:50

Os nossos velhos.

por Maria Joana Almeida, em 11.01.17

 

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Recentemente uma terna e comovente reportagem fotográfica mostrou "Com o que sonham os nossos velhos". Um belíssimo trabalho que mostra o que vai na alma de quem tem muitas recordações de uma vida que já foi inteiramente sua e onde ainda restam muitos sonhos. Alguns simples e ao mesmo tempo tão complexos, como o estar mais próximo da família..

(http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2016-09-28-Com-que-sonham-os-nossos-velhos)

 

Escrevi há pouco tempo sobre a alfabetização de adultos. Adultos que também sonham com saber ler e escrever e pensei imediatamente no: E depois? Quando chegamos a uma certa idade, o que queremos e precisamos?

 

O envelhecer não é fácil. As limitações que insistem em aparecer, mesmo quando a mente é livre. O medo de ser esquecido, o medo de estar só..

 

Falei com a Joana Ribeiro, a atual Coordenadora do CLDS (Contrato Local de Desenvolvimento Social) do Entroncamento, para conhecer melhor esta realidade. A Joana trabalhou como Assistente Social num lar de idosos e por isso pedi que partilhasse o seu testemunho para perceber os desafios, as limitações, os preconceitos e o que pode ser ainda feito neste momento da nossa vida.

 

Obrigada Joana.

 

1- Dizer que trabalhar com idosos é um desafio é um cliché igual a dizer o mesmo sobre trabalhar com crianças. É sempre um desafio. No trabalho desenvolvido no lar de idosos quais as primeiras barreiras que sentiste que tiveste de quebrar?

 

R: Trabalhar para e com as pessoas, seja de que faixa etária ou problemática for, é sempre um desafio…um desafio extraordinário para quem gosta realmente de trabalhar com as mesmas. Na minha experiencia de trabalho desenvolvido com os idosos (em duas instituições) identifico igualmente duas grandes barreiras, que me vi “obrigada” a quebrar de forma a garantir o sucesso nas estratégias que construi para aplicar na intervenção/reabilitação social dos idosos. A primeira tem a ver com a própria metodologia institucional, isto é, a forma de como a missão da instituição está definida…o conceito de qualidade de vida e de prioridades de bem-estar é vista institucionalmente. Cabe aqui aos profissionais adaptar os novos conceitos de qualidade de vida dentro da instituição e procurar junto do idoso qual ou quais são as suas principais motivações e necessidades.

A outra barreira prende-se com a dificuldade em desenhar estratégias que se adaptem a idosos que não procuram em si mesmos motivações e/ou projetos para o futuro dentro da instituição. Existe muito aquele sentimento “já não vale a pena…; o meu corpo já não me permite sair daqui…”. Tudo isto tem de ser quebrado, leva tempo, mas é possível!

 

 

2- Quais as principais limitações com que vivem estes idosos?

 

R:.De uma forma genérica, desmotivação; cansaço emocional; limitações físicas; doenças do foro mental.

 

3- Recordo-me de um trabalho muito terno e comovente registado há muito pouco tempo intitulado “Com o que sonham os nossos velhos?” Que sonhos registaste nesta convivência?

 

R: Comovente… dizes bem! Os nossos velhos, nem todos como é obvio uma vez que muitos que infelizmente já não têm essa capacidade, mas ainda assim temos muitos sonhadores…sonham com a felicidade dos seus familiares, nomeadamente dos netos (quando existem), com a questão da saúde, conseguirem viver “os poucos anos que restam” com a máxima saúde possível. Depois temos outros sonhos, os “sonhos aventureiros” que são verbalizados por eles como coisas já impossíveis pela falta de mobilidade, dinheiro, companhia, etc. Estes funcionam para nós profissionais como ideias/missões a cumprir para com eles…e temos sido capazes!

 

4- Quais as principais carências que sentes existirem nos lares e de que forma poderiam ser contornadas?

 

R: Cuidado mais próximo e personalizado com os utentes e familiares; equipamentos mais ajustados à questão da saúde (por exemplo: parques geriátricos ao ar livre) e a tendência (ainda que já esteja a melhorar) que existe na infantilização com que alguns técnicos de animação aplicam nas atividades diárias.

 

5- Envelhecer é algo ainda pouco “arrumado” dentro de nós. Assusta e cria muitas ansiedades por todos os motivos. Neste trabalho quais as maiores aprendizagens que retiraste?

