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Uma reflexão sobre o Human(ismo)

por Maria Joana Almeida, em 22.11.16

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O Amor..bolas o Amor.. O Amor e tantos opostos, o ódio, a pobreza, a guerra, a violência. Os rostos de cada um deles e de todos eles.

 

Eu queria escrever sobre este magnífico trabalho, mas por muito que me esforce vou conseguir espelhar pouco. Porque as imagens valem mais que mil palavras (sim já sabemos, fartos de ler isto) e porque este filme vai para lá do anti cliché, do anti senso comum. É honesto, cru, cruel, corajoso, impetuoso, viciante, terno. É o mundo inteiro. São as palavras todas.

 

Human não é so um filme em jeito de documentário. É um murro no estômago. É sorrirmos e arrepiar-nos de seguida. Fechar os olhos e decidir entre o querer pensar ou criar uma barreira de segurança entre o que vejo e o que quero sentir. É falar frente a frente e olhos nos olhos com o Mundo. Receber os desconfortos que nos são atirados para o colo, que não queremos sentir, que sabemos que estão lá, mas estão lá não estão aqui. É conhecer e reconhecermo-nos em algumas histórias e o nunca querer sentir as outras. É ter fé na Humanidade e perde-la de seguida. Mas mais assustador do que isto é ter a consciência do que existe e a coragem necessária para me colocar no outro lado.

 

A simplicidade carregada de complexidade. Os rostos que não conhecemos por que estão lá..mas que ficam guardados. Histórias e palavras que ficam impregnadas.

 

Por todos nós, pela Humanidade, por o que quiserem, é para ver.

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publicado às 23:06

Sobre os (um) Colégio de Educação Especial.

por Maria Joana Almeida, em 08.11.16

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Assumo-me como suspeita sobre este tema. Absolutamente suspeita.


O meu percurso profissional iniciou-se num colégio de Educação Especial. Espaço que moldou o princípio da minha profissão e que me levou a descobrir as Necessidades Educativas Especiais, mas acima de tudo uma forma de relação com a escola com a qual me revejo totalmente – a compreensão em vez da mera punição, o ouvir e conhecer ao invés de rotular e enumerar.


O Colégio Eduardo Claparède foi o palco de muitas aprendizagens, mas principalmente de muitos desafios. Foi, e é, um espaço privilegiado para compreender a diferença e a possibilidade de criar um lugar de transição para alunos com comportamentos severos que não conseguiram, pelas suas características, um lugar na escola regular. Vamos ser diretos: a Escola tem de ser para todos, mas não há omeletes sem ovos e a mudança de mentalidades, por muita legislação que exista demora. E neste impasse os bodes expiatórios não podem ser as crianças e jovens.


Sei que este é um assunto sensível a todos os defensores acérrimos da inclusão. Mas para além de me assumir como suspeita neste assunto, assumo-me primeiramente como intransigente em relação à inclusão. Tem de ser óbvia. Mais do que óbvia. Como disse Isabel Tordo: “A inclusão não se decreta. Constrói-se com o envolvimento de todos e na luta pela melhor resposta para cada aluno.”


Os colégios de educação especial desempenham um papel fundamental. Fundamental porque assumem na sua essência um princípio de aceitação de todos e esta é mais do que óbvia (Inclusão). Porque muitos dos jovens, e com conhecimento de causa falo, que não encontraram o seu lugar numa escola regular, conseguiram-no encontrar neste espaço. Um espaço onde é respeitado e onde consegue encontrar uma abordagem mais individual pensada para o aluno e não sob a custódia de um currículo; onde existe tempo e lugar para compreender os comportamentos; compreender as problemáticas e estar dotado de um corpo de docentes, psicólogos e terapeutas que trabalham diariamente para o mesmo objetivo; um local onde as reuniões são um espaço sem grelhas, sem trabalho burocrático onde o centro e a principal preocupação é: Como chegar até este aluno? Como conseguir que corresponda ao que a sociedade lhe exige? Um espaço que não é escravo de um currículo, mas sim de um princípio fundamental - criar uma relação afetiva, uma auto-regulação que permita ao aluno um novo caminho e em muitos casos uma reintegração na escola regular. Este é o verdadeiro projeto e trabalho dos colégios de educação de especial e o verdadeiro projeto do Colégio Eduardo Claparède de onde guardo muito trabalho árduo, anos difíceis, mas muitas aprendizagens, muito boas recordações e amizades inabaláveis.


Creio que todos os intervenientes educativos pais, terapeutas, profissionais da saúde, professores, escolas e Ministério da Educação reconhecem o seu valor e o seu papel na sociedade. Creio também que compreendem a mais-valia destas instituições cujo encerramento não ajuda a promover um trabalho pedagógico e terapêutico basilar junto de muitas crianças e jovens.


Não creio que a defesa da coabitação destas instituições possa ser considerada um “ataque” à inclusão, pelo contrário, estas devem ser encaradas como um espaço complementar para que este conceito – Inclusão – tão usado verbalmente, mas tantas vezes pouco sentido, possa fazer parte da “nossa memória muscular”.

 

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publicado às 23:35

5 perguntas, 5 respostas com Isabel Moreira.

por Maria Joana Almeida, em 01.11.16

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Trabalhei com a Isabel Moreira nos meus primeiros quatro anos de vida profissional. Sempre admirei a sua assertividade, confiança, organização e relação que consegue estabelecer com crianças e jovens com que trabalha.

A Isabel tem desenvolvido o seu percurso com crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais trabalhando há muitos anos nesta área. Possui uma visão sobre Educação Especial com a qual me revejo tendo sido uma referência e uma ajuda preciosa na minha experiência com as Perturbações do Espetro do Autismo.