 

R: Tirei muitas e continuo a tirar…porque apesar de não estar agora a 100% dentro de um lar, todos os dias entro dentro de um e inevitavelmente aprendo. O facto de ser “velho” em nada deve condicionar o que eu posso ou não fazer, o que eu posso ou não vestir e até o que eu posso ou não dizer/ conversas com quem quer que seja…eles são das pessoas mais livres e desimpedidas que há e por isso devem aproveitar ao máximo e ser ouvidos atentamente por quem já os ouviu quando tinham mais/outro poder.

Os idosos são pessoas muito sábias, têm uma grande bagagem de experiencias e memórias, ensinam-nos a não ter medos, já fizeram quase o caminho completo da vida e dão muitas luzes!!! Confesso que me sinto mais empoderada com falo com alguns deles. Eu vou para o meu trabalho no lar para dar de mim ao outro e à instituição, potenciar e proporcionar-lhes qualidade de vida e ao fim do dia sinto que me deram mais a mim do que eu a eles…e isto de certa forma faz me não ter tanto

medo de um dia ser “velha”. O envelhecer está mesmo na cabeça das pessoas!

Muitos falam da relação com os filhos e alguns até sentem um certo abandono, porque dedicaram tanto tempo, tanto amor e hoje não são compensados…isto é uma realidade que nós entendemos bem mas não lhes conseguimos explicar tão bem ao ponto de eles se convencerem que não há mesmo tempo sempre que sonham em tê-los por perto.

Os filhos destes “nossos velhos” hoje tem uma vida social e profissional agitada como eles nunca tiveram e isso nem sempre é visto com “bons olhos”, pensam que é mesmo abandono, desleixo, desinteresse...esta questão é trabalhada nos lares, tentamos sempre que esta ligação não se gaste. Quando não há contacto físico, há sempre um telefone, uma carta e ultimamente até o Skype.

Isto é para mim uma também grande aprendizagem, sou filha, tenho pais e tios que para velhos caminham e já estou sensibilizada para que isto um dia vá acontecer…ou não! É tudo uma questão de gestão de tempo e amor para com os nossos velhos!!

 

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publicado às 12:32

Por que vou a um Congresso?

por Maria Joana Almeida, em 08.01.17

 

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Entre festejos de natal e passagem para um novo ano, o blog esteve também de férias retomando hoje para relembrar um evento realizado no final de 2016.

 

Em dezembro realizou-se o Congresso Internacional – Escola Inclusiva, Educar e Formar para a vida independente na Casa das Histórias Paula Rego em Cascais. Vários rostos da Escola Inclusiva estiveram presentes; David Rodrigues, Gordon Porter; Teresa Leite bem como representantes do grupo de trabalho para a Escola Inclusiva: Luísa Ucha e Jerónimo Sousa, assim como o Secretário de Estado da Educação João Costa.

 

Não é meu intuito fazer um levantamento exaustivo sobre as diferentes reflexões feitas, mas quero deixar imagens importantes que foram transmitidas pelos diferentes convidados deste Congresso.

 

Gordon Porter, Diretor da Inclusive Education Canada, abordou este tema relembrando que o desafio da Escola é hoje maior devido à diversidade e que um dos obstáculos à Inclusão é a falta de uma liderança competente (pais, professores, diretores, lideres políticos). Relembrou também que a Escola não se tem comprometido com todos, mas sim só com alguns. Neste paradigma David Rodrigues acrescentou que a Escola regular é aquela que ensina a todos. Teresa Leite veio chamar a atenção para a necessidade de formar professores para todos ao invés de ter apenas uma cadeira na faculdade que aborda como uma categoria as Necessidades Educativas Especiais. Este é um aspeto fundamental que reflete princípios subjacentes a uma política e modelo educativo que defende uma maior individualidade de cada aluno apresentado por Luisa Ucha.

 

João Costa encerrou o Congresso e é sobre a sua intervenção e sobre o papel que desempenha atualmente que quero centrar este texto. Não só porque como Secretário de Estado da Educação tem um lugar de destaque nas políticas educativas, mas também por me identificar com as suas ideias e princípios pelos quais rege o seu pensamento em relação à Educação. Começo com duas imagens mencionadas no seu discurso que refletem, no meu entender, a base fundamental de uma Escola para todos, como só assim deverá ser. Em muitos momentos a escola tem verbalizado não estar preparada para receber determinados alunos tendo em conta o seu perfil de funcionalidade. O que pergunto é: os pais estiveram preparados para ter um filho com deficiência? Não, mas tiveram de se adaptar. Um pai não pode dizer: Agora não, agora espere que ainda não estou preparado. A escola não se pode prestar a este papel. Não podemos, sistematicamente, dizer que só estamos preparados para receber os que não precisam de nós e que aqueles que mais precisam do sistema educativo ficam fora até termos todas as condições. Não é justo” e “A inclusão é um processo evolutivo. Há muitos anos atrás ninguém diria que os negros seriam livres, que as mulheres poderiam votar e que pessoas do mesmo sexo poderiam casar. O processo evolutivo leva-nos a crer que todos têm um lugar.”