Atualmente, para além de vários projetos, é uma das colaboradoras do Special Olympics Portugal onde desempenha um papel fundamental com estes atletas.

 

Obrigada Isabel.

 

 

 

 

1 – Olá Isabel. Estive tentada a começar esta entrevista fazendo uma breve introdução aos objetivos e filosofia do Special Olympics, mas gostaria de te pedir que falasses tu um pouco sobre este enquadramento. Ler na Internet é diferente do que ouvir uma voz de quem tem um papel importante nesta estrutura.

 

O Special Olympics (SO) é um Movimento Internacional que visa incentivar, desenvolver e apoiar a prática desportiva para pessoas com deficiência intelectual. Este não tem fins lucrativos e não é exclusivo em nenhum fator. É essencialmente um movimento de inclusão desportiva e social. Todos podem participar independentemente da sua idade ou das suas capacidades respeitando sempre o princípio da equidade.

O seu principal objetivo não é a competição mas a prática de qualquer atividade desportiva de forma continuada e adaptada para as pessoas com deficiência inteletual.

O Movimento teve origem nos EUA por iniciativa da Fundação Joseph Kennedy (1946). Eunice Kennedy Shriver, quinta de entre nove filhos de Joseph e Rose Fitzgerald Kennedy e atleta olímpica, foi a fundadora (1968) e grande impulsionadora deste ideal. O primeiro evento realizou-se numa propriedade da família Kennedy e teve como finalidade proporcionar atividade desportiva a um elemento da família que sofria de deficiência intelectual.

O Special Olympics Portugal existe há já mais de uma década e os seus elementos fazem um trabalho diário no sentido de proporcionar atividades desportivas a cada vez mais pessoas e também no sentido da diversificação das modalidades desportivas.

O Special Olympics Portugal tem participado em inúmeras provas internacionais com excelentes resultados. A última foram os Jogos mundiais em Los Angeles, 2015, onde a comitivas Portuguesa contou com 70 elementos entre atletas, técnicos e dirigentes e conseguiu 44 medalhas.

O fundamental é que todos possam praticar desporto independentemente das suas limitações.

O grande lema do Special Olympics é: “Quero vencer. Mas se não conseguir, deixem-me enfrentar o desafio, corajosamente”

 

 

2 – Trabalhas há muitos anos com as Necessidades Educativas Especiais (NEE) estando atualmente a coordenar o Departamento de Educação Especial numa escola na Amadora, para além de outros projetos. O que tem o Special Olympics permitido a estes jovens?

 

Acima de tudo o acesso à prática desportiva que de outra forma seria praticamente impossível.

Desde a antiguidade que o desporto sempre esteve associado à beleza, à força e ao poder. Os desportistas tinham um papel importante na sociedade e eram adorados por todos. Ainda hoje este fenómeno se verifica. Existe uma estreita relação entre o desporto e o reconhecimento social.

Todos reconhecemos nos desportistas a imagem de alguém bem-sucedido pessoal e socialmente.

Nesta perspetiva todas as pessoas com deficiência estão excluídas deste “mundo”.

Com a perspetiva do desporto `”adaptado” de e para todos poderemos alterar este fenómeno. O desporto pode e deve funcionar como um instrumento para o reconhecimento social, interação social, autoestima, condição física, imagem corporal e qualidade de vida de pessoas com deficiência.

Também através deste poderemos alterar as atitudes de exclusão e o acentuar das limitações.

Ao adaptarmos a atividade desportiva temos como grande objetivo a inclusão desportiva e social.

Neste tipo de atividade, dentro da sua diferença, são todos atletas. É fundamental envolver todos e adaptar as atividades às características, competências, interesses e necessidades de todos. Atualmente já existem muitas modalidades em que se pratica o “unified”, ou seja, jogam na mesma equipa pessoas com e sem deficiência inteletual. Há alturas em que não se notam as diferenças pois em atividade são todos atletas

Os responsáveis pelo SO Portugal trabalham diariamente para promover o desporto para todos e estão a tentar que as federações aceitem este desafio para que cada vez mais pessoas com deficiência intelectual tenham acesso à prática desportiva. Felizmente já existem muitas a envolver-se neste projeto.

 

 

3 – Quais os principais desafios no trabalho com estes atletas?

 

O principal desafio é fazermos com que eles próprios acreditem nas suas capacidades.

Eles são atletas.

Infelizmente vivemos numa sociedade muito exclusiva e a maioria destas crianças, jovens e adultos vivem com o estigma que são “deficientes” e por essa razão tem de ser excluídos de determinadas atividades. Isso não é correto nem inteligente. Todos temos as nossas limitações e competências e temos de acreditar em nós próprios para nos superarmos. Tenho atletas que jogam muito melhor futebol que eu, que correm muito mais que eu, etc.

Eles são deficientes? Nesta perspetiva se calhar sou eu mais deficiente.

Depois de conseguirmos que eles percebam que são muito mais capazes do que achavam é tudo uma questão de treino e trabalho de equipa.

 

 

4 – Ainda vivemos numa sociedade que tem dificuldade em “abraçar” a diferença. Quem trabalha nas escolas, e não só, apercebe-se deste facto. Estruturas como o Special Olympics tem permitido desmistificar esta imagem. Mas qual achas que é o caminho que ainda temos de percorrer?

 

O nosso grande objetivo tem mesmo de ser o de dar visibilidade a este tipo de projetos. Infelizmente as questões financeiras são uma grande preocupação. A maioria dos que estão envolvidos no special olympics o faz de forma voluntária e por vezes não é fácil conciliar com a atividade profissional. Eram precisos mais apoios e a mobilização de mais gente para o movimento. Por vezes as pessoas perguntam-me mas acham que não podem colaborar porque não são da área desportiva. Essa ideia não é incorreta. Podem existir voluntários de todas as áreas.

Se tivéssemos mais apoios conseguíamos realizar muito mais atividades e depois: - “O que se vê com frequência torna-se normal”.

 

 

5 - É inevitável falarmos da estrutura Escola, uma vez que é o espaço onde passamos maior parte da nossa vida. Qual consideras ser o maior desafio atual para a Inclusão de alunos com NEE?

 

Penso que ainda nos falta percorrer um longo caminho. Na minha opinião estamos sempre a cometer os mesmos erros. Achamos que incluir passa por colocar todos na escola e isso não tem de ser necessariamente assim. Há que começar por aceitar as diferenças e perceber quais as necessidades de cada um. Não chega fazer leis que digam que todos vão para a escola e não proporcionar condições para que isso aconteça de forma eficaz e construtiva para todos.

Claro que não nos podemos esquecer daqueles problemas amplamente conhecidos como o elevado número de alunos por turma e a falta de equipas multidisciplinares mas não será só por aí.

Sei que o que vou dizer pode não ser bem visto por todos mas penso que também era muito importante habilitar mais os professores em geral e os professores de educação especial em particular. Estes são a linha da frente no sucesso da escola e dos alunos e sem eles a inclusão não será possível. Ainda existem muitas falhas neste setor.

Pessoalmente custa-me ouvir falar em sensibilizar os professores para a deficiência. Não temos de sensibilizar, temos de promover condições de trabalho, de habilitar, de perceber as diferenças e trabalhar em articulação na construção de estratégias adequadas a cada um. Temos de aceitar todos como alunos e proporcionar as melhores condições de aprendizagem para cada um.

 

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publicado às 20:50

5 perguntas, 5 respostas com Mário Balsa

por Maria Joana Almeida, em 25.10.16

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Determinação, perspicácia e uma personalidade forte são algumas das caraterísticas mais evidentes e que melhor ajudam a retratar o Mário, o meu entrevistado desta semana.

Ao longo do seu percurso, pelo mundo da Educação e através da sua participação política, tem passado por várias experiências e desafios que lhe têm permitido construir uma reflexão interessante e muito estruturada sobre o nosso sistema educativo. 

 

Nesta breve entrevista revelamos um pouco do caminho que tem percorrido e do seu entender sobre questões tão pertinentes e sempre atuais como a Indisciplina, perfis de professor e estrutura de Escola.

 

Obrigada Mário:)

 

 

 1- Começaste o teu percurso educativo numa escola privada de ensino regular, mas a determinada altura o teu caminho cruzou-se com uma escola para necessidades educativas especiais. Gostava que falasses um pouco acerca desta mudança.

 

Sim, a primeira escola onde dei aulas, plenamente, enquanto professor, foi o Colégio Almeida Garrett, no Cartaxo. Uma escola para alunos de famílias diferenciadas. Pais com rendimentos financeiros acima da média e níveis de escolarização elevados. Mas aquela que considero a minha primeira experiência como professor, que marcou o início da minha carreira e o contacto direto com uma realidade completamente diferente da nossa e da qual mais tarde voltei a encontrar um pouco – embora numa realidade diametralmente oposta, foi o ano que estive a fazer estágio no Reino Unido, em Belfast, St. Teresas Primary School. A diferença começa logo por ter dado aulas a um 6º ano, num regime de monodocência e que é considerado 1º ciclo.

Depois destas duas aventuras completamente diferentes embarquei na terceira. Aquela que mudaria a minha maneira de olhar para a escola, de olhar para os edifícios, para os alunos, para os pais, para os encarregados de educação, para as metodologias de ensino, para o que significa a relação no contexto escolar. A frase que a diretora me disse no dia em que pela primeira vez entrei no Colégio Eduardo Claparède ainda hoje me acompanha, “Mário é natural os professores nos primeiros dois ou três meses saírem daqui a chorar, depois ou não aguentam e vão embora ou habituam-se”. Eu que sou bastante distraído, até mesmo bastante esquecido, guardo a frase como a prova que só se conhecem as dificuldades quando passamos por elas. Devo dizer que não me lembro de ter saído de lá a chorar. No entanto, se aconteceu, foi perfeitamente justificável e natural. Mas uma coisa é certa, a frustração foi minha companheira de viagem muitas vezes. Enquanto isso, o primeiro mês passou, os seguintes também e rapidamente o ano letivo estava concluído assim como os seguintes… e passaram seis anos de educação especial.

 

 

 2- Já no Colégio de Educação Especial onde lecionaste durante 6 anos quais foram as primeiras reações e o perfil que sentias que era necessário ter?

 

Lidar com os alunos do colégio é completamente diferente de lidar com qualquer outra realidade escolar ou humana. Todas as realidades que não são controláveis, mas que marcam minuto a minuto as dinâmicas da sala de aula tornam o dia-a-dia imprevisível, destruindo o espartilho curricular de orientações, metas, objetivos e outros que tal em 5 segundos. Lançando o professor num mundo de desorganização profissional e mental que facilmente dita a sua desistência, tal como me foi dito pela diretora no meu primeiro dia. Assim sendo considero que serenidade, honestidade emocional e organização são três de quatro características essenciais para trabalhar com estes jovens (no meu caso) ou meninos no caso de outros colegas.