 

As fortes afirmações de João Costa não deixam lugar para dúvidas de que o processo educativo não pode ser escravo de um currículo, nem a Escola um lugar que mede apenas quantitativamente os seus alunos, abraçando uns e renegando outros. As suas intervenções têm demonstrado uma sábia capacidade de análise sobre os verdadeiros problemas da escola conferindo uma lufada de ar fresco ao mundo da Educação.    

 

Tem reforçado a visão que assume a Escola não como um espaço só para alguns onde o verdadeiro desafio, não são os bons alunos, mas a forma como a Escola responde aos alunos com dificuldades.”O que é verdadeiramente exigente e difícil é conseguir levar a aprendizagem àqueles que não têm condições para aprender e aos que não querem aprender.” Os professores que trabalham em contextos socioeconomicamente desfavorecidos, em alguns casos excelentes professores, sabem a exigência que está associada a essa tarefa. E isto não pode ser encarado como facilitismo.” Em relação aos rankings (novamente conhecidos há pouco tempo) a sua posição tem sido clara quando diz: “Conhecer a qualidade de uma escola implica um olhar muito mais abrangente, pelo que são precisos mais indicadores e é necessário um olhar sistémico. Mas há muito mais no trabalho das escolas que não tem sido valorizado e que os rankings não mostram. Trabalho que é essencial para o cumprimento da missão da educação.”

 

Podemos, muito facilmente, acenar afirmativamente a todas estas imagens porque são invariavelmente verdadeiras. Podemos, por outro lado, criticar muitas delas por considerar que a prática está muitas vezes a anos de luz do que escrevemos e verbalizamos. Na verdade estamos ainda refém de ideias e modus operandi cristalizados. Não basta ouvir coisas bonitas e moralmente corretas e por isso há Congressos que, pela qualidade não só técnica dos oradores, mas pela postura mais humanista nos ajudam a criar o mindset que nos permitirá num futuro, que desejo próximo, desenvolver uma memória muscular mais livre de preconceitos e mais comprometida com o seu trabalho.  

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publicado às 22:36

Alfabetização de adultos.

por Maria Joana Almeida, em 07.12.16

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Ao iniciar este texto não posso deixar de me recordar da reação de Claudius, um amigo alemão de Berlim, quando lhe contei que, a par do meu trabalho como professora de educação especial numa escola regular, tenho colaborado no projeto de Alfabetização para adultos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Ficou surpreendido quando lhe falei em “alfabetização de adultos” verbalizando: “Mas ainda existem adultos analfabetos?” Reação comum de quem é oriundo de um país onde tal percentagem não existe.

 

A taxa de analfabetização no nosso país não chega a 5%, mas Portugal continua ainda no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo.

 

Foi há três anos que iniciei a minha primeira experiência como formadora na área de leitura e escrita para adultos. Só agora, com mais propriedade, me permiti a escrever sobre o tema que se tem revelado um caminho acima de tudo terno.

 

As expetativas que fazemos, embora em muitos casos semelhantes aquelas que idealizamos com um grupo de crianças/jovens, são naturalmente diferentes. Trabalhar com crianças e jovens é assumir que trabalhamos com uma personalidade que está a ser moldada. Existe uma certa plasticidade e flexibilidade, naturais do início de uma vida, que permitem uma aprendizagem a uma determinada velocidade. Nós, os adultos, já carregamos muitas histórias, já colecionámos mais sentimentos, já revivemos muitas situações e sedimentamos o nosso caráter. Os percursos de vida de cada um destes adultos já lhes fez perder, em muitos casos, a flexibilidade e plasticidade que permitem acelerar o processo de aprendizagem. Muitos já tiveram na escola há muitos anos, naqueles anos em que colocar orelhas de burro quando não se aprendia era legítimo (sim, história verídica) e outros não chegaram a frequenta-la. Muitos não sabem manusear um lápis e a simples organização de um dossier não é intuitivo nem fácil. O ritmo é marcado pelas suas histórias.

 

Ensinar a ler e escrever, como dizia um antigo professor meu da faculdade, “Não é só saber o “B; A; BA”. Não é um método fechado, hermético, como um pacote que se vende a um grupo. É fundamental conhecer a história e os passados de cada um e conhecer as competências base que nos permite traçar um plano. Há muita tendência de assumirmos pressupostos que não podem ser assumidos, porque nós não vivemos as suas vidas e só através deste conhecimento é que se torna possível trabalhar com respeito e dignidade.