A saúde mental é algo de assustador, especialmente para alguém que não tem formação ou conhecimento desta realidade (era o meu caso quando cheguei ao colégio). Não existe forma de prever o que um aluno num surto bipolar ou numa crise de agressividade desencadeada por um qualquer trigger completamente esterno (como o barulho de uma mota a passar na rua, ou o apito agudo do alarme de incêndio) pode fazer. A actuação do professor fica reduzida a duas premissas salvaguardar a integridade física tanto dos seus alunos como a sua e procurar trazer de volta a normalidade à sala de aula. É aqui que acredito que se encontra a característica mais importante, ou se tem e se faz chegar o barco a bom porto ou se abandona a meio do caminho, determinação. O técnico de uma unidade de retaguarda para o sistema de ensino, como é o Colégio Eduardo Claparède, tem de ter as características humanas que lhe permitam compreender, abraçar e moldar realidades que parece impossíveis e alunos que parecem completamente perdidos. É preciso ser o porto seguro para onde os alunos voltam quando tudo falha e, ao mesmo tempo, a parede intransponível que os impede de irem além dos limites, no fundo é desenvolver uma relação pura e saudável. Como diz Carl Rogers “é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa.”

 

 

 3- Recordo-me de teres turmas muito desafiantes no que diz respeito a problemas essencialmente comportamentais. Quais eram os principais desafios diariamente?

 

O principal problema que identifico não se prende com os alunos ou a sua “indisciplina”. O principal problema sempre foi a gestão emocional que nós professores temos de fazer do nosso eu, das nossas emoções, dos nossos equilíbrios. Não é possível estarmos bem com os alunos se não estivermos bem connosco e não estando bem com os alunos não estamos lá a fazer nada. Aliás, o que é isso da indisciplina? De acordo com o dicionário a indisciplina é: falta de disciplina, desobediência, rebelião. E a disciplina é: o conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades, obediência a um conjunto de regras explícitas ou implícitas, submissão e obediência à autoridade. Com pessoas que sempre funcionaram nos padrões de sociedade considerados normais e que não apresentam comprometimentos significativos, as discrições de indisciplina/ disciplina presentes no dicionário poderão fazer sentido. Já com pessoas que apresentam quadros clínicos ou comprometimentos sociais complexos, tentar enquadrá-los naquilo que é a nossa disciplina (normalidade) poderá ser um erro crasso que nos levará invariavelmente ao falhanço. O padrão/ disciplina é um aluno é estar sentado na sua cadeira, concentrado e a trabalhar, mas aqui, no colégio, também pode ser estar deitado debaixo da mesa a cortar uma folha de papel e pedaços mais pequenos que um triturador de papel.

 

 

 4- A indisciplina é uma palavra que se tornou muito habitual e corriqueira no nosso sistema de ensino. Como é que vês os nossos alunos e a nossa escola neste panorama atual?

 

Penso que vivemos tempos de mudança profunda na educação. Uma mudança que não se faz por decreto ou lei. Embora também aí haja um grande caminho a percorrer e muito para trabalhar, mas penso não ser esse o objetivo desta pergunta. A escola de hoje reflete aquilo que é a ambição de qualquer sistema… a estabilidade para poder funcionar de forma quase automática. O problema é que este sistema foi criado no Séc. XIX (mantendo-se inalterado na sua essência desde essa altura) e trabalha otimamente bem para os padrões para que foi criado, mas nós estamos no Séc. XXI. A escola de hoje foi desenhada para responder a uma sociedade pós revolução industrial e nós vivemos na sociedade pós revolução comunicacional. É o mesmo que pedir a uma locomotiva movida a carvão que cumpra a mesma função do TGV com a mesma velocidade, conforto e qualidade. Mas a verdade é que temos conseguido… No entanto temos de ter consciência que uma criança de 4 ou 5 anos manipula um Tablet sem constrangimentos e na sua mão existe mais informação do que qualquer professor tem na sua cabeça. Mas nada de catastrofismo, só será necessária uma mudança de mentalidade profunda. Os professores são o corpo profissional mais qualificado do país e portanto se existe alguma profissão com os conhecimentos para efetuar esta mudança somos nós, assim o queiramos. Os alunos… se a escola responder às questões que colocam não haverá indisciplina.

 

 

 5- Ter um determinado perfil pode muitas vezes fazer a diferença numa sala de aula. Concordas com esta ideia? Como deve ser o professor do século XXI?

 

Totalmente de acordo. O perfil de um professor faz toda a diferença. Facilmente se compreende que existem escolas com perfis de alunos completamente diferentes e que exigem respostas também elas diferentes. No entanto esta parte do perfil do professor tem muito de inato, dificilmente se sabe se um professor tem o perfil adequado para uma escola sem que experimente lecionar nesse contexto. Torna-se portanto fundamental que os agrupamentos possam ter a autonomia de manter os professores que considerem ter o perfil adequado, caso estes o desejem. A outra parte do perfil corresponde às aprendizagens técnicas que o professor deve adquirir durante o seu percurso académico. E essas devem ser plenas para o exercício de funções. Competências técnicas plenamente desenvolvidas e competências humanas fortes são características centrais para o exercício de uma prática docente competente assente na vocação, tanto hoje como no futuro.

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publicado às 22:58

Sobre a Tertúlia.

por Maria Joana Almeida, em 10.10.16

O dia 18 de setembro de 2016 marcou o primeiro ano deste blog.

 

Este novo ano inciou com um novo visual e com a primeira Tertúlia organizada pelo Pedimos Gomas como Resgate.

 

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O dia 4 de outubro foi o dia escolhido para reunir não só algumas pessoas entrevistadas no âmbito das "5 perguntas, 5 respostas", mas também amigos, familiares e interessados por este mundo da Educação. É que o Gomas fez um ano, mas a sua autora fez uns quantos mais.

 

Eu não lia blogs, mas a verdade é que revelou ser uma forma interessante de poder partilhar a minha visão sobre Educação, principalmente aquilo que aprendi partilhando com os outros.