 

Os sonhos e esperanças da maior parte destes adultos é conseguir ler o nome de uma rua; conseguir escrever e ler uma lista de supermercado; ler o percurso de um autocarro. O analfabetismo é uma prisão. Um sentimento que tem de ser várias vezes desconstruído porque é fácil sentirem que não são capazes, que nunca vão ser capazes.

 

Não é um caminho fácil, naturalmente, leva tempo, paciência, muita persistência e é necessário encarar muitas situações com humor. (Sou assumidamente fã do humor como processo de construção e desconstrução). Mas saber ler e escrever é uma ferramenta de liberdade. E para mim, enquanto parceira neste projeto, sinto-me muito grata por fazer parte deste caminho e de estar rodeada de excelentes profissionais com os quais muito tenho aprendido.

 

 

 

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publicado às 19:38

Uma reflexão sobre o Human(ismo)

por Maria Joana Almeida, em 22.11.16

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O Amor..bolas o Amor.. O Amor e tantos opostos, o ódio, a pobreza, a guerra, a violência. Os rostos de cada um deles e de todos eles.

 

Eu queria escrever sobre este magnífico trabalho, mas por muito que me esforce vou conseguir espelhar pouco. Porque as imagens valem mais que mil palavras (sim já sabemos, fartos de ler isto) e porque este filme vai para lá do anti cliché, do anti senso comum. É honesto, cru, cruel, corajoso, impetuoso, viciante, terno. É o mundo inteiro. São as palavras todas.

 

Human não é so um filme em jeito de documentário. É um murro no estômago. É sorrirmos e arrepiar-nos de seguida. Fechar os olhos e decidir entre o querer pensar ou criar uma barreira de segurança entre o que vejo e o que quero sentir. É falar frente a frente e olhos nos olhos com o Mundo. Receber os desconfortos que nos são atirados para o colo, que não queremos sentir, que sabemos que estão lá, mas estão lá não estão aqui. É conhecer e reconhecermo-nos em algumas histórias e o nunca querer sentir as outras. É ter fé na Humanidade e perde-la de seguida. Mas mais assustador do que isto é ter a consciência do que existe e a coragem necessária para me colocar no outro lado.

 

A simplicidade carregada de complexidade. Os rostos que não conhecemos por que estão lá..mas que ficam guardados. Histórias e palavras que ficam impregnadas.

 

Por todos nós, pela Humanidade, por o que quiserem, é para ver.

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publicado às 23:06

Sobre os (um) Colégio de Educação Especial.

por Maria Joana Almeida, em 08.11.16

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Assumo-me como suspeita sobre este tema. Absolutamente suspeita.


O meu percurso profissional iniciou-se num colégio de Educação Especial. Espaço que moldou o princípio da minha profissão e que me levou a descobrir as Necessidades Educativas Especiais, mas acima de tudo uma forma de relação com a escola com a qual me revejo totalmente – a compreensão em vez da mera punição, o ouvir e conhecer ao invés de rotular e enumerar.


O Colégio Eduardo Claparède foi o palco de muitas aprendizagens, mas principalmente de muitos desafios. Foi, e é, um espaço privilegiado para compreender a diferença e a possibilidade de criar um lugar de transição para alunos com comportamentos severos que não conseguiram, pelas suas características, um lugar na escola regular. Vamos ser diretos: a Escola tem de ser para todos, mas não há omeletes sem ovos e a mudança de mentalidades, por muita legislação que exista demora. E neste impasse os bodes expiatórios não podem ser as crianças e jovens.


Sei que este é um assunto sensível a todos os defensores acérrimos da inclusão. Mas para além de me assumir como suspeita neste assunto, assumo-me primeiramente como intransigente em relação à inclusão. Tem de ser óbvia. Mais do que óbvia. Como disse Isabel Tordo: “A inclusão não se decreta. Constrói-se com o envolvimento de todos e na luta pela melhor resposta para cada aluno.”