Tive a sorte de conhecer e trabalhar ao longo deste tempo com pessoas que muito me ensinaram (e continuo) e às quais reconheço um enorme valor pessoal e profissional. Amigos e profissionais que me têm guiado ao longo deste caminho e aos quais recorro inúmeras vezes para tirar dúvidas, discutir ideias, casos, políticas e assim tentar encontrar um caminho que me faça sentido. Para além disso eu gosto muito de escrever e sobre Educação ainda mais. Gosto muito da minha profissão.

 

Esta tertúlia foi o momento para partilhar ideias, histórias e formas de entender vários temas nesta área e criar um momento, ainda que curto, de reflexão.

 

O meu muito obrigada a todos, em especial aos oradores da Tertúlia: Inês Marques; Alexandra Barrosa; João Laureano e Mário Balsa (o próximo entrevistado deste blog). Porque este blog não é sobre mim, mas sim sobre aquilo que profissionais como vocês e muitos mais representam.

 

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publicado às 09:38

Um ano de gomas.

por Maria Joana Almeida, em 18.09.16

 

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Há precisamente um ano atrás escrevia o primeiro texto deste blog. Um texto de apresentação sobre o que seria o Pedimos Gomas Como Resgate.

 

À mesma hora de um ano atrás publicava-o no Facebook com alguma ansiedade espreitando volta e meia os “gostos”. Esta nova forma de aprovação já está impregnada. Com os “gostos” vieram também muitos comentários e cada comentário era no fundo uma palavra de apreço e um acenar com um sim “É isso, continua”.

 

Ao longo deste ano regrei-me (inicialmente) a escrever pelo menos um texto por semana. Acho sempre que tenho muito para dizer. Como dizia a uma amiga minha, quando lhe falava de algumas reuniões onde teimava em ser muito assertiva “Eu se calhar tenho a mania que sei muito acerca disto”. Mas sei ainda muito pouco. Sei o que partilhei com os outros e acima de tudo o que aprendi nessa interação. E gosto muito de escrever. Acho que é a maneira onde me expresso um pouco melhor. Imagino-me muitas vezes a ser uma escritora que todos gostam de ler e várias vezes citada. Talvez um dia. É um longo caminho a percorrer e onde talvez nunca chegue. Mas dá-me prazer faze-lo como sei e consigo.

 

Neste blog surgiu também o modelo das “ 5 perguntas, 5 respostas” em formato de breves entrevistas. Foi criado para dar a conhecer pessoas que muito admiro e nas quais reconheço um grande valor pessoal e profissional. Guiaram-me e guiam muitas vezes no meu percurso e há uma lista grande de mais profissionais indispensáveis neste caminho. Mas ainda só lá vai um ano. Com o tempo vieram outros convites para escrever noutras plataformas. O Blog ComRegras foi um deles. Um projeto que me dá, igualmente, muito prazer, especialmente porque somos muitos, cada um com a sua experiência e usando um lugar comum, isso enriquece-nos.

 

 

Como forma de assinalar este primeiro ano decidi juntá-lo a uma outra data comemorativa, o meu aniversário a 4 de Outubro, e fazer um pequeno evento/tertúlia onde, juntamente os profissionais que convidei, falar um pouco sobre várias temáticas dentro deste mundo gigante da Educação. É que o Gomas faz um ano, mas a autora faz mais uns quantos.

 

A frase emblemática “Pedimos Gomas Como Resgate” sem saber criou em si própria uma metáfora. A metáfora para descrever o meu entendimento sobre Educação que só faz sentido com amor e afeto que, como já escrevi, não se traduz em palmadinhas nas costas, nem em condescendência. Revela-se quando decidimos olhar e compreender as dificuldades do aluno; quando lutamos e decidimos por valorizar a escola, os professores; quando discutimos a importância da redução dos alunos por turma; quando não estereotipamos os cursos profissionais em detrimento dos outros cursos e acima de tudo quando não nos escravizamos perante o currículo.

 

É que há poucas coisas mais bonitas do que derrubar barreiras, depois de tanto tentar e de repente fazer sorrir quem não sorria e fazer ouvir quem não ouvia. Trabalhar com crianças e jovens é muitas vezes assim. Quantas vezes precisam de ser resgatadas para se poderem revelar.

 

Quero festejar este dia com muitas gomas que na essência deste blog são um sinal de afeto. No dia 4 vai ser assim.

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publicado às 21:37

Setembro e o recomeçar.

por Maria Joana Almeida, em 02.09.16

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Setembro. O mês que marca o início do ano letivo e um mês especial para este blog que está a poucos dias de comemorar o seu primeiro ano de existência. Um ano de um projeto pessoal que me tem dado a oportunidade de partilhar a minha visão; o trabalho de pessoas de áreas específicas que muito admiro e o reconhecimento através de um feedback muito positivo que se tem mostrado fundamental para continuar.

 

É inevitável abordar como primeiro tema a colocação de professores, porque este é também o mês onde os professores conhecem as escolas onde ficaram colocados e onde muitos ainda aguardam colocação.

 

No último texto de final de Julho apontei como um dos aspetos positivos, a indicação, por parte do Ministério da Educação, de uma atempada colocação de professores. O novo grupo à frente do Ministério da Educação tem vindo a demonstrar uma postura mais próxima da realidade das escolas e mais próxima dos professores tendo conseguido, numa total oposição aos últimos anos, uma postura mais agregadora. Acreditei, juntamente como muitos professores, na celeridade da publicação das listas de colocação. Quando saíram, apenas a dia 30 de Agosto, não pude deixar de ficar surpreendida pelo conhecimento tardio. Por um lado feliz pois mantive a colocação na mesma escola o que muito me agrada, mas por outro lado algo desiludida por considerar que a publicação das listas continua a ser tardia o que não coincide com o discurso e percurso até aqui demonstrado por este "novo" Ministério da Educação.