Os colégios de educação especial desempenham um papel fundamental. Fundamental porque assumem na sua essência um princípio de aceitação de todos e esta é mais do que óbvia (Inclusão). Porque muitos dos jovens, e com conhecimento de causa falo, que não encontraram o seu lugar numa escola regular, conseguiram-no encontrar neste espaço. Um espaço onde é respeitado e onde consegue encontrar uma abordagem mais individual pensada para o aluno e não sob a custódia de um currículo; onde existe tempo e lugar para compreender os comportamentos; compreender as problemáticas e estar dotado de um corpo de docentes, psicólogos e terapeutas que trabalham diariamente para o mesmo objetivo; um local onde as reuniões são um espaço sem grelhas, sem trabalho burocrático onde o centro e a principal preocupação é: Como chegar até este aluno? Como conseguir que corresponda ao que a sociedade lhe exige? Um espaço que não é escravo de um currículo, mas sim de um princípio fundamental - criar uma relação afetiva, uma auto-regulação que permita ao aluno um novo caminho e em muitos casos uma reintegração na escola regular. Este é o verdadeiro projeto e trabalho dos colégios de educação de especial e o verdadeiro projeto do Colégio Eduardo Claparède de onde guardo muito trabalho árduo, anos difíceis, mas muitas aprendizagens, muito boas recordações e amizades inabaláveis.


Creio que todos os intervenientes educativos pais, terapeutas, profissionais da saúde, professores, escolas e Ministério da Educação reconhecem o seu valor e o seu papel na sociedade. Creio também que compreendem a mais-valia destas instituições cujo encerramento não ajuda a promover um trabalho pedagógico e terapêutico basilar junto de muitas crianças e jovens.


Não creio que a defesa da coabitação destas instituições possa ser considerada um “ataque” à inclusão, pelo contrário, estas devem ser encaradas como um espaço complementar para que este conceito – Inclusão – tão usado verbalmente, mas tantas vezes pouco sentido, possa fazer parte da “nossa memória muscular”.

 

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publicado às 23:35

5 perguntas, 5 respostas com Isabel Moreira.

por Maria Joana Almeida, em 01.11.16

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Trabalhei com a Isabel Moreira nos meus primeiros quatro anos de vida profissional. Sempre admirei a sua assertividade, confiança, organização e relação que consegue estabelecer com crianças e jovens com que trabalha.

A Isabel tem desenvolvido o seu percurso com crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais trabalhando há muitos anos nesta área. Possui uma visão sobre Educação Especial com a qual me revejo tendo sido uma referência e uma ajuda preciosa na minha experiência com as Perturbações do Espetro do Autismo.

Atualmente, para além de vários projetos, é uma das colaboradoras do Special Olympics Portugal onde desempenha um papel fundamental com estes atletas.

 

Obrigada Isabel.

 

 

 

 

1 – Olá Isabel. Estive tentada a começar esta entrevista fazendo uma breve introdução aos objetivos e filosofia do Special Olympics, mas gostaria de te pedir que falasses tu um pouco sobre este enquadramento. Ler na Internet é diferente do que ouvir uma voz de quem tem um papel importante nesta estrutura.

 

O Special Olympics (SO) é um Movimento Internacional que visa incentivar, desenvolver e apoiar a prática desportiva para pessoas com deficiência intelectual. Este não tem fins lucrativos e não é exclusivo em nenhum fator. É essencialmente um movimento de inclusão desportiva e social. Todos podem participar independentemente da sua idade ou das suas capacidades respeitando sempre o princípio da equidade.

O seu principal objetivo não é a competição mas a prática de qualquer atividade desportiva de forma continuada e adaptada para as pessoas com deficiência inteletual.

O Movimento teve origem nos EUA por iniciativa da Fundação Joseph Kennedy (1946). Eunice Kennedy Shriver, quinta de entre nove filhos de Joseph e Rose Fitzgerald Kennedy e atleta olímpica, foi a fundadora (1968) e grande impulsionadora deste ideal. O primeiro evento realizou-se numa propriedade da família Kennedy e teve como finalidade proporcionar atividade desportiva a um elemento da família que sofria de deficiência intelectual.

O Special Olympics Portugal existe há já mais de uma década e os seus elementos fazem um trabalho diário no sentido de proporcionar atividades desportivas a cada vez mais pessoas e também no sentido da diversificação das modalidades desportivas.

O Special Olympics Portugal tem participado em inúmeras provas internacionais com excelentes resultados. A última foram os Jogos mundiais em Los Angeles, 2015, onde a comitivas Portuguesa contou com 70 elementos entre atletas, técnicos e dirigentes e conseguiu 44 medalhas.

O fundamental é que todos possam praticar desporto independentemente das suas limitações.

O grande lema do Special Olympics é: “Quero vencer. Mas se não conseguir, deixem-me enfrentar o desafio, corajosamente”

 

 

2 – Trabalhas há muitos anos com as Necessidades Educativas Especiais (NEE) estando atualmente a coordenar o Departamento de Educação Especial numa escola na Amadora, para além de outros projetos. O que tem o Special Olympics permitido a estes jovens?

 

Acima de tudo o acesso à prática desportiva que de outra forma seria praticamente impossível.

Desde a antiguidade que o desporto sempre esteve associado à beleza, à força e ao poder. Os desportistas tinham um papel importante na sociedade e eram adorados por todos. Ainda hoje este fenómeno se verifica. Existe uma estreita relação entre o desporto e o reconhecimento social.

Todos reconhecemos nos desportistas a imagem de alguém bem-sucedido pessoal e socialmente.

Nesta perspetiva todas as pessoas com deficiência estão excluídas deste “mundo”.

Com a perspetiva do desporto `”adaptado” de e para todos poderemos alterar este fenómeno. O desporto pode e deve funcionar como um instrumento para o reconhecimento social, interação social, autoestima, condição física, imagem corporal e qualidade de vida de pessoas com deficiência.

Também através deste poderemos alterar as atitudes de exclusão e o acentuar das limitações.

Ao adaptarmos a atividade desportiva temos como grande objetivo a inclusão desportiva e social.

Neste tipo de atividade, dentro da sua diferença, são todos atletas. É fundamental envolver todos e adaptar as atividades às características, competências, interesses e necessidades de todos. Atualmente já existem muitas modalidades em que se pratica o “unified”, ou seja, jogam na mesma equipa pessoas com e sem deficiência inteletual. Há alturas em que não se notam as diferenças pois em atividade são todos atletas

Os responsáveis pelo SO Portugal trabalham diariamente para promover o desporto para todos e estão a tentar que as federações aceitem este desafio para que cada vez mais pessoas com deficiência intelectual tenham acesso à prática desportiva. Felizmente já existem muitas a envolver-se neste projeto.

 

 

3 – Quais os principais desafios no trabalho com estes atletas?

 

O principal desafio é fazermos com que eles próprios acreditem nas suas capacidades.

Eles são atletas.

Infelizmente vivemos numa sociedade muito exclusiva e a maioria destas crianças, jovens e adultos vivem com o estigma que são “deficientes” e por essa razão tem de ser excluídos de determinadas atividades. Isso não é correto nem inteligente. Todos temos as nossas limitações e competências e temos de acreditar em nós próprios para nos superarmos. Tenho atletas que jogam muito melhor futebol que eu, que correm muito mais que eu, etc.

Eles são deficientes? Nesta perspetiva se calhar sou eu mais deficiente.

Depois de conseguirmos que eles percebam que são muito mais capazes do que achavam é tudo uma questão de treino e trabalho de equipa.

 

 

4 – Ainda vivemos numa sociedade que tem dificuldade em “abraçar” a diferença. Quem trabalha nas escolas, e não só, apercebe-se deste facto. Estruturas como o Special Olympics tem permitido desmistificar esta imagem. Mas qual achas que é o caminho que ainda temos de percorrer?

 

O nosso grande objetivo tem mesmo de ser o de dar visibilidade a este tipo de projetos. Infelizmente as questões financeiras são uma grande preocupação. A maioria dos que estão envolvidos no special olympics o faz de forma voluntária e por vezes não é fácil conciliar com a atividade profissional. Eram precisos mais apoios e a mobilização de mais gente para o movimento. Por vezes as pessoas perguntam-me mas acham que não podem colaborar porque não são da área desportiva. Essa ideia não é incorreta. Podem existir voluntários de todas as áreas.

Se tivéssemos mais apoios conseguíamos realizar muito mais atividades e depois: - “O que se vê com frequência torna-se normal”.

 

 

5 - É inevitável falarmos da estrutura Escola, uma vez que é o espaço onde passamos maior parte da nossa vida. Qual consideras ser o maior desafio atual para a Inclusão de alunos com NEE?

 

Penso que ainda nos falta percorrer um longo caminho. Na minha opinião estamos sempre a cometer os mesmos erros. Achamos que incluir passa por colocar todos na escola e isso não tem de ser necessariamente assim. Há que começar por aceitar as diferenças e perceber quais as necessidades de cada um. Não chega fazer leis que digam que todos vão para a escola e não proporcionar condições para que isso aconteça de forma eficaz e construtiva para todos.

Claro que não nos podemos esquecer daqueles problemas amplamente conhecidos como o elevado número de alunos por turma e a falta de equipas multidisciplinares mas não será só por aí.

Sei que o que vou dizer pode não ser bem visto por todos mas penso que também era muito importante habilitar mais os professores em geral e os professores de educação especial em particular. Estes são a linha da frente no sucesso da escola e dos alunos e sem eles a inclusão não será possível. Ainda existem muitas falhas neste setor.