 

No entanto, a verdade é que a extinção da Bolsa de Contratação de Escola e a utilização de uma lista única acabou por trazer resultados positivos. A lista foi somente conhecida a 30 de Agosto mas, tal como avançou o jornal Diário de Notícias “Em 2015, por esta altura, estavam colocados 3782 professores. Este ano, sobretudo devido à extinção das Bolsas de Contratação de Escola, estão preenchidas 7306 vagas antes do início do ano letivo” http://www.dn.pt/portugal/interior/concurso-dos-professores-quase-duplica-colocados-antes-do-arranque-das-aulas-5364131.html .

E isto é um bom presságio.

 

Relativamente à Bolsa de Contratação de Escola fui favorável à sua existência porque entendia ser uma forma de promover mais autonomia nas escolas e a possibilidade de lançar um perfil necessário tendo em conta as especificidades de cada espaço educativo. A verdade é que esta plataforma acabou por apresentar erros; ser pouco célere e duplicar colocações nos professores em várias escolas simultaneamente adiando o início de um ano escolar a tempo e horas. Desta forma a sua extinção, tal como estava concebida, acabou por se tornar menos uma barreira a um início de ano com menos sobressaltos.

 

Esperemos que seja um quebrar de um ciclo que trouxe inúmeros problemas a muitas escolas, muitos professores e especialmente a muitos alunos que em muitos casos privou turmas inteiras de professores até meio do ano letivo.

 

 

 

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publicado às 09:06

Final do ano letivo - Entre reticências e lufadas de ar fresco.

por Maria Joana Almeida, em 22.07.16

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O ano letivo terminou e entramos agora num momento de pausa para recarregar energias e preparar o reinício de uma nova etapa que esperamos sempre trazer boas reflexões e vontade de concretizar ideias. Assim como este espaço que retomará em Setembro comemorando nessa altura o seu primeiro ano de existência.

 

Neste último texto, antes das férias, quero salientar as medidas anunciadas ao longo deste ano letivo que despertaram algumas reticências e aquelas que considero serem, finalmente, uma lufada de ar fresco em relação aos últimos quatro anos no mundo da Educação.

 

 

Na categoria das (….)

 

- A suspensão dos exames do 4º e 6º ano, substituídos pelas provas de aferição em anos intermédios no 2º, 5º e 8ºano gerou alguma inquietação por parte das escolas que olharam desconfiadas para esta medida alterando, já em processo de arranque do ano escolar, rotinas sem tempo suficiente para uma maior maturação da ideia. Perante a situação o Ministério da Educação decidiu reformular e optou por delegar nas escolas a decisão de realizar as provas de aferição no presente ano ou no próximo ano letivo. Fui e sou favorável a esta medida se as provas servirem efetivamente para perceber, com critério, as áreas que carecem de uma intervenção estruturada e atempada sem a habitual resolução “chapa 5” igual para todos.

 

- A ideia de um professor tutor como forma de criar uma proximidade mais individual com o aluno. Esta medida tem como objetivo a existência de uma referência, em contexto escolar, que permita um percurso mais sustentado.

Este é um aspeto que considero ser fundamental, mas que coloca algumas reticências no que diz respeito a quem e como vai desempenhar esta função. Tal como defendi n Blogue Comregras ” Esta medida não pode ser vista como mais um encargo escolar, mais um “trabalho” atribuído “arbitrariamente”. Desempenhar esta função é o que pode permitir fazer a diferença num sistema educativo ainda muito escravo do currículo."

 

- As reuniões de avaliação no final do ano letivo foram marcadas por uma diretriz do Ministério da Educação que apontava a retenção como última medida a aplicar, especialmente em anos de transição. Este ponto suscitou diferentes reações e entendimentos criando inúmeras situações de voto a menções negativas que haviam sido atribuídas aos alunos de modo a evitar a retenção a todo o custo.

 

De todos os pontos aqui mencionados este foi, provavelmente, dos mais sensíveis. Desencadeou situações, em muitos casos, incoerentes premiando algumas atitudes pouco adequadas e uma alguma arbitrariedade aleatória na atribuição de notas. Este é mais um exemplo de como uma legislação à partida bem concebida pode trazer diferentes entendimentos ou tomada demasiado “à letra”.

Recordo aqui o texto que escrevi sobre as retenções.

http://pedimosgomascomoresgate.blogs.sapo.pt/na-giria-do-chumbar-ou-passar-5441

 

 

Na categoria de “lufada de ar fresco”

 

- O despacho normativo 1H – 2016 que vem salientar a necessidade de os alunos com Necessidades Educativas Especiais, nomeadamente dos alunos abrangidos pela alínea e) Currículo Específico Individual, poderem estar integrados em mais disciplinas sem ser somente as áreas de expressão (como é comum). Esta medida vem no sentido de tentar quebrar um ciclo, que existe em muitas escolas, de que estes meninos com Necessidades Educativas Especiais pertencem apenas ao Departamento de Educação Especial.

 

- A necessidade de reavaliar os alunos que são abrangidos pelo Dec.Lei 3/2008 no sentido de analisar com rigor as excessivas referenciações. Temos assistido a aumento crescente de crianças com o rótulo do "especial"  que em algumas situações são resultado de avaliações pouco precisas devido a diferentes formas de interpretar a lei (muitas escolas têm entendimentos diferentes relativamente ao estipulado na legislação).

 

- Um outro aspeto a salientar, que todos os anos faz correr muita tinta, alvo de críticas constantes e pesadelos junto do Ministério da Educação - o Concurso de professores. Este ano existe a indicação de que os professores serão notificados mais atempadamente das suas colocações existindo assim indícios de um processo mais humanizado. O facto de todos os docentes que perto do prazo final para a candidatura ainda não tinham submetido a manifestação de preferências terem sido contactados telefonicamente ou notificados por mail para não se esquecerem de o fazer, revela uma atitude menos mecanizada e mais humanista.