Pessoalmente custa-me ouvir falar em sensibilizar os professores para a deficiência. Não temos de sensibilizar, temos de promover condições de trabalho, de habilitar, de perceber as diferenças e trabalhar em articulação na construção de estratégias adequadas a cada um. Temos de aceitar todos como alunos e proporcionar as melhores condições de aprendizagem para cada um.

 

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publicado às 20:50

5 perguntas, 5 respostas com Mário Balsa

por Maria Joana Almeida, em 25.10.16

Mário Regaleira.jpg

 

Determinação, perspicácia e uma personalidade forte são algumas das caraterísticas mais evidentes e que melhor ajudam a retratar o Mário, o meu entrevistado desta semana.

Ao longo do seu percurso, pelo mundo da Educação e através da sua participação política, tem passado por várias experiências e desafios que lhe têm permitido construir uma reflexão interessante e muito estruturada sobre o nosso sistema educativo. 

 

Nesta breve entrevista revelamos um pouco do caminho que tem percorrido e do seu entender sobre questões tão pertinentes e sempre atuais como a Indisciplina, perfis de professor e estrutura de Escola.

 

Obrigada Mário:)

 

 

 1- Começaste o teu percurso educativo numa escola privada de ensino regular, mas a determinada altura o teu caminho cruzou-se com uma escola para necessidades educativas especiais. Gostava que falasses um pouco acerca desta mudança.

 

Sim, a primeira escola onde dei aulas, plenamente, enquanto professor, foi o Colégio Almeida Garrett, no Cartaxo. Uma escola para alunos de famílias diferenciadas. Pais com rendimentos financeiros acima da média e níveis de escolarização elevados. Mas aquela que considero a minha primeira experiência como professor, que marcou o início da minha carreira e o contacto direto com uma realidade completamente diferente da nossa e da qual mais tarde voltei a encontrar um pouco – embora numa realidade diametralmente oposta, foi o ano que estive a fazer estágio no Reino Unido, em Belfast, St. Teresas Primary School. A diferença começa logo por ter dado aulas a um 6º ano, num regime de monodocência e que é considerado 1º ciclo.

Depois destas duas aventuras completamente diferentes embarquei na terceira. Aquela que mudaria a minha maneira de olhar para a escola, de olhar para os edifícios, para os alunos, para os pais, para os encarregados de educação, para as metodologias de ensino, para o que significa a relação no contexto escolar. A frase que a diretora me disse no dia em que pela primeira vez entrei no Colégio Eduardo Claparède ainda hoje me acompanha, “Mário é natural os professores nos primeiros dois ou três meses saírem daqui a chorar, depois ou não aguentam e vão embora ou habituam-se”. Eu que sou bastante distraído, até mesmo bastante esquecido, guardo a frase como a prova que só se conhecem as dificuldades quando passamos por elas. Devo dizer que não me lembro de ter saído de lá a chorar. No entanto, se aconteceu, foi perfeitamente justificável e natural. Mas uma coisa é certa, a frustração foi minha companheira de viagem muitas vezes. Enquanto isso, o primeiro mês passou, os seguintes também e rapidamente o ano letivo estava concluído assim como os seguintes… e passaram seis anos de educação especial.

 

 

 2- Já no Colégio de Educação Especial onde lecionaste durante 6 anos quais foram as primeiras reações e o perfil que sentias que era necessário ter?

 

Lidar com os alunos do colégio é completamente diferente de lidar com qualquer outra realidade escolar ou humana. Todas as realidades que não são controláveis, mas que marcam minuto a minuto as dinâmicas da sala de aula tornam o dia-a-dia imprevisível, destruindo o espartilho curricular de orientações, metas, objetivos e outros que tal em 5 segundos. Lançando o professor num mundo de desorganização profissional e mental que facilmente dita a sua desistência, tal como me foi dito pela diretora no meu primeiro dia. Assim sendo considero que serenidade, honestidade emocional e organização são três de quatro características essenciais para trabalhar com estes jovens (no meu caso) ou meninos no caso de outros colegas.

A saúde mental é algo de assustador, especialmente para alguém que não tem formação ou conhecimento desta realidade (era o meu caso quando cheguei ao colégio). Não existe forma de prever o que um aluno num surto bipolar ou numa crise de agressividade desencadeada por um qualquer trigger completamente esterno (como o barulho de uma mota a passar na rua, ou o apito agudo do alarme de incêndio) pode fazer. A actuação do professor fica reduzida a duas premissas salvaguardar a integridade física tanto dos seus alunos como a sua e procurar trazer de volta a normalidade à sala de aula. É aqui que acredito que se encontra a característica mais importante, ou se tem e se faz chegar o barco a bom porto ou se abandona a meio do caminho, determinação. O técnico de uma unidade de retaguarda para o sistema de ensino, como é o Colégio Eduardo Claparède, tem de ter as características humanas que lhe permitam compreender, abraçar e moldar realidades que parece impossíveis e alunos que parecem completamente perdidos. É preciso ser o porto seguro para onde os alunos voltam quando tudo falha e, ao mesmo tempo, a parede intransponível que os impede de irem além dos limites, no fundo é desenvolver uma relação pura e saudável. Como diz Carl Rogers “é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa.”