 

 

A sensação de não sermos mais um número permite um olhar e ligação diferente para com um Ministério que nos últimos anos tem sido o bicho papão, confuso e cinzento mas que começa agora a surgir com uma atitude mais apaziguadora.

 

 

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publicado às 13:37

Les Choristes (Os Coristas)

por Maria Joana Almeida, em 29.06.16

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Um breve olhar sobre uma listagem daqueles que considero serem os melhores filmes a que assisti fez-me rever “Os Coristas”.

 

Assisti a este filme há dez anos e ficou rapidamente marcado como uma das mais comoventes reflexões sobre o caminho percorrido entre professor e alunos na procura de uma forma de comunicação entre ambos.

 

Pierre Morhange é um antigo aluno de uma escola intitulada” Fond de l'Etang - O fundo do pântano”, um internato para rapazes nos anos 40. Já adulto reencontra o diário do seu antigo professor e maestro Clement Mathieu e juntamente com Pépinot, outro ex-aluno revivem as histórias dessa altura.

 

A história de Clement Mathieu, o professor que começou a dar aulas no Fond de l'Etang – O fundo do pântano (uma metáfora por sim só pouco convidativa) e conhece um grupo de rapazes tristes, resignados, onde a rudeza do diretor e a enclausura retirou em parte os risos espontâneos e pueris das crianças e a esperança. Estes jovens olham para qualquer novo professor com receio, com altivez, com uma defesa imediata perante a possibilidade de “agressão”. Mas Clement é também maestro e pela música, gentileza e sentido de humor começa a construir uma turma, um grupo empenhado em torno de um objetivo. Um desses alunos era precisamente Morhange, um jovem com uma voz brilhante a que Clement se agarra para poder salvá-lo.

 

Mais tarde Morhange torna-se também maestro, numa escolha claramente marcada pela relação que estabeleceu com o seu professor Clement Mathieu e que lhe permitiu acreditar nele e lutar.

 

“Os Coristas” é um filme obrigatório. Provavelmente dos filmes mais comoventes de sempre que não passa despercebido principalmente a quem é professor. É uma importante lição sobre educação e sobre o amor, mas principalmente sobre querer comprometer-se com os outros e consigo próprio e é esta condição que define um mestre.

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publicado às 23:20

Sobre Musicoterapia com João Laureano

por Maria Joana Almeida, em 18.06.16

 

JOão Laureano.png

 

 

Já há algum tempo que queria convidar o João não só para dar a conhecer a sua visão enquanto Musicoterapeuta, mas também pelo seu percurso rico em vivências tanto a nível da intervenção clínica como escolar com jovens e adultos.

Conheci o João nos meus primeiros anos de profissão no Colégio Eduardo Claparède, a sua visão e forma de lidar com os alunos foi  fundamental para construir um conceito e o modelo pedagógico com o qual me identifico. A relação estabelecida com os alunos e o entusiamo pelo seu trabalho facilitam a empatia e a vontade de querer fazer mais e melhor.

 

 

5 perguntas e 5 respostas com João Laureano.

 

 

1 – Poderia procurar na Internet uma definição de Musicoterapia, mas gostaria de te perguntar, com base no teu percurso e vivências, o que é para ti a Musicoterapia?

 

Não é fácil encontrar uma definição própria sem considerar as definições de uma disciplina, com rigor científico, e tão difundida por todo o mundo.

A Federação Mundial de Musicoterapia tem uma definição universal, também em autores como Bruscia ou Wigram poderemos encontrar, para além das definições, intervenções e investigações.

Em termos gerais, a Musicoterapia é uma disciplina que utiliza a música e os seus elementos (ritmo, harmonia e melodia), exercida por um musicoterapeuta acreditado no sentido de ajudar pessoas.

Não querendo fugir à tua pergunta, a musicoterapia é o que me ajuda a facilitar as relações e os processos. Os elementos necessários, na minha perspetiva, são: o som, a música, a relação, o terapeuta e a musicoterapia. Terão que estar todos presentes para poder esboçar uma definição própria mas, não saberia em que ordem os apresentar.

 

 

2 – Quais as principais motivações que te levaram a aprofundar esta área e tornares-te Musicoterapeuta?

 

Penso que foi a emergência da necessidade!

 Comecei a trabalhar com crianças e jovens, era pouco mais velho que eles e já nesse tempome fazia acompanhar pela Viola Irmã, nas colónias e centros de férias; a malta divertia-se bastante!

Bem mais tarde, quando vim para Lisboa tirar psicologia, quase simultaneamente, comecei a trabalhar no Ensino Especial (onde fomos colegas no Claparède Joana!),e fui reparando que aconteciam “coisas”, quando estava a tocar e a cantar com a miudagem, que não aconteciam na relação sem a música.

As crianças do Espetro do Autismo foram também muito importantes na fase inicial da aventura de querer ser musicoterapeuta e de procurar respostas e perguntas para os fenómenos relacionais e da comunicação que a música e o som, (com)partilhados, proporcionavam. Crianças, algumas delas, bastante isoladasmas que davam respostas com o som e a música enquanto mediadores da relação.

Sempre me fez sentido a musicoterapia na sua vertente clínica da saúde mental e do desenvolvimento das crianças e dos jovens, quer pela formação de base em psicologia clínica quer pela experiência no terreno com esta população.

Tive ainda a sorte de encontrar pessoas que me deram motivação para avançar com a Musicoterapia em Portugal, pois que nessa altura por volta de 1998 ainda estávamos a dar os primeiros passos em termos de intervenção. Por um lado as crianças e os jovens no feedback que iam transmitindo, por outro lado alguns amigos ligados à saúde mental e à educação foram deixando a semente por germinar.