 

 

 3- Recordo-me de teres turmas muito desafiantes no que diz respeito a problemas essencialmente comportamentais. Quais eram os principais desafios diariamente?

 

O principal problema que identifico não se prende com os alunos ou a sua “indisciplina”. O principal problema sempre foi a gestão emocional que nós professores temos de fazer do nosso eu, das nossas emoções, dos nossos equilíbrios. Não é possível estarmos bem com os alunos se não estivermos bem connosco e não estando bem com os alunos não estamos lá a fazer nada. Aliás, o que é isso da indisciplina? De acordo com o dicionário a indisciplina é: falta de disciplina, desobediência, rebelião. E a disciplina é: o conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades, obediência a um conjunto de regras explícitas ou implícitas, submissão e obediência à autoridade. Com pessoas que sempre funcionaram nos padrões de sociedade considerados normais e que não apresentam comprometimentos significativos, as discrições de indisciplina/ disciplina presentes no dicionário poderão fazer sentido. Já com pessoas que apresentam quadros clínicos ou comprometimentos sociais complexos, tentar enquadrá-los naquilo que é a nossa disciplina (normalidade) poderá ser um erro crasso que nos levará invariavelmente ao falhanço. O padrão/ disciplina é um aluno é estar sentado na sua cadeira, concentrado e a trabalhar, mas aqui, no colégio, também pode ser estar deitado debaixo da mesa a cortar uma folha de papel e pedaços mais pequenos que um triturador de papel.

 

 

 4- A indisciplina é uma palavra que se tornou muito habitual e corriqueira no nosso sistema de ensino. Como é que vês os nossos alunos e a nossa escola neste panorama atual?

 

Penso que vivemos tempos de mudança profunda na educação. Uma mudança que não se faz por decreto ou lei. Embora também aí haja um grande caminho a percorrer e muito para trabalhar, mas penso não ser esse o objetivo desta pergunta. A escola de hoje reflete aquilo que é a ambição de qualquer sistema… a estabilidade para poder funcionar de forma quase automática. O problema é que este sistema foi criado no Séc. XIX (mantendo-se inalterado na sua essência desde essa altura) e trabalha otimamente bem para os padrões para que foi criado, mas nós estamos no Séc. XXI. A escola de hoje foi desenhada para responder a uma sociedade pós revolução industrial e nós vivemos na sociedade pós revolução comunicacional. É o mesmo que pedir a uma locomotiva movida a carvão que cumpra a mesma função do TGV com a mesma velocidade, conforto e qualidade. Mas a verdade é que temos conseguido… No entanto temos de ter consciência que uma criança de 4 ou 5 anos manipula um Tablet sem constrangimentos e na sua mão existe mais informação do que qualquer professor tem na sua cabeça. Mas nada de catastrofismo, só será necessária uma mudança de mentalidade profunda. Os professores são o corpo profissional mais qualificado do país e portanto se existe alguma profissão com os conhecimentos para efetuar esta mudança somos nós, assim o queiramos. Os alunos… se a escola responder às questões que colocam não haverá indisciplina.

 

 

 5- Ter um determinado perfil pode muitas vezes fazer a diferença numa sala de aula. Concordas com esta ideia? Como deve ser o professor do século XXI?

 

Totalmente de acordo. O perfil de um professor faz toda a diferença. Facilmente se compreende que existem escolas com perfis de alunos completamente diferentes e que exigem respostas também elas diferentes. No entanto esta parte do perfil do professor tem muito de inato, dificilmente se sabe se um professor tem o perfil adequado para uma escola sem que experimente lecionar nesse contexto. Torna-se portanto fundamental que os agrupamentos possam ter a autonomia de manter os professores que considerem ter o perfil adequado, caso estes o desejem. A outra parte do perfil corresponde às aprendizagens técnicas que o professor deve adquirir durante o seu percurso académico. E essas devem ser plenas para o exercício de funções. Competências técnicas plenamente desenvolvidas e competências humanas fortes são características centrais para o exercício de uma prática docente competente assente na vocação, tanto hoje como no futuro.

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publicado às 22:58


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