A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) foi, e é, a entidade de referência, quer na divulgação da MT, quer na congregação dos profissionais desta área desde há 20 anos a esta parte. Em contraponto temos os Estados Unidos e Europa alta onde a Musicoterapia deu os primeiros passos na sequência da segunda guerra mundial…

Neste momento já existem alguns colegas certificados segundo as normas da Confederação Europeia de Musicoterapia, dos quais faço parte, mas que para aqui chegarmos tivemos que intervir com supervisão, efetuar o processo pessoal e apresentar o nosso trabalho nesta área.

Sei que sabes que por cá, nestas coisas das terapias, ainda vai acontecendo que um músico mais um doente, ou um psicólogo mais a música dão na sua soma musicoterapia. Está errado! O Bruscia, entre outros autores de referência salientam a questão da formação do musicoterapeuta. Caminho longo mas necessário e sempre inacabado. Temos ainda a outra versão, a do professor de musicoterapia para quem intervém nesta área. Os professores de Musicoterapia dão aulas de Musicoterapia a candidatos a musicoterapeutas. Quem intervém é apenas musicoterapeuta. Isto porque me estou a lembrar de um pedido para “professores de musicoterapia”, que saiu em Diário da Republica, para fazerem atividades extra curriculares numa escola que não me lembro o nome. De alguma forma ficamos a perceber que ainda há muito caminho a percorrer para a divulgação da Musicoterapia em Portugal.

Importantes e motivadores foram também alguns obstáculos, que fazem parte das correntes de oposição, mais conservadoras, mas ainda bem que existem.

 

 

 

3 – Dentro da terapia pela Arte podemos encontrar várias formas de comunicação, o teatro, a expressão plástica, entre várias. Qual o papel fundamental da música no processo de terapia?

 

Na musicoterapia a música tem o papel fundamental de ser o mediador, o intermediário da relação terapêutica entre o musicoterapeuta e a pessoa ou pessoas. Seja a música escutada ou agida,quando se trata de musicoterapia, implica sempre um pressuposto terapêutico, com sistematização e objetivos concretos,dirigidos às necessidades de um utente ou utentes e, um musicoterapeuta.

Também enquanto fenómeno holístico, a música mobiliza o corpo, o pensamento e as emoções, o que facilita os movimentos internos das pessoas e que o terapeuta ajuda a reorganizar.

Por vezes a palavra não é suficiente para nos expressarmos,e neste contexto, a música faz “milagres”!

Por isso existem outras disciplinas reconhecidas tais como a dançoterapia, a arte terapia o psicodrama, entre outras, que também utilizam a música ainda que com metodologias e técnicas diferentes da musicoterapia.

Se pensássemos que o teatro, a dança ou a música são terapêuticos, no sentido clínico, todos os artistas seriam saudáveis!

 

 

4 – Ao longo dos teus anos de experiência como tens sentido que a Musicoterapia tem ajudado crianças e jovens no seu percurso pessoal e social?

 

A musicoterapia deve ser tida como uma disciplina complementar que funcione multidisciplinarmente ou seja, não só diretamente com as crianças ou jovens, mas também em inter-relação com as outras disciplinas e com a ecologia dessa população. Isto para que se possam alcançar objetivos de ordem social ou pessoal, em termos de um futuro a longo prazo.

Definitivamente a musicoterapia tem sido um instrumento de trabalho fundamental na intervenção clínica: saúde mental, reeducação e desenvolvimento.

Tive a oportunidade de participar em algumas investigações, nas áreas do desenvolvimento e das problemáticas do comportamento em que os resultados foram bastante evidentes.Neste momento estamos a investigar uma intervenção que está a ser desenvolvida, na área da saúde mental infanto-juvenil no internamento pedopsiquiátrico do Hospital Dª Estefânea, com população adolescente com psicopatologia aguda.Os indicadores têm sido bastante favoráveis.

Na Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, entre outros, a MT está instalada cientificamente e institucionalmente, existindo bastante trabalho e investigação que com estas novas tecnologias, em que podemos estar todos em todo o lado e ao mesmo tempo, a informação é mais célere.

 

 

5 – Quais consideras ser os principais desafios atuais na educação e de que forma pode a Musicoterapia ajudar?

 

O principal desafio na educação talvez seja o de desafiar a própria Educação, (penso que te referes à Escola). Ter a capacidade de se renovar e de se adaptar às novas realidades da sua população, pondo-se também em causa e questionando-se para que se desenvolva saudavelmente e acompanhe o outro, neste caso o Aluno.

A Musicoterapia tem diversas abordagens: contexto hospitalar (diferente de música nos hospitais), na reeducação, comunitária, nos idosos e nas demências, na saúde mental, no desenvolvimento, etc… Se houver necessidade de intervenções terapêuticas nas escolas a musicoterapia é uma excelente disciplina pois na sua essência está a abertura de novos canais de comunicação.

João do Santos referia que é na Escola que a psicopatologia se desenrola, não poderia estar mais de acordo. Ele referia-se aos alunos mas tomaria a liberdade de estender isto a todos os agentes educativos que parecem não ser um problema no funcionamento desta instituição. Ou seja, o que está mal é culpa do outro porque nós somos intocáveis e imutáveis.

Se a Educação não sentir necessidades de índole terapêutica não me faz sentido a musicoterapia na Escola.

Há já alguns anos que acompanho, em musicoterapia, crianças de unidades de ensino estruturado dentro da Escola, ao abrigo de projetos pontuais. Os pais, os professores e os educadores têm vindo a valorizar muito este tipo de intervenção.

 

Talvez se em vez da Educação Musical na Escola, se cultivasse mais a Expressão Musical propriamente dita, não existiria a necessidade da musicoterapia estar também na escola!

 

 

